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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: A original revolução do Facebook que derrubou um ditador

Ralf Dahrendorf, um sociólogo alemão, falecido em 2009, e que foi director da London School Economics, afirmou premonitoriamente que as próximas revoluções não seriam feitas nem pelas classes médias, nem pelos operários, nem pelos partidos clássicos, mesmo os de orientação marxista, mas sim pelos jovens deserdados. Ralf Dahrendorf referia-se não só aos jovens das segunda e terceira gerações dos imigrantes europeus, que as políticas de assimilação ou de integração não conseguiriam socializar, mas também aos jovens dos países em desenvolvimento. Uns e outros fariam um novo tipo de revolução, baseada na extrema violência (o que não aconteceu no Egipto nem na Tunísia), por vezes gratuita e errática, sem qualquer carga ideológica e sem o mínimo de capacidade organizativa, o que os tornariam presas fáceis das forças repressivas do sistema e da demagogia falaciosa dos políticos. Estas ideias (citadas de memória) foram expressas por este sociólogo no rescaldo das primeiras revoltas dos jovens, de ascendência magrebina, dos subúrbios de Paris. Os jovens tunisinos e egípcios deram-lhe razão, em relação à primeira parte do enunciado. Falta saber, se a segunda parte também se concretizará.
Mas o que Ralf Dahrendorf não poderia prever (nem ninguém) era o aparecimento das novas tecnologias de informação na base da mobilização das massas populares, o que consagra uma outra revolução, dentro da revolução. Os analistas já lhe chamam a revolução do Facebook, já que foi através desta ferramenta informática que, no Egipto, três jovens líderes conseguiram com êxito pôr em movimento todo um povo. Nenhum general tem coragem de dar ordem de fogo sobre uma multidão de milhares e milhares de pessoas, e mesmo que avançasse com essa ordem, arriscava-se a não ser obedecido pelos seus soldados. O regime ditatorial ficou paralisado perante a velocidade da mobilização, facilitada pelo Facebook, e já não teve tempo de a estancar no seu início, mesmo que provocasse meia dúzia de mortes inglórias, que nos dias seguintes seriam esquecidas pela comunicação social.
O que se passou na praça Tahrir representa o início de um novo processo de agitação política, que os políticos, a partir de agora, irão temer e os sociólogos irão estudar. Acima de tudo, os políticos vão pretender que rapidamente seja encontrado um antídoto ou um potente escudo para desmontar este tipo de revolta, que se revela extremamente letal para as ditaduras.
É certo que a revolta do Egipto não nasceu por geração espontânea, pois a mobilização das pessoas, através da internet e das mensagens por telemóvel, foi testada anteriormente, desde 2008, para manifestações sectoriais, centradas em objectivos específicos e pontuais, tais como, por exemplo, o protesto contra a prisão de activistas e o protesto contra a prática da tortura. Faltava testar o processo num outro patamar, com um objectivo mais ambicioso, quando estivessem reunidas as condições necessárias para fazer uma grande mobilização geral que fosse ao encontro do profundo descontentamento das pessoas contra o regime.
Os jovens, todos com menos de trinta anos, Wael Ghonim, o executivo da Google, Bassem Samir, o presidente do CyberACT e da Egyptian Democratic Academy, e Raoof, o responsável de media da Global Voices e da Egyptian Initiative for Personal Rights, duas das organizações que lideraram a revolta, resolveram avançar decididamente, logo que se aperceberam da vulnerabilidade das ditaduras árabes, que o exemplo da Tunísia evidenciou. O êxito foi retumbante, o que vai catapultar a revolta do Egipto para os anais da História Contemporânea, pelo que ela teve de original e inovador, ao ponto de ter apanhado de surpresa e ultrapassado os clássicos partidos de oposição ao regime de Mubarak.
Resta agora saber, e isso será o objecto de um outro texto, se, na fase de consolidação da revolta, que será longa, difícil e perigosa, o facebook não terá de ceder o lugar aos partidos clássicos e se a tecnologia poderá prescindir das ideologias. Bassim Samir já pensa em organizar um partido político. Segundo o jornal PÚBLICO, este partido chamar-se-á Movimento Liberal 25 de Janeiro e pretende reunir todos os que acreditam na liberdade e iniciativa individuais. E, para justificar esta base programática, que eu considero minimalista, o activista afirmou: "A revolução da praça Tahrir mostrou como é determinante a vontade de cada um. Não foram necessários líderes nem organizações, para que as pessoas tivessem decidido ir para a praça. É nisso que acredito, e acho que a maioria dos jovens também. Ninguém simpatiza com os partidos religiosos. Se as pessoas querem fazer orações, vão à mesquita. Mas não queremos que ninguém nos diga o que devemos fazer na nossa vida. E também não aceitamos que nos peçam para sofrer nesta vida, porque seremos felizes na outra, depois da morte. Nós queremos aproveitar a vida agora."

