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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A Bomba Atómica demográfica


A Bomba Atómica demográfica

Não sei!... Não sei se vai ser possível agradar a Gregos e a Troianos, ou seja, às instâncias europeias e ao projecto da nossa Geringonça.

Portugal, para pagar a dívida, necessitaria de crescer cinco por cento por ano, até 2036, cálculo este que é de 2014, E esse crescimento não se verificou em 2015, em 2016, em 2017, nem vai ocorrer em 2018, segundo o OE. Assim, já se perderam quatro anos, o que quer dizer que a fatia do pagamento da dívida terá de aumentar nos anos seguintes.

O crescimento de 2017 deveu-se muito ao Turismo, mas esse crescimento não é infinito. Há um ponto de saturação que, segundo os especialistas, já foi atingido. E, nos outros sectores da economia, o investimento está a ser colocado em sectores de baixo valor acrescentado e de oferta de emprego mal remunerado, tal com ainda ontem um gabinete da comissão europeia alertou (eles atá são nossos amigos). Com esta ambição rasteira, o crescimento será mínimo.

Mas há um problema super estrutural, de longo prazo, que não está a ser considerado, pois o governo é obrigado, pela conjuntura actual, a governar a curto e a médio prazo, e sempre com um olho no burro e outro no cigano (adivinhe o leitor quem é o burro e quem é o cigano). Trate-se do alarmante défice demográfico, que, tal como um cancro, vai minando a estrutura etária da população portuguesa. Nos próximos dez anos, a natalidade vai sofrer um grande rombo, porque a actual geração de jovens não teve, não tem, nem vai ter condições de vida, que lhe permita ter filhos. Este problema, que estava circunscrito ao mundo rural, por efeito da emigração, passa a ser também um problema das cidades. E com uma demografia adversa, não há economia real que resista. Se repararmos, este pilar, essencial para o desenvolvimento, não está ser considerado. E os nossos governantes, a Merkel e a Comissão Europeia sabem isto, mas assobiam para o lado e metem o lixo debaixo do tapete, e fazem o seguinte raciocínio, quem vier atrás que feche a porta.

A continuar esta situação de impasse, a bomba atómica acabará mesmo por rebentar.
Alexandre de Castro
2017 11 14

terça-feira, 6 de junho de 2017

Porque é difícil unir a Europa?


Porque é difícil unir a Europa?

Historicamente e sociologicamente, a Europa é diferente dos EUA. A Europa passou pela "idade imperial" de Roma, pela fase senhorial da Idade Média, pela Revolução burguesa francesa, pela fase da industrialização inglesa e, transversalmente, pelo colonialismo de Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Bélgica. A História dos EUA é recente, e começa com a emigração massiva dos europeus mais pobres e com a matança dos índios, dos quais só restam alguns, nas reservas, para exibir aos turistas, Quando declarou a sua independência, já havia um sentimento nacional muito forte, que unia os descendentes imigrados, que, rapidamente, esqueceram a sua origem europeia.

As várias guerras entre os vários países da Europa, desde a Idade Média, criaram um sentimento nacional em cada povo, que ainda se mantém muito forte. E, actualmente, esse sentimento nacionalista está a emergir novamente, porque a UE e o Eurogrupo não são mais do que um sofisticado processo para que a Alemanha domine economicamente, por meios pacíficos, os outros países. Agora, e depois da sonegação da soberania monetária, cambial e financeira, a Alemanha já está a querer retirar, aos governos dos outros países, a sua soberania orçamental. Perante estes garrotes, a tendência dos povos irá ser centrífuga e não centrípta, como os europeístas gostariam. A Europa é um continente de nacionalidades, que nem Napoleão nem Hitler conseguiram dominar pelas armas.Tentar criar uma Europa Federal é uma verdadeira aberração, que a memória histórica sempre rejeitou e continuará a rejeitar.
Alexandre de Castro
2017 06 06

domingo, 30 de abril de 2017

O que é ser europeu? E como vai a grandeza da Pátria?


O que é ser europeu?

A propósito da minha publicação sobre o inquérito do Eurobarómetro, em que se pretendia medir o grau de aceitação, pelos cidadãos, dos conceitos da integração política, económica e financeira [a integração militar já vem a caminho], da Europa, uma amiga, a Helena Viegas interpelou-me, muito justamente, com a pergunta: O que é ser europeu?

Respondi assim:

Historicamente, a Europa sempre foi um continente de povos e nações. Ao longo dos séculos, nem sequer se criou uma língua comum. Cada povo europeu tem a sua língua e a sua própria identidade. O insucesso e o fracasso foram os resultados obtidos por Napoleão e por Hitler, quando pretenderam unificar a Europa, pela força. É impossível unificar a Europa.

