terça-feira, 22 de junho de 2010

Nota do meu rodapé: Falta injustificada para Cavaco Silva


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Saramago: Cavaco Silva diz ter cumprido obrigações como Presidente
O Presidente da República desvalorizou hoje “alguma
polémica estéril” gerada em torno da sua actuação
em relação à morte de José Saramago, garantindo ter
feito o que lhe competia como chefe de Estado.
... “Todos os portugueses sabem que desde quinta-feira
à noite estou nos Açores, em S. Miguel, cumprindo uma
promessa que fiz há muito tempo a toda a minha
família, filhos e netos, de lhes mostrar as belezas desta
região”, declarou Cavaco Silva.
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O Presidente da República não é nenhum camareiro-mor do palácio de Belém, nem o seu mordomo, e, muito menos, um simples burocrata, que despacha o expediente a determinar a hora do hastear da bandeira e o momento de tocar o hino, assim como o de ordenar o desfile da fanfarra na parada. O presidente da República tem de ser o presidente de todos os portugueses, sem excepção. Um programa de férias familiar não pode suplantar o seu dever de estar presente em actos oficiais de importância excepcional e em cerimónias públicas de elevado significado para o país. A sua desculpa, a justificar a sua ausência nas cerimónias fúnebres do escritor José Saramago, foi patética e desastrada. Por mais ramos de flores que encaminhasse para cobrir o féretro do grande escritor e por mais comunicados oficiais que mandasse publicar, não o desobrigavam do imperioso dever de marcar o acontecimento com a dignidade da sua presença. É que José Saramago não era um cidadão qualquer. Foi um escritor universal, que engrandeceu no mundo a Língua Portuguesa, e que só tem paralelo, a este nível, em Camões e Fernando Pessoa. Garrett, Sá e Miranda, Camilo Castelo-Branco, Eça de Queirós e Aquilino Ribeiro foram grandes escritores, mas a expressão literária universalista só acontece com aqueles três escritores. Por muito que isto custe a todas aqueles que, na sua mediocridade e insignificância, procuraram enxovalhar Saramago em vida e menosprezá-lo na morte, pode-se desde já afirmar que o futuro já colocou o escritor no Panteão das Letras.
Ao primar pela ausência, Cavaco Silva perdeu a oportunidade de participar na mais significativa manifestação de homenagem à Língua Portuguesa, através da homenagem a José Saramago, no seu funeral.
Recordo aqui o que se disse, quando se discutiu no país o Acordo Ortográfico. Muitos economistas avançaram com a ideia de que a Língua Portuguesa era um factor importante, não directamente contabilizável, ao nível da formação do PIB, já que tinha uma grande expressão mundial, em número de falantes. Como economista, Cavaco Silva não entendeu esta verdade.
Talvez tivessem razão, aqueles que, por razões nada edificantes, o queriam mandar ir, por antecipação, tomar conta dos netos.
http://publico.pt/Cultura/cavaco-silva-diz-ter-cumprido-obrigacoes-como-presidente_1442805

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