Notas do meu rodapé: Não vai ser fácil o futuro do Egipto...


Conselho militar promete "transição pacífica" e respeito de acordos internacionais
O conselho supremo das Forças Armadas do Egito, no poder desde a renúncia de Hosni Mubarak na sexta-feira, prometeu garantir uma "transição pacífica" para "um governo civil eleito" e assegurou que vai respeitar os acordos internacionais assinados.
Diário de Notícias
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É de extrema importância que o conselho supremo das Forças Armadas do Egipto cumpra escrupulosamente todos os compromissos que assumiu perante o povo e que garanta um ambiente político propício ao desenvolvimento da democracia. A única maneira de evitar uma nova ditadura, pela acção de oficiais radicais, ou o fortalecimento da Irmandade Muçulmana, uma congregação religiosa, que na sua matriz original inscreveu o fundamentalismo islâmico, como ideologia e o recurso à violência terrorista, como instrumento de alcançar o poder do Estado e conduzir a guerra santa contra o ocidente, será permitir a livre constituição dos partidos políticos e a realização de eleições livres e transparentes, que exprimam a vontade maioritária do povo egípcio. Eu julgo, a avaliar pelos comentários expressos por comentadores egípcios, a residir nos países ocidentais, que a Irmandade Muçulmana não terá expressão eleitoral entre a população, principalmente entre os jovens, estes mais inclinados a quererem reproduzir no seu país o modelo turco.
Mas, por outro lado, os egípcios, que heroicamente lutaram pela liberdade na praça Tahrir, no Cairo e nas ruas de Alexandria e do Suez, não estarão dispostos a aceitar a ingerência de outros países nos seus assuntos internos e na sua política externa, tal como aconteceu durante o período em que decorreram as gigantescas manifestações. O presidente dos Estados Unidos, o primeiro ministro da Grã-Bretanha e a chanceler alemã fizeram intervenções desastrosas, não se coibindo de dizer em público o que é que os dirigentes egípcios deviam ou não deviam fazer, perante a inesperada revolta popular. Obama, ao falar vagamente, utilizando os estereótipos sobre a democracia e a liberdade, até deu a entender que só agora é que descobrira que Mubarak era um ditador, tentando iludir da opinião pública o relacionamento intrincado e cúmplice dos sucessivos governos dos Estados Unidos, primeiro com Anwar Sadat e, depois, com Hosni Mubarak. O Egipto, um país de um grande interesse estratégico para a política dos Estados Unidos no Médio Oriente, foi utilizado para jugular a construção de um estado palestiniano, tal como foi decidido em 1948, quando a ONU aprovou a constituição do Estado de Israel. Mubarak comportou-se, durante o seu longo mandato, como um verdadeiro agente da política externa dos Estados Unidos, chegando ao ponto de encerrar a fronteira entre o Sinai e a Faixa de Gaza, para encurralar os palestinianos, que ali residem, completando assim o cerco imposto por Israel, numa grosseira violação do Direito Internacional. A intransigência de Israel e dos Estados Unidos e a complacência da União Europeia, que sempre sabotaram a constituição de um estado palestiniano livre e independente, desautorizando a Autoridade da Palestina, conduziu à radicalização da luta dos palestinianos e permitiu que o Hamas, um movimento político extremista e fundamentalista, por sinal, formado e inspirado pela Irmandade Muçulmana, se apoderasse do governo da Faixa de Gaza.
Se os Estados Unidos não refrearem a sua pulsão imperialista e, no futuro, tentarem impor ao Egipto a política que melhor serve a sua estratégia, arriscam-se a criar as condições para os egípcios se virarem para o radicalismo da Irmandade Muçulmana.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito e a Luta pela Democracia - documentário completo