Por outro lado, eu não sei em concreto o que é ser europeu, para além do conceito geográfico e dos efeitos de proximidade no processo histórico.

Ser europeu será ter sonhos eróticos com a senhora Merkel? É ter vontade de contratar, a recibos verdes, o presidente francês, François Holland, para uma parelha de palhaços de circo?

Eu não sei, querida amiga, o que é ser europeu. Francamente, não sei. Apenas sei que sou português, por nascimento e por cultura, cultura que não renego, e que a UE é uma grande burla, tão maligna como a burla das religiões, a cargo de eclesiásticos sem escrúpulos, incluindo os Papas.

***
E assim vai a grandeza da Pátria

Também sei que o nosso futuro não é a Europa política e económica, que está a ser construída, e que de ideia falhada passou à condição de facto histórico falhado, isto na persctiva que deveria ser a dos países pobres europeus, porque na visão dos seus pioneiros (Plano Shuman) havia a intenção de formar um mercado único europeu, iniciado por um mercado único europeu do carvão e do aço, ocultamente protegido da livre concorrência das economias dos EUA e da Grã-Bretanha, e que servisse de âncora às economias da França e da Alemanha, e, subsidiariamente, às economias da Bélgica, do Luxemburgo, da Holanda e da Itália, a que se seguiu a constituição da Comunidade Económica Europeia, que começou a integrar os restantes países europeus, menos desenvolvidos.

O objectivo foi sempre a economia. Para dinamizarem as compras às indústrias pesadas dos países ricos, foi necessário avançar com os fundos europeus, para os quais todos os países membros contribuíam e todos os países recebiam, de acordo com a proporcionalidade da sua riqueza. Os grandes beneficiários foram os países ricos, que condicionaram o mercado e adaptaram as ajudas comunitárias aos perfis das suas economias, que tiveram, assim, um grande impulso.

Ganha a frente comercial, baseada nos factores produtivos (indústria pesada e indústria ligeira), e para ganharem novas mais-valias, a Alemanha e a França abriram uma nova frente de negócio, a frente financeira, baseada na especulação imobiliária, e tudo isto em nome da solidariedade europeia. Os bancos desses dois países hegemónicos começaram a aliciar os bancos dos países da periferia, onde estava Portugal, para dinamizarem nos seus países, através de empréstimos aos potenciais clientes (a classe média), a juros baixos, o mercado da compra de habitação própria. Aparentemente, foi um sucesso. Nunca os países do sul tiveram tanto dinheiro. Nos arredores das grandes cidaddes, as casas cresceram como cogumelos e novos bairros surgiam, a ilustrar os benefícios da Europa unida e fraterna. Para o cidadão-tipo, incorporado na classe média renovada, ter casa própria era um sonho de uma vida e de um projecto. E assim se compreende a sucessão de governos, religiosamente adeptos do europeísmo. Pudera! O dinheiro era tanto que até dava para os operadores da pujante indústria da construção civil - que, num ápice, apareceram a construir casas, auto-estradas, estradas, pontes e até dois estádios, que não servem para nada – corromperem autarcas, funcionários superiores dos ministérios, ministros e até, segundo se julga, um primeiro-ministro.

O pior veio depois. Um cenário previsível para a alta finança e para os governantes da época, os dos países credores e os dos países devedores, que, agora, não podem reclamar a sua inocência. Bastava-lhas ter ouvido os avisos constantes do PCP e de muitos economistas, de consciência honesta, para terem procedido com moderação, na forma como o país estava a endividar-se.

O que veio a seguir já é recente, e seria redundante estar aqui a fazer-lhe uma referência: uma crise profunda, o espectro da bancarrota, a bárbara assistência técnica da troika, com o seu modelo clássico de cortar nos rendimentos do trabalho para salvar os rendimentos do capital, a falência financeira das famílias, que ficaram sem casa e sem o dinheiro das amortizações, já efectuadas, o aumento do desemprego, principalmente o desemprego dos mais jovens, que ficarão conhecidos na História como membros da Geração Perdida, aumento vertiginoso da criminalidade, devido à pobreza, empobrecimento dos pensionistas e reformados, que viram os seus subsídios diminuídos, por ordem da troika, que o PS, PSD e CDS aclamaram como salvadora da Pátria, cortes no Serviço Nacional de Saúde e na Educação, etc…etc…etc…

E assim vai a grandeza da Pátria…

Alexandre de Castro  
2017 04 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Raízes - "Boiada" _ Uma Nota sobre etnografia



BOIADA

(MINHO)

