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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um texto de Gonçalo M. Tavares*


"...Eu, de facto, gostava de querer, simplesmente, não interessa o quê, gostava de ter vontade de algo, mas nada. Entende?
- Entendo, sim senhor.
- Diante do mundo frio ou quente, encolho os ombros. Diante dos baixos e dos altos encolho os ombros, diante dos convites e dos ataques encolho os ombros. Enfim, começo a ter dores musculares.
- Onde?
- Nos ombros.
- Entendo. Mas sabe, o meu problema é diferente do problema de Vossa Excelência. Vossa Excelência, diante de um caminho que vira para a direita e um caminho que vira para a esquerda... não vira para lado nenhum. É isso? Senta-se, por assim dizer, a meio do cruzamento. É assim?
- Mais ou menos.
- Pois, comigo é o inverso: quero ir ao mesmo tempo para os dois lados; tenho duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo.
- Como? Como?
- Vou repetir: tenho duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo.
- Agora entendi. Vossa Excelência fala muito rápido.
- Mas é isso. Bem que facilitaria ter agora uma vontade e dois minutos depois a vontade oposta. Se fosse assim, apesar de tudo, resolver-se-ia. Mas assim: ter duas vontades exactamente opostas exactamente ao mesmo tempo... assim, é impossível viver.
- Impossível.
- É que eu viro os meus olhos para um lado e os meus pés para o outro. Tropeço, claro, e acabo por não ir para lado nenhum. No fundo, acabo como Vossa Excelência: no meio do cruzamento, imóvel.
- Eu diria que ter duas vontades opostas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter vontade nenhuma. Acaba sempre na imobilidade.
- É isso, excelência. É uma questão de matemática: duas acções com sinal contrário igual a... zero. Mais sete menos sete igual a zero.
- Portanto, como o final é o mesmo eu diria que a minha não acção é mais sensata: não faço força nem para um lado nem para outro, deixo-me estar.
- E está bem assim."
Gonçalo M. Tavares
* Texto e imagem do blogue CONVERSA AVINAGRADA.

sábado, 4 de junho de 2011

Um Poema ao Acaso: Um dentista - Gonçalo M. Tavares


Um dentista

Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher, e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.
Gonçalo M. Tavares

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um Poema ao Acaso: O menino


O menino

Obedece à verdade e não ao arco-íris,
a beleza queima mais que o fogo,
disse o velho pai. Obedece à verdade,
caminha como fazem os príncipes, nunca deixes
que os teus sapatos sejam mais largos que o teu pé;
não te dobres para levantar dinheiro do chão,
levanta-te, sim,
para dobrares o dinheiro.
Não te curves sobre o triunfo dos outros,
mas sim sobre o teu fracasso.
E se não me entenderes ou se algo para ti for confuso:
sai de casa,
e encontrando alguém observa-o longamente como um cientista
ou um apaixonado.
E só depois fala. E só depois age.
O menino fez então silêncio,
coçou uma borbulha irritante do joelho,
e depois nada disse: ficou calado a pensar noutra coisa.

Gonçalo M. Tavares