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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A propósito da Festa do Avante


Quando surgiu a polémica, a propósito da decisão do PCP, de pretender organizar, este ano, em tempos de epidemia, a Festa do Avante (a maior manifestação política de Portugal), eu defini, apenas para mim mesmo, e com algumas dúvidas e hesitações, a minha posição. 
Não a divulguei imediatamente, neste espaço, pois preferi aguardar por outras opiniões, que inevitavelmente iriam surgir. E surgiram muitas, e muitas delas trazendo à ilharga um feroz anti-comunismo. É o costume.
E a minha posição é a que apresento a seguir, e que já publiquei noutro local.


Festa do Avante: Sim ou Não?

"Tudo vai bem, quando tudo corre bem. O pior será se o André Ventura infiltrar, no espaço do evento, uma vintena de contaminados (pagos), e, nos dias seguintes, emergir uma corrente de transmissão, entre pessoas, que estiveram na Festa do Avante. Aí, cai o Carmo e a Trindade.
É elevada a probabilidade de se gerarem várias cadeias de contaminação, num agregado de milhares de pessoas. E esta asserção, baseada nas probabilidades e nas estatísticas, deve sobrepor-se aos argumentos de ordem políticos e partidários, porque, em primeiro lugar, está em causa a defesa da Saúde Pública".

Declaração de interesses: Sou simpatizante do PCP, desde antes do 25 de Abril, votei no PCP em todas as eleições realizadas e fui candidato do PCP, à presidência da Câmara Municipal de Ourém, nas penúltimas eleições autárquicas.

Alexandre de Castro
Lisboa, Agosto de 2020

sábado, 31 de março de 2018

A política também é feita de humor…


A política também é feita de humor…

Por vezes, os dirigentes comunistas são criticados por terem um discurso político rígido, hirto e muito formal, como se fosse desenhado a régua e esquadro e talhado e moldado pela foice e pelo martelo, e em que faltam as subtilezas da linguagem, que, uma vez bem enquadradas, podem ter um efeito corrosivo enorme.
Foi esse efeito corrosivo, engalanado por uma subtil e oportuna ironia, que Jerónimo de Sousa conseguiu desmontar a gratuitidade (e, também, alguma hipocrisia) daquelas frases chavão, sonoras e grandiloquentes, que exprimem pensamentos sublimes e sedutores. mas que apenas valem pela sua amplitude metafórica, não tendo nenhuma repercussão na realidade vivida e sentida.
E com esta frase de antologia, "PCP defende aumentos salariais para que Marcelo deixe de ter vergonha da pobreza" Jerónimo de Sousa, sem deixar de fora o que politicamente exigia, arrasa, de uma penada, a vacuidade do pomposo discurso político, em que o disfarce, a demagogia e até a mentira andam de mãos dadas.

Alexandre de Castro
2018 03 31

domingo, 18 de março de 2018

Bloco Central informal...


PCP afirma estar em curso no país um "Bloco Central informal" PSD/PS


O secretário-geral do PCP afirmou hoje que está em curso no país um "Bloco Central informal" entre PSD e PS, convergência em que os sociais-democratas já preparam uma revisão constitucional a pretexto de uma reforma na justiça.
Jerónimo de Sousa [In NOTÍCIAS AO MINUTO]


***«»***


Vai ser um Bloco Central informalmente formal

O Partido Socialista fez um casamento, com separação bens, com os partidos de esquerda, mas, agora, quer continuar a ir dormir à casa da amante, com quem, aliás, sempre andou a dormir. E este adultério é apadrinhado pelos seus primos políticos de Bruxelas e de Berlim, que sempre torceram o nariz a este casamento, considerado politicamente contra natura.

O doutor Costa, em breve, vai começar a dizer que não se tratou de um casamento, mas sim de um arranjinho de ocasião, para satisfazer as necessidades do poder, e já começou a construir a metáfora adequada às suas ambições, (as partidárias e as pessoais), em que o Partido Socialista será o árbitro de um combate de boxe, entre a esquerda e a direita, quando afirmou que é necessário fazer consensos alargados com todo o espectro político, uma vez que estão em causa grandes opções, ligadas à UE, e que vão repercutir-se nas várias legislaturas futuras, o que é uma grande falácia, pois é na cozinha de Bruxelas que se escolhem as ementas e se cozinham os pratos, dispensando-se os temperos que o doutor Costa julga (ou finge que julga) poder acrescentar.

Alexandre de Castro
2018 03 18

domingo, 29 de outubro de 2017

NOTA DO GABINETE DE IMPRENSA DO PCP _ Sobre a Catalunha...


NOTA DO GABINETE DE IMPRENSA DO PCP

Sobre a Catalunha
e os desenvolvimentos relativos
à questão nacional em Espanha

28 Outubro 2017

O PCP sublinha que a questão nacional em Espanha tem de ser considerada com a complexidade que a história e a actual realidade daquele País encerram.
A resposta a esta questão, designadamente na Catalunha, deve ser encontrada no quadro do respeito pela vontade dos povos de Espanha e, consequentemente, do povo catalão.
São profundamente criticáveis as atitudes do Governo espanhol, na base da intolerância, do autoritarismo, da coacção e da repressão.
O PCP considera preocupante, incerta e perigosa uma escalada de factos consumados, que abra espaço ao inaceitável e condenável procedimento que o Governo espanhol protagoniza, e não só face a esta situação, como em aspectos gerais de que é exemplo a «Lei da mordaça», que ataca liberdades políticas e democráticas fundamentais.
É evidente que, a coberto da actual situação, se promovem valores nacionalistas reaccionários e tomam alento sectores fascistas franquistas, que durante dezenas de anos oprimiram os povos de Espanha.
O PCP alerta para manobras de certos sectores que visam iludir as suas responsabilidades numa política de classe contra direitos laborais e sociais por via da instrumentalização de sentimentos nacionais.
A realidade está a demonstrar que a solução para a questão nacional em Espanha deverá ser encontrada no plano de uma solução política, que a integre no quadro de uma resposta mais geral que assegure os direitos sociais e outros direitos democráticos dos trabalhadores e dos povos de Espanha, incluindo do povo catalão.
Esta é a posição do PCP, cujo conteúdo se diferencia das posições do Governo português e do Presidente da República, designadamente face à sua omissão quanto ao respeito da vontade dos povos nesta situação.
Sobre as formas usadas para a afirmação dos sentimentos nacionais na Catalunha, designadamente a declaração de independência produzida, o PCP não se pronuncia especificamente, adiantando como elemento de carácter geral a ideia que considera preocupante uma escalada de factos consumados.