Labra boi e torna a labrar
Pedei ao Senhor que nos benha ajudar
Ei ei ei boi a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Que dais a quem os bai ver
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber
Bom terreiro p’ra dançar
Água fresca p’ra beber
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber

Senhora tão pequenina
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina
Comadre da minha mãe
Senhora minha madrinha
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina

Labra boi labra por trás da capela
Pica e repica na baca amarela
Ei ei ei boi labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Tudo é caminho e chão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão
Tudo são crabos e rosas
“Prantados” por minha mão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão

O bosso mosteiro cheira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira
Cheira a crabo cheira a rosa
Ao botão de laranjeira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira

Labra boi labra por trás do arado
O nosso labrador
Merece um cigarro
Ei ei ei a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Eu já estou alibiado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado
Duma fala que me deste
Eu fiquei desenganado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado

In Raízes G. A. C.

***«»***
Eu não sei em que estado se encontra o trabalho de uma recolha sistematizada do património imaterial português. Também não sei se o Ministério da Cultura dedica a devida atenção à investigação, recolha, tratamento e divulgação do imenso material etnográfico que ainda existe nos territórios, geograficamente mais profundos, do país, e que, com a desertificação humana e com a penetração dos meios audiovisuais e das novas tecnologias, está ameaçado de extinção. Falta-me também informação sobre a investigação académica das universidades, que ministram cursos de Antropologia Social, e se essa investigação está articulada com planos consistentes, já existentes, ou se se remetem, de uma forma elitista, ao mundo fechado dos seus saberes, obedecendo mais aos seus interesses institucionais e voluntaristas.

O que sei é que, num trabalho desta importância e envergadura, é necessária uma colaboração dos vários agentes culturais, não ignorando as iniciativas locais e particulares, que não podem ser excluídas.

Um plano central do Ministério da Cultura, negociado entre todos os vários agentes, vocacionados para esta área do conhecimento, é necessário. Um plano central, metodicamente bem organizado e bem estruturado, em relação aos objectivos, aos meios materiais necessários, ao financiamento justo e equilibrado, e ao controle da execução e dos resultados. Tem de ser um plano rigoroso, mas que não seja asfixiante, com os excessos de burocracias paralisantes e que permita e estimule as capacidades de iniciativa e de criatividade dos agentes culturais locais. Apenas um exemplo para explicitar melhor esta última ideia. Se num determinado lugar do país, ignorado ou esquecido pelos poderes centrais institucionais, pretender-se revigorar aspectos do seu património imaterial, o plano deve contemplar, de uma forma aberta, a deslocação de personalidades académicas que possam dar o seu contributo científico.

E as escolas? Que eu saiba (e eu sei pouco) não existem nos currículos escolares referências ao estudo elementar sobre o património cultural imaterial, pois o ensino está inteiramente vocacionado para o conhecimento utilitarista.
Se Portugal continuar a perder este riquíssimo património, ficará mais pobre, porque perderá a sua memória. E para saber quem somos, devemos saber de onde viemos e como viemos.

Estou a falar de cultura e não de adereços culturais, para mostrar aos turistas. Não estou a falar de futebol, que já parece ser um desígnio nacional, para mostrar lá fora que também somos grandes. Por estas vias enviesadas, o melhor que podemos ser, é grandes anões. 

Alexandre de Castro
2017 04 27

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pilhagem e agiotagem: dois processos paralelos da política económica e financeira da Europa


O euro foi o principal instrumento da rapina, utilizado pelas instituições da União Europeia. Permitiu a silenciosa aceleração da transferência da riqueza produzida pelos países da periferia (os mais pobres) para as economias dos países do centro (os mais ricos).

Neste curto período da História da moeda única, ainda não é possível fazer uma rigorosa análise dos seus efeitos, mas já há sinais evidentes de que o euro vai ser o coveiro dos países pobres e, por arrastamento, a longo prazo, da própria Europa.

Ainda ninguém me deu uma resposta a uma pergunta que tenho andado a fazer: Por que razão uma crise tão profunda e tão perversa, como é esta, que já dura há sete anos, e cuja resolução não se vislumbra, no horizonte próximo, ainda não teve solução, nem foi ultrapassa? Para mim, a resposta é só uma. Trata-se de uma crise estrutural profunda e não uma daquelas crises cíclicas, comuns ao sistema capitalista, provocadas pelo desequilíbrio macroeconómico do binómio Procura / Oferta, mas que foram sendo resolvidas num curto espaço de tempo (dois ou três anos), recorrendo-se à desvalorização da moeda.

