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sábado, 14 de janeiro de 2012

Uma política para enriquecer os ricos, com uma austeridade para empobrecer os pobres...

Seja qual for o desenlace da aplicação do programa da troika, que os nossos ingénuos governantes querem levar ainda mais além, é provável que se consiga alcançar as metas dos défices mas, a dívida pública vai aumentar e a economia não vai crescer a 3% ou mais como seria necessário. Num país à beira de ser total e irresponsavelmente privatizado, o que está assegurado desde já é o desmantelamento progressivo do Estado Social; o aumento das desigualdades sociais (os ricos têm uma oportunidade soberana de se tornar ainda mais ricos, largos estratos da classe média vão conhecer dias amargos e os pobres ficam à mercê de esmolas publicas ou privadas); o aumento substancial da emigração, incluindo a de pessoas qualificadas (os cínicos dirão que isso é bom para as futuras remessas dos emigrantes mas estão redondamente enganados). Enfim …
E aqui estamos nós!/Trinta e sete anos de esperanças adiadas/Vinte e cinco anos de manás desperdiçados.
José Manuel Rolo
Lisboa, 31/07/11
In Economia com futuro

domingo, 25 de dezembro de 2011

Será que o Estado Social Falhou? - por Américo M. S. Carvalho Mendes


Um professor de uma distinta escola de Economia deste país que tem aparecido com frequência nos canais de televisão a falar sobre assuntos relacionados com a actual crise económica disse há dias o seguinte, num programa a que assisti (como não gravei, estas podem não ser exactamente as suas palavras, mas a ideia é a mesma): “O Estado Social falhou! Falhou porque, se os problemas que motivaram a sua criação tivessem sido resolvidos, as despesas sociais em vez de estarem a aumentar, estariam a diminuir”.

O raciocínio parece claro e convincente, mas está errado. Pior do que isso, pode levar a decisões com consequências muito graves para o futuro do estado da nossa coesão social. Ora como parece um raciocínio claro e convincente, facilmente será aceite por muita gente, incluindo alguma que tenha, ou possa vir a ter responsabilidades de decisão nesta matéria. Temos, por isso, aqui um problema que é combater uma ideia errada que parece uma evidência e que, por isso, facilmente se pode espalhar e que pode levar a decisões com consequências graves para o futuro da nossa sociedade.

De uma forma que tem que ser aqui muito sintética, vejamos qual é o tal problema que motivou a criação do Estado Social. Esse problema é um tipo de exclusão social que a economia de mercado necessariamente gera. Do lado dos consumidores, o mercado inclui os que dispuserem de um rendimento monetário, de um património em bens, ou de uma capacidade de prestação de serviços que lhes permita obter em troca destes recursos os bens e serviços de que necessitam para satisfazer as suas necessidades básicas, ou ir além disso, se puderem. São excluídos os consumidores que não estiverem nestas condições. Do lado das empresas a economia de mercado inclui as que forem capazes de produzir bens ou serviços com características e a preços para os quais haja potenciais compradores dispostos a adquiri-los. São excluídas as que não estiverem nestas condições. Portanto, é da própria natureza da economia de mercado gerar, em permanência, este tipo de exclusão social. Ela só acabaria se o mercado acabasse e, mesmo nesse caso, seria para ser substituída por outras formas de exclusão, uma vez que os vários modos de organização social que a Humanidade já conheceu, mesmo os mais comunitários, todos tiveram as suas formas próprias de exclusão social.

Do que se acabou de dizer conclui-se que seria errado esperar que o Estado Social acabasse com o problema que esteve na sua génese. Sobre a questão do Estado Social ser ou não eficaz na forma como lida com esse problema, relembro aqui as estatísticas que saem todos os anos para os países da UE e para outras partes do mundo sobre as taxas de pobreza. Esses dados mostram, sem sombra de dúvida, que em Portugal e nos outros países onde existe um Estado Social que se veja, as taxas de pobreza seriam muito mais elevadas do que sem ele. Para já, basta sobre as questões da existência, permanência e eficácia do Estado Social.

Vamos agora à questão do crescimento das despesas sociais. Se não se deve dizer que o Estado Social falhou no sentido em que o professor de Economia que motivou esta crítica o disse, já se pode dizer que o Estado Social tem falhas, quer em termos de eficiência económica, quer em termos de justiça social. Por isso, subjacente a parte do crescimento atrás referido podem estar essas falhas que é preciso analisar com rigor e corrigir. No entanto, não são só, ou melhor, não são tanto essas falhas que explicam esse crescimento. Sem pretender ser exaustivo, vou referir aqui quatro factores muito poderosos que contribuem nesse sentido.