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De nada vale reclamar a legalidade constitucional, quando essa legalidade não é aceite pelo povo. E o povo catalão não quer ser espanhol.

Também o golpe militar do 25 de Abril era ilegal, à luz da Constituição do regime fascista de Salazar/Caetano e, no entanto,essa legalidade sucumbiu, perante a euforia do povo de Lisboa, que se juntou aos militares revoltosos.

As manifestações em Espanha, contra a independência da Catalunha, mostraram que o movimento fascista/franquista está a levantar a cabeça, e os partidos ditos democráticos, os da direita e o PSOE (socialista), convivem alegremente com esses partidos e movimentos, que se reclamam herdeiros do pensamento de Franco.

Há um direito histórico na Catalunha que legitima a declaração unilateral de independência, independência essa que foi usurpada pela guerra e pela consequente ocupação.

Alexandre de Castro
2017 10 29

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Morreu Aurélio Santos


Morreu Aurélio Santos

Aurélio Santos foi um exemplo perfeito do intelectual comunista. Dele, guardo a memória do homem discreto e do militante empenhado. Foi o grande obreiro da Rádio Portugal Livre, uma das poucas fontes de informação nacionais fidedignas, antes do 25 de Abril, e que nós ouvíamos, fechados em casa, em tom baixo, e com o ouvido colado ao aparelho, não fosse um esbirro estar a espiar-nos, na rua.

Já são poucos os militantes vivos dessa segunda geração de comunistas, que atravessaram as décadas de cinquenta e sessenta, do século passado, na mais dura clandestinidade. Ao seu trabalho político se deve a infiltração do Partido Comunista no meios universitários, onde agitou o mundo estudantil, através de greves às aulas e das manifestações no espaço das universidades.
A minha homenagem...

Alexandre de Castro
2017 10 02

sábado, 4 de março de 2017

Parece-me que os comunistas não andam a dormir.


Rui Rio diz que PSD já devia ter-se demarcado do "lamentável dossiê"

Paulo Núncio já assumiu a responsabilidade política por essa não publicação - depois de num primeiro momento ter responsabilizado a Autoridade Tributária - mas agora a maioria de esquerda quer que Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque também o façam. Pelo menos quanto a Maria Luís há um documento oriundo do seu gabinete no Ministério das Finanças, dirigido ao PCP, em que é patente a ocultação de dados sobre as transferências para paraísos fiscais, dados que os comunistas insistentemente pediram, pelo menos desde 2013.
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Parece-me que os comunistas não andam a dormir. Pelo menos, desde 2013…
Alexandre de Castro
2017 03 04

sábado, 7 de janeiro de 2017

Faleceu António Tereso - o herói da fuga do Forte de Caxias, no carro blindado de Salazar



NOTA DO SECRETARIADO DO COMITÉ CENTRAL DO PCP

Faleceu António Tereso
7 Janeiro 2017
O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa com mágoa e tristeza, do falecimento hoje dia 7 de Janeiro aos 89 anos, de António Tereso. Militante comunista que dedicou a sua vida à luta dos trabalhadores e do povo português pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
António Tereso, começou a trabalhar aos 12 anos, ingressando mais tarde na Carris.
É como operário da Carris e na sequência da luta que em Fevereiro de 1959 foi preso e condenado a dois anos e três meses de prisão.
Na prisão de Caxias desempenha complexo e destacado papel na preparação e concretização da fuga de oito destacados dirigentes e militantes comunistas do Forte de Caxias no carro blindado de Salazar, a 4 de Dezembro de 1961.
Depois da fuga, foi forçado a ingressar na clandestinidade.
Passou depois pela Checoslováquia e por França, onde tirou o curso de torneiro mecânico e aí exerceu essa profissão até ao 25 de Abril de 1974.
Após o 25 de Abril, regressado a Portugal, desempenhou as mais diversas tarefas e responsabilidades no apoio à Direcção do Partido, até quando lhe foi possível fisicamente, antes e após a sua reintegração na Carris.

O corpo de António Tereso estará em câmara ardente na Casa Mortuária da Igreja de S.Francisco de Assis, na Av.Afonso III (ao Alto de S.João) a partir das 10 horas de dia 8 de Janeiro, domingo, saíndo o funeral às 12 horas para o Cemitério de Barcarena onde o corpo será cremado pelas 12h30.
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A FUGA DE CAXIAS NO CARRO DE SALAZAR

Contada por António Gervásio (dirigente do PCP), um dos fugitivos
A 4 de Dezembro de 1961, em pleno dia – 10 da manhã –, oito destacados militantes comunistas, rompendo a forte segurança policial, fogem com êxito do Forte de Caxias num velho «Mercedes» à prova de bala, oferecido por Hitler ao ditador Salazar.

Recordamos os oito fugitivos: José Magro, Francisco Miguel, Domingos Abrantes, António Gervásio, Guilherme de Carvalho, Ilídio Esteves, Rolando Verdial (todos funcionários do Partido) e António Tereso.

Foi grande o impacto nacional desta fuga. As pessoas ficaram impressionadas: como foi possível, em pleno dia, num pátio interior do forte rodeado de taludes, GNR’s, carcereiros armados e sempre com os olhos postos nos movimentos de cada preso, chegar um automóvel e, num abrir e fechar de olhos, oitos presos desaparecerem sem os guardas terem tempo para compreender o que se estava a passar? É natural que surjam tais interrogações. Sem dúvida que jogou muito o factor surpresa e a rapidez – agir tão rápido que os guardas não tivessem tempo de pensar que se tratava de uma fuga!
Cada fuga tem a sua história. A fuga de Caxias não foi uma realização ao acaso, nem uma aventura. Ela envolve um longo trabalho colectivo (cerca de um ano), paciente, minucioso, um conhecimento profundo de variadíssimos detalhes.

(...) O elevado número de fugas não nos deve levar a pensar que as cadeias fascistas eram calabouços frágeis de onde se podia fugir facilmente. Nada disso! A Pide introduzia constantemente medidas rigorosas de segurança. Quem passou longos anos na cadeia sabe disso.