A crise do euro é de outra natureza. É uma crise provocada pelo sistema financeiro, que recorreu à agiotagem numa escala nunca vista, servindo-se do sistema político bipartidário universal (à escala europeia), em que os dois partidos dominantes se esgadanhavam entre si, pela conquista do poder, mas, que estavam perfeitamente sintonizados nas questões fundamentais, como são as  do processo da pilhagem de recursos e o da agiotagem, entretanto postos em marcha.

O Processo da pilhagem e a agiotagem mais não fizeram do que transferir a riqueza produzida pelos países pobres para os países ricos.

A pilhagem iniciou-se nas últimas duas décadas do século passado, com as ajudas comunitárias, que até pareciam um acto altruísta de generosidade e de solidariedade, por parte da Europa rica. As pessoas foram enganadas, julgando que estavam a receber ajudas desinteressadas. Não estavam. Todo esse dinheiro, que jorrou da torneira da Europa, destinava-se obrigatoriamente a um certo tipo de investimentos, investimentos estes que levaram naturalmente, devido à intencional abertura das fronteiras, os países receptores a importar equipamentos, matérias-primas e produtos acabados dos países ricos, principalmente da Alemanha e da França. Um exemplo ilustrativo: todo o alcatrão utilizado na construção das auto estradas portuguesas veio da Alemanha. A maior parte dos equipamentos para as milhares de empresas de construção civil, que se formaram em Portugal, após à adesão ao euro, tiveram a mesma origem. Como se disse anteriormente, a prévia e intencional abertura das fronteiras, para formar o espaço europeu, e a consequente extinção de pautas aduaneiras, facilitaram este circuito, que muito beneficiou a Alemanha e a França, que viram aumentar em flecha as suas exportações. Com esta oculta política económica de conveniência, a Alemanha chegou a exportara para o espaço europeu sessenta e cinco por cento do total das suas exportações, o que mostra a importância que o mercado europeu tem para a sua economia.  

Por sua vez, a agiotagem exerceu-se ao nível da dívida, que se alimentou do pretexto de que cada português (grego ou espanhol) deveria ter casa própria, pois então. Os grandes bancos alemães e franceses, ajudados pelo BCE, que manteve as taxas de juro intencionalmente baixas, através do controle da inflação, começaram a seduzir os bancos dos países periféricos para forçarem, entre as classes médias, o crédito para habitação própria e para a aquisição de bens de consumo, que eram verdadeiras galinhas de ovos de ouro. Os bancos do centro emprestavam dinheiro aos bancos dos países da periferia e estes emprestavam aos incautos consumidores. Foi uma festa, que acabou em tragédia. A bolha especulativa tinha de rebentar, com tanto crédito concedido ao desbarato. E o posterior incumprimento dos devedores seguiu o percurso inverso do capital emprestado. Os clientes deixaram de pagar aos bancos dos países da periferia, e estes deixaram de pagar aos bancos da Alemanha e da França. O resto da história já o leitor a conhece. A Europa vive assim num estado de pré-falência do seu sistema financeiro.

No entanto, devo acrescentar o seguinte: os dividendos do accionistas dos  bancos ficaram garantidos, com a cobrança dos juros. Calcula-se que cada empréstimo foi premeditadamente concebido e calculado, para que, a meio do tempo da vigência do contracto, em juros e amortizações, o capital emprestado fosse totalmente reabsorvido pelo banco, ficando o tempo contratual restante a gerar apenas lucros. Grande negócio.

Tudo isto não é novidade, pelo menos ao nível das ajudas. Foi o que fizeram os Estados Unidos à Europa, após as duas guerras mundiais do século passado, principalmente após a segunda guerra, que deixou a economia europeia de rastos e Alemanha com as suas infra-estruturas completamente destruídas. O Plano Marshall injectou na Europa muitos milhões de dólares para a reconstrução das infra-estruturas produtivas e do parque habitacional, dinheiro esse que serviu de suporte financeiro aos países europeus para importarem maquinaria industrial, automóveis e outros veículos motorizados, além de bens de consumo, de que a Europa estava carenciada. Na realidade, a Europa foi muito beneficiada com estas ajudas, mas também é certo que os EUA beneficiaram muito mais com o fulgurante aumento das suas exportações, ao ponto de se transformarem na primeira potência mundial.

Mas, ao contrário do está a acontecer na Europa, o Plano Marshall não impunha aos países europeus restrições económicas de qualquer ordem, nem impôs nenhuma moeda única transatlântica, até porque os EUA pretendiam criar no ocidente europeu economias robustas, que permitissem aumentar o poder de compra da população, a fim de travar o contágio da ideologia comunista, que alastrava entre o operariado e o mundo intelectual.