Nos países onde o Estado Social surgiu mais tardiamente, como é o caso de Portugal, parte desse crescimento não é mais do que o crescimento próprio da “fase de instalação” desse Estado. Boa parte do crescimento das despesas sociais em Portugal a seguir ao 25 de Abril tem que ver com isto.
Depois, tanto em Portugal como nos outros países onde o Estado Social existe há mais tempo há o que decorre da tendência de envelhecimento da população e da “feminização” da população activa.

Finalmente, também contribui para o aumento das despesas sociais, ou, pelo menos, para o aumento do seu peso relativo no PIB um fenómeno chamado “enfermidade de Baumol”. Nos serviços sociais que são actividades intensivas em mão de obra, uma mão-de-obra que é cada vez mais qualificada, a produtividade do trabalho não pode crescer a taxas iguais ou superiores às do resto da economia dada a tecnologia próprias dessas actividades. No entanto, por motivos óbvios, as remunerações dos trabalhadores desses serviços não podem evoluir de forma muito desfasada das do resto da economia. Sendo assim, há uma tendência para o encarecimento relativo dos serviços sociais, o que contribuiu para o aumento do seu peso relativo no PIB, isto mesmo que não houvesse desperdício, oportunismo, corrupção e outras ineficiências e inequidades na gestão desses serviços.

Havendo, assim factores muito poderosos que contribuem para o aumento das despesas sociais, coloca-se a questão de saber se temos economia que consiga pagar o Estado Social de que precisamos. Sobre esta questão é preciso dizer que, contrariamente ao que alguns, às vezes, nos querem fazer crer, o Estado Social não é o principal culpado dos males de que enferma a economia portuguesa. Vejamos alguns. Já cá tínhamos antes de existir um Estado Social de jeito e continuamos a ter uma Administração Pública muito centralizada, com processos de decisão pouco transparentes, que prefere instrumentos de política do tipo “comando e controlo” em vez de incentivos que confiem na iniciativa privada e fomentem mudanças de comportamentos desta iniciativa no sentido do desenvolvimento do país. Ainda neste capítulo temos um regime democrático que vai cuidando dos agentes da sua componente representativa, mas que pouco se interessa pela democracia participativa.

Há uns anos atrás não tínhamos tanto e agora temos, mas não por culpa do desenvolvimento do Estado Social, um processo de transformação da estrutura da nossa economia que a possibilidade de desvalorização do escudo adiou, mas que agora se está a fazer por ajustamentos reais. Um destes é o desemprego de duração cada vez mais longa. Mau será se não houver aqui um Estado Social para acudir a esta situação.

Também já tínhamos antes do Estado Social e continuamos a ter níveis elevados de evasão fiscal e outras injustiças no nosso sistema fiscal. O que acabei de referir e outras coisas que não decorrem do Estado Social e para as quais não há aqui espaço pesam muito no deficit do sector público e na insuficiência da poupança interna para financiar esse deficit e o investimento do sector privado gerando, depois, o endividamento externo que tanto está a pesar sobre o nosso país.

Dito isto, é, com certeza, preciso discutir com detalhe e rigor onde é que o nosso Estado Social pode estar a falhar em termos de eficiência económica e de justiça social e, como, ou até onde é que a economia que temos o poderá pagar. Isto não é bem a mesma coisa que dizer que o Estado Social falhou redondamente no propósito que presidiu à sua criação e que é preciso encontrar um substituto para ele que não se sabe muito bem qual é.
Dizer “não se sabe” talvez não seja apropriado aqui. Veja-se o que acontece nos países onde a economia de mercado se tem expandido, sem o desenvolvimento complementar de um Estado Social. Aí ou são poucos os que cuidam dos excluídos, ou então, surgem ditadores que tomam o poder em nome da causa de cuidar desses excluídos, ou ainda, tomam conta deles organizações religiosas dominadas por correntes fundamentalistas. Não é este o futuro que desejo para o meu país e não devo ser o único a pensar assim.