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Não se interroguem muito sobre a origem ou sobre os objectivos (in)confessados, que eu também não sei, da sayfeen.com, uma ONG dirigida por activistas egípcias da classe média alta, e que, aliás, não escondem o seu confortável modo de vida, a contrastar com a miséria da maioria dos seus compatriotas. O facto da principal activista ter sido recebida, embora folcloricamente, por George W. Bush, poderá dizer muito sobre as suas cumplicidades ou sobre a suas ingenuidades. Deixemos-lhes o benefício da dúvida, uma vez que, inegavelmente, correram riscos, na sua militância política, ao fazerem a denúncia vigorosa da falta de liberdade e de democracia no seu país. O testemunho do seu registo, o melhor que encontrei, legendado em português, mostra bem a natureza ditatorial do poder político que dominou o Egipto durante várias décadas. E há também uma coisa que elas não querem: o domínio do país por um partido fundamentalista, saído da Irmandade Islâmica.

Foi lindo! Foi mesmo muito lindo!...


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Conquistou-se a Liberdade! Falta conquistar a Democracia!...
Foi lindo! Foi mesmo muito lindo! Senti novamente aquele frémito a eriçar-me a pele e aquele nó a apertar-me a garganta, por também sentir aquele grito de liberdade de um povo que não se resignou às amarras do despotismo e da servidão. Foi uma revolução exemplar, tal como aquela que nasceu naquela madrugada redentora, com os cravos a florirem nos canos das espingardas. Se o 25 de Abril, por ricochete, fez cair as ditaduras militares que ainda subsistiam na Europa e na América Latina, demonstrando que as Forças Armadas podem ser libertadoras, também no Egipto se mostrou ao mundo que o povo unido jamais será vencido. E no Egipto, foi o povo, o povo apenas, que fez a revolução, uma revolução pela Liberdade, sem ideologia e sem religião. Simplesmente a Liberdade. Aquela gigantesca mole humana - a mover-se em uníssono, a crescer dia após dia, numa sedução irresistível ao encantamento, como se fosse um rio, o mítico rio Nilo, a transbordar das margens para engravidar a terra, para que a semente da liberdade crescesse nas praças e nas ruas – emocionou o mundo até às lágrimas.
É possível! É possível conquistar a Liberdade, disseram os egípcios. É possível derrubar os ditadores, onde quer que eles se encontrem, mesmo que disfarçados por democracias plastificadas. É possível mover a Terra! É possível reescrever a História! É possível conquistar a Bastilha!
Agora, falta conquistar a Democracia. E aí, os lobos já estão à espreita.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ahmed Ezz: o homem que "suga o sangue" dos egípcios

Hosni Mubarak é a cara do regime ditatorial do Egipto, mas por detrás do Presidente está o verdadeiro homem forte: Ahmed Ezz, amigo próximo e confidente do filho de Mubarak, Gamal, e empresário leal do partido do poder que beneficiou bastante com esta ligação mas que agora se tornou num incómodo para o regime e um alvo dos manifestantes que pedem o afastamento de Mubarak.
"Ahmed Ezz suga o sangue às pessoas. É o único homem que pode vender aço em todo o Egipto e vende-o muito mais caro do que se pudéssemos comprar a algum país como a China", afirmou Osama Mohamed Afifi, um estudante presente nos protestos contra o regime. O edifício da empresa de Ezz já foi incendiado três vezes desde o início dos protestos e é apontado como o exemplo de tudo o que está mal no regime de Mubarak.
O New York Times descreve este homem como a representação "da intersecção entre dinheiro, política e poder, controlando dois terços do mercado do aço, liderando o comité do orçamento, como membro do Parlamento, e agindo como leal tenente do partido do governo".
Diário de Notícias
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Esta notícia demonstra de uma forma clara o que se afirmou no post anterior. A hidra cresceu tanto, que já não basta cortar-lhe os tentáculos. É necessário cortar-lhe a cabeça.
http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1777744&seccao=M%EF%BF%BDdio+Oriente