E é nesta perspectiva, a da análise dos grandes ciclos da História, que podem compreender-se melhor os acontecimentos do presente.  
Alexandre de Castro

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Uma política preventiva é o meio mais eficaz e menos oneroso de combater a praga dos incêndios florestais


Incêndios. Ministra esperava "maior solidariedade" de parceiros europeus

Portugal acionou mecanismo europeu de proteção civil. Itália respondeu ao pedido de ajuda, Espanha já tinha enviado dois aviões
A ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, mostrou-se esta quinta-feira insatisfeita com a resposta dos parceiros europeus ao pedido de ajuda de Portugal civil para fazer face aos muitos incêndios que lavram no país.
"Estava à espera de uma maior solidariedade dos parceiros europeus", afirmou a ministra, sublinhando que Marrocos, apesar de não pertencer à União Europeia, respondeu prontamente ao pedido de auxílio.
Constança Urbano de Sousa disse ainda, em Arouca, que o dispositivo de combate a incêndios tem estado a responder "com enorme determinação" aos vários fogos que assolam o país, salientando que o trabalho tem sido dificultado pela "severidade" das condições meteorológicas.
"O nosso dispositivo de combate a incêndios é robusto, capaz e bem treinado. Ao longo destes anos foi sendo desenvolvido e está adequado para fazer face a grandes fenómenos com alguma severidade", assegurou.

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Uma política preventiva é o meio mais eficaz e menos oneroso de combater a praga dos incêndios florestais

A senhora ministra da Administração Interna ainda não percebeu que a Europa não é um espaço de solidariedade. É um espaço de negócio. Registe-se o altruísmo de Marrocos, da Espanha e da Itália.
A senhora ministra (que não tem culpa nenhuma da actual tragédia incendiária) também ainda não percebeu, e baseando-nos nas declarações por si proferidas, que por mais meios de combate que existam (bombeiros e helicópteros) para utilizar nos incêndios florestais, não é possível deter a fúria do fogo, nem evitar a sua deflagração, na época crítica, se não houver previamente uma verdadeira política de prevenção, que praticamente não existe. 
Ao contrário do que acontece com os incêndios urbanos, os florestais não podem ser extintos com água e ar, e a acção dos helicópteros é muito limitada. A estratégia correcta para evitar a sua ocorrência é "roubar-lhes o alimento", quer provocando, antes da época crítica (Julho e Agosto), incêndios controlados nos matagais entre zonas contíguas de denso arvoredo, quer limpando as matas e, ainda, e isto é importante, estimulando a actividade da pastorícia. Os rebanhos roubam o material combustível, que alimenta as chamas. Por este trabalho prestado à sociedade, os proprietários de rebanhos recebem um subsídio estatal, que o anterior governo reduziu, revertendo uma parte a favor dos bombeiros. Claro que os bombeiros (uns verdadeiros heróis, que não sabem chutar a bola) precisam de mais meios físicos e de mais incentivos, mas que deveriam ser custeados por outras fontes de financiamento, que não a que estava destinada para os pastores. 
Por outro lado, é necessário romper com os lobies de interesses que giram à volta do fogo, e que privilegiam a estratégia do combate às chamas, em vez da estratégia preventiva, ao mesmo tempo que dão a ganhar, a muita gente, dinheiro sujo. Veja-se o caso do serviço das frotas de helicópteros de empresas privadas, serviço esse que a Força Aérea está em condições de prestar com eficácia, a um custo muito menor. 
Pelo que disse, a senhora ministra tem muito que aprender sobre a natureza desta praga, que devora património e alarma as populações rurais, que apenas têm voz na comunicação social, quando as suas casas são consumidas pelas chamas.
Alexandre de Castro
11 AGO 2016

sábado, 9 de julho de 2016

Estas são as "malhas que o Império tece" (*)


Estas são as "malhas que o Império tece" (*)

Os portugueses escreveram na História uma página bem negra, ao levantarem do chão de África o gigantesco mercado global da escravatura. 
Marcados a ferro e fogo, como gado, os escravos eram encurralados nos negreiros, que os levariam para o Brasil e para as Américas. Mais de metade morria de doença, na dolorosa viagem, sem regresso. Muitos morriam de saudade. 
Os que chegavam, acorrentados ao ferro de um cruel destino, eram vendidos em leilão, na praça pública, e tratados como animais domésticos. 
Desapossados de tudo, principalmente da sua dignidade, quando morriam, apenas deixavam à sua descendência, como herança, a sua humilde condição: a condição de escravo, em mercadoria transformado.
Portugal ainda não fez a catarse. Ainda não fez tudo, para se redimir desta dor, que do Império nasceu, e que na escuridão dos porões, caminhou pelos mares, lado a lado, com a incandescência da glória, ostentada pela cruz e pela espada, nos pendões pendurados nos mastros das caravelas.
Estas são as "malhas que o Império tece".
Alexandre de Castro
09 JUL 2016
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(*) Texto escrito,  a propósito da inauguração do primeiro memorial da escravatura, em Cacheu, no norte da Guiné-Bissau (Ver aqui), e onde vão ficar guardados vários artefactos, relacionados com o tema: colheres de cozinha, tachos, chicotes e ferros que, depois de ficarem em brasa, pelo lume, serviam para marcar os escravos.
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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Uma premonição sobre o fim da União Europeia