1. Preparação da fuga
Nos finais da década de 50 o Partido tinha sofrido duros golpes com a prisão de numerosos funcionários. Nessa altura, muitos deles encontravam-se no Forte de Caxias. A Pide temia os funcionários do Partido e tinha razões para isso... A polícia, com receio das fugas, tinha medo de os juntar na mesma sala. Por outro lado, procurava não dividi-los pelas salas dos outros presos para impedir o trabalho de esclarecimento e organização; para não permitir que ensinassem a ler e a escrever e estabelecessem ligações entre salas, pisos e alas, etc.

Contudo, a certa altura, a Pide decidiu distribuir os funcionários do Partido pelas salas dos outros presos. Isso veio possibilitar o reforço das ligações entre salas e pisos e dar passos na direcção da fuga. Não demorou muito que a Pide voltasse de novo a juntar os funcionários numa sala do rés-do-chão que oferecia maior segurança, o que veio facilitar a preparação, uma vez que estavam todos juntos.

Um certo dia soubemos que se encontrava na garagem da cadeia um «Mercedes» à prova de bala. Esta informação teve uma enorme importância para se perspectivar a fuga. Todos os esforços se viraram para o «Mercedes». Era necessário conhecer o estado do carro, repará-lo, arranjar combustível, fazer ensaios. Colocava-se a questão: como chegar ao «Mercedes» sem levantar o mínimo de suspeita? A organização do Partido na cadeia pôs a imaginação a trabalhar. E, como se costuma dizer, para os comunistas as dificuldades só existem para serem vencidas.

2. A história do «rachado»
No Forte de Caxias existiam alguns presos com comportamentos fracos que, a troco de visitas em comum com familiares, apanhar sol, receber comida da família, se dispunham a fazer alguns serviços da cadeia, como limpezas e outros. A esses presos, os outros chamavam-lhes «rachados» (uma coisa que não presta). Estudando esta realidade dos «rachados», a organização do Partido na cadeia avançou com a ideia de arranjar um «rachado» fingido, um quadro sério, corajoso, capaz de assumir tarefas difíceis e arriscadas.

Essa escolha foi cair no camarada Tereso, motorista da Carris, com conhecimentos mecânicos e outras capacidades. Não vamos explicar um conjunto de situações diversas. Dizer só que levou tempo a ganhá-lo para a tarefa, pois ele não aceitava a ideia de ser «rachado» mesmo a fingir. Contudo, sendo uma tarefa do Partido, acabou por aceitá-la. A Pide, desconfiada, demorou tempo a ser convencida.

Uma das tarefas do novo «rachado» era ganhar a confiança dos carcereiros. Começou por arranjar os carros da cadeia, depois os carros do director do Forte e de alguns Pides. A sua credibilidade foi crescendo e passado tempos chegou ao célebre «Mercedes». Estudou-o, foi-o reparando e sacando combustível da cadeia. Com o andar dos tempos começou a fazer experiências, pequenas manobras no pátio do forte, ensaios que foram aumentando.

3. Os passos finais
Passaram-se vários meses. Os dados estavam lançados. As andanças do «Mercedes» eram vistas como normais pela GNR. Os batentes de cimento do portão do exterior estavam devidamente estudados: não iriam resistir ao embate do «Mercedes».

A fuga tinha de realizar-se antes das 10 horas da manhã, porque depois dessa hora chegavam ao portão familiares dos presos para as visitas. Estavam asseguradas medidas para não haver pessoas atrás do portão e era rigorosamente necessário que no dia da fuga os carros da cadeia e da Pide, dentro do forte, estivessem, antes das 9 horas, todos imobilizados, avariados, para não poderem perseguir os fugitivos – medida que também foi assegurada.
Estava definido quais os oito camaradas que iriam participar na fuga. A casa da guarda (GNR) ficava no meio do túnel que dava acesso ao pátio do recreio dos funcionários presos e ao portão do exterior. Junto à casa da guarda havia um gradão de ferro. Havia comandantes que tinham o túnel fechado com o gradão durante o dia, outros tinham-no aberto. No dia da fuga o túnel estava fechado.

Algumas semanas antes da fuga a Pide inventou um estratagema na escala dos recreios no sentido dos funcionários presos nunca saberem o dia e a hora certa do recreio, tudo isto com receio de fuga! Mas, passados alguns dias, descobrimos o segredo pidesco.

Finalmente chegou o dia decisivo. A 4 de Dezembro de 1961, às nove e pouco da manhã, a Pide abre-nos a porta para o recreio. Estávamos um pouco tensos. Alguns de nós pensámos: vamos sair e já não voltaremos!

No recreio iniciámos o nosso jogo tradicional de voleibol que fazia parte de outra jogada... A GNR, nos taludes, observava-nos. No nosso meio circulavam carcereiros armados.

Poucos minutos depois vemos o «Mercedes» conduzido por Tereso subindo em marcha atrás o túnel por onde iríamos fugir. O «Mercedes» chegou até junto de nós. Começámos a «protestar», os guardas muito atentos, aproximámo-nos do carro cujas portas só estavam encostadas – tudo aparentemente sereno mas muito rápido. Ouve-se o grito da senha: GOLO! E num gesto super rápido os oito fugitivos estavam no interior do «Mercedes» que, em grande velocidade, avança pelo túnel em direcção à liberdade. A sentinela não teve sequer tempo de fechar o gradão. O «Mercedes» vai direito ao portão exterior, arranca em primeira, dá uma pancada no portão que salta em pedaços! Ouvem-se tiros de metralhadora. O «Mercedes» arranca encostado ao talude do forte. Chovem tiros e ouvem-se as balas a fazerem ricochete no carro.

Os carcereiros correm em busca dos carros da cadeia, mas, para seu azar, nenhum deles quis mexer-se, estavam todos avariados! Não podiam perseguir os comunistas fugitivos...

