terça-feira, 8 de junho de 2010

Notas do meu rodapé: Campanha orquestrada para rever a História da República

O "S" incrustado na fivela do cinto e que os
acólitos de Salazar diziam ser a inicial de "Serviço"
(legenda do Alpendre da Lua)

Crianças vestem-se com fardas da Mocidade para reviver 100 anos de República
Mais de 1200 crianças do agrupamento de escolas
de Aveiro vão participar, quarta-feira, num projecto
escolar destinado a reviver os últimos cem anos da
história portuguesa, iniciativa já contestada pelo
Bloco de Esquerda.
iniciativa prevê a participação de um grupo de
crianças vestidas com roupas a simular as fardas
da Mocidade Portuguesa, o que para o deputado
bloquista Pedro Soares, consiste num “revisionismo
inaceitável da História”.
PÚBLICO
***
Querer comemorar os últimos cem anos da história portuguesa, no ano em que decorrem as celebrações do centenário da República, fazendo reviver a Mocidade Portuguesa, através da encenação de um desfile bafiento e saudosista, não é mais do que uma inqualificável provocação aos valores republicanos e democráticos dos revolucionários do 5 de Outubro.
É certo que esta iniciativa não aparece isolada, nem é um movimento espontâneo, gerado localmente. Ela obedece a um plano secreto, a desenvolver difusamente ao longo do ano, e engendrado pelas forças conservadoras, num alinhamento suspeito com a igreja católica, que nunca perdoou à República a sua genuína laicidade e a cessação e retirada de alguns escandalosos privilégios, de que beneficiou ao longo dos séculos. A Lei da Separação entre o Estado e a Igreja, institucionalização do divórcio e do Registo Civil (este último a destroçar o monopólio do registo paroquial, que funcionava como uma verdadeira instituição do Estado), e a anulação da influência dos jesuítas nas escolas e na universidade, através da implementação de uma profunda reforma do ensino, a todos os níveis, conduziu a igreja católica a constituir-se o principal inimigo da República.
E mesmo agora, a sua secreta influência não deixa de se manifestar ao nível das superiores instâncias do Estado e no seio da própria "Comissão Nacional do Centenário da I República", que parece estar mais preocupada em denunciar uma visão distorcida da República do que em promover os seus valores e evidenciar o seu enorme contributo para o progresso de Portugal.
Por métodos ínvios, pretende-se inculcar a ideia de que a República teria sido uma borbulha da história, ao arrepio dos valores tradicionais de uma monarquia decrépita e néscia, sempre aliada a uma igreja reaccionária, que depois o Estado Novo veio a recuperar.
E esta atitude revanchista em relação à República aparece muito bem equacionada na denúncia feita pelo coronel Varela Gomes (o militar da intentona de Beja) no seu artigo publicado jornal Alentejo Popular, de que se destaca o seguinte trecho:
"Com efeito, aberto oficialmente em 31 Janeiro 2010 o ciclo das comemorações e decorridos entretanto dois meses, os comentários, referências e opiniões que surgem através da comunicação social não denotam particular simpatia para com a I República Portuguesa. Pelo contrário. A tónica predominante é de apreciação negativa (depreciativa) com reticências várias e mesmo repúdio. Semelhante posição – sem dúvida, ideológica – é, só por si, paradoxal e extraordinária num contexto que se supõe celebrativo; mas, muito pior que isso, corresponde exactamente à posição oficial do regime fascista sobre a I República; martelada durante 50 anos (metade do centenário) na cabeça dos paizinhos da actual sociedade soi-disant democrática. Constatação estarrecedora que importa denunciar como advertência, em relação ao que poderá aí vir até o culminar das celebrações, a 5 de Outubro próximo. Na realidade, o teor dos sinais já emitidos suscita a maior das apreensões. O próprio presidente da comissão, segundo entrevista ( Público, 31 de Janeiro), lança um olhar crítico às realizações dos primeiros anos do regime republicano; embora afirme que "as comemorações justificam-se para divulgar a memória da I República". Num artigo de opinião (idem) pergunta-se em parangonas: "Uma revolução democrática ou a vitória dos extremistas?". Noutro texto salienta-se a violência da perseguição à Igreja, a permanente instabilidade, os radicalismos, etc., que marcaram os primeiros 16 anos do republicanismo. Trata-se de saudar a República como um avanço político/social ou de enterrá-la democraticamente?"

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