Uma premonição sobre o fim da União Europeia

Se é verdade que a economia do Reino Unido precisa da Europa, não é menos verdade que a economia europeia também precisa do Reino Unido. E também é verdade que, a David Cameron, a ideia de convocar um referendo, sobre a permanência da Grã-Bretanha na UE, não lhe surgiu de repente, quando ele, numa certa manhã, no início de 2015, em que se preparava para obter o seu segundo mandato, como primeiro-ministro, estava a olhar para o espelho, a barbear-se. Esta ideia já lhe bailava na cabeça, quando, quatro antes, e sob a sua égide, a Grã-Bretanha recusou assinar o Pacto Orçamental (Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e Governação na UEM).

E nem sequer se poderá acreditar que estas duas importantes decisões, contra a Europa, tivessem sido tomadas por um capricho individual ou devido a uma sua exacerbação ideológica anti europeísta. Não... Essa era a vontade dos donos da City (o conglomerado do grande e poderoso capital financeiro).
Londres percebeu, desde os primórdios da fundação da UE, que não podia ser potência dominante num espaço, que era ferreamente controlado por Berlim e Paris. E se aderiu à UE, pelas mãos de Margaret Thatcher, foi porque a UE teve de fazer muitas cedências e concessões (algumas delas verdadeiramente escandalosas). 

Mas, com o incontestável crescimento da França e, principalmente, da Alemanha, à custa dos outros países da UE, a Grã-Bretanha, no futuro próximo, iria acabar por vir a perder importância estratégica, a nível internacional. A City tinha de fazer alguma coisa, para se salvar do declínio. E escolheu-se uma estratégia secreta de afrontamento camuflado. Se a Grã-Bretanha não pode combater a Alemanha por dentro, a opção é combatê-la, tendo um pé dentro e o outro fora, que é como ela está agora, após o referendo, e será assim que irá continuar, por alguns anos, com a Grã-Bretanha a adiar constantemente e sucessivamente o acionamento do artigo 50º do Tratado de Lisboa - a fim de formalizar o pedido de saída da EU - e fazendo exigências exorbitantes que a Alemanha não poderá aceitar, para não perder a face, e também porque não quer perder o seu domínio imperial sobre uma dócil Europa (até ver), que a não tem incomodado.

Além disso, a Grã-Bretanha lançou o seu ataque no momento certo, o momento de uma maior fragilidade da UE, atascada em crises sucessivas, e onde, em alguns países, começam a emergir forças centrífugas, que irão ganhar alento com a posição da Grã-Bretanha, e até tornarem-se suas aliadas, no seio da UE.

A Grã-Bretanha vai jogar forte e feio na desagregação da UE, deixando que as intermináveis negociações comecem a minar a confiança dos governos, dos políticos, dos investidores e dos cidadãos. Regressa-se, assim, ao ambiente político que gerou a Primeira Guerra Mundial, em que o objecto da disputa se concentrava na posse de territórios ultramarinos, que a Alemanha não possuía, mas de que necessitava.

Entretanto, a situação económica dos dois lados, em conflito político, irá agravar-se, naturalmente. Não há partos sem dor. Talvez com mais prejuízos para a UE, que terá grandes dificuldades em encontrar plataformas comuns de entendimento sobre os caminhos a seguir e em gerar consensos entre os vários governos dos países, que a compõem, até porque esses governos vão começar a ter de enfrentar-se com uma opinião pública hostil e com uma grande agitação social, que todas as crises fazem emergir. Por outro lado, o sentimento anti germânico irá recrudescer em espiral, motivando os partidos anti europeístas a pedir a realização de referendos.

Neste quadro de confusão, a França poderá vir a dar o golpe mortal na UE, se Marie Le Pen ganhar as próximas eleições. 

Uma coisa é certa: será a Grã-Bretanha a ter a chave na mão, nestas negociações preliminares, e será o governo de Sua Majestade que irá comandar o seu ritmo e prioridades. Aliás já se percebeu o nervosismo dos dirigentes europeus, que já estão a ver o chão fugir-lhes debaixo dos pés.