Cerca de 10 minutos depois, os oito fugitivos estavam em Lisboa. Cada um seguiu o seu rumo a abraçar as novas tarefas do Partido. O «Mercedes» ficou a descansar na rua Arco do Carvalhão até a Pide o ir buscar...
in «O Militante» - N.º 280 Janeiro /Fevereiro 2006 
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Nota: Os heróis também morrem... Embora muitos sejam esquecidos...
AC

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

PCP lança campanha sobre saída do euro


PCP lança campanha sobre saída do euro

O PCP anunciou hoje [17 de Dezembro] que vai realizar uma campanha sobre a saída do euro, entre janeiro e junho de 2017.
***«»***
Trata-se de uma grande iniciativa do PCP, que faltava ao país. Só com uma moeda própria, adaptada, no ponto de vista cambial, à produtividade da economia nacional, se poderá caminhar no sentido do crescimento e do desenvolvimento, que o elevado valor do euro está a estrangular, pois não favorece o aumento desejável e sustentável das exportações, o que é urgente e importante, ao mesmo tempo que facilita o aumento das importações, o que não é favorável para a economia O consumo, através da importação de bens de luxo, não enriquece o país, antes o empobrece.
Sempre que abordo este tema, costumo referir a minha metáfora, que é assim: ao aderir ao euro, Portugal fez a figura daquela criança, que vestiu o casaco do pai. Ficava-lhe grande e dificultava-lhe os movimentos. O alfaiate cortou-o e tentou adaptá-lo ao corpo da criança. Ficou mal amanhado. A solução, concluiu-se, é comprar um casaco novo (ou seja, regressara ao escudo).
Claro como água cristalina. Só não vê quem é cego ou quem, por conveniência interesseira, finge que é cego.
É certo que uma saída do euro tem custos e vai exigir sacrifícios (a todos e não apenas a alguns, até aqui os mesmos de sempre), mas que serão temporários, e podendo ser eliminados quando começarem a surgir os resultados positivos de uma nova política, assente no vigoroso aumento das exportações, proporcionado por uma moeda de menor valor, e no investimento público e privado. No entanto, esse sacrifícios, quer na intensidade, quer na interinidade, serão muito menos gravosos do que os existentes na situação actual, que vão perpetuare-se por muito tempo, e em que a economia não conseguirá gerar uma balança comercial, com um folgado superávit, para poder pagar-se a dívida, mesmo que reestruturada.
Alexandre de Castro

domingo, 4 de dezembro de 2016

PCP saiu reforçado do XX Congresso e Jerónimo de Sousa saiu consagrado...


O PCP saiu reforçado deste congresso, com Jerónimo de Sousa a equacionar correctamente aquilo que, para alguns, seria uma contradição insanável, o de estar, por um lado, a apoiar um governo minoritário do Partido Socialista, e, por outro lado, ao nível do discurso, comportar-se como um partido da oposição, não se eximindo a fazer a denúncia de algumas e importantes posições governamentais. Em boa verdade, pode dizer-se que, desde o início do processo da viabilização de um governo minoritário do PS, com o apoio dos dois partidos à sua esquerda, essa contradição nunca existiu, pois o PCP não fez um acordo de incidência parlamentar para toda a legislatura e, por outro lado, soube traçar as linhas vermelhas da sua colaboração, que não poderiam ser ultrapassadas. O que o PCP pretendeu, ao propor um entendimento à esquerda, para viabilizar um governo minoritário do PS, foi a necessidade urgente de bloquear a possibilidade da ascensão da direita ao poder, assim poupando os portugueses a mais quatro anos de dura austeridade e à continuação da sonegação de direitos, ao nível laboral e ao nível da Saúde, da Educação e da Segurança Social (as tais linhas vermelhas, entre outras).

Jerónimo de Sousa deixou o congresso tranquilo. Não houve, não há, nem haverá nenhum recuo do Partido Comunista Português, a nível ideológico, político e programático.

Um outro aspecto importante, que o congresso assinalou e registou, foi a afirmação inequívoca da necessidade urgente de Portugal sair do euro, começando-se desde já a preparar essa saída, matéria que o PCP, anteriormente, sempre abordou com cautela, porque, entre os comunistas, quer do topo, quer da base, e também entre o seu tradicional eleitorado, não haveria uma unanimidade absoluta e garantida. Pela minha parte, direi que esta proposta só pecou por tardia, mas que vem muito a tempo, e até, talvez, mais amadurecida, para vir a mobilizar os militantes, simpatizantes e os trabalhadores para esta inevitabilidade, que já está a ser assumida pelos economistas marxistas e os economistas keinesianos e tamém por muitos portugueses que já perceberam que, com uma moeda forte - que não pode servir de esteio a uma política orçamental nacional, independente dos poderes de Bruxelas e do BCE - o crescimento económico do país será sempre fraco e débil, assim aumentando a exposição dos portugueses a mais austeridade, austeridade essa, que teria de passar por fortes desvalorizações dos salários e das pensões e (isto é uma opinião pessoal) pela entrega progressiva dos pilares do Estado Social aos privados. E os lobies dos grupos económicos - ligados às instituições privadas, que gerem hospitais, e às que gerem estabelecimentos do ensino secundário e do ensino universitário, bem como o poderoso lobie das seguradoras – estão à espera que a cereja lhes caia em cima do bolo. Uma proposta recente, que anda por aí, escondida e envergonhada, de tentar mudar o estatuto público da Universidade de Coimbra, para se constituir numa Fundação, é uma das cerejas desse bolo. É que, através das leis, é mais fácil privatizar uma fundação do que uma universidade pública. Esta e outras “manhosices” vão ser a massa com que os privados querem fazer o pão. O Estado Social tem um potencial de negócio enorme, que nenhum grupo económico português iguala em valor. São muitos milhares de milhões de euros, que estão em causa. Mas, além disso, ficariam comprometidos os direitos dos portugueses, em relação à Saúde, à Educação e à Segurança Social.

Em relação ao congresso do PCP, uma palavra final. Este congresso foi o congresso da consagração de Jerónimo de Sousa, como Secretário-Geral do Partido Comunista Português. Um líder de elevado mérito, que conseguiu manter intacta a matriz original do partido. Vai ficar na galeria da História do PCP e na memória dos militantes, dos actuais e dos futuros. Impressiona a sua modéstia e humildade, modéstia e humildade que são apanágio dos grandes líderes.
Alexandre de Castro

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A verdade de Jerónimo de Sousa no XX Congresso do PCP