Fortuna de Mubarak não chega aos 50 mil milhões de euros

A revista Forbes considera "improvável" que a fortuna do presidente do Egipto ascenda aos 70 mil milhões de dólares (51 mil milhões de euros), o que o transformaria na pessoa mais rica do mundo.
No seu site na Internet, a revista norte-americana, que elabora um ranking anual das pessoas mais ricas, considera aqueles números, divulgados na última semana pelo diário britânico The Guardian e pelo canal televisivo dos Estados Unidos ABC News, entre outros, como "exagerados" e "não demonstrados".
Diário de Notícias
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Parece que falta apenas um euro para que que a fortuna de Mubarak ascenda, rigorosamente, aos 51 mil milhões de euros. Eu ofereço esse euro, para que o director da revista Forbes acerte as contas.
Se não houvesse mais argumentos importantes para exigir a demissão deste ditador, este, o da sua fortuna pessoal, obtida pelo esbulho e pela corrupção, seria suficiente, não só para o demitir, mas também para o julgar em tribunal.
O mundo está a acordar para uma realidade terrível e que tem a ver com a estratégia do grande capital financeiro e económico, que, para garantir a viabilidade do sistema neoliberal, impondo-o a nível planetário, recorreu ao recrutamento de sólidas fidelidades, através da corrupção dos dirigentes políticos, sejam eles ditadores, como nos países mais pobres, sejam eles assumidos democratas, como nos países ocidentais, onde os processos da acumulação de fortunas pessoais são mais discretos. E, naturalmente, Portugal não é excepção.
Só para dar um exemplo deste conúbio abjecto entre a política e o mundo dos negócios, destaco, além deste artigo sobre a fortuna pessoal de Mubarak, mais três títulos da imprensa de hoje, e que, naturalmente, despertam legitimamente fundamentadas suspeitas:
- Bancos (portugueses) mantêm lucros mas pagam menos impostos.(DN)
- Metade dos donativos aos Tories veio do sector financeiro. (DN)
- TMN justifica destruição de registos telefónicos do Face Oculta com questões de ordem técnica. (PÚBLICO)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: Já há fumo branco no Cairo?


Comité deverá estudar reformas constitucionais
O Governo egípcio e membros da oposição acordaram a formação de um comité que vai preparar alterações à Constituição até à primeira semana de Março. A notícia foi avançada no final da reunião que colocou à mesma mesa o vice-presidente, Omar Suleiman, e a Irmandade Muçulmana.
PÚBLICO
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Com a constituição deste comité, entre o governo e as forças da oposição, com a missão de preparar alterações à Constituição, a liderança da actual situação política sai da rua, onde tem andado, e volta para os gabinetes dos políticos. A desmobilização dos manifestantes vai ser conseguida com este expediente, pois não fará sentido que as forças da oposição entrem com um pé em negociações com o governo e deixem o outro pé na praça Tahir.
A Irmandade Muçulmana, ao deixar cair a sua principal exigência, de só aceitar negociações, após a retirada da cena política de Mubarak, legitimou, de certa maneira, a liderança do recém-nomeado vice-presidente Omar Suleiman, naquela que é a sua primeira intervenção visível no exercício do seu cargo. Tal reunião seria impossível de realizar com Mubarak. Mas, por outro lado, a Irmandade Muçulmana também somou pontos ao ser reconhecida como parceiro na actual situação política. Ganhou visibilidade interna e externa. Para um movimento, que foi ferozmente perseguido pelo regime e que foi obrigado a transferir a sua intensa actividade política fundamentalista para a clandestinidade das mesquitas, onde a polícia não se atrevia a entrar, com receio de ser acusada de profanação, este reconhecimento e esta visibilidade vêm ao encontro dos desejos do seu actual líder, Mohamed Badie, que optou por uma estratégia discreta, que não despertasse muita atenção aos inimigos do Islão, ao mesmo tempo que poupava os seus militantes às perseguições policiais.
Omar Suleiman, que é visto como um homem duro, aparece junto dos seus concidadãos com uma imagem tolerante, a manifestar abertura, o que lhe será proveitoso para vir a ser o próximo chefe incontestado do regime.
Apena falta conhecer o destino de Mubarak e o comportamento dos manifestantes. Quer um, quer outros podem desfazer este equilíbrio.
http://publico.pt/Mundo/comite-devera-estudar-reformas-constitucionais_1478849

