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domingo, 9 de setembro de 2018



O pastor de lobos

Homo homini lupus [O homem é
o lobo do homem – locução latina]


A história de Bento XVI só pode ser compreendida quando se analisam os papéis desempenhados pelos personagens que estiveram ao lado dele, como o arcebispo alemão Georg Gänswein, o “bello Georg”, prefeito da Casa Pontifícia, o mordomo Paolleto Gabriele, o monsenhor Carlo Maria Viganò, ex-governador do Vaticano, e o cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado do Vaticano. O pastor de Cristo alimentou com as próprias mãos os lobos que o cercavam e viu-se, ao final, devorado por seus próprios lobos.
A análise é de Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ

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O mundo foi apanhado de surpresa com o anúncio, em latim, da renúncia de Joseph Ratzinger, Bento XVI, ao pontificado, no último dia 11/02/2013. Alguns ditos especialistas, logo chamados de “vaticanólogos”, apoiados por bispos e cardeais – inclusive aqui no Brasil – correram a declarar que “sinais” – uma expressão bem apocalíptica – já vinham sido dados por Bento XVI. Tratava-se de salvar a face ante um fato de arbítrio absoluto e sem consulta ao corpo da Igreja, inédito desde o final da Idade Média. Ocorre que o “L´Osservatore Romano” – o órgão oficial da Igreja Católica –, na sua edição dedicada à renúncia papal, declarou-se “surpreendido” e o ato papal foi considerado pelo jornal oficial como “desconcertante”. Pouco antes o mesmo jornal declarara – em razão dos escândalos oriundos do Vaticano –, de forma compungida, que o Papa estava cercado de lobos. Quem eram os lobos?

Um passado ardente

A eleição de Bento XVI em 2005 criou, desde logo, uma grande polémica, em especial pela veiculação mundial das fotos de Ratzinger em uniforme da Juventude Hitleriana (Hitlerjugen/HJ), durante o Terceiro Reich. A própria Igreja, e a sua ala conservadora, apressaram-se em justificar a “adesão nazi” do Papa através de dois argumentos de peso. Em primeiro lugar, Ratzinger tinha, então, 14 anos de idade. Acusar alguém, 60 anos depois, de uma escolha feita aos catorze anos é ilógico e, no limite, cruel. Muitos homens de direita, mesmo fascistas, arrependeram-se e foram, daí em diante, homens dignos. No Brasil mesmo, o vanguardista Dom Hélder Câmara foi um militante integralista na sua juventude, antes de assumir, de coração fraterno, a Teologia da Libertação. Logo, condenar o adolescente “Joseph” para atingir o Papa Ratzinger não seria justo. Outro argumento reside na obrigatoriedade de todos os jovens, entre 14 e 18 anos, de pertencerem a Juventude Hitleriana – “Hitlerjugend”.

De fato, em 1936, Hitler ordenou a integração de todas as organizações juvenis, incluindo as “juventudes” católicas e evangélicas, ao “Hitlerjugendbund”. Houve reação e muitos jovens se recusaram, com grande risco pessoal. Daí a publicação de um novo decreto – o “Jugenddienstpflicht” ou Serviço Obrigatório dos Jovens, em 1939 –, já em clima de pré-guerra. Ratzinger pertenceu a “Hitlerjugend” desde 1941, passando para a Wehrmacht, as forças armadas, em 1943. Havia opção? A resposta não é absoluta. Isso depende, é pessoal e julgar é difícil e pode ocorrer grave injustiça. Cerca de 10% dos jovens alemães recusaram aderir a HJ, apresentando razões morais, religiosas ou mesmo físicas. Na Baviera, onde Ratzinger vivia, este número chegou a 20% dos jovens – muitos católicos não aceitaram o “catolicismo Ariano” (ou Positivo) proposto por Hitler.

Em especial na Baviera, profundamente católica, a oposição passiva de católicos foi bastante grande. A ordem de assassinato de doentes mentais – considerados um “peso morto” para a raça ariana – provocou, em especial, protestos explícitos do clero católico. A “Aktion T4”, como era chamada o programa de eliminação de doentes mentais e de deficientes físicos, chegou até a família Ratzinger quando um primo de Joseph, portador da Síndrome de Down – um entre as 70 mil vítimas -, foi morto por ordem do Estado nazi. Mesmo assim a família Ratzinger calou-se. O bispo de Munster, Clemens Von Galen, no entanto, protestou corajosamente contra os assassinatos, inclusive lendo homilias que denunciavam o horror do regime nazi (Von Galen foi, significativamente, beatificado por Bento XVI em 2006). A partir de 1941 vários mosteiros foram atacados e destruídos por nazis. Era a acção “Klosterstum”, ordenada por Heinrich Himmler, líder das SS – foi o mesmo ano que Joseph ingressou na Juventude Hitleriana. Foi neste mesma Baviera que jovens, muitos jovens, organizaram uma ampla rede de resistência denominada “A Rosa Branca” - Die Weisse Rose” -, que culminaria na decapitação Sophie (1921-1943) e Hans Scholl (1918-1943), irmãos, cristãos e resistentes por ordem de um tribunal nazi.

Muitos outros mantiveram uma postura discreta, mas sempre que possível sabotavam, descumpriam ou ignoravam as ordens do regime, inclusive acolhendo e protegendo judeus e outras vítimas do regime. Mas, estas são opções de fórum íntimo, pertencem a cada um. A maioria dos jovens aceitava a convocação para a Wehrmacht, posto que a recusa fosse crime de deserção, mas recusaram a HJ e a SS, procurando na Wehrmacht uma saída “nacional” e não partidária. A Wehrmacht, que também cometeu terríveis atrocidades, era a força militar nacional; já a HJ e as SS (e antes as SA) representavam o regime e o seu terror. Ratzinger aceitou a ordem de adesão a HJ. Aqueles que recusam perdiam o direito a estudar, frequentar clubes ou associações esportivas ou culturais e eram, frequentemente, hostilizados na escola. Ratzinger conseguiu a sua matrícula e prosseguiu em seus estudos, mesmo num tempo de martirização da Igreja. Que Hitler era incompatível com a fraternidade cristã é óbvio.

Cristãos como Martin Niemöller, e centenas de padres franceses e holandeses foram exterminados em KZ por protegerem judeus e até comunistas. Outros pagaram com a vida e a liberdade a denúncia do nazismo como inumano como o Padre Bernhard Lichtenberg, preso em 1941 e morto em Dachau neste mesmo ano de 1943. Mas, “Joseph” tinha, então, 14 anos! Estamos frente uma questão difícil e não creio que possamos, aqui, fazer juízos de valor sem viver sob as mesmas condições que informaram as decisões de Joseph. Nós, no Brasil, vivemos uma ditadura recente. Como vivemos então? Quantos fizeram serviço militar? Quantos fingiram não ver o que se passava... Quantos aplaudiram o “Milagre Econômico”? Quantos políticos e ministros da Ditadura – que não eram adolescentes de 14 anos! - estão hoje no Congresso Nacional?

Julgando ações e palavras

Podemos, contudo, fazer um juízo, claro e inequívoco, sobre o Papa Ratzinger, suas ações e suas palavras. Claro que é um conservador, contrário a adoção, por exemplo, de medidas singularmente importantes, como o uso da chamada “camisinha” em áreas devastadas pela AIDS da África. Mas Dom Eugênio Salles, ou Winston Churchill, também eram conservadores e foram grandes democratas. A questão central sobre o Papa, mais uma vez, é outra: quais suas simpatias políticas e como encarou o Regime Hitleriano? Do jovem Joseph não temos material, cartas ou testemunhos, para afirmar com certeza suas simpatias ou antipatias. Contudo, quando o Papa Ratzinger visitou o Campo de Extermínio de Auschwitz, em 2006, insistiu, de público, numa tese amplamente desacredita pela moderna historiografia sobre o nazismo. Na ocasião, o Papa proclamou, em face de sobreviventes, que o Holocausto “... foi resultado da acção de um grupo de criminosos que abusaram do povo alemão para se servir dele...”