APONTAMENTO SOBRE 
O XX CONGRESSO DO PCP

Esta opção, sublinhou o secretário-geral do PCP, no seu discurso de abertura do XX Congresso do partido, passa por "enfrentar o problema da dívida, preparar o país para se libertar do euro, rejeitar as imposições do tratado orçamental e de outros instrumentos, assegurar o controlo público sobre a banca e o setor financeiro".
***«***
Socorrendo-nos da célebre frase de Émile-Auguste Chartier, e adaptando-a à situação, poderemos dizer que Jerónimo de Sousa identificou a mãe de todos os vícios – a colossal dívida do Estado à troika e aos privados – mas também a mãe de todas as virtudes – a saída de Portugal do euro, a ruptura com o Tratado Orçamental e o controlo público sobre banca e o sector financeiro.
Por mais piruetas que os paladinos do europeísmo façam, por mais cantigas de embalar, que entoem, por mais vantagens que apresentem, em relação à construção europeia (cheia de entorses) a realidade acabará, tragicamente, por se impor, se não aparecer um outro Alexandre que, com a sua espada, decepe o nó górdio de Portugal.
Com uma crise demográfica, que vai agravar-se no futuro, e sem investimento público e privado (quem é que quer apostar num país falido - uma falência já instalada, tal como afirmou recentemente Thomas Mayer, ex-economista-chefe do Deutsche Bank), Portugal não conseguirá crescer sustentadamente, nem gerar excedentes para satisfazer compromissos financeiros, o que vai obrigar a alienar a privados o Estado Social (saúde, educação e segurança social), uma opção que, segundo consta, já estará a ser planeada secretamente, com o beneplácito da Alemanha e da Comissão Europeia, e que envolve muitos lobies instalados.
Alexandre de Castro

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Sem cantar "vitória", PCP aconselha cimeira intergovernamental a Costa

João Oliveira, líder parlamentar do PCP

Sem cantar "vitória", PCP aconselha cimeira 
intergovernamental a Costa

O líder parlamentar do PCP condenou hoje a decisão de Bruxelas de suspender a eventual multa a Portugal por défice excessivo de 2015, sem cantar "vitória" porque se mantém o processo de "pressão e chantagem" da União Europeia (UE).

***«»***
Na realidade, não se tratou de nenhuma vitória. Foi uma pena suspensa, que não é a mesma coisa do que uma absolvição. A marca ficou registada na caderneta. A nódoa negra é a prova de que houve castigo. 
Pretendeu-se humilhar Portugal, para se ganhar balanço para desencadear, depois do Verão, a ameaça do corte dos fundos comunitários, procurando-se assim condicionar a elaboração do Orçamento de Estado de 2017. E isto tudo, apenas porque Portugal tem um governo que não encaixa no perfil do governo ideal, adoptado pelo cartel político da Europa. 
Está em curso um novo tipo de colonização dos povos, não através das armas e da ocupação territorial, mas através da tirania financeira e de uma muito bem organizada federação de interesses do capitalismo europeu, que não hesita em recorrer aos golpes baixos da chantagem. Se quisermos comer a cenoura, temos que levar "porrada", e ficar caladinhos..
Esta não é a Europa que nos prometeram
AC.
2016-08-04

terça-feira, 7 de junho de 2016

Jerónimo de Sousa quer nova moeda portuguesa


Jerónimo de Sousa quer nova moeda portuguesa

Numa sessão pública intitulada A libertação do país da submissão ao Euro, condição para o desenvolvimento e soberania nacional, Jerónimo de Sousa, ladeado pelos economistas João Ferreira do Amaral e Jorge Bateira, entre outros, identificou a banca sob controlo público, a renegociação da dívida e a saída do euro como prioridades para o desenvolvimento soberano de Portugal.
***«»***
Não há outra alternativa. Se já foi um grande erro Portugal aderir ao euro, maior erro será se não sair. Se Portugal tivesse uma moeda própria, alinhada com a produtividade da sua economia, as exportações de bens e serviços triplicariam, no espaço de quatro ou cinco anos, permitindo assim obter excedentes para ir pagando a dívida, dívida que também terá de ser reestruturada. 
Se não for assim, Portugal caminhará para o desastre.

domingo, 18 de outubro de 2015

Trechos de um discurso incisivo e objectivo de Jerónimo de Sousa

Jerónimo de Sousa com o candidato Edgar Silva

Um problema que se revela cada vez mais sério e com consequências preocupantes na democracia portuguesa é este domínio quase absoluto dos grandes interesses e dos grupos económicos e dos seus arautos no sistema mediático, onde a pluralidade de opinião se vem extinguindo e a isenção no comentário político-ideológico é uma raridade.
Os despautérios que vimos, ouvimos e lemos de uns, o tom de arrogância que alguns manifestavam nas suas invetivas contra o PCP, a raiva incontida de outros perante a mera hipótese de que da nova Assembleia da República pudesse sair um Governo que não é do PSD e do CDS revelam bem até onde pretendem ir os interesses dominantes na sua campanha antidemocrática e desestabilizadora.
Toda a argumentação para demonstrar que os votos que servem as suas pretensões são votos de primeira e os que não servem são votos de segunda. Os que antes peroravam abundantemente e lastimavam que o PCP não saísse do conforto do 'partido de protesto' - que nunca fomos - para tentar demonstrar a inutilidade do voto no PCP, ei-los agora a clamar 'aqui d'el rei' numa encenação catastrofista, empenhados numa despudorada campanha, numa tentativa de exclusão.
Uma coisa é certa: nada impede o PS de formar governo e entrar em funções,  mesmo num quadro em que o PS insista no seu programa e que não seja possível - o que de facto não é fácil - encontrar uma convergência sobre um programa de governo, nem assim se pode concluir que a solução seja um governo PSD/CDS.
O problema está em saber se o PS escolhe entre dar o aval e apoio à formação de um governo PSD/CDS ou tomar a iniciativa de formar um governo que tem garantidas condições para a sua formação e entrada em funções. Há quem possa considerar estranha esta afirmação.
A Constituição não impõe a escolha de um primeiro-ministro entre os dirigentes do partido ou coligação mais votados. o que conta verdadeiramente e determina as soluções para a governação são as maiorias que se formem na Assembleia da República e dão suporte a um governo e não a um partido com mais votos.