Vamos, pois, discutir com detalhe, rigor científico e conhecimento do que se passa no terreno o que pode e deve ser corrigido no Estado Social que temos, em termos de eficiência económica e de justiça social. Sem receios e sem chavões, vamos discutir quer questões que toquem em pedras fundamentais desse Estado Social, quer noutras de menor peso, mas que também podem ser importantes.

Já me resta pouco espaço, mas aqui vão alguns exemplos de questões relevantes a discutir. Vamos discutir o problema da manutenção de um sistema de pensões baseado no princípio da repartição, quando a evolução demográfica lhe é adversa. Vamos discutir se as componentes de capitalização que já lhe foram acrescentadas estão bem assim, ou se podem e devem ser modificadas.

Num país com um tecido denso de IPSSs e doutras organizações de economia social, vamos discutir se o Estado deve ou não expandir a sua actividade de prestador directo de serviços sociais, ou se deve antes exercer bem uma função de financiador e de regulador dessa iniciativa privada. Vamos discutir se o que já faz no plano do financiamento o faz de modo a promover a eficiência económica e a justiça social. Vamos discutir se o que já faz no plano da regulação é mais do tipo de “comando e controlo” centralista da iniciativa privada, ou do tipo de incentivo dessa iniciativa para ser mais eficiente e socialmente mais justa.
Numa democracia representativa, este debate é dominado pelos partidos políticos que tendem a caricaturar as posições dos adversários e a ir pelo caminho do que pode render mais votos. Isto não ajuda ao esclarecimento das questões e à tomada de boas decisões. Por isso, tem que ser muito grande o esforço de pedagogia cívica por parte de todos os que têm obrigação de contribuir nesse sentido. Foi só isto que motivou esta crónica. Espero que possa ajudar nessa causa.
Américo M. S. Carvalho Mendes
PÚBLICO - 22 de Outubro de 2010

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Por uma nova política económica ao serviço do Povo Português! - por António Garcia Pereira