Essa versão da História é inaceitável, em especial para um homem com a formação intelectual de Ratzinger. Os alemães apoiaram, votaram, participaram, foram para as ruas e delataram em massa seus concidadãos judeus ou não, oponentes políticos, ciganos, gays e cristãos, como as Testemunhas de Jeová (que se recusaram a dizer “Heil, Hitler!” – “heil”, salve em alemão, só poderia ser usado para com Deus). Igualar os alemães como as suas vítimas é uma ofensa e talvez encubra o próprio desejo de se autodesculpar. Ratzinger foi além: declarou que os alemães foram, eles também, vítimas de Hitler. Assim, tornava-se fácil lançar toda a culpa num pequeno punhado de homens e desculpar as multidões que apoiaram e lucraram com o nazismo e a perseguição dos judeus.

Em especial Ratzinger ofendeu milhões de vítimas do Holocausto ao afirmar que a freira Edith Stein foi uma vítima cristã e alemã dos nazis. Ora, Edith Stein era uma judia, nascida na Alemanha, convertida ao cristianismo e que, entretanto, mesmo sendo freira, foi morta pelos nazis. Posto está que a “irmã” Edith não foi morta por ter nascido na Alemanha ou por ser uma religiosa cristã: ela foi morta, em 1942, no campo de Auschwitz, por ser judia! Ao enfatizar a sua escolha “cristã”.

A irrelevância do Holocausto para Bento XVI tornar-se-ia obvio três anos mais tarde, em 2009, quando, por decisão pessoal, o papa alemão suspendeu a excomunhão do bispo inglês Richard Williamson, que defendeu publicamente a inexistência da matança em massa de judeus e oponentes do Terceiro Reich. João Paulo II – um polonês que sofreu a ocupação alemã –, em face do escândalo mundial da negação do Holocausto e das afirmações do bispo sobre a veracidade dos chamados “Protocolos dos Sábios de Sião”, excomungou o bispo, impedindo a sua pregação, mas Bento XVI o perdoou-o e reintegrou-o na Santa Madre Igreja. É sobre este Ratzinger, e não sobre o menino “Joseph”, que cabem julgamentos morais. Neste caso, Ratzinger trouxe os lobos para o seu convívio.

De teólogo a senhor dos dogmas

Joseph Ratzinger foi, ou é (não se sabe bem se ele continuará a usar o titulo papal ou apenas o tratamento de bispo emérito), o sétimo papa de origem alemã (há alguma controvérsia aqui) e o primeiro Papa, depois de séculos, a ter a sua origem na Sagrada Congregação Para a Fé – a antiga “Santa Inquisição” –, o organismo da Igreja Católica responsável pela manutenção da ortodoxia dos dogmas do catolicismo e, nos séculos XVI e XVII, por milhares de condenações cruéis de dissidentes cristãos e de judeus, mortos em milhares de fogueiras.

A função central da Congregação é a defesa intransigente dos dogmas da Igreja. A maior parte destes tem a sua origem na luta contra o Protestantismo – considerado como heresia – conforme o Concílio de Trento (entre 1545 e 1563). Mais tarde, no século XIX, quando a Igreja foi confrontada com a ascensão do Liberalismo e dos Socialismos, e mais importante de tudo, com a luta contra a emergência do Estado Nacional Italiano (que expropriou as terras da Igreja e reduziu os territórios do papa à cidade-estado do Vaticano), em 1870.

A resposta do Vaticano foi, então, cabal, com a proclamação, durante o Concílio Vaticano I, em 1870, da Constituição Papal “Pastor Aeternus”, o dogma da “Infalibilidade” papal. Tratava-se de colocar, em questões de fé e de moral, a palavra do papa como verdade absoluta, inquestionável. Da mesma forma, como as palavras sacramentais se realizam pela força da sua verdade mística.

Ratzinger, na direção da Sagrada Congregação Para a Fé, foi um defensor ferrenho de tais dogmas, em especial do conceito de verdade como a própria natureza dos sacramentos, como o batismo, que realiza por si só, o que as palavras pronunciadas pelo sacerdote prometem. Vários teólogos, como Leonardo Boff, por sua vez, asseguram que todas as palavras ditas com amor e fraternidade – inclusive “eu te amo” – possuem o mesmo valor sacramental daquelas pronunciadas por ofício sacerdotal. Neste caso, o amor e a fraternidade possuiriam a força do sacramento. Leonardo Boff, ex-aluno de Ratzinger, foi condenado, então, pelo seu ex-professor ao silêncio “obsequioso” – um basta ao debate no seio da Igreja!

 A carreira como guardião do conservadorismo

Desde 1981 até à sua eleição, em 2005, Ratzinger exerceu com vigor, e grande conservadorismo, a direção da Sagrada Congregação Para a Fé, de onde desenvolveu, por exemplo, uma acção constante e consistente contra os representantes da Teologia da Libertação e o clero progressista, ou simplesmente humanista e preocupado com as condições imperiosas de homens e mulheres “viverem também no mundo”. Temas como a “fuga” de sacerdotes e de fiéis, o papel dos leigos e das mulheres na condução da Igreja, o celibato dos sacerdotes, as relações com os avanços da ciência e, em especial, o surto de pedofilia que abalou os católicos foram tratados com menor atenção ou, mesmo, desprezo.

Na sua acção como condutor da Congregação Para a Fé, o cardeal Ratzinger voltou-se contra nomes renomados do “aggiornamento” da Igreja, teólogos que procuravam – ante os desafios que afligem a Igreja pós-conciliar (Concílio Vaticano II, 1962-65) – como o Padre Ernesto Cardenal (1925), da Nicarágua, Hans Kung (1928), teólogo alemão que criticava duramente o dogma da Infalibilidade Papal e o monopólio da Cúria Romana sobre o conjunto da Igreja Católica e, ainda, Leonardo Boff (1938), teólogo brasileiro, defensor de uma intensa abertura da Igreja para que fiéis, laicos ou consagrados assumam maiores responsabilidades na condução da Igreja. Em todos estes casos, coube a Ratzinger – mesmo a duríssima e pública advertência de João Paulo II contra o Padre Cardenal na Nicarágua – a condução dos dossiês de condenação.

Cabe destacar que uma das acusações básicas da Sagrada Congregação da Fé contra os teólogos progressistas era imiscuir-se com a política, com a gestão do Reino deste mundo, abandonando ou prejudicando a Igreja e a sua dimensão mística. Ora, Ratzinger, impelindo João Paulo II, condenava de forma acerba a acção política de religiosos, como do Padre Cardenal em 1983 (suspenso “Ad Divinis” em 1985). Mas Ratzinger e Woityla calaram-se, agindo no silêncio e colaborando com o governo de Ronald Reagan nas suas ações clandestinas destinadas a desestabilizar os regimes comunistas na Europa Oriental, em especial na Polônia. Ou, ainda, paralisar o apoio das comunidades eclesiais de base aos movimentos antiditatoriais na América Latina, onde milhares de pessoas eram presas e torturadas, inclusive religiosos.