Nesta análise (ou será mais uma tese de conspiração?), fica-se sem saber qual vai ser o comportamento dos EUA e da Rússia.

Os EUA têm quase terminado o tal secreto TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) com a Comissão Europeia, que ainda precisa de ser aprovado pelo Conselho Europeu e pelo Parlamento Europeu. Trata-se de um tratado (tanto quanto se sabe) que é um autêntico Cavalo de Troia, pois vem dar mão livre às multinacionais americanas, em solo europeu, como se fossem verdadeiras companhias majestáticas e que vem sonegar direitos aos trabalhadores europeus, entre outras malfeitorias, que ainda não são conhecidas. Com uma Europa em ebulição política, e a viver um período de crispação, será difícil a conclusão do processo. E ainda bem…

Quanto à Rússia, se a evolução e as conveniências estratégicas assim o determinarem, alinhará com a Grã-Bretanha, a quem, até, poderá compensar os efeitos de algumas das perdas comerciais dos britânicos com a Europa, começado a importar muitos dos seus produtos.

Não nos esqueçamos que o país de Sua Majestade ganhou os mares em Trafalgar e venceu Napoleão em Waterloo. E a Armada Invencível e os exércitos napoleónicos eram temíveis!

E a Alemanha perdeu as duas guerras que, no século XX, desencadeou na Europa. E o Kaiser Guilherme II e Hitler também eram temíveis e considerados invencíveis.

Alexandre de Castro
2016 07 06 

sábado, 2 de julho de 2016

Referendar a Europa


Referendar a Europa

Começa a ser evidente que o sentimento de pertença à União Europeia começa a abrir brechas. O resultado do referendo na Grã-Bretanha e uma sondagem recente, na República Checa, a revelar uma fraca adesão da população à permanência na UE, assim o demonstra.
“Na República Checa, segundo uma sondagem de abril, a satisfação com a adesão à União Europeia, que aconteceu em 2004, diminuiu para 25%, abaixo dos 32% registados no ano passado”, assinalava o jornal Diário de Notícias, o que levou o Presidente Milos Zeman a pedir um referendo.
Passada a euforia dos primeiros tempos, cheia das promessas dos "amanhãs que cantam", começa a instalar-se um sentimento de descrença e de pessimismo, plenamente justificado, perante a incapacidade dos dirigentes políticos europeus de encontrar soluções eficazes e duradouras para resolver as crises, que, e ao contrário do que dizem os europeístas fanáticos, já são estruturais e não conjunturais.
O presidente checo, ao defender um referendo sobre a continuação da permanência do seu país na UE, e para o qual não tem poderes para o convocar, está a apontar o caminho certo que todos os países membros deveriam começar a percorrer: referendar a Europa. E valido esta ideia, embora esteja consciente dos perigos e de alguns aspectos negativos das pulsões referendárias. Para esta questão fundamental, este será o único processo (o outro será o processo revolucionário) de quebrar o cerco armadilhado das eleições para os parlamentos nacionais, em que o sistema tem dois grandes partidos - federados, financiados e harmonizados doutrinariamente, a nível europeu, pelas suas respectivas internacionais – e que se apresentam ao eleitorado como sendo partidos antagónicos, mas que, na realidade, são idênticos no essencial. É nesta condição de cumplicidades ocultas que ambos  cumprem o ritual da alternância do poder, servindo um para governar e o outro para captar o descontentamento popular, limitando assim o espaço de manobra dos verdadeiros partidos de esquerda.
Num referendo sobre uma grande questão política fracturante, e tal como aconteceu na Grã-Bretanha, o eleitorado tem tendência em segmentar-se transversalmente em dois blocos, minando e limitando assim a acção dos partidos do sistema da alternância, que têm mais dificuldade em controlar os seus tradicionais espaços eleitorais.
Na Grã-Bretanha, no referendo sobre a UE, esta transversalidade referida até atingiu em cheio os deputados do parlamento, em que cada partido, o conservador e o trabalhista, se fragmentou, nas duas opções que estavam a ser escrutinadas. Pode dizer-se que os directórios partidários, por manifesta incapacidade ou por uma premeditada inércia, não seguraram os seus eleitorados tradicionais.
Pretender teimosamente construir um grande edifício, como é o da União Europeia e o do seu subgrupo dos países do euro, sobre um terreno movediço, que está a perder consistência e solidez, conduzirá à sua fatal derrocada, com terríveis consequências económicas e sociais.
Querer unir e federar a Europa é uma utopia. Nem pelas armas, Carlos Magno, Napoleão ou Hitler a conseguiram unir. Por profundas razões históricas e pelas diversidades linguísticas, a Europa é um mosaico de nações, com as quais os respectivos povos se identificam. Só assim se compreende que o continente mais pequeno do mundo, em área, seja aquele que mais países soberanos possui.
Na Europa, o sentimento mais identitário é o sentimento nacional e não o continental.
AC
2016 JUL 02