Os mesmos economistas que ainda há um ou dois anos atrás defendiam, como solução de “sucesso”, o modelo económico de especulação financeira e da destruição da capacidade produtiva - que precisamente conduziu o nosso País, e não só, à crise e ao desastre, reaparecem agora, e sem qualquer pudor, a defender como inevitável o pagamento da dívida e o cumprimento do acordo com a tróica, e a defender como novas soluções de “sucesso” a aposta na facilitação dos despedimentos, no abaixamento dos salários e das contribuições patronais para a segurança social, na privatização e venda a preço de saldo dos poucos activos que ainda restam ao País, na diminuição brutal das garantias sociais, política esta que o Governo, sempre invocando o dito acordo da tróica, mas indo até e por diversas vezes além dele, está agora a tratar de executar a todo o transe.
Ora, e antes de mais, impõe-se referir que o Povo Português não deve aceitar pagar uma dívida que não foi ele que contraiu nem foi contraída em seu benefício e também que, antes e acima de tudo, se imporia fazer uma auditoria independente à mesma dívida, para assim determinar rigorosamente quanto se deve, a quem se deve e porque é que se deve.
Já todos compreendemos, todavia, que os dirigentes políticos e partidos que aceitam e apoiam o citado acordo com a tróica não querem que tal auditoria se realize, pois sabem perfeitamente que, uma vez que se conhecesse com precisão em que consiste e donde provém a propalada “dívida”, nenhum elemento do Povo Português aceitara dar mais um cêntimo que fosse para o respectivo pagamento.
Depois, a lógica do “facto consumado” e a imposição dum verdadeiro “estado de sítio” informal que se nos estão a pretender impor, com a suspensão “de facto” da Constituição e o silêncio cúmplice, entre outros, do próprio Tribunal Constitucional, e tudo isto sob a invocação de que estas medidas estão no referido “Acordo da tróica”, escamoteiam que tal “Acordo” será, quando muito, um Acordo ou Convenção Internacional, de grau hierárquico inferior à Constituição, que por isso não a pode suspender ou invalidar, e que se a contrariar, como sucede com grande parte do seu conteúdo, será inconstitucional e não poderá vigorar na Ordem Jurídica interna.
Por outro lado, é preciso não esquecer que foi precisamente o modelo defendido por estes “especialistas”, assente na lógica da destruição do essencial da nossa capacidade produtiva a troco dos milhões da UE, e da consequente transformação de Portugal num País praticamente sem Agricultura, (que seria para a França) sem Indústria (que seria para a Alemanha), sem Minas e sem Pescas (que seria para a Espanha) e com um sector terciário em larga medida de baixa qualificação, e também na lógica de uma pretensa competitividade decorrente do trabalho intensivo (muitas horas de trabalho), pouco qualificado e mal pago (com salários muito baixos), que conduziu o nosso País ao desastre, à destruição da produção nacional e à transformação de Portugal num País cada vez mais dependente do exterior e, logo, cada vez mais endividado.
Acresce que a tese da pretensa necessidade da “flexibilização”, leia-se da “desregulação”, para assim se atrair investimento estrangeiro, conduz em última instância ao resultado da ausência de qualquer regulação social, já que dentro dessa lógica – e tal como, aliás, as agências de rating, então muito elogiadas, sempre defenderam… – os destinos privilegiados dos investimentos serão sempre os “paraísos” da aniquilação e destruição dos mais básicos direitos humanos e sociais.
Por outro lado ainda, como a experiência dos últimos 30 anos na Europa bem mostra, mas os “economistas” e “especialistas” seus defensores procuram escamotear, não há nenhuma demonstração de que as politicas – que não têm novidade nenhuma e representam apenas o “recauchutamento” de velhas receitas do final dos anos 70 no resto da Europa e meados/finais dos anos 80 entre nós – de flexibilização e desregulação laboral e social tenham tido por resultado o aumento da produtividade ou, mais importante ainda, o aumento do emprego.