 A cegueira em face dos direitos humanos

Na verdade, a Igreja de Ratzinger calou-se sobre a brutal ditadura argentina, sobre a tortura, os sequestros de bebés e os voos da morte – o que explica o desprezo de Cristina Kirchner para com o clero do seu país. O mesmo Vaticano não só se calou no massacre de opositores durante a ditadura Pinochet, como ainda – em 05/04/1999 – o Cardeal Jorge Medina (1926), chileno, amigo de Ratzinger, pediu, em sigilo, ao governo britânico, em nome do Vaticano, a libertação, por “motivos humanitários”, de Augusto Pinochet, então preso em Londres. Coube a Medina, Prefeito da Congregação do Culto Divino no Vaticano, anunciar em 2005 o “Habemus Papa” que entronizava Ratzinger como Bento XVI. Medina foi, ainda, o reitor da PUC de Santiago por pedido pessoal de Pinochet, que o considerava mais adequado para controlar o movimento estudantil chileno. Tratava-se de substituir no cargo, de forma excêntrica, o cardeal Raul Silva Henriquez, considerado pelo almirante Jorge Sweet Madge como defensor dos Direitos Humanos. Desta forma, Medina ascendeu na hierarquia chilena, tornou-se amigo de Ratzinger e foi o seu principal eleitor em 2005.

Em suma, a Sagrada Congregação Para a Fé mostrou-se, sob o domínio de Ratzinger, cega do “olho esquerdo”, participando e dirigindo ativamente toda acção contra a Teologia Progressista e mesmo contra os movimentos sociais no mundo. Outro amigo e correligionário de Ratzinger, e que faz rápida carreira no Vaticano, é o cardeal de Lima, Juan Luis Cipriani (1943), figura chave na eleição do papa alemão. Cipriani, bispo de Ayacucho no Peru, foi acusado, por inúmeras organizações de direitos humanos, de negar auxílio às vítimas da guerra contra o Sendero Luminoso. Mesmo figuras moderadas, como Mario Vargas Llosa, acusaram Cipriani, duramente, de ocultar os crimes da Era Fujimori e de acusar os parentes das vítimas do Massacre de La Cantuta de “traição à fraternidade” por exigirem a punição dos militares responsáveis pela morte de um professor e nove estudantes universitários em 1992.

Cipriani, que jamais falou sobre os escândalos de pedofilia na Igreja, impediu a organização de um grupo de estudantes gays da Universidade Pontifícia Católica e, por fim, declarou as organizações de luta pelos direitos humanos como “esa cojudez [essa loucura]”, numa linguagem muito pouco canónica. Foi neste ambiente, povoado de lobos em hábitos negros, no interior da burocracia do Vaticano, que Ratzinger construiu o seu caminho para o papado.

Um papa traído?

Os média internacionais, principalmente aqueles que são informados pela hierarquia católica, procurou, após a perplexidade inicial, atribuir ao estado de saúde debilitado de Ratzinger as razões da renúncia. Ora, tal motivação deu origem, de imediato, a dois questionamentos: de um lado, Ratzinger sempre se declarou contrário ao instituto da renúncia de membros da hierarquia. Assim, aconselhou João Paulo II a não aceitar a renúncia do chamado Papa Negro, Peter Hans Kelvebach, superior da Ordem dos Jesuítas, reafirmando, mesmo no severo e doloroso estado de saúde do jesuíta, que o cargo era uma “prova divina” (Kelvebach ficou no cargo até à sua inaptidão em 2008). Da mesma forma, Ratzinger se opôs a incorporação do instituto da renúncia nas Ordenações Jesuíticas (datada de 1540). Ele mesmo insistiu que João Paulo II, dolorosamente enfermo, se mantivesse no cargo. Tudo isso gerou o comentário ácido – “não desce nunca da Cruz” – do cardeal Stanislaw Dziwiz, secretário de João Paulo II.

Por outro lado, constatou-se, em especial depois da última missa do Papa, celebrada em 14/02/2013, que Ratzinger não aludiu à sua saúde como causa básica da renúncia. Bem ao contrário, fez um sermão político, inédito e duro: criticou os “hipócritas” na Igreja, as cisões internas e “aqueles que desfiguram o rosto da Igreja”. Frente a tantos desafios, o papa mostrou-se incapaz de controlar e varrer, nas suas próprias palavras, “o lixo” que se acumula na Sede Santa. Ora, quem são os “hipócritas” e qual é o lixo?

Como Ratzinger (até o momento, final de fevereiro de 2013) não nomeou os seus traidores, o clero externo aos meandros e nichos recônditos do Vaticano, bem como os milhões de fiéis, ficaram sem saber a quem o papa condenava. Claro, os média, ainda uma vez, voltou para o amplo escândalo, que em 2012 abalou o Vaticano.

 O VatiLeaks

O escândalo, iniciado pela publicação do livro do jornalista Gianluigi Nuzzi - “Sua Santidade, as cartas secretas”, 2012 - mostrava, à luz do dia, uma intensa e mortal luta pelo poder no interior do Vaticano. O Papa, considerado um “intelectual”, absorto em seus estudos e na sua música (é um amante apaixonado de Mozart), conservador e antimodernista, deveria ficar isolado, longe da administração e da política cotidiano da Igreja. Estas “atribuições” ficariam centralizadas nas mãos do poderoso cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, um produto típico da burocracia romana. As grandes questões, como as nomeações para a hierarquia, as finanças e a previsível e próxima sucessão deveriam estar longe do gabinete do Papa. É neste contexto que surgem duas questões: de um lado, Nuzzi utilizou-se de documentos verdadeiros, autênticos e, sem dúvida, sigilosos. Como tais documentos chegaram ao jornalista? De outro lado, qual a razão do vazamento?

Desde logo o gabinete do Papa, a sua falada “Família Pontificial”, estava no centro do vazamento. Havia traição. Esta “família” reunia, e ainda reúne, uma gama heterogênea e estranha de pessoas. Estranha até para a tradição do Vaticano. Dois homens eram o núcleo central das relações do Papa com o mundo: de um lado, Paolo Gabriele, mordomo do Papa, com acesso direto a todos os aposentos e documentos do Papa. Paolo, ou “Paoletto”, mesmo depois de preso (a partir de maio de 2012) sempre protestou lealdade e amizade, e mesmo carinho filial, ao Papa. O outro homem forte, desde os tempos que Ratzinger era cardeal de Munique, era o alemão Georg Gänswein, ordenado padre em 1984, depois de ser cozinheiro e professor de ski nos Alpes, com uma vida amorosa pré-hábito conhecida. Gänswein tornou-se, entretanto, o braço direito do Papa. Jovem (nascido em 1956) entre anciões, é chamado, na Cúria, de “Il bello George” e foi a inspiração de Donattela Versace para a sua coleção de moda de 2007.

A estes se uniam quatro irmãs e leigas, consagradas, que cuidam dos serviços pessoais do Papa. Gabriele e Gänswein eram amigos e conviviam diariamente com o Papa. Gänswein vivia – e acompanhará o Papa para o seu retiro depois de 28/02/2013 – no Vaticano, enquanto Gabriele residia na Via Porta Angelica, no próprio Vaticano, a uma caminhada dos aposentos do Papa.

Um ‘palheiro insondável de escândalos’

Ora, por que Gabriele traiu? E, o que é fundamental, o que foi a traição? Durante o julgamento do mordomo papal, este insistiu, e de forma desconcertante, de que não traiu. De fato copiou cartas e relatórios secretos desde 2010, mas o fez para proteger o próprio Papa. Na verdade, em acordo com Gänswein, teriam entendido que o papa estava isolado das decisões e do “lixo” que inundava o Vaticano. A burocracia comandada por Tarcisio Bertone, o cardeal secretário de Estado do Vaticano, conseguira criar uma muralha burocrática capaz de esconder uma gestão, desde há muito tempo, absolutamente corrupta.