Jerónimo de Sousa

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os objectivos centrais do PCP no actual momento político


O PCP definiu com grande objectividade, realismo e clareza o objectivo principal da sua luta, no actual momento político: impedir a formação de um governo de direita e eleger, numa segunda volta, um Presidente da República de esquerda. Conquistado este objectivo, do que virá a seguir, nada poderá ser pior do que actualmente existe: um governo e um Presidente da República de direita.
Assim, a candidatura de Edgar Silva à Presidência da República reveste-se de uma grande importância política.

domingo, 14 de junho de 2015

Algumas notas sobre o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento UE-EUA) - por JOÃO FERREIRA [o militante]


Algumas notas sobre o TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento UE-EUA) - por JOÃO FERREIRA

A União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA) iniciaram em
Junho de 2013 negociações tendo em vista a celebração daquilo a que chamaram um Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (Transatlantic Trade and Investiment Partnership, TTIP, na terminologia anglo-saxónica).
A intenção anunciada é a da criação de uma grande área de livre comércio e investimento entre os dois blocos, que juntos representam quase metade do Produto Interno Bruto mundial e um mercado agregado de 800 milhões de pessoas. Esta área abarcaria mais de um terço do comércio mundial.
Mas a intenção profunda, o significado e as consequências deste Acordo vão muito além do anunciado pelas partes.
Decorridas sete rondas negociais (a última das quais terminou em Outubro de 2014), a contestação ao TTIP cresce nos dois lados do Atlântico, à medida que se alarga a percepção pública sobre o seu conteúdo e consequências. Ao mesmo tempo, emergem contradições entre as partes – expressão de interesses contraditórios entre os diferentes sectores do capital que têm vindo a impulsionar todo o processo. Apesar disso, EUA e UE continuam a afirmar ser possível ter um acordo concluído antes do final de 2015. Em que medida os esforços de concertação prevalecerão ou não sobre a crescente contestação e sobre as contradições emergentes só os próximos meses o dirão.

Breve enquadramento
A liberalização do comércio internacional constitui um dos pilares do chamado «Consenso de Washington» – a resposta do capital à crise de rentabilidade que o sistema capitalista mundial vem atravessando nas últimas duas décadas e meia. Uma resposta articulada ao nível das suas instituições internacionais e que concorre para dois objectivos essenciais: a redução dos custos unitários do trabalho e o consequente aumento da taxa de exploração; e o alargamento do campo onde se pode exercer o processo de acumulação capitalista, com o avanço do mercado sobre cada vez mais esferas da vida económica, social e cultural.
O livre comércio é instrumental nesta estratégia. Por um lado, aumenta a concorrência entre a força de trabalho de países ou regiões diferentes, forçando a sua desvalorização geral. Por outro lado, garante o acesso das multinacionais a novos mercados, a sua conquista e domínio, alargando o campo de acumulação.
As perspectivas de uma prolongada estagnação económica, intercalada com períodos de recessão e/ou crescimento anémico, que pairam sobre os grandes centros do imperialismo – sintoma da profunda e persistente crise de sobreprodução e sobre-acumulação de capital – foram e são determinantes para impulsionar as negociações do TTIP.
O inaudito grau de concentração e de centralização do capital conduz a novas necessidades e exigências. Os monopólios americanos e europeus, que nos respectivos espaços de integração económica foram colonizando mercados, do centro às periferias, precisam de novos instrumentos para satisfazer os seus interesses, a sua pulsão imperial, as suas taxas de lucro.
Perante o impasse nas negociações ao nível da Organização Mundial do Comércio, visando a progressiva liberalização do comércio internacional, a celebração de acordos bilaterais surge como a alternativa possível. Este impasse é indissociável da actual correlação de forças no plano mundial, de que a emergência e progressiva afirmação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) é o elemento mais saliente. É neste cenário que as principais potências imperialistas se procuram concertar, superando (ou procurando superar) contradições, para contrariar a progressiva perda de influência no plano mundial, face às chamadas potências emergentes.
O objectivo último desta concertação é a progressiva institucionalização à escala global de uma espécie de «novo direito global», ditado pelas multinacionais.
Os interesses económicos e os interesses geoestratégicos das potências imperialistas são, assim, indissociáveis. O TTIP é um sinal disso mesmo. É significativo que Hillary Clinton tenha chamado ao acordo uma «NATO económica».
Não devem ser ignoradas tensões, contradições nem divergências entre as potências imperialistas. Elas existem e tendem mesmo a acentuar-se. Esta rivalidade inter-imperialista é expressão de tensões, contradições e divergências entre monopólios transnacionais de origens nacionais diversas, que se estendem aos respectivos Estados capitalistas que defendem os seus interesses. Mas, como o TTIP o vem demonstrar, o que continua a prevalecer é a concertação inter-imperialista, em prol da necessidade, mais premente, de salvaguardar o domínio de classe do capital.

Outros acordos de livre comércio
Os seus 500 milhões de habitantes e o seu rendimento médio per capita (de cerca de 25 000 euros) fazem do conjunto dos 28 Estados-membros da UE o maior mercado do mundo. A UE, como bloco (que tem, como sabemos, profundas disparidades no seu interior), é o maior importador de produtos transformados e de serviços, tem o maior volume de investimentos no estrangeiro e é o maior destino mundial de investimentos por parte de empresas estrangeiras.
Todavia, em face da evolução registada nos últimos anos, estima-se que dentro de 10 a 15 anos 90% da procura mundial será gerada fora da UE.
Os monopólios europeus e as principais potências europeias, e bem assim as instituições da UE, que defendem os interesses duns e doutras, procuram adaptar-se a esta realidade.
A limitação da soberania dos Estados no domínio das políticas comerciais foi uma das mais significativas alterações introduzidas pelo Tratado de Lisboa, em 2009. Com efeito, o Tratado estabelece que a Política Comercial Comum passa a ser uma competência exclusiva da UE, perdendo os Estados o poder de celebrarem, de acordo com os seus interesses específicos, acordos comerciais bilaterais com outros países ou blocos regionais. O tão propagandeado papel acrescido (deliberativo) do Parlamento Europeu no que aos acordos comerciais diz respeito tende a esconder que foram os parlamentos nacionais quem perdeu esse poder, que o Parlamento Europeu agora partilha com o Conselho. Num e noutro dominam os interesses das grandes potências que podem facilmente impor a sua decisão por maioria qualificada (ou, inversamente, travar qualquer decisão que considerem contrária aos seus interesses).
É já relativamente extenso o rol de acordos de livre comércio ou equiparados que a UE negociou e assinou com países terceiros ou blocos regionais. Um total de 50 parceiros. Estão finalizados mas ainda não assinados uma dúzia de outros acordos. E para além do TTIP com os EUA, estão em fase de negociação outros acordos de livre comércio, envolvendo no total cerca de duas dezenas de países, para além de um Acordo de Investimentos com a China.

Objectivos assumidos e «parceiros»
O TTIP insere-se no caminho acima descrito e vai mais longe. Tanto que representa uma etapa qualitativamente nova nesse caminho. A sua concretização criaria a maior área de livre comércio do mundo e não deixaria de o estabelecer como um padrão para a determinação futura das regras do comércio internacional. É explicitamente assumida a intenção de «ligar ao mais alto nível» todos os acordos de comércio-livre existentes.
Um aspecto distintivo do TTIP face a outros acordos já negociados pela UE é o relativamente reduzido nível de complementaridade das duas economias, dos EUA e da UE (refira-se novamente, a UE aqui globalmente considerada, mas sem descurar as profunda disparidades existentes no seu seio), o que tende a agravar a competição – entre países, produções e produtores.
Há muito que dos dois lados do Atlântico existem pressões para avançar na direcção de uma liberalização das trocas comerciais e dos investimentos. Pressões que vêm sobretudo de algumas das maiores e mais poderosas multinacionais americanas e europeias.
É evidente a proximidade entre a Comissão Europeia e estes interesses. Numa lista divulgada pela própria Comissão Europeia, contendo as entidades auscultadas no âmbito da preparação das negociações com os EUA, num total de 130 reuniões pelo menos 119 delas foram com multinacionais ou com grupos de pressão que as representam. A confederação do grande patronato europeu, aBusinessEurope, e o lóbi da indústria automóvel, a ACEA, foram recebidas pela Comissão Europeia nove vezes cada uma. Seguidos pela indústria do armamento, os bancos, a indústria farmacêutica, a indústria agro-alimentar e os lóbis da química.
O Conselho Económico Transatlântico, criado em 2007 (ainda durante a presidência Bush) para aplanar o caminho para o TTIP, visando promover o «diálogo empresarial transatlântico», integra grandes empresas dos dois lados do Atlântico. Foi de um «grupo de alto nível» formado ao nível deste Conselho, dirigido por Ron Kirk (representante dos EUA para o comércio) e Karel De Gucht (ex-comissário da UE para o comércio internacional), que saíram as principais orientações para o que viria a ser o TTIP. Ficaram assim definidos os seus objectivos:

1. A eliminação ou redução das barreiras pautais (ditas «convencionais») ainda existentes ao comércio de mercadorias, como os direitos aduaneiros; 

2. A eliminação, redução ou prevenção de todas as demais barreiras ao comércio de mercadorias e serviços e ao investimento; 

3. A melhoria da compatibilidade de regulamentos e normas entre os EUA e a UE; 

4. A eliminação, redução ou prevenção das barreiras «behind the border»(«anteriores à fronteira») consideradas desnecessárias, tal como as que decorrem de distintas regulamentações nacionais; 
5. O incremento da cooperação para o desenvolvimento de regras e princípios comuns em assuntos considerados de interesse comum, assim como para a consecução de objectivos económicos globais partilhados.

Fica evidente o amplo espectro abarcado pelas negociações em curso e, bem assim, as ambições «globais» do TTIP.
A presidente da BusinessEurope, Emma Marcegaglia, numa reunião organizada pela presidência italiana do Conselho (chefiado pelo governo social-democrata de Matteo Renzi), em Outubro último, apelou aos responsáveis políticos para trabalharem para um acordo capaz de «responder efectivamente às necessidades de um mundo em mudança». Acrescentando que «o acordo [TTIP] não pode ser limitado no seu âmbito e temos de resistir à tentação de baixar o nível de ambição com o propósito único de concluir mais rapidamente as negociações». Eis o caderno de encargos do grande capital europeu e os avisos lançados aos seus representantes políticos.
O TTIP visa a eliminação dos direitos aduaneiros, que são actualmente de cerca de 4%, em média, entre os dois continentes. Mas, sobretudo, o acordo visa a eliminação dos «obstáculos não pautais», das regras e regulamentações julgadas supérfluas: diferenças de regulamentos técnicos, normas, procedimentos de aprovação – que se querem harmonizar. A isto é dado o nome de «cooperação regulatória».
Capítulos importantes das negociações em curso são o do acesso aos mercados da contratação pública – há muito ambicionado pelas multinacionais – e aos próprios serviços públicos. A intenção passa por criar condições favoráveis a novas vagas de privatizações, em sectores onde a resistência e a luta social ainda não permitiram que ocorressem. Alguns representantes da Comissão Europeia têm mesmo afirmado, desassombradamente, ver aqui uma oportunidade para completar o mercado único da UE. Importa referir que se este mercado único não foi, ainda, tão longe quanto alguns desejariam foi precisamente graças a lutas como a que forçou um recuo face ao que eram as intenções iniciais da «Directiva Bolkestein» (sobre serviços no mercado interno), que pretendia abrir caminho à cavalgada do grande capital sobre praticamente todos os serviços públicos essenciais.