Não existe alternativa de desenvolvimento para o País que passe pela aceitação do pagamento da dívida pois, dada a dimensão e natureza da mesma, o resultado desde logo será que quanto a todas as medidas, por mais restritivas e violentas que sejam, adoptadas num mês, logo se vem dizer no mês seguinte que afinal não chegam e que é preciso ainda mais do mesmo, ou seja, aumento dos impostos sobre quem trabalha (nos grandes interesses económico-financeiros obviamente que se não toca, porque isso poderia “assustar os mercados” e “afastar o investimento externo”…), diminuição brutal dos salários (seja pelo seu corte directo, seja pela facilitação e embaratecimento dos despedimentos) e, sob a formula eufemística do “combate à despesa”, a restrição de acesso e o aumento do custo dos serviços essenciais dos cidadãos como a Saúde, a Educação, os Transportes, a Justiça, etc..
O caminho proposto pelos “doutores da ciência económica do regime” será, assim, o da venda dos poucos activos de que o País ainda dispõe e o empobrecimento e o lançamento da grande maioria da população, durante décadas, a níveis mais baixos do que os da governação de Salazar.
Mas, ao invés do que proclamam esses autênticos “doutores da desgraça” (só para o Povo, é claro!), a alternativa existe, sendo que Portugal tem enormes vantagens competitivas de partida, a começar pela sua inigualável localização geo-estratégica!
Para isso, precisamos dum governo democrático patriótico com um programa de desenvolvimento da economia, na linha mestra de tratar de produzir para não ter de importar, e assente num conjunto de criteriosos investimentos na Agricultura, nas Pescas (pois Portugal tem a maior zona económica de toda a UE, hoje absolutamente entregue às frotas pesqueiras estrangeiras, a começar pela espanhola), na Indústria (em particular nos sectores onde temos um enorme e prestigiado “know-how” acumulado, como a Construção e Reparação Naval e Metalurgia e Metalo-mecânica) e na Tecnologia.
Peça essencial desse plano de desenvolvimento da economia nacional, e também de combate ao desemprego, deverá ser o investimento estratégico na edificação de um conjunto de portos atlânticos devidamente modernizados e apetrechados (como já é hoje o caso de Sines, ponto crucial absolutamente estratégico de todo o tráfego marítimo internacional, sobretudo após a abertura, a partir de 2013, do Canal do Panamá à passagem dos maiores porta-contentores do Mundo, determinando assim que a melhor rota de e para Oriente, designadamente de e para a China, seja por Ocidente…) e uma rede de transporte ferroviário misto (passageiros e mercadoria), em bitola europeia, ligando esses portos entre si e fazendo uma ligação à Europa pela via mais directa, rápida e competitiva e que constitui o nosso “pipeline” natural, ou seja, Vilar Formoso – Salamanca – Irún (em vez do trajecto assente essencialmente na passagem pela centralidade de Madrid, como os espanhóis nos pretendem impôr).
E este rasgar de novos caminhos passa também pela aposta nos grandes factores de produtividade do século XXI (incorporação tecnológica, qualificação do trabalho e dos processos, capacidade de inovação, excelência de gestão, etc.), pelo combate sem tréguas à corrupção e à burocracia, pela imposição à Banca – que se especializou em longa medida na mera especulação financeira – do apoio às actividades produtivas e na modificação radical do sistema fiscal, actualmente perseguidor e penalizador dos “alvos fáceis” como os trabalhadores por conta de outrém e ao qual a grande riqueza se exime por completo.
A alternativa existe, pois, e é viável!
Do que o País necessita é, isso sim, duma nova política, democrática patriótica, e duma visão estratégica baseada nessa política, e não da lógica da venda do País a retalho e da definitiva transformação do nosso País numa espécie de “Malásia de 2ª” da União Europeia.
E, como creio que agora todos agora compreenderão – mas quando aqui já uns meses atrás alguns, poucos, o disseram, (quase) ninguém os quis ouvir… – era afinal toda esta problemática que deveria ter sido ampla e democraticamente discutida na última campanha eleitoral, em vez da autêntica fraude a que assistimos, consistente em nos procurarem convencer de que o “Acordo com a tróica” (sempre convenientemente escondido nas suas consequências essenciais e mais gravosas) tinha que ser cumprido e que só poderíamos escolher entre as forças políticas que alunos mais aplicados na sua execução se mostrassem.
Os resultados da aceitação dessa fraude – levada a cabo com a prestimosa colaboração de todo um cortejo de economistas, especialistas, comentadores, jornalistas e analistas – começa agora a estar à vista.
Há agora é que romper com essa lógica, cortar com a traição nacional em curso (porque é disso que verdadeiramente se trata) e impor um rumo novo ao País!
António Garcia Pereira
In Economia com Futuro

Nota do Editor: Imediatamente a seguir à assinatura do chamado Memorando de Entendimento com a troika, assinado pelo então primeiro-ministro, José Sócrates, pelos dirigentes do PSD e do CDS, respectivamente, Passos Coelho e Paulo Portas, e, ainda, pelo actual Governador do Banco de Portugal, Carlos Silva Costa, aqui no Alpendre da Lua, aquela humilhante capitulação em relação ao Fundo Monetário Internacional e à União Europeia foi classificada como crime de alta traição à Pátria. E é com regozijo que se verifica, cada vez com mais frequência, o surgimento de corajosas tomadas de posição a denunciar esta traição. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Como é que vamos sair disto? - José Castro Caldas*

No futuro, os historiadores serão por certo severos em relação ao papel desempenhado pela Economia nos acontecimentos que estamos a viver.
Refiro-me não à Economia no seu melhor, plural e aberta ao debate e à reflexão crítica, mas à Economia monolítica que se separou da ética e da política para se transformar numa “ciência dos meios” ao serviço de finalidades que são tomadas como inevitáveis e, por isso, não são discutidas. Refiro-me à Economia que para ser “ciência” se tornou afinal uma aritmética desumana, cujos teoremas tendem a favorecer invariavelmente políticas convenientes a minorias privilegiadas.
Os historiadores analisarão em detalhe esta estranha “ciência”. Olharão para a inverosímil “teoria dos mercados eficientes” nascida em Chicago nos anos 60 do século passado para servir de fundamento à Nova Arquitectura Financeira – desregulada e tóxica - que levou o mundo à beira do abismo; deter-se-ão nas utopias do fim da história e da geografia e na liberdade dos capitais sem contrapartida na liberdade das pessoas; espantar-se-ão com a insistência nas terapias de austeridade como solução em contextos recessivos e verificarão que essas terapias aprofundaram a crise no preciso momento em que ela dava sinais de abrandamento. Falarão, em suma, da estranha sobrevivência de teorias estranhas, contra todas as evidências, e da responsabilidade das ideias preconceituosas na produção de acontecimento adversos.
Se tivermos sorte, os historiadores do futuro reservarão uma nota de pé de página para os economistas e outros cientistas sociais que antes e depois destes acontecimentos exprimiram a sua divergência com esta Economia e que procuraram, muitas vezes sem sucesso, preservar o pluralismo e as condições de debate quer na academia quer no espaço público; que defenderam e praticaram uma ciência económica aberta tanto à consideração das finalidades e valores que vale a pena prosseguir quanto à descoberta dos melhores meios para os realizar.
Se tivermos mesmo muita sorte, os historiadores do futuro poderão até referir a Conferência “Economia Portuguesa: uma Economia com Futuro”!
Mas deixemos o lugar na história e outras vaidades pequeninas e entreguemos a História aos historiadores do futuro, limitando-nos agora a reconhecer que a nossa responsabilidade – a responsabilidade de quem estuda e ensina economia - é neste momento muito grande.
Espera-se de nós uma intervenção informada, ma medida do possível, desapaixonada, capaz de ajudar a sociedade a considerar os problemas, as finalidades e as soluções alternativas para os problemas com que se confronta. Essa expectativa está bem patente no interesse que esta Conferência suscitou, manifesto no número, qualidade e diversidade dos participantes hoje aqui presentes.
Nesta Conferência quisemos reunir e pôr em diálogo pontos de vista distintos mas que comungam entre si o facto de não se conformarem nem com a lógica das inevitabilidades nem com a submissão do destino colectivo a forças cegas dos “mercados”.
Na nossa diversidade, incumbe-nos hoje, e nos dias que se seguirão, procurar respostas para a pergunta que paira nesta sala: “Como é que vamos sair disto?”.
Como é que vamos sair de uma trajectória de recessão induzida pela austeridade que, podendo reduzir a base fiscal mais do que o antecipado em cenários irrealistas, nos levaria, de ‘derrapagem’ em ‘derrapagem’, como na Grécia, à descoberta permanente de “desvios colossais” e à sujeição a novas e infindáveis exigências dos credores?
Como é que vamos evitar, no imediato, a catástrofe social eminente decorrente de um desemprego crescente e não apoiado?
Como é que vamos afirmar, perante quem decide na UE, a nossa recusa da via punitiva para a redução do défice e da dívida que não reduz a dívida, pode não reduzir o défice e empobrece Portugal e acentua a distância que o separa do centro da Europa?
Como é que vamos manifestar a nossa rejeição de uma configuração institucional do Euro que serve alguns e não todos os seus membros?
Como é que vamos desenvolver formas de acção colectiva, de associação, de solidariedade e de iniciativa económica capazes de dar resposta às necessidades mais prementes?
Como é que vamos construir caminhos para a Economia do Futuro para lá da situação de emergência em que nos encontramos hoje - uma economia menos desigual, menos precária, mais solidária e mais sustentável ambiental e socialmente?
A nossa perspectiva é a de cientistas sociais, de investigadores que cultivam o primado da razão, do bom argumento e da observação do mundo, relativamente ao dogma, ao poder ou ao interesse particular. Tudo isto integra o ethos da ciência que é preciso reafirmar no tempo de todas as sujeições às prioridades “dos mercados”.
Mas a ciência que praticamos, que procuramos praticar com mente aberta e rigor, não é um compêndio de verdades inquestionáveis. É antes uma procura prosseguida por caminhos diversos, plural portanto; livre, sujeita apenas à disciplina do debate racional, da prova, ou argumento, e da contraprova. Não é também um convento, ou uma “torre de marfim”. É um processo que deve decorrer no espaço público, em debate aberto acerca dos fins que queremos prosseguir, dos valores que procuramos afirmar e dos meios a adoptar.
A nossa ciência é uma ciência social cidadã. Por isso mesmo quisemos que esta Conferência fosse aberta a um público diversificado.
A economia diz respeito a todos e o conhecimento acerca da economia deve beneficiar do contributo de todos. Eu próprio, que sou economista e tenho portanto uma noção muito clara dos limites do conhecimento dos economistas, acredito que economia é importante demais para ser deixada aos economistas.
Estou certo de que os oradores convidados e os presentes nesta Conferência darão testemunho, nas suas convergências e divergências, da possibilidade e vontade de procurar e encontrar pela discussão inteligente, soluções para os problemas que neste momento nos preocupam a todos. Nos ajudem, em suma, a descobrir como é que vamos sair disto.
*José Castro Caldas
Economista
(Comissão Permanente "Economia com Futuro", CES Un. de Coimbra)
Discurso da Sessão de Abertura do colóquio "Economia portuguesa: uma economia com futuro", realizada em Lisboa, em 30 Setembro de 2011, na Fundação Gulbenkian.