Notas do meu rodapé: A revolução em que todos chegaram atrasados...

EUA pressionam Cairo a deixar cair Mubarak
O dia que a oposição esperou fosse o da "partida" do Presidente egípcio, terminou com todos os cenários políticos em aberto e do Cairo não chegou qualquer indício de que o regime esteja prestes a deixar cair Hosni Mubarak, apesar das multidões concentradas no Cairo e da pressão crescente da diplomacia ocidental.
PÚBLICO
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A revolução do Egipto é a revolução mal amada, em que, com a excepção do povo, todos os principais intervenientes, com verdadeiro poder de decisão, chegaram atrasados. Barak Obama, que ainda está a tentar, na Tunísia, que a situação fique na mesma, alterando qualquer coisa, ainda julgou, quando das primeiras manifestações nas cidades do Cairo, Alexandria e Suez, que poderia aguentar no poder o seu fidelíssimo aliado, Hosni Mubarak. Já se percebeu, agora, que, para Obama, o ditador já ultrapassou o seu prazo de validade, e que a sua teimosia em não abandonar o poder, só poderá complicar a situação, atirando o povo para os braços da discreta Irmandade Muçulmana, que é a organização mais importante das forças do radicalismo islâmico. Não nos esqueçamos que foi da Irmandade Muçulmana, fundada por um fanático muçulmano, Hasan al-Banna, um admirador e aliado de Adolfo Hitler, que saiu Ayman al-Zawahiri, braço direito de Osama bin Laden, o criador da Al-Qaeda, e Mohamed Atta, um dos suicidas que fez destruir as Torres Gémeas em 2001.
A Irmandade Muçulmana, por cálculo estratégico, também chegou atrasada. Embora tivesse sido apanhada de surpresa pela dimensão da vaga de protesto, o seu actual líder, Mohamed Badie, não quer assustar os países ocidentais, nem as ditaduras dos regimes árabes, compremetidos com os Estados Unidos, exibindo a sua enorme força. Só ao fim de quatro dias, depois das primeiras manifestações de protesto, é que Mohamed Badie activou as suas células de militantes.
O Exército, a força mais importante do Egipto, e o verdadeiro sustentáculo do regime fundado por Nasser, em 1952, hesitou num primeiro momento sobre a atitude a tomar em relação a Mubarak, o general da Força Aérea, herói nacional das guerras travadas com Israel, e que, como vice-presidente, subiu ao poder, há trinta anos, após o assassinato do presidente Sadat, perpetado por elementos da Irmandade Muçulmana, durante um desfile militar. Desconhece-se o equilíbrio de forças existente entre as altas patentes das Forças Armadas. Num primeiro momento, a nomeação para vice-presidente de Omar Suleiman, o mais poderoso espião do Médio Oriente, dava a entender que a solução já estaria encontrada, e que aquela saída dos tanques para a rua, no auge das manifestações, com a promessa de que nunca atacariam o povo, fazia parte da manobra para ganhar tempo, deixando que os ânimos arrefecessem.
Mas, no entanto, Mubarak não aceitou a carta de despedimento com justa causa, que o povo, nas ruas, lhe endereçou. E se Mubarak não saiu, é porque tem apoios fortes nas altas esferas militares, que, possivelmente, não querem aceitar uma solução vinda da rua ou dos países aliados, o que demonstraria a sua fraqueza. Esta posição dos militares, que defendem a continuação de Mubarak na presidência, até ao fim do seu actual mandato, parte do pressuposto de que é necessário mostrar firmeza para que a Irmandade Muçulmana não venha alimentar veleidades de querer atingir o seu principal objectivo secreto, que faz parte da sua matriz original, e que se consubstancia no estabelecimento no Egipto de uma ditadura teocrática islâmica.
Esses militares só cederão nas suas inflexíveis posições se os Estados Unidos fizerem chantagem com os 1300 milhões de dólares anuais de ajuda militar.
A União Europeia, como sempre, também chegou atrasada, e com a agravante de não ter conseguido consenso na ameaça de cortar a ajuda ao Egipto, no valor de 449 milhões de euros entre 2011 e 2013.
Por aqui se vê a hipocrisia dos países ocidentais. Desencadeiam guerras para instaurar regimes democráticos, mas depois financiam as ditaduras.
http://publico.pt/Mundo/eua-pressionam-cairo-a-deixar-cair-mubarak_1478755?p=2