domingo, 26 de junho de 2016

Que venha de Espanha um bom vento e um bom casamento


Que venha de Espanha um bom vento 
e um bom casamento

Os eleitores espanhóis, hoje, não estão apenas a escolher, de acordo com as suas simpatias partidárias, o próximo governo de Espanha. Como pano de fundo, eles levam na cabeça a sua opinião sobre a União Europeia. Nesta perspectiva, os resultados finais da votação, e tal como se fosse um referendo, também vão determinar se a Espanha deverá ou não rever a sua posição, em relação à UE e ao euro. Esta é que é grande questão que se coloca ao nível da decisão de todos os actos da governação, tal já é o elevado nível de integração política e económica, alcançado no seio da União. Os espanhóis sabem, tal como os portugueses, os gregos e os cidadãos de todos os outros países do grupo, que já não podem controlar, com o seu voto, as políticas orçamentais e financeiras dos seus respectivos países, cujas competências passaram a ser exercidas em Bruxelas, por uns burocratas eurocratas, que ninguém conhece e que não foram eleitos democraticamente.
Por isso, não nos admiremos muito, se, amanhã, acordarmos com mais um terramoto político, que atinja em cheio o coração do europeísmo. 
Oxalá que sim, penso eu, que já percebi toda a engenharia de rapina, que a Alemanha arquitectou, no seu interesse.
AC

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Grã-Bretanha salta fora da União Europeia


Grã-Bretanha salta fora da União Europeia

Nem calculam como é agradável deitar-me e levar para o meu sono uma notícia desagradável, e sobre a qual escrevi umas linhas, e ler, depois de acordar, uma outra notícia, agora agradável, que desmente a primeira. 
O Brexit ganhou, embora por uma unha negra. Mesmo que tivesse perdido, mesmo por uma pequena margem, a humilhação da UE, tal como então afirmei, seria enorme. E, com a vitória do Brexit, a UE sai desta refrega humilhada e vencida. Foi uma derrota em toda a linha, que poderá vir a determinar o seu fim, se, entretanto. não houver a clarividência dos dirigentes dos países europeus para alterarem o seu paradigma último, que era o de construir uma federação europeia. 
Eu já afirmei várias vezes que é impossível federar a Europa, quer por motivos históricos, quer por motivos linguísticos. Ao longo da sua História, dominaram sempre as forças centrífugas, baseadas nas diversidades nacionais. Como já afirmei também, nem Carlos Magno, nem Napoleão nem Hitler conseguiram unir a Europa. O sentimento de pertença à Europa não se sobrepõe ao sentimento de pertença a cada nação.
A derrota da UE não começou nem acabou com este referendo na Grã-Bretanha. Ela começou com a crise grega e portuguesa, crise que mostrou aos europeus até onde pode ir a perfídia das instâncias europeias, telecomandadas pela Alemanha. 
No entanto, não sei, tal como ninguém ainda sabe, como é que a sua derrota total vai acabar.
AC

sábado, 11 de junho de 2016

Os problemas estruturais da economia portuguesa e os caminhos a percorrer

A economia portuguesa está muito dependente do contributo  da
Procura Interna (consumo) e desde 2014 encontra-se estagnada

Os problemas estruturais da economia portuguesa e os caminhos a percorrer

Para resolver os problemas estruturais da economia, Portugal, mantendo-se ou não na área do euro, tem de orientar a sua estratégia em dois pilares: por um lado, promover intensivamente as exportações e, por outro lado, produzir bens que substituam importações. O objectivo é ganhar excedentes, perante o exterior, e aumentar a receita fiscal para possibilitar, sem um pesado esforço orçamental e sem mais medidas de austeridade, pagar a gigantesca dívida pública, que terá de ser reestruturada, inevitavelmente. 

Em relação ao aumento do consumo, [o consumo também conta para a formação do PIB] o governo teria de ter dois aspectos em consideração: que esse aumento do consumo não viesse a aumentar a procura de bens e serviços importados e que, por razões de equidade e de justiça social, o aumento desse consumo derivasse da melhoria dos rendimentos da classe média e da população mais desfavorecida. O aumento do consumo iria promover também mais receita fiscal, evitando-se o agravamento dos impostos, que já são muito pesados e que já provocam o funcionamento da economia.

Mas, para conseguir este desiderato, é necessário investimento, