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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Presunção e água benta, cada um toma a que quer…



Presunção e água benta, cada um toma a que quer…

“Ainda não aprenderam a ler-me: tentam abrir a porta com a chave que trazem no bolso, pequenina, estreita. E surpreende-me que não vejam que basta empurrar a maçaneta com um dedo”.
António Lobo Antunes

In Revista Visão - O vivo e puro amor de que sou feito.
[Citado por Marina Costa]
***«»***

Fora dos holofotes da fama, que granjeou como grande romancista, António Lobo Antunes não é assim tão magnânimo como pretende fazer crer, com a belíssima metáfora da chave, da maçaneta e da porta. Diz, quem o conhece pessoalmente, que é um homem azedo e pedante e que gosta de ver o mundo a seus pés.

No entanto, esta afirmação não ofusca nem obnubila o seu génio, como escritor, bem evidente, principalmente, nos seus primeiros romances.

Ele nunca perdoou o facto de ter sido preterido na atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em relação a Saramago, e não compreendeu que o Memorial do Convento é uma obra de dimensão universal, que se impôs pela sua densa textura e pela sua grandiosa temática. Nesta obra, Saramago falou com as centenárias pedras do convento de Mafra e com as suas sombras, reconstruindo a história desse tempo opaco, de uma religiosidade fanática e cruel, que não salvava as almas, antes as queimava no patíbulo, onde ardia o fogo purificador da fogueira inquisitorial.
Alexandre de Castro
2018 08 30

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Citação: Não Temos um Projecto de País...


Não Temos um Projecto de País 
Mas a realidade é esta: não temos um projecto de país. Vivemos ao deus-dará, conforme o lado de que o vento sopra. As pessoas já não pensam só no dia-a-dia, pensam no minuto a minuto. Estamos endividados até às orelhas e fazemos uma falsa vida de prosperidade. Aparência, aparência, aparência - e nada por trás. Onde estão as ideias? Onde está uma ideia de futuro para Portugal? Como vamos viver quando se acabarem os dinheiros da Europa? Os governos todos navegam à vista da costa e parece que ninguém quer pensar nisto, ninguém ousa ir mais além.
José Saramago
in "Entrevista revista Visão, 2003"

***«»***
Saramago tem razão! Mas não é o povo que tem culpa. O povo apenas come o que lhe dão. Mas, agora, querem tirar-lhe o que não lhe deram. 
Reconheço, no entanto, que ao povo português (políticos, académicos, elites e populares) faltou maturidade democrática e que se comporta como uma criança sempre que lhe dão um chupa-chupa. Não me posso esquecer daquele tempo em que os políticos, académicos, elites e populares andavam com as chapas da matrícula do automóvel, com as estrelinhas amarelas, penduradas ao pescoço. Foi o tempo em que começámos a ser europeus e deixámos de ser portugueses. Foi necessário Angela Merkel vir recordar-nos que as coisas não eram bem assim. Tínhamos de escolher entre ser europeus, mas de segunda classe, ou, então, apenas portugueses. E, na verdade,  é como portugueses que aparecemos registados no Cartão do Cidadão. E o Cartão do Cidadão não engana!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