Os pontos principais, o conteúdo dos documentos, não foram questionados no tribunal, e nem o próprio Gabriele quis falar. O julgamento centrou-se no conceito de “roubo” e “invasão de privacidade”, e o conteúdo dos documentos, por isso mesmo, não seria revelado. Contudo, na casa da Via Porta Angelica foram encontradas 82 caixas de documentos pessoais do Papa – além de uma pepita de ouro, uma edição histórica e valiosa da “Eneida”, de 1581, e um cheque de 100 mil euros dados ao Papa pela Universidad Catolica de Santo Antonio de Murcia (Espanha), em Cuba. Não só Paolo Gabriele roubou os documentos, como também quis garantias de ter meios financeiros para sobreviver a uma crise no Vaticano.

Gabriele foi o único acusado; a “Família Pontificial”, e em especial o “bello Georg Gänswein”, com as suas quatro leigas consagradas, foi poupado. O mordomo manteve-se em silêncio, pediu perdão e reafirmou a lealdade ao Papa. Enquanto isso, Tarcisio Bertone, numa declaração insólita, declarou-se atento para que o réu, a promotoria e o próprio tribunal não “criassem condições lesivas ao vaticano” (El País, 09/06/2012). Soava como uma ameaça. Era uma ameaça negociada – logo após a condenação Paolo Gabriele foi perdoado pelo Papa e colocado em liberdade. Manteve o seu silêncio. No início de janeiro de 2013, já tomada a decisão da renúncia, o Papa nomeou Georg Gänswein arcebispo e secretário prefeito da Casa Pontifícia. Tratava-se, agora, de blindar o “bello Georg” contra qualquer vingança da Cúria, em especial após a sua renúncia.

O “lixo” do Vaticano

Paolleto Gabriele, o mordomo, um leigo – sem a proteção dos títulos eclesiástico e o único condenado – causou lágrimas ao Papa. Ambos eram verdadeiramente amigos. Por que então traiu o Papa? Ou não foi traição... O vazamento, feito através do livro de Nuzzi, teria sido a última cartada da “Família Pontificial” para romper o bloqueio em torno do Papa e criar dificuldades contra o todo-poderoso Tarcisio Bertone e os demais cardeais da Cúria. O papa, com certeza, não sabia da conspiração elaborada ao seu favor, que provocaria a ira dos cardeais da Cúria e a exigência de punição da “Família”. Ratzinger pode salvar Gänswein, mas entregou Paolleto, como antes entregara um outro amigo: o chamado “banqueiro do Papa”.

Qual o conteúdo, tão terrível, dos arquivos de Paolo Gabriele e que poderiam abalar o poder da burocracia da Cúria? Os dossiês, que o próprio Papa chamou de “lixo do Vaticano”, derramavam-se sobre temas obscuros e, mesmo, assustadores. Em primeiro lugar uma terrível história, velha de 30 anos: o desaparecimento da menina Emanuela Orlandi, de 15 anos, em 1983. Emanuela, uma bela adolescente, era filha de um funcionário da Casa Pontifícia. A menina desapareceu no próprio Vaticano e o seu pai teria tido acesso, pouco antes, a documentos que comprovavam que o chefe da máfia, Enrico de Pedis, possuía contas e fazia lavagem de dinheiro através do Banco Ambrosiano, que cuidava das finanças do Vaticano. Contudo, há outras versões, ainda mais apavorantes. Uma grande “coincidência”, além de Gänswein ter assumido a Casa Pontifícia, com acesso aos seus arquivos, é o fato de que o mordomo Gabriele residia, até à sua prisão, na mesma casa da Via Porta Angelica onde residira a família de Emanuela Orlandi. O mafioso De Pedis foi enterrado, com missa solene, na Basílica de Santo Ambrosio, ao lado de papas e cardeais.

 As finanças do Vaticano

Em 2012, monsenhor Carlo Maria Viganò, nomeado em 2009 como Governador do Vaticano, por decisão pessoal de Bento XVI foi encarregado de fazer uma “limpeza” nas finanças do Papado. Tratava-se de moralizar licitações, compras, o destino de alugueis e de rendas devidas à Igreja. Aos poucos Viganò viu-se num emaranhado de interesses e de ocultamentos que invariavelmente levavam a Tarcisio Bertone e alguns dos cardiais controladores da Cúria, que acusaram Viganò de incompetência e, mesmo, de corrupção. O Papa acaba por ceder às pressões da Cúria e, em 2011, “exila” Vinganò, nomeando-o núncio apostólico em Washington, o que o priva de qualquer ingerência nos negócios papais. Duas cartas do Monsenhor são publicadas, confirmando as acusações de corrupção.

O caso Viganò abre caminho para um escândalo ainda mais grave, agora envolvendo Ettore Gotti Tedeschi, um ex-presidente do Santander Comsumer Bank e católico praticante, membro da ultraconservadora Opus Dei, nomeado, como homem de confiança do papa, como presidente do IOR/Instituto de Obras Religiosas, o nome do Banco do Vaticano. No esforço de colocar em dia as finanças do Vaticano – pressionado pela Lei 231/2007, da Itália, obrigando à observação das regras da União Europeia contra lavagem de dinheiro – faz com que o banqueiro exija das autoridades da Cúria a revelação dos titulares de centenas de contas secretas, numeradas, que se serviam do banco do Vaticano para entrar no sistema bancário internacional. A descoberta de Tedeschi é assustadora: um número relevante de contas pertencia a Máfia italiana, incluindo aí Matteo Messina Denara, o chefe da Cosa Nostra na Sicília. Outras contas eram de políticos italianos – cujos nomes não foram revelados – e de celebridades que procuravam fugir aos impostos. Algumas eram de religiosos, que não podiam, com certeza, explicar a origem dos recursos postos em suas contas.

Mais uma vez Tarcisio Bertone estava por trás da oposição ao “banqueiro do Papa”. Com um passivo pesado, envolvendo mortes e prisões em torno das finanças papais (como no Caso Ambrosiano), Tedeschi procurou garantir a sua segurança. Coletou dezenas de documentos, cartas e e-mails envolvendo políticos italianos, empresários e mafiosos com as finanças da Cúria Romana, num total de 47 detalhados arquivos. Os documentos de Tedeschi comprovaram umas amplas e longevas operações de lavagem de dinheiro no interior do Vaticano.

Oficialmente o Vaticano reagiu com “perplexidade e assombro”, negando conhecer quaisquer contas secretas. Em seguida, no seu melhor estilo, o cardeal Bertone declarou as acusações de Tedeschi produto de uma conspiração “judaico-maçônica”, como se ainda vivêssemos no regime de Salazar ou Franco. Bertone, em seguida, abriu uma ampla frente de ataque contra Tedeschi, indo de um diagnóstico de desequilíbrio mental até ser, o próprio Tedeschi, o mentor de toda a corrupção. O banqueiro do Papa foi, então, demitido por “incompetência”.

Somente em 15/02/2013 o Papa, em um dos seus últimos atos, nomearia o financista alemão Ernst Von Freyberg, um administrador de um estaleiro que produz navios de guerra, para substituir Tedeschi. As autoridades italianas, envolvidas através de contas secretas de financiamento dos partidos políticos e dos próprios políticos calaram-se. Bertone continuou falando pelo Papa, que qualificou, em entrevista, como ” (...) um homem manso que não se deixa intimidar”. Por ironia, será o cardeal Bertone, nascido em 1934, um salesiano com uma carreira típica da Cúria Romana, nomeado secretário de Estado do Vaticano por Bento XVI, em 2006, e o atual cardeal Camerlengo, que responderá pelo Vaticano a partir de 28/02/2013.

