Deixo-vos um dramático
depoimento de uma leitora anónima, que foi publicado no espaço dos comentários
de um texto meu, no Alpendre da Lua, datado de 21 de Abril, e que pode ser visto aqui.
Foi como se um raio me
varasse de alto a baixo, fulminando-me. E toda a raiva que eu senti subiu-me
até aos dentes e fez-me doer o peito.
Nunca tinha enfrentado
uma situação destas, uma alarmante situação que me confundiu e que me levou ao desencontro
comigo mesmo, tal foi o impacto do choque emocional que me abalou. Senti-me
perdido no meio do desespero agarrado àquelas palavras de chumbo, que me
queimavam a língua. Destroçado pela violência do testemunho e humilhado pela
minha impotência, contive o grito de revolta, que me sufocava, chorando por
dentro, em silêncio.
Alinhavei a resposta possível,
aquela que me pareceu mais oportuna para tentar impedir o fim trágico de uma
vida, que está a sucumbir, cedendo ao desalento e anunciando a sua desistência.
Muito gostaria que a
esperança pudesse renascer naquele coração que se quer recusar a viver.
Da resposta imediata, que lhe enviei, ainda não obtive qualquer reação. Espero que a leitora anónima apareça por aqui, mais animada.
Da resposta imediata, que lhe enviei, ainda não obtive qualquer reação. Espero que a leitora anónima apareça por aqui, mais animada.
Alexandre de Castro
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O comentário da leitora anónima
Eu e o meu melhor amigo já fomos empregados
decendemente pagos. Ele agora tem de trabalhar 10 a 12 horas por dia, esgotadao
e mal ganha para manter a casa. Eu estive desempregada muito tempo e agora
voltarei ao desemprego. Sonhei ter uma vida de classe media, decente, ter
contas pagas, fazer arte e desporto. Mataram-me. Esperança é uma palavra
estupida que eu já não quero ouvir. Não estou a viver. Fiz o mesmo que qualquer
Hans noruegues ou Karen sueca ou Gerard suiço. Mereço o mesmo. Dignidade,
felicidade. mas não há. Não queremos emigrar queremos viver aqui. Gostamos de
viajar mas nunca seremos felizes lá fora. tenho quase 40 anos, sei o que gosto
e o que quero. Estudei, trabalhei, anos e anos, no duro. Agora acabou. Estou a
tentar as ultimas possibilidades, mas no final deste ano se não ficar
resolvido, vou partir. Eu e o meu amigo. Mas não é pra outro país. É para fora
deste mundo. Não vale a pena viver. Adeus amigos, coragem,
19 de Maio 2014
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A minha
resposta
Querida amiga anónima:
Fiquei atordoado e muito emocionado com o seu
depoimento, que traduz bem o seu desespero, que é também um desespero de todos
nós, daqueles que, abnegadamente, dentro das possibilidades de cada um, lutam
incansavelmente contra a trágica tirania que se abateu sobre o humilde povo
português.
Faço-lhe um veemente apelo para encontrar no
mais íntimo de si um fio de coragem e uma centelha de ânimo.
Eu compreendo-a, mas ficaria feliz se, através
da minha palavra, conseguisse levá-la a desistir dos seus desesperados intentos
e a começar a resistir, lutando.
Coragem, minha amiga.
AC
20 de Maio 2014
