quarta-feira, 2 de março de 2011

Conto: O Exame - Franz Kafka


O Exame
Sou um criado, mas não há trabalho para mim. Sou medroso e não me ponho em evidência; nem sequer me coloco em fila com os outros, mas isto é apenas uma das causas de minha falta de ocupação; também é possível que minha falta de ocupação nada tenha a ver com isso; o mais importante é, em todo caso, que não sou chamado a prestar serviço; outros foram chamados e não fizeram melhor trabalho do que eu; e talvez nem mesmo tenham tido alguma vez o desejo de serem chamados, enquanto que eu o senti, às vezes, muito intensamente.
Assim permaneço, pois, no catre, no quarto de criados, o olhar fixo nas vigas do teto, durmo, desperto e, em seguida, torno a adormecer. Às vezes cruzo até a taverna onde servem cerveja azeda; algumas vezes por desfastio emborquei um copo, mas depois volto a beber. Gosto de sentar-me ali porque, atrás da pequena janela fechada e sem que ninguém me descubra, posso olhar as janelas de nossa casa. Não se vê grande coisa; sobre a rua, dão, segundo creio, apenas as janelas dos corredores, e além do mais, não daqueles que conduzem aos aposentos dos senhores; é possível também que eu me engane; alguém o sustentou certa vez, sem que eu lho perguntasse, e a impressão que se colhe, ao olhar para a fachada, assim o confirma. Apenas de vez em quando são abertas as janelas, e, quando isso acontece, é um criado que as abre, o qual, então, se inclina também sobre o parapeito para olhar para baixo um instantinho. São, pois, corredores onde não se pode ser surpreendido. Além do mais não conheço esses criados; os que são ocupados permanentemente na parte de cima, dormem em outro lugar; não no meu quarto.
Uma vez, ao chegar à hospedaria, um hóspede ocupava já o meu posto de observação; não me atrevi a olhar diretamente para onde ele estava a olhar e quis voltar-me sair pela porta, em seguida. Mas o hóspede chamou-me e, assim, então, percebi que era também um criado, que eu já tinha visto em qualquer parte, embora nunca tenha falado com ele.
- Por que queres fugir? Senta-te aqui e bebe. Eu pago.
Sentei-me, pois. Perguntou-me algo, mas não pude responder-lhe; não compreendia sequer as perguntas. Pelo menos eu disse:
- Talvez agora te aborreça o fato de me teres convidado. Vou-me, pois.
E quis erguer-me. Mas ele estendeu a mão por cima da mesa e manteve-me no meu lugar.
- Fica aí, disse. Isto era apenas um exame. Aquele que não responder às perguntas está aprovado no exame.
Franz Kafka