sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

Morreu um Príncipe da Literatura Portuguesa e um dos vultos mais marcantes da literatura mundial. José Saramago, cuja obra revolucionou a concepção do romance, vai perdurar na memória afectiva do futuro, porque a sua obra literária não morreu com ele. Novos leitores, que não o conheceram em vida ou que em vida o conheceram mal, irão descobrir a profunda humanidade que ressalta das suas personagens. Na densidade da trama ficcional que construiu, José Saramago ultrapassou o seu tempo, introduzindo na narrativa a figura do escritor omnipresente, o que lhe permitiu ultrapassar os limites temporais e espaciais da acção. Com ele, o narrador estava em todos os lugares, onde as suas personagens viviam e, como aconteceu na narrativa Caim, também conseguiu inverter a própria sequência do Tempo, estratégia subtil, que transmitiu uma grandeza bíblica ao respectivo texto, como se o narrador fosse o próprio deus do Génesis.
Aqueles que não lhe perdoaram a honestidade de propósitos nem a coerência das idéias, incomodando-se com o seu ateísmo e a sua ideologia marxista, vão ficar sossegados, porque morreu o homem que lhes fazia sombra. com o seu prestígio.
Como homenagem, deixo aqui um poema que dediquei a Saramago, inspirado precisamente no seu livro Caim, e que foi publicado no blogue Ponte Europa.
Adeus, José Saramago...
***
Dissertação sobre o Génesis...

A José Saramago,
O grande escritor, que alguns insultam,
mas que muitos admiram.


Só quando abriu a porta do paraíso,
para sair,
é que descobriu que havia
mais mundos
pensou que poderia encontrar
outra mulher
Eva nunca chegou a cortar-lhe
a respiração
embora tivesse a certeza que a trazia
bem fodida
como mandava a praxe divina
também não perdoava à mulher
aquela maldita maçã
que lhe ficou atravancada
na garganta
a subir e a descer, enquanto
falava ou comia
agora já sabia quem mandava
dentro e fora do paraíso
e, logo ali, veio-lhe à cabeça
que talvez pudesse encontrar outros homens
iguais a si
que se propusessem em conjunto,
o que seria uma novidade,
desafiar a soberba do Senhor,
ele lá deveria ter as suas fraquezas,
mas enquanto assim pensava
a olhar para os cardos e os calhaus
do caminho
arrepiou-se-lhe a pele, como a um ouriço,
pois o Senhor poderia ter-lhe adivinhado
aquele seu secreto pensamento,
Foda-se, disse Adão,
que mal fiz eu, para ter de vir ao mundo
e ter merecido este castigo divino,
por uma culpa que eu não consigo ver
e foi nesse momento de raiva, que se virou
para Eva, que vinha mais atrás,
como manda a regra,
e, no futuro, há-de mandar a tradição,
e lhe disse para abrir as pernas
pois viera-lhe, de repente, uma enorme vontade
de foder.

Alexandre de Castro
Ourém, Novembro de 2009

2 comentários:

fraguas disse...

MORREU UM HUMANISTA.
PENA É QUE ESTE POBRE PAÍS NÃO LHE TENHA DADO O DEVIDO VALOR EM VIDA.

José Gonçalves Cravinho disse...

A José Saramago o meu preito/de homenagem e gratidão/pois ele descreve a meu jeito/o absurdo da Religião.