Intervenção da historiadora Drª Raquel Varela
no debate "Saúde - Que consensos?", organizado
pela Federação Nacional dos Médicos (FNAM), e que teve
lugar no dia 18 de Junho de 2016, no Hotel Roma, em Lisboa.
*
[Ver intervenção do Dr. Ricardo Baptista Leite,
no post anterior, ou aqui]
«Encontrará também aqui o leitor, para além dos
dados extensos, uma reflexão crítica e qualitativa destes dados. Quem trabalha,
como trabalha e como se organiza sindicalmente? Qual o papel da segurança
social na gestão dos desempregados e precários? Qual o valor do rendimento
transferido para o trabalho no 25 de Abril? E para a Segurança Social? Como é
que o fundo da segurança social é descapitalizado? Ter desempregados é ou não
vantajoso para a competitividade no sistema de produção atual? Há alguém de facto
excluído nesta sociedade? Ser pobre em Portugal significa o quê para além dos
números? Por exemplo, qual é a esperança média de vida com saúde em Portugal? O
que significa, económica, social e politicamente, quase 1 milhão de pessoas a
depender de subsídios vários (desemprego, desemprego parcial, RSI, etc.)?
Raquel Varela
Com Eugénio Rosa e Manuel Carlos Silva.
***«»***
Interessante! Nunca tinha pensado nesta questão
equacionada por Eugénio Rosa sobre a desigualdade percentual, em relação à
riqueza líquida criada, das contribuições das empresas de diversos setores de atividade, para
a Segurança Social. Empresas em que, percentualmente, os custos do
trabalho sejam muito elevados em relação ao produto final, como acontece, por
exemplo, nas indústrias transformadoras, maior será o valor percentual, em
relação à riqueza líquida criada, das contribuições dessas empresas para a
Segurança Social. Pelo contrário, empresas com custos de trabalho mais baixos,
como as empresas de eletricidade, o valor percentual daquelas contribuições, em
relação ao mesmo referencial, também será mais baixo, criando-se assim, sob uma
aparente igualdade de condições nas contribuições para a Segurança Social, uma
real desigualdade. Intencionalmente ou não, o sistema premeia as empresas com
maior inovação tecnológica e penaliza as que se apoiam numa mão de obra
intensiva, o que em termos de solidariedade social é questionável. Parabéns,
Raquel Varela, por mais um livro seu. Julgo que está a proceder a um importante
estudo de investigação sobre o Estado Social, numa perspetiva inédita e
original, o que permitirá conhecer melhor a sua natureza, a sua importância
social, a sua sustentabilidade, a sua estrutura de financiamento e de custos,
as suas potencialidades e as suas fragilidades, e cujas conclusões poderão ser
importantes para o decisor político.
A exaltação da ideia do empreendedorismo, como solução final e redentora para resolver o desemprego jovem, não passa de uma armadilha ideológica, baseada num valor absoluto louvável, mas que, no contexto sócio económico atual, apenas pretende conduzir à autoflagelação moral de quem não consegue arranjar emprego. Portugal está, a passos largos, a caminhar para a sua autofagia, com a classe possidente, a quem, precisamente, falta o sentido do empreendedorismo empresarial, a tentar aumentar desmesuradamente a sua renda, através de uma brutal desvalorização salarial, para compensar a sua incapacidade genética de, por mérito próprio, gerar a riqueza nacional.
Quando a oferta de emprego, mesmo o medianamente qualificado, está a ser remunerado abaixo do salário mínimo nacional, que, só por si, já não permite a subsistência do trabalhador e a sua sobrevivência digna, estamos a falar de um novo tipo de escravatura.
Amabilidade do Olímpio Alegre Pinto, que enviou o vídeo.
Quem vive do salário em Portugal paga todos os seus gastos sociais
Livro “prova”, com números e factos, que o Estado social é auto-sustentado.
Num momento de crise económica, em que a preocupação com a dívida pública é crescente - e em que a mensagem parece ser a a impossibilidade de continuar a sustentar um Estado, apelidado de "gordo" -, há quem defenda que o Estado é auto-sustentado e que não está, por isso, na origem dos monstruosos défices orçamentais e da estagnação económica. "Quem vive do salário em Portugal paga todos os seus gastos sociais", afirma Raquel Varela, coordenadora do livro "Quem Paga o Estado Social em Portugal?" (Bertrand), obra que reúne ensaios de 18 especialistas de diferentes áreas e nacionalidades. "Este livro prova, com números e factos, que os trabalhadores portugueses contribuem para o Estado social com o necessário para pagar a sua saúde, educação, bem-estar e infraestruturas". Uma conclusão importante, que faz deste livro "uma obra a ler" independentemente da ideologia política do leitor e da simpatia, ou não, pelo neoliberalismo. A reter ainda que, e segundo a autora, "a massa salarial corresponde a 50% do PIB mas paga 75% dos impostos".
Mafalda Avelar
Diário Económico
***«»**
Eu tenho afirmado aqui, de uma forma recorrente, que o sistema capitalista internacional, principalmente o financeiro, está organizado no sentido de promover a transferência da riqueza dos países pobres e a dos menos ricos para os países mais ricos, e, dentro de cada país, para transferir rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital. Analisando as várias vertentes do processo económico, chego sempre a esta conclusão, que, para mim, já é axiomática.
Raquel Varela, agora de uma forma fundamentada e baseada num louvável e apurado trabalho de análise estatística, vem desmontar esta monstruosa engrenagem do capitalismo, que só poucos sabem e entendem, de que só alguns suspeitam, mas que, infelizmente, muitos ignoram. A ligação íntima entre os poderes políticos, sustentados por um processo democrático viciado por uma alternância enganadora, e o poder económico e financeiro, que já está organizado à escala global para perpetuar o saque e a exploração do trabalho, passa despercebida à maioria da população, tal é o refinamento da arte do embuste, que se serve de uma comunicação social, que, embora livre, é fortemente condicionada nas suas escolhas editoriais, as informativas e as opinativas.
Raquel Varela teve o mérito de nos vir explicar que são os rendimentos do trabalho dos portugueses que, através dos impostos, pagam as funções sociais do Estado, e que a dívida soberana que se foi formando, através da cumplicidade dos sucessivos governos do PSD e do PS (a tal ilusória alternância), resulta precisamente da transferência de dinheiros públicos, por processos ínvios, de uma grande opacidade, para os bancos e para as grandes empresas.
É obrigatório ler o livro "Quem paga o Estado Social em Portugal?", da historiadora Raquel Varela.