segunda-feira, 14 de junho de 2010

Notas do meu rodapé: A redução de salários não favorece o desenvolvimento económico...


Começa a ser recorrente a referência (ameaça encapotada) à imperiosa necessidade de reduzir os salários em Portugal, se as medidas de restrição anunciadas nos dois PEC (o terceiro não tardará muito a ser anunciado) não conseguirem atingir os objectivos da redução do défice, que Bruxelas exige com desmedida urgência.
Portugal, como se pode ver no quadro, já é o país, entre os doze referidos, que apresenta, relativamente a 2008, o mais baixo salário médio mensal, 1.150 €, e que representa cerca de 45 por cento do salário médio mensal daqueles doze países e 69,3 por cento do da Espanha. Com um rendimento abaixo dos dois mil euros mensais, além de Portugal, apenas se encontram a Espanha, a Itália e a Grécia, precisamente aqueles países a quem está a ser imposto, devido às elevadas dívidas soberanas, planos de austeridade rigorosos.
Se aquela ameaça de redução salarial, entre os vinte a trinta por cento, vier a ser concretizada, é fácil de adivinhar a enorme tragédia que irá abater-se sobre os portugueses, cada vez mais indefesos e mais impotentes perante a chantagem do capitalismo financeiro internacional.
Com uma economia baseada nas pequenas e médias empresas, vocacionadas principalmente para o consumo interno, e que, no seu conjunto absorvem cerca de 80 por cento do emprego, mas apenas contribuem com 20 por cento para o produto, a diminuição do poder de compra dos consumidores vai provocar em cadeia a ocorrência de falências e mais desemprego. Ao contrário do que pensam os economistas neo-liberais, os ganhos obtidos pelas empresas com aquela redução de salários, que não representarão mais do que 3,5 por cento das suas despesas correntes totais, não compensarão as perdas induzidas pela diminuição acentuada das suas vendas. Para a economia, é pois errado pretender fazer qualquer recuperação, pretendendo obter ganhos de competitividade, através da baixa de salários.
Infelizmente, é isto que os países europeus, mesmo os mais ricos, se preparam para fazer, obedecendo cegamente ao perverso paradigma do neo-liberalismo que explica as crises como fenómenos necessários ao desenvolvimento da economia, ao limpar do mercado as empresas ineficazes, para que outras renasçam mais fortes e competitivas. O que não se diz, por conveniência, é que o resultado desta política acentua a concentração da riqueza e as consequentes desigualdades sociais.

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