Nota do meu rodapé: Falta injustificada para Cavaco Silva


***
Saramago: Cavaco Silva diz ter cumprido obrigações como Presidente
O Presidente da República desvalorizou hoje “alguma
polémica estéril” gerada em torno da sua actuação
em relação à morte de José Saramago, garantindo ter
feito o que lhe competia como chefe de Estado.
... “Todos os portugueses sabem que desde quinta-feira
à noite estou nos Açores, em S. Miguel, cumprindo uma
promessa que fiz há muito tempo a toda a minha
família, filhos e netos, de lhes mostrar as belezas desta
região”, declarou Cavaco Silva.
***
O Presidente da República não é nenhum camareiro-mor do palácio de Belém, nem o seu mordomo, e, muito menos, um simples burocrata, que despacha o expediente a determinar a hora do hastear da bandeira e o momento de tocar o hino, assim como o de ordenar o desfile da fanfarra na parada. O presidente da República tem de ser o presidente de todos os portugueses, sem excepção. Um programa de férias familiar não pode suplantar o seu dever de estar presente em actos oficiais de importância excepcional e em cerimónias públicas de elevado significado para o país. A sua desculpa, a justificar a sua ausência nas cerimónias fúnebres do escritor José Saramago, foi patética e desastrada. Por mais ramos de flores que encaminhasse para cobrir o féretro do grande escritor e por mais comunicados oficiais que mandasse publicar, não o desobrigavam do imperioso dever de marcar o acontecimento com a dignidade da sua presença. É que José Saramago não era um cidadão qualquer. Foi um escritor universal, que engrandeceu no mundo a Língua Portuguesa, e que só tem paralelo, a este nível, em Camões e Fernando Pessoa. Garrett, Sá e Miranda, Camilo Castelo-Branco, Eça de Queirós e Aquilino Ribeiro foram grandes escritores, mas a expressão literária universalista só acontece com aqueles três escritores. Por muito que isto custe a todas aqueles que, na sua mediocridade e insignificância, procuraram enxovalhar Saramago em vida e menosprezá-lo na morte, pode-se desde já afirmar que o futuro já colocou o escritor no Panteão das Letras.
Ao primar pela ausência, Cavaco Silva perdeu a oportunidade de participar na mais significativa manifestação de homenagem à Língua Portuguesa, através da homenagem a José Saramago, no seu funeral.
Recordo aqui o que se disse, quando se discutiu no país o Acordo Ortográfico. Muitos economistas avançaram com a ideia de que a Língua Portuguesa era um factor importante, não directamente contabilizável, ao nível da formação do PIB, já que tinha uma grande expressão mundial, em número de falantes. Como economista, Cavaco Silva não entendeu esta verdade.
Talvez tivessem razão, aqueles que, por razões nada edificantes, o queriam mandar ir, por antecipação, tomar conta dos netos.
http://publico.pt/Cultura/cavaco-silva-diz-ter-cumprido-obrigacoes-como-presidente_1442805

domingo, 20 de junho de 2010

Um dia depois da morte do escritor: Jornal do Vaticano define Saramago como “populista e extremista”


O diário do Vaticano, “L’Osservatore Romano”,
publicou hoje um artigo onde define o escritor
José Saramago, que morreu ontem aos 87 anos,
como “populista e extremista” de ideologia
anti-religiosa e marxista.
PÚBLICO
***
O artigo do Osservatore Romano sobre Saramago é mais um vómito incontido, bolçado pela igreja católica, contra o o grande escritor. Nem depois de morto, a pérfida cúria deixa de manifestar o seu ódio e o seu ressentimento para quem, literariamente, desmontou a perversão contida no livro sagrado, que durante muitos séculos de obscurantismo e de assanhada violência contra os não crentes foi apresentado como o verdadeiro depositário da verdade universal.
Possivelmente, o artigo foi soprado ao autor pelo ex-inquisidor-mor Ratzinger, agora papa, eleito pelos seus pares, em conclave, por inspiração do bafiento hálito do Espírito Santo, e de quem já conhecemos a intransigência e a sua intolerância a um qualquer desvio à instituída doutrina oficial do Vaticano, intransigência e intolerância estas que não soube demonstrar em relação aos clérigos envolvidos na pedofilia.
Procedendo a uma análise enviesada e distorcida, o autor do texto ignora a grandeza literária dos textos que comenta para se refugiar pateticamente em argumentos pueris, que eu já ouvia, quando, em criança, frequentava a catequese, ao mesmo tempo que deixa no ar, subtilmente, a ideia de que José Saramago seria um perigoso demente. Nem sequer lhe reconhecem a sua capacidade filosófica, que é uma das traves mestras da sua obra.

A última afronta a José Saramago...


As mais altas figuras do Estado não vão participar nas cerimónias fúnebres de hoje
O Presidente da República não vai interromper o
curto período de férias que está a passar nos
Açores, e que termina amanhã, para marcar
presença, hoje, em Lisboa, no funeral de José
Saramago, e o presidente da Assembleia da
República, a segunda figura do Estado, vai
prolongar a sua visita ao arquipélago. O líder
do principal partido da oposição decidiu manter
uma reunião do PSD e optou por enviar à cerimónia
Miguel Relvas.
PÚBLICO
***
Não era de esperar outra coisa. Um homem que tropeça na gramática constantemente, que não sabe conjugar verbos, que desconhece o número de cantos dos Lusíadas, que tem da cultura uma visão esteriotipada, cingida ao corridinho do Algarve, ao fado choradinho e à música pimba, não merece estar presente no funeral do escritor que mais divulgou no mundo a Língua Portuguesa.
A sua mediocridade intelectual, que não ultrapassa a de um vulgar guarda-livros e a sua insuficiência cultural, bem disfarçada pelos discursos que os seus assessores lhe escrevem, ofendem a grandeza do único escritor da lusofonia a ser consagrado mundialmente com o prémio Nobel da Literatura.
Cavaco Silva, que intencionalmente pretendeu ofender na morte José Saramago, depois de o ter ofendido em vida, ao caucionar o ignóbil acto censório da apresentação do seu livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo" a um prémio literário europeu, e protagonizado por um pigmeu do seu governo, arvorado em secretário de Estado da Cultura, mostrou não possuir estofo moral para ocupar o alto cargo de Presidente da República. Com esta atitude, Cavaco Silva mostrou querer ser apenas um presidente de alguns portugueses, precisamente daqueles portugueses que se acantonam na direita mais trauliteira e canhestra, ainda aninhada à sombra das sotainas da reaccionária igreja católica, que nunca perdoou a Saramago o seu ateísmo e a sua ideologia.
Mas, se Cavaco Silva, na sua indigente insignificância e com a sua atitude provocatória, não conseguiu ofender José Saramago, certamente, faltou ao respeito a todos os admiradores e leitores do grande escritor, onde eu me incluo. Por isso, assumo o meu direito de também não respeitar politicamente, a partir deste momento, o Presidente da República Cavaco Silva, voto que torno extensível ao presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, que, com a sua ausência nas cerimónias fúnebres, assumiu o mesma condenável intenção de querer ofender o último Príncipe da Literatura Portuguesa.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

Morreu um Príncipe da Literatura Portuguesa e um dos vultos mais marcantes da literatura mundial. José Saramago, cuja obra revolucionou a concepção do romance, vai perdurar na memória afectiva do futuro, porque a sua obra literária não morreu com ele. Novos leitores, que não o conheceram em vida ou que em vida o conheceram mal, irão descobrir a profunda humanidade que ressalta das suas personagens. Na densidade da trama ficcional que construiu, José Saramago ultrapassou o seu tempo, introduzindo na narrativa a figura do escritor omnipresente, o que lhe permitiu ultrapassar os limites temporais e espaciais da acção. Com ele, o narrador estava em todos os lugares, onde as suas personagens viviam e, como aconteceu na narrativa Caim, também conseguiu inverter a própria sequência do Tempo, estratégia subtil, que transmitiu uma grandeza bíblica ao respectivo texto, como se o narrador fosse o próprio deus do Génesis.
Aqueles que não lhe perdoaram a honestidade de propósitos nem a coerência das idéias, incomodando-se com o seu ateísmo e a sua ideologia marxista, vão ficar sossegados, porque morreu o homem que lhes fazia sombra. com o seu prestígio.
Como homenagem, deixo aqui um poema que dediquei a Saramago, inspirado precisamente no seu livro Caim, e que foi publicado no blogue Ponte Europa.
Adeus, José Saramago...
***
Dissertação sobre o Génesis...

A José Saramago,
O grande escritor, que alguns insultam,
mas que muitos admiram.


Só quando abriu a porta do paraíso,
para sair,
é que descobriu que havia
mais mundos
pensou que poderia encontrar
outra mulher
Eva nunca chegou a cortar-lhe
a respiração
embora tivesse a certeza que a trazia
bem fodida
como mandava a praxe divina
também não perdoava à mulher
aquela maldita maçã
que lhe ficou atravancada
na garganta
a subir e a descer, enquanto
falava ou comia
agora já sabia quem mandava
dentro e fora do paraíso
e, logo ali, veio-lhe à cabeça
que talvez pudesse encontrar outros homens
iguais a si
que se propusessem em conjunto,
o que seria uma novidade,
desafiar a soberba do Senhor,
ele lá deveria ter as suas fraquezas,
mas enquanto assim pensava
a olhar para os cardos e os calhaus
do caminho
arrepiou-se-lhe a pele, como a um ouriço,
pois o Senhor poderia ter-lhe adivinhado
aquele seu secreto pensamento,
Foda-se, disse Adão,
que mal fiz eu, para ter de vir ao mundo
e ter merecido este castigo divino,
por uma culpa que eu não consigo ver
e foi nesse momento de raiva, que se virou
para Eva, que vinha mais atrás,
como manda a regra,
e, no futuro, há-de mandar a tradição,
e lhe disse para abrir as pernas
pois viera-lhe, de repente, uma enorme vontade
de foder.

Alexandre de Castro
Ourém, Novembro de 2009