Um seguro de vida para o grande capital
Com o objectivo de tranquilizar uma opinião pública crescentemente inquieta, à medida que mais se vai conhecendo sobre o TTIP, a Comissão Europeia tem afirmado que os governos devem ser livres para «regular» tudo aquilo que consideram ser serviços públicos. A habilidade é evidente: «regular», não significa organizar e prestar esses serviços. Afirma ainda que os «serviços fornecidos no exercício da actividade governamental devem estar excluídos das negociações». Inclui-se neste conceito «todo o serviço que não é fornecido nem numa base comercial nem em concorrência com um ou vários fornecedores de serviços». Ou seja, depois dos processos de liberalização e privatização já levados a cabo (em sectores tão diversos como os transportes, a energia, as telecomunicações e serviços postais, entre outros) pouca coisa seria excluída, de facto, do âmbito do TTIP. Simultaneamente, a pressão sobre os serviços de saúde, a escola pública e a segurança social pública seriam ainda maiores do que a que já hoje se faz sentir.
O grande capital sabe bem o que pode pôr em causa os seus interesses. Sabe que numa democracia genuína, o interesse geral, os interesses da classe trabalhadora, os interesses da esmagadora maioria do povo, sobrepor-se-ão inevitavelmente aos estreitos interesses de classe dos capitalistas. Por isso desvirtua quanto pode a própria democracia. Por isso se socorre dos seguros de vida necessários à defesa dos seus interesses. O chamado mecanismo de resolução de litígios Estado-Investidor, por via arbitral («Investor-State Dispute Settlement», ISDS na terminologia anglo-saxónica), é um desses seguros de vida. O ISDS tornou-se um mecanismo habitual em acordos de liberalização de investimentos. Um mecanismo que permite às multinacionais intentar processos judiciais contra os Estados, fora dos tribunais e escapando às leis nacionais, sempre que as suas instituições soberanas ousem aprovar leis ou outra regulamentação susceptível de afectar os interesses dessas mesmas multinacionais, ou seja, de reduzir as suas expectativas de lucro, em face dos investimentos realizados anteriormente às referidas medidas legislativas ou regulamentares.
Entre os compreensíveis temores do grande capital está a possibilidade de repetição de situações como a (re)nacionalização, em 2012, na Argentina, da empresa petrolífera YPF, cujo capital era maioritariamente detido pela multinacional Repsol. Ou a nacionalização da empresa de electricidade boliviana, também detida por uma multinacional espanhola, a REE.
A Argentina será provavelmente o país que mais afectado foi já por mecanismos de resolução de litígios ISDS. Na sequência da decisão do país de acabar com a vinculação ao dólar norte-americano, em 2002, acabando com a paridade peso-dólar, foram várias as multinacionais a intentarem acções contra o Estado argentino, que se viu forçado a pagar mais de 500 milhões de dólares em indemnizações. Os exemplos de decisões favoráveis às multinacionais e contrárias aos Estados abundam e pode-se dizer que são a regra. Da tabaqueira Philip Morris que intentou e ganhou uma acção contra o Uruguai e contra a Austrália, quando estes países aprovaram leis mais restritivas do consumo de tabaco, por razões de saúde pública, até à Vattenfall, uma multinacional da área do nuclear que processou a Alemanha por causa das alterações nas opções de política energética do país, na sequência do desastre de Fukushima, passando pela Lone Pine que processou o Canadá por recusas de licenciamento de explorações de gás de xisto, por razões ambientais, no Quebeque.
Entretanto, há exemplos de empresas nacionais que se «reinventam», passando a sua sede para o estrangeiro e tornando-se, formalmente, «investidores estrangeiros» no seu próprio país, apenas para poderem beneficiar das prerrogativas dos ISDS.
Estamos, de facto, perante uma espécie de ditadura das multinacionais.
Para um país como Portugal, em que a Constituição da República explicitamente disciplina o investimento estrangeiro e o condiciona à «contribuição para o desenvolvimento do país», à «defesa dos interesses dos trabalhadores» e «da independência nacional», salta à vista o carácter subversivo do TTIP, face ao próprio regime democrático.

Secretismo, ameaças e resistência
Desde o início das negociações que a Comissão Europeia tem a preocupação de garantir que todo o processo de negociação do TTIP é transparente e escrutinável. Nada mais falso.
Existem três categorias de documentos: limitados, restritos e confidenciais. A maioria dos deputados do Parlamento Europeu não tem acesso a nenhum deles. O mesmo acontece com investigadores, jornalistas, sindicatos e outras organizações sociais.
Apesar do Parlamento Europeu ter um papel deliberativo na aprovação ou rejeição de um futuro acordo, nem todos os membros do Parlamento têm acesso aos documentos negociais e, concretamente, às propostas feitas pelos próprios negociadores da UE às autoridades dos EUA. Apenas um número restrito de deputados da Comissão do Comércio Internacional e um número ainda mais restrito de deputados de outras comissões tinha acesso a uma sala de leitura onde podiam consultar cópias destes documentos. Estavam, todavia, proibidos de tirar quaisquer apontamentos ou notas de leitura sobre os mesmos.
A generalidade dos parlamentos nacionais é igualmente mantida, em grande medida, à margem de todo o processo, muito embora existam aqui diferenças significativas. Os deputados do Bundestag – o parlamento alemão – dispunham, todos sem excepção, do direito de acesso às ofertas negociais feitas pela UE aos EUA.
Só em Outubro último, mais de um ano depois do início das negociações e perante a pressão de largos sectores da opinião pública, o Conselho decidiu tornar público o mandato atribuído à Comissão Europeia para as negociações. O documento, todavia, era já de conhecimento público, graças a fugas de informação anteriores.
Pese embora todo este secretismo, por todo o mundo cresce a resistência ao TTIP. Por todo o mundo, e não apenas nos EUA e na UE, alarga-se a percepção sobre a amplitude e a profundidade das consequências deste acordo.
O TTIP comporta sérias ameaças ao emprego – levando a uma corrida ao fundo no plano dos direitos, salários e condições de trabalho. Sublinhe-se que os EUA se recusaram a ratificar importantes convenções da Organização Internacional do Trabalho, relativas a normas laborais básicas, incluindo sobre a contratação colectiva.
O TTIP comporta sérias ameaças no plano ambiental, da segurança alimentar e da saúde pública. Uma das possíveis «barreiras desnecessárias» ao comércio entre os EUA e a UE, cujo levantamento estará a ser considerado, será a legislação europeia restritiva ou mesmo proibitiva (para já, algo que o TTIP pode vir a mudar) em domínios como o cultivo e comercialização de organismos geneticamente modificados; o uso de determinados pesticidas; o uso de disruptores endócrinos (substâncias que afectam o sistema hormonal humano); o uso de hormonas de crescimento nos bovinos e de compostos clorados nas aves, entre muitos outros exemplos.
Perante esta grotesca tentativa de imposição de uma ditadura supranacional das multinacionais – autêntico rolo compressor da soberania dos povos, que procura esmagar direitos sociais e laborais, normas de protecção da saúde e da Natureza, para aumentar a exploração e a acumulação capitalistas – os povos terão a última palavra. A luta contra o TTIP continua e intensifica-se.

Alguma bibliografia recomendada:
– Briefing: «Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) negotiations: State of play», Directorate-General for External Policies, Policy Department. Parlamento Europeu, Agosto 2014.
– In-Depth Analysis: «The expected impact of the TTIP on EU Member States and selected third countries», Directorate-General for External Policies, Policy Department. Parlamento Europeu, Setembro 2014.
– Briefing: «Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP): The US Congress’s positions», Directorate-General for External Policies, Policy Department. Parlamento Europeu, Setembro 2014.
– «El Acuerdo Transatlántico Sobre Comercio E Inversión – Una carta para la desregulación, un ataque al empleo, el final de la democracia», John Hilary. Rosa Luxemburg Stiftung. Maio 2014.
– «ASSESS_TTIP: Assessing the claimed Benefits of the Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)», Final Report, OFSE. Março 2014.
– PSI Special Report: The Trade in Services Agreement and the corporate agenda, «TISA versus Public Services», Public Services International, Abril 2014.
Internet:

João Ferreira
Deputado do PCP no Parlamento Europeu