Enfim, este pastor de Cristo que alimentou com as próprias mãos os lobos que o cercavam viu-se, ao final, devorado pelos seus próprios lobos.

Francisco Carlos Teixeira*

 *Francisco Carlos Teixeira é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


** Texto enviado por email por Joaquim Pereira da Silva.

[Ver aqui]

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Papa afirma que não se insulta a fé dos outros nem se mata em nome de Deus

O problema das religiões não está na fé dos crentes, que não se discute nem se condena. O problema está nos tenebrosos aparelhos (eclesiásticos e políticos) que as manipulam em interesse próprio.

"Não se pode insultar a religião dos outros. Não se pode fazer pouco da fé dos outros", declarou ontem o Papa Francisco a bordo do avião que o levava do Sri Lanka para as Filipinas, no âmbito da visita que realiza a estes dois países asiáticos, em mais um comentário ao ataque à revista Charlie Hebdo, sucedido na passada semana, no qual morreram 12 pessoas.

***«»***
A caricatura não é um crime. É a arte superior do humor. E o humor não é um insulto. E as caricaturas, focalizadas na temática das religiões, não podem ser banidas, só porque um profeta, nascido no deserto, na obscura Idade Média, decretou que não podia ser retratado em imagens. A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa, que custaram muito a conquistar, não podem sucumbir à ameaça das bombas nem às declarações pias dos representantes dos deuses, cá na Terra.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião


O papa Francisco aprova as teorias do Big Bang e da Evolução das Espécies mas também defende que "é precisa" a criação divina para as explicar por completo. Demonstrou abertura ou tentou usar a ciência como fudamento para a crença?
Carlos Fiolhais, físico e um dos mais conhecidos divulgadores científicos portugueses, avisa que pode ser "perigoso" recorrer à ciência para tentar fundamentar as crenças religiosas. E dá o exemplo de Galileu Galilei, que dizia: "O Espírito Santo ensina-nos como ir para o céu, não como é o céu".
Já a teóloga Teresa Toldy defende que o Papa pretendia apenas demonstrar que ciência e religião não são incompatíveis e que não estava a tentar enciaxar as duas variáveis numa só.

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A religião e a Ciência são totalmente incompatíveis. A religião baseia-se no fundamento da crença, enquanto a Ciência elege a racionalidade empírica sobre factos objetivos, observáveis e mensuráveis. A religião cultiva a subjetividade, enquanto a Ciência procura a objetividade da realidade. São como a água e o azeite. Não miscíveis…
A aceitação (envergonhada?), por parte da igreja católica, das teorias do Big Bang e da Evolução das Espécies já vem tardia, e demonstra a dificuldade que a  Cúria Romana revela em lidar com a Ciência, naqueles aspetos em que os dogmas são desmascarados.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

700 m2 de Bertone irritam o Papa Francisco


O ex-secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, inaugura em maio a sua nova residência no Vaticano. Trata-se de uma cobertura de luxo com 700 metros quadrados, o que está a irritar o Papa.
O cardeal Bertone, de 79 anos, que foi secretário de Estado de Bento XVI, está em contradição com o apelo de Francisco para uma "Igreja dos pobres", uma situação que está a provocar uma forte irritação no Papa argentino.
De acordo com o diário italiano 'La Repubblica', Bertone uniu dois apartamentos no último andar do Palácio de São Carlos, criando assim uma cobertura de 700 metros quadrados, cem dos quais constituem o terraço.A nova e luxuosa residência de Bertone fica praticamente ao lado da Casa de Santa Marta, onde o Papa Francisco ocupa 70 metros quadrados.
A nova residência de Bertone está a provocar o escândalo em Itália e um pouco por todo o mundo, mas o cardeal diz que precisa de espaço porque irá levar para a mesma residência as três freiras que trabalharam com ele quando foi secretário de Estado.

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Das três freiras que vão habitar as novas e luxuosas instalações  do cardeal Bertone (construídas à custa das esmolas e dos rendimentos proporcionados pelos  milagres), sabemos que uma delas é para lhe lavar os pés; outra para lhe lavar as mãos. Ignora-se a função da terceira freira.  Todavia, presume-se que seja uma função santificada.
Bertone quer gozar, por antecipação, as delícias do Céu, para onde irá a sua alma, após a morte. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Deus também decretou a austeridade: É necessário encerrar alguns lugares sagrados (apenas algumas gorduras)!...

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Santuário espanhol
destruído por raio

No dia de Natal, um santuário em Muxia ficou destruído por um incêndio provocado por um raio.
O presidente da Câmara de Muxia, Feliz Porto, disse que o santuário A Virxe da Barca, construído em 1719, é “irrecuperável” e que ficou “completamente destruído”. Ardeu o tecto e o interior onde estão as pedras base em que assenta o edifício.
O combate às chamas foi dificultado pelo vento.

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Já nem sequer os lugares sagrados se salvam! E o Papa que se cuide, pois ainda pode vir a ser um sem abrigo, se a austeridade chegar ao Vaticano!... Basta que Deus acorde mal disposto e resolva querer acabar com aquela escandaleira!...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Insólito: "Missa às Escuras" em Fátima dedicada aos cegos


"Missa às Escuras" em Fátima dedicada aos cegos

O padre da paróquia de Fátima, Rui Marto, vai realizar uma "Missa às Escuras" dedicada aos cegos, no dia 27 de abril, disponibilizando vendas "a toda a população que queira participar", disse esta quinta-feira o sacerdote. O padre salientou que os vitrais da igreja "vão ser tapados", mas as pessoas não vão ser abandonadas: a eucaristia vai contar com a ajuda de guias, "até para evitar que existam atropelos ou despistes, como por exemplo no momento da comunhão", e obrigará o pároco, de 55 anos, a decorar a homilia.
18 de Abril de 2013
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Com todo o respeito pelos cegos e amblíopes e apesar da bondade que eventualmente possa existir nesta bizarra cerimónia religiosa, quase a indiciar uma iniciação esotérica, eu pergunto-me como é que o padre Marto, responsável pela paróquia de Fátima, irá, no futuro, organizar missas para coxos, manetas e surdos-mudos? Bem, para a missa dedicada aos surdos mudos, os outros fiéis sempre poderão usar tampões nos ouvidos e mordaças adesivas na boca. Agora, para a dos coxos e manetas, é que será mais complicado!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"Cilício e chicotadas não são nada comparados com a violência psicológica" - Diário de Notícias