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: Na Praça de Tahir ignorou-se a influência dos Estado Unidos

Depois da revolta pacífica, a violência no Cairo
Os confrontos físicos espoletaram por volta do meio-dia locais, quando apoiantes de Hosni Mubarak romperam as linhas militares de segurança na Praça Tahrir (da Libertação), montados a cavalo e em camelos, e empunhando paus e chicotes.
Três camiões militares chegaram a ser tomados por apoiantes de Mubarak, bloqueando as entradas da praça. Apesar dos apelos à calma gritados por altifalantes, eram disparados tiros para o ar e havia pedras a voar por todo o lado, descreveram vários media internacionais presentes no local. O Exército – que mais tarde viria a abandonar a praça – não interveio nos confrontos.
PÚBLICO
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Parece que o objectivo principal dos manifestantes da praça Tahir não vai ser alcançado. Mas, com em todas as revoluções, há sempre um pré-anúncio, que normalmente sai frustrado. Como escreveu o comentarista político Alan Woods, "No momento em que todo o povo se levanta e diz «não», nenhum Estado, exército ou força policial do mundo pode detê-lo".
Ao movimento popular egípcio, genuíno e pleno de autenticidade, faltou a direcção política, fundamental para centralizar e coordenar qualquer acção revolucionária. Os egípcios entraram na grande vaga que teve o seu epicentro na Tunísia, dando razão à opinião da maior parte dos analistas não comprometidos, que previam a ocorrência de um efeito dominó, a propagar-se pelos países do Magreb e do Médio Oriente. E o Egipto e o Iémem do Sul foram os países que primeiro receberam o embate dessa gigantesca onda. Em Marrocos, na Argélia, na Jordânia e na Arábia Saudita, também estão presentes os mesmo ingredientes que serviram de rastilho à revolução tunisina: ditaduras ferozes, ausência de liberdades, níveis elevados de pobreza, regimes submetidos ao imperialismo americano, corrupção, enriquecimento escandaloso das classes dirigentes e uma taxa elevadíssima de desemprego, que afecta principalmente os jovens, principalmente os mais qualificados. Uma realidade potencialmente explosiva, que mais tarde ou mais cedo irá mudar o rumo da História naquela importante região do mundo.
Mas, além da ausência de uma cabeça política, o movimento da praça Tahir enfrentou um outro obstáculo de monta, que não se apresentou aos tunisinos: os interesses vitais dos Estados Unidos. O Egipto é uma peça central para os Estados Unidos no tabuleiro do Médio Oriente. Desde que Anwar Al Sadat reconheceu o Estado de Israel, visitando a Jesuralém ocupada pelos sionistas, e assinou o Tratado de Paz de Camp David, o Egipto tornou-se um aliado subserviente dos Estados Unidos. Não é por acaso que é o Egipto o país mais apoiado pelos Estados Unidos em material bélico, o que lhe permite ter umas forças armadas poderosas e uma força policial temível. E os generais egípcios, que têm um influência política importante, agora mais pronunciada, devido à fragilidade de Mubarak, sabem que têm de seguir as secretas instruções do governo americano, já que em Washington existem fundados receios de que um outro qualquer governo, seja ele laico ou assumidamente islâmico, venha a alterar a correlação de forças, mudando de campo e de política. Se Mubarak resistiu e não fez as malas para fugir para Londres, onde já lá colocou a família, por precaução, e onde tem a sua fortuna pessoal, é porque o o governo doa Estados Unidos assim o exigiu ao poder político egípcio, ao mesmo tempo que a CIA aconselhou a manobra para quebrar a força popular, mandando os serventuários e os agentes policiais do regime, à paisana, disfarçados de apoiantes de Mubarak, fazer uma contra-manifestação, com recurso à violência, evitando-se assim comprometer o exército. Impõe-se perguntar de onde vieram os camelos e os cavalos desses contra-manifestantes, assim como será legítimo perguntar a razão por que o exército ficou inactivo perante o confronto violento que ocorreu, com a agravante de ter deixado roubar pelos contra-manifestantes dois carros de combate.
http://publico.pt/Mundo/depois-da-revolta-pacifica-a-violencia-no-cairo_1478351?all=1