Membros da obra utilizam cilício (corrente com pontas de arame que se cravam na pele) duas horas por dia e, uma vez por semana, flagelam as nádegas. Beber café sem açúcar ou não fumar são outro tipo de ações que são 'oferecidas' a Deus. Porém, ex-membros dizem que pior eram as obrigações e a falta de liberdade.
João (nome fictício) levantou-se depois de ter relações sexuais com a namorada e pegou nos seis bagos de milho que trazia num estojo de camurça. Colocou-os em forma de triângulo e ajoelhou-se sobre eles a rezar qualquer coisa parecida com o ave-maria. A mortificação corporal, como esta contada ao DN, é dos rituais do Opus Dei mais contestados por algumas fações da Igreja Católica e aquele que mais choca a sociedade.
Ajoelhar-se sobre o milho não é, no entanto, a prática mais comum. E muito menos depois do sexo, até porque os numerários, as numerárias e os agregados são celibatários (ver infografia). As penitências são incentivadas de forma que os membros da obra sofram como Jesus sofreu, sendo o ato entendido como uma dádiva a Deus.
Diário Notícias
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Esta do milho é que me espanta! Agora percebo porque é que o pão de milho está caro. Eu não sei o que levou o fundador da Obra, Josemaría Escrivá de Balaguer, a escolher este cereal, como instrumento de tortura! Teria mais sentido bíblico escolher pregos, já que foi com pregos, segundo os apóstolos dos evangelhos canónicos, que Cristo foi crucificado. Naquela época, o milho até era completamente desconhecido em terras de Israel e no continente europeu, onde só se conhecia o trigo, o centeio e a cevada. O milho foi trazido da América do Sul, para a Europa, pelos espanhóis, no século XVI.
Também o flagelo das nádegas (nalgas, em Trás-os-Montes) levanta muitas suspeitas, além de constituir um perigo, pois se a ponta do arame do cilício se encrava no buraco negro de algum numerário ou numerária, a infeção é certa, devido às bactérias fecais. E para as infeções anais, não há milagres divinos, pelo menos que se saiba.
Eu julgo que Deus, na sua infinita misericórdia, deve fartar-se de rir com tais práticas e rituais, tal como eu me riria, se não soubesse que a Opus Dei é uma organização tenebrosa, ao serviço do poder político e financeiro do Vaticano. Depois de ter ascendido à condição de Estado, uma concessão de Mussolini, a fim de obter, em troca, a neutralidade do Papa, este minúsculo Estado sem povo transformou-se, abusando da boa-fé dos crentes, numa das multinacionais mais poderosas do planeta, a multinacional da Fé, que tem em Fátima, com a sua fábrica dos milagres, uma verdadeira galinha de ovos de ouro. A outra galinha gorda é a Opus Dei, que o papa polaco privilegiou para o governo das finanças de Deus, em detrimento dos jesuítas.
Em Espanha, onde a Obra foi fundada, ela constituiu-se num esteio importante do fascismo franquista e, nos dias de hoje, domina importantes setores da economia, além de ter uma grande influência no aparelho de Estado. Em Portugal, Salazar, que tinha um medo patológico por tudo que fosse organização secreta (já lhe bastava a clandestinidade do Partido Comunista Português), não lhe deu muita margem de manobra. Tolerou-a apenas. Mas agora, ela está aí, em força, para tecer discretamente a teia do seu enorme poder. Depois da UE, do BCE e do FMI, só nos faltava a Opus Dei.
Porra, que é preciso ter azar!
http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3017763

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

D. Manuel Martins: Governantes "não estão à altura do momento"


Entrevista recente de D. Manuel Martins ao Jornal de Notícias
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D. Manuel da Silva Martins, o emérito bispo da diocese de Setúbal, é uma voz desassossegada,  incómoda  para o atual sistema político, que se mostra insensível em relação à pobreza e às desigualdades sociais, posição corajosa e desassombrada, que contrasta com a da maioria do clero católico, que, ou se cala, ou se alia com as forças sociais e políticas, conservadoras e reacionárias. Foi no período do cavaquismo, durante uma grave crise de desemprego no distrito de Setúbal, marcada pelo registo da fome, a atingir milhares de famílias, que a sua voz de indignação e de protesto se fez ouvir, ganhando ressonância nacional, a tal ponto que foi apelidado de bispo vermelho.
Nesta entrevista, e de uma forma elegante e inteligente, D. Manuel Martins arrasa os políticos do atual governo, acusando-os de incompetentes e autistas. A D. Manuel Martins só faltou dizer que eles deveriam ser submetidos a uma Junta Médica, que os declarasse inaptos para o trabalho da governação. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Papa reafirma virgindade de Maria e diz que o burro e a vaca não estavam no presépio


A virgindade da mãe de Jesus Cristo é uma verdade “inequívoca” da fé. Os católicos já o sabiam, mas a doutrina é reafirmada pelo Papa Bento XVI que, num livro posto à venda esta quarta-feira, afirma também que não havia burro nem vaca no presépio de Belém.
... No local do nascimento de Jesus “não havia animais".
PÚBLICO
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Ah! Assim está bem! Sem burro e sem vaca, também eu já posso converter-me à Fé. Só me resta ainda uma dúvida, que não é metafísica nem celestial, mas que é uma dúvida anátomo-fisiológica. Como é que uma virgem pode parir?! Sim, já sei o que me vão responder! Que deus, com o seu poder infinito, pode alterar as leis da Física, da Química e da Biologia, ao ponto de até ter conseguido fazer de um coelho um primeiro-ministro e de um cavaco, um presidente.

Adenda: Pareceu-me oportuno acrescentar um comentário que deixei no Facebook:
"Virgem é que a senhora não era, pois não há referências à falta de virilidade do marido José, o carpintero. Com um hímen mais elástico ou menos elástico, a pergunta intrigante é como o espermatozóide divino foi parar ao útero da senhora. Eu sei que estas perguntas irritam os católicos. Mas têm que ser feitas, sendo obrigatório dar-lhes resposta, para que as questões da Fé e das crenças não sejam mais irracionais do que já são. E o papa também deve compreender que o ridículo mata, quando reduz as suas preocupaçõs teológicas à presença ou à ausência do burro (ou seria burra?) e da vaca (ou seria boi?)".

domingo, 14 de outubro de 2012

Notas do meu rodapé: A igreja católica portuguesa e as declarações infelizes de um cardeal


A igreja católica portuguesa e as declarações infelizes de um cardeal
A Igreja Católica, desde que se tornou a religião oficial do Império Romano, sempre foi uma religião de poder. O Papa ainda reproduz, nos dias de hoje, nos paramentos e no cerimonial, os tiques dos imperadores. Na sua longa história de dois mil anos, sempre se aliou às aristocracias e às classes possidentes. Foi na Península Ibérica onde ela mais se enraizou com o poder político, que ia sempre outorgando-lhe regalias e privilégios. Aliou-se ao invasor germano (os Visigodos), que delegou nela a administração da coisa pública. Na Alta Idade Média, eram os bispos que, na prática, governavam, tomando as principais decisões políticas e religiosas nos concílios ibéricos. Na Reconquista, era vulgar ver os bispos nos campos de batalha ao lado dos reis cristãos, batalhando contra o mouro infiel.
Nos Descobrimentos, para evangelizar os novos povos e alargar a sua influência por todos os novos continentes descobertos, os missionários católicos atrelaram-se aos navegadores e aos conquistadores dos impérios coloniais, numa aliança espúria entre a espada e crucifixo.
No crucial século XVI, os dois reinos ibéricos, o de Portugal e o de Espanha, foram o principal esteio dos papas no lançamento e consolidação da Contra- Reforma, saída do concílio tridentino. Foi nessa altura, que se instituiu em Portugal a Inquisição e o Tribunal do Santo Ofício, para queimar na fogueira os hereges, os apóstatas e os praticantes clandestinos do judaísmo, semeando no país o medo e o terror.
Nos séculos seguintes, apesar de alguns contratempos e sobressaltos, a igreja ganhou força institucional e espiritual nestes dois países, que atingiu o seu máximo esplendor na aliança com os fascismos ibéricos, o de Salazar e o de Franco.
Após o 25 de Abril, a igreja católica portuguesa constituiu-se num baluarte da contra-revolução, sendo muito interventiva no processo político e usando como arma o púlpito, o confessionário, a fábrica dos milagres do santuário de Fátima e outros processos secretos, pouco recomendáveis. Afastado o "perigo comunista", recolheu-se discretamente para os seus espaços de intervenção, mas não deixou de, na sombra, ir urdindo e reforçando o seu poder e a sua discreta influência.
Durante séculos, teve o monopólio do ensino em Portugal, que lhe serviu de eficiente veículo para a intensiva doutrinação das elites e da população em geral, monopólio esse só interrompido abruptamente pelo marquês do Pombal (sec. XVIII), por Joaquim António de Aguiar, o Mata-Frades (sec. XIX), e pelos republicanos (sec. XX). A sua influência foi profunda na formatação da mentalidade dos portugueses, principalmente nas zonas rurais do norte do país, onde primeiro se iniciou a Reconquista Cristã.
Na atualidade, e perante a bárbara ofensiva contra o povo português, através de um iníquo plano para os empobrecer, levada a cabo pelo governo PSD/CDS, a soldo dos interesses do capitalismo financeiro internacional, a igreja católica remeteu-se a um silêncio cúmplice, apenas quebrado por uma ou outra voz mais ousada. Mais uma vez, a igreja católica está ao lado dos poderosos, não levantando a voz, como seria o seu dever, na defesa dos mais desprotegidos.
Não admira, pois, que o patriarca Policarpo, e já é a segunda vez que isto acontece, venha a terreiro aplaudir implicitamente a imposição de sacrifícios monstruosos aos portugueses. Ignorando que a igreja utiliza a rua para as suas manifestações da Fé, insurge-se contra aqueles que na rua exercem o seu legítimo direito à indignação e ao protesto.
É bom que o patriarca tenha presente que o bispo de Lisboa, na sequência do golpe palaciano desencadeado pelo Mestre de Aviz, e que deu origem à revolução de 1383-85, foi atirado da torre da Sé, pela populaça enfurecida, que não lhe perdoou a sua aliança com Leonor Teles, a rainha viúva de D. Fernando, que queria entregar o trono português ao rei de Castela.
A História às vezes repete-se. E da segunda vez, normalmente, é uma comédia. E eu não me queria rir de ver D. Policarpo ser atirado da torre da Sé de Lisboa pelos indignados deste país.
No entanto, eu condeno os atentados contra a vida, seja qual for o pretexto.
http://ponteeuropa.blogspot.pt/2012/10/a-igreja-catolica-portuguesa-e-as.html

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Jesus foi casado? Talvez não. E isso importa? Talvez sim

Pintura de Ticiano

"Jesus disse-lhes: "A minha mulher..."" Esta frase, inscrita num fragmento de um papiro copta ainda não rigorosamente datado e de proveniência desconhecida, ateou de novo o debate: afinal, Jesus foi casado ou não?
PÚBLICO
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Polémicas à parte, o que se pode ver nesta pintura de Ticiano, que, no seu tempo, provavelmente, também não foi alheio a esta questão, é uma Madalena de joelhos, submissa e disponível, que, com a sua mão, em pose estudada, a manifestar uma deliberada intenção, entusiasmou de tal maneira Jesus (a túnica atada à cintura não consegue esconder esse entusiasmo), ao ponto de ele não se aguentar nas canetas, sendo obrigado, por isso, a apoiar-se no bordão.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Bispo D. Januário Torgal: Uma voz dissonante da Igreja Católica

“Os nossos governantes vão além dos sacrifícios impostos pela troika"
D. Januário Torgal acusou o governo de tratar os trabalhadores por conta de outrem como se fossem “os assassinos do país", defendendo que essa ideia "é uma calúnia e um aproveitamento, porque na crise revelam-se oportunidades para explorar os explorados". O Bispo das Forças Armadas defendeu a renegociação da dívida.
ESQUERDA.NET
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O Bispo das  Forças Armadas afasta-se da linha assistencialista, do agrado da maioria do clero católico e estimulada pelo próprio governo, optando por, corajosamente, denunciar a maximização da exploração dos trabalhadores portugueses. Ao propor a renegociação da dívida, D. Januário Torgal alinha com todos aqueles que não aceitam este modelo de austeridade, como medida justa e eficaz para ultrapassar a crise.

domingo, 9 de outubro de 2011

À falta de humanos, avançam os cães...

Uma mulher reza ao lado do seu cão. No dia de S. Francisco de Assis,
padroeiro dos animais no Brasil, os crentes levam-nos à igreja
para serem abençoados (Nacho Doce / REUTERS)
A irracionalidade da Fé não ofende a irracionalidade dos cães. Não sei, no entanto, se este será o entendimento das Sociedades Protectoras dos Animais, que poderão vir a contestar estas conversões à força.
Imagem retirada do blogue papa açordas

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Libertai-vos e gozai. Deus já não se importa. E até gosta!

O padre Ksawery Knotz

Kama Sutra para católicos é êxito
O ‘Kama Sutra para Católicos’, da autoria de um padre franciscano polaco, é já um verdadeiro sucesso editorial na Polónia. O livro, aprovado pela Igreja Católica polaca, defende, por exemplo, a prática do sexo oral.
A publicação, um guia teórico--prático, destina-se a ‘apimentar’ a vida sexual dos casais católicos, que deve ser "atrevida e surpreendente", como afirma o próprio autor, o padre Ksawery Knotz. "Todo o acto – uma carícia, uma posição sexual – com o intuito de excitar é permitido e agrada a Deus", escreve o autor. "Durante o interlúdio sexual, os casais podem mostrar o seu amor e carícias de todas as formas. Podem empregar os estímulos manual e oral", refere ainda aquele sacerdote na publicação.
"Algumas pessoas, quando ouvem falar na sacralidade do sexo no matrimónio, imediatamente imaginam que deve haver privação de alegria, de jogos frívolos, de fantasias e posições atractivas. Pensam que deve ser triste como um hino tradicional eclesiástico", escreve ainda o frade franciscano.
A editora Sw. Pawel, que publica o livro, está já a preparar mais cópias, depois de cinco mil exemplares terem sido vendidos em poucas semanas. 
Correio da Manhã- 17 Maio 2009   
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Esta notícia já não é de hoje. Guardei-a em arquivo, por a considerar uma curiosidade, já que reporta a uma iniciativa arrojada de um padre polaco, levada a cabo num país profundamente católico e conservador. Ao tropeçar no recorte, questiono-me o que teria acontecido, depois do livro ter sido lançado com êxito na Polónia. Não me dei conta que, em Portugal, tivesse sido publicado, o que é pena, pois poderia aliviar a consciência de muitos católicos portugueses que, em segredo, já quebraram os tabus impostos por uma religião que nunca soube conviver com a sexualidade.

sábado, 21 de maio de 2011

Bento XVI torna-se o primeiro Papa a telefonar para astronautas em órbita


As duas tripulações que se encontram actualmente na Estação Espacial Internacional (ISS) juntaram-se à frente do ecrã de videoconferência, hoje, para uma chamada inédita com origem no Vaticano. Bento XVI esteve uns minutos à conversa com os astronautas em órbita e tornou-se no primeiro Papa a fazê-lo.
PÚBLICO
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Espero que, da próxima vez, o papa Ratzinger possa falar com deus. Bem precisa!
http://publico.pt/Mundo/bento-xvi-usou-a-tecnologia-para-conversar-com-mortais-residentes-nos-ceus_1495259

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Milagre atribuído a João Paulo II foi validado