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: Todos os caminhos vão dar ao Cairo

ElBaradei pede a Mubarak que saia do Egipto
Milhares de egípcios já se acumulam nas ruas do Cairo, indiferentes ao anúncio de uma mudança de Governo e de abertura do diálogo, no dia em que estão marcadas, para várias cidades, marchas que têm como objectivo simbólico juntar um milhão de manifestantes.
Multidões reúnem-se no centro do Cairo (cerca de 100 mil pessoas, às 12h00 locais), muitos tendo passado a noite na praça Tahrir (da Libertação) em desafio à ordem de recolher obrigatório, exigindo o fim do regime do Presidente, Hosni Mubarak, 82 anos e há já três décadas no poder, num protesto que foi engrossando desde a passada terça-feira contra a pobreza e desemprego, a corrupção e a ausência de representação de vastíssimas fatias da população, em particular dos jovens, cada vez mais numerosos.
PÚBLICO
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Hoje, todos os caminhos já não irão dar a Roma. Vão dar ao Cairo, mais propriamente à Praça Tahrir. O Egipto está a reescrever a sua História e quer entrar na modernidade, tal como o povo tunisino, há umas semanas atrás, e tal como vai acontecer, a seguir, nos países do Magreb e do Médio Oriente, que ainda estão amordaçados por regimes totalitários.
Pode-se até dizer que o futuro desses povos será decidido hoje ou amanhã pelo povo egípcio. Se Hosni Mubarak cair, cairá também o paradigma de toda uma estrutura política e ideológica, construída pelos militares árabes, que fizeram no pós-guerra revoluções vitoriosas contra monarquias corruptas, mas que acabaram por se transformar em ditaduras ferozes, igualmente corruptas.
Esta revolução (a da Tunísia e a do Egipto) é uma revolução feita pelos jovens, que descobriram que a mudança que preconizam exige o afastamento das ditaduras e dos movimentos políticos islâmicos. Os jovens são os verdadeiros catalisadores do que está acontecer no Magreb e no Médio Oriente e, politicamente, já não se revêem nos generais emproados nem na vozearia dos mullahs radicais. .
Os militares egípcios, que detêm realmente o poder, compreenderam esta evidência. De nada lhes valerá destituir Mubarak e substituí-lo por um outro potencial ditador, mantendo a mesma estrutura de poder. Também a Irmandade Muçulmana, a única oposição política, tolerada por Mubarak, foi apanhada de surpresa por este impetuoso e espontâneo movimento popular, nada mais lhe restando do que manifestar-lhe o seu tímido apoio, já que não o poderá liderar. A instauração de um regime democrático é a única alternativa.
O eco longínquo da revolução dos cravos parece ter chegado ao Cairo.