Uma comissão médica validou esta terça-feira um suposto milagre atribuído ao anterior Papa João Paulo II, o que poderá contribuir para fazer avançar o seu processo de beatificação.
A comissão médica, liderada pelo médico particular do actual Papa Bento XVI, Patrizio Polisca, considerou válido o milagre que poderá fazer avançar o processo de beatificação e que estará relacionado com a recuperação da monja francesa Marie Simon-Pierre, que se terá curado da doença de Parkinson depois de ter rezado e pedido ajuda a João Paulo II nos meses após a sua morte, a 2 de Abril de 2005.
PÚBLICO
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A Santa Sé vive dos rendimentos de duas fábricas, que se encontram em laboração contínua: a fábrica dos milagres, no Vaticano, onde cobra receitas espirituais, e a fábrica da cera para velas, no Santuário de Fátima, que, juntamente com as esmolas dos peregrinos e as doações de alguns fiéis mais endinheirados, lhe garante elevadas receitas financeiras, para alimentar o fausto da corte imperial do papa (Cúria Romana).
Agora, a sorte bafejou o anterior papa, João Paulo II, que supostamente intermediou o milagre da cura completa de uma monja francesa, que sofria da doença de Parkinson, cura esta, validada clinicamente pelo médico particular do actual papa, Bento XVI.
Ainda dizem que santos da casa não fazem milagres!...
Com esta urgência de fabricar milagres em série, procurando ganhar economia de escala e aumentar a competitividade, a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) arrisca-se, daqui a 100 anos, a ter mais santos do que fiéis. O que será uma tragédia, pois os santos necessitam de quem se ajoelhe a seus pés, para orar, gesto este que apenas os fiéis se dispõem a executar.
A ICAR reclama para si um grande rigor na avaliação dos milagres, cujos processos, em alguns casos, demoram anos a concluir, embora recuse qualquer avaliação clínica, efectuada por entidades externas, idóneas e independentes.
Para já, João Paulo II apenas vai ser beatificado. Para ser santificado, necessita de mais um milagre no currículo. A D. Guilhermina de Jesus, de Ourém, pessoa que eu já conheço, e que foi beneficiada por um milagre, intermediado pelo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, de certeza que não regateará a exposição do outro olho aos "salpicos do óleo da fritura do peixe"*, para que o espírito de João Paulo II possa devolver-lhe a visão, se, por acaso, ela a perder, tal com perdeu outras coisas na vida. Com o treino já adquirido no milagre anterior, D. Guilhermina não deixará ficar mal a Santa Madre Igreja.
* "salpicos do óleo da fritura do peixe"- expressão roubada ao Carlos Esperança, do blogue Ponte Europa.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Notas do meu rodapé: "Faz-te missionário", não fodas!

¿Bendito condón que quitas el SIDA del mundo?

"Bendita VERDAD que quitas la ignorancia del mundo"
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Igreja responde a campanha que associa preservativo à hóstia
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Polémico vídeo de uma organização juvenil do PSOE que associa o preservativo à hóstia já tem resposta da Igreja. Slogan "Não te deixes enganar", música e layout repetem-se, agora com uma mensagem diferente.
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O vídeo da campanha "Bendito condón que quita el sida del mundo" foi lançado durante a semana mundial de luta contra a sida e promovida pela juventude do PSOE , partido do primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero.
Mostra uma imagem de um padre segurando a hóstia e, seguidamente, o mesmo gesto mas com um preservativo. O vídeo causou polémica e gerou críticas por parte de várias associações religiosas que a acusavam de blasfémia.
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Vídeo da campanha indisponível
Foi visto no YouTube e partilhado no Facebook. Está agora indisponível, segundo a mensagem deixada no vídeo, "devido a uma reivindicação de direitos de autor".
Mas o vídeo de resposta da Igreja está visível e disponível, com uma base semelhante ao da campanha, a mesma música e o mesmo slogan: "Não te deixes enganar." Mas a mensagem passada é diferente, refere que quase 30% dos centros de ajuda no combate à sida são católicos e deixa a mensagem: "Se realmente te preocupas com a sida, luta de verdade, faz-te missionário".
EXPRESSO
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Na luta contra a sida, a igreja católica sobreleva, na sua acção, que é meritória, o factor assistencial, relegando para um segundo plano, ou até ignorando-o, o da promoção da prevenção da doença, que, em África, assume proporções alarmantes. A igreja católica preocupa-se com os efeitos, que são devastadores, e negligencia as causas, a não ser aquelas que lhe permitam exercer a sua doutrina e a sua acção evangélica.
A concepção das medidas de prevenção da sida pertence ao foro científico, e está provado que a promoção da utilização do preservativo é o melhor método para prevenir o contágio, método este que a igreja católica combate ferozmente, porque lhe afecta o conceito doutrinário sobre as relações sexuais e sobre o casamento canónico. Promover a utilização do preservativo, é, para a igreja católica, promover a liberdade sexual, a que vota um ódio de morte, tudo fazendo para a reprimir.
O preservativo, ao ser catapultado para a categoria de um inimigo perigoso, a abater, evidencia a degenerescência de uma religião que anda sempre atrasada em relação à evolução da sociedade e da ciência. Já nem a maioria dos católicos acredita, nem sequer os padres pedófilos, que as relações sexuais têm de estar subjugadas ao casamento, e, mesmo aí, com a única intenção de procriar.
Ao ter sido bloqueado no YouTube o vídeo promocional da Juventude do PSOE da Andaluzia, sobre o uso do preservativo na prevenção da sida, fica bem evidenciado o grande poder de influência sobre o poder político, que a igreja católica ainda possui em Espanha. Naquele país, exerceu-se a ignomínia da censura ou influenciou-se o ato da auto-censura. Em qualquer dos casos, cometeu-se um atentado contra a liberdade de expressão, que me indigna e revolta, o que me levou, como única forma de protesto eficaz de que disponho, a escolher para esta peça um título "agressivo", talhado à medida da hipocrisia reinante.

domingo, 21 de novembro de 2010

Papa admite uso do preservativo em certos casos mas mantém que não é solução

Não é uma revolução, mas uma porta entreaberta.
Num livro-entrevista que será publicado terça-feira,
o Papa Bento XVI mantém que não considera o
preservativo "uma solução verdadeira e moral", mas
admite a sua utilização em casos concretos: "Num ou
outro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco
de contágio, o preservativo pode ser um primeiro
passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro
modo, mais humana."
PÚBLICO
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Os fabricantes de preservativos perderam o maior promotor da sua utilização: o próprio papa Bento XVI. Quanto mais a ICAR o demonizava, tentando bani-lo como contraceptivo e como protector das doenças sexualmente transmissíveis, mais pessoas, mesmo entre os católicos, ganhavam a consciência dos riscos que corriam se não o utilizassem nas suas relações sexuais.
O papa, ao ser obrigado, perante a gravidade do crescimento exponencial da sida, principalmente no continente africano, e de outras doenças transmitidas sexualmente, não teve outro remédio, senão recuar na sua posição fundamentalista, embora de modo cauteloso para não perder a cara. A experiência de dois mil anos de magistério ensinou a ICAR a saber recuar estrategicamente, sem nunca se dar por derrotada, sempre que os seus valores e as suas teorias eram postas em causa pelas evidências objectivas da ciência ou pelo senso comum que as sociedades em desenvolvimento iam adquirindo, o que a obrigava, mais tarde ou mais cedo, a renunciar à validade dos seus princípios.
A partir de agora, a ICAR vai abster-se de falar no assunto, e, por omissão, acabará por aceitar a utilização do preservativo em todas as situações que, de momento, ainda critica.
Se fosse obrigatório acreditar no pensamento único e dogmático da ICAR e dos papas, ainda hoje acreditaríamos que era o Sol a mover-se à volta da Terra.
http://jornal.publico.pt/noticia/21-11-2010/papa-admite-uso-do-preservativo-em-certos-casos-mas-mantem-que-nao-e-solucao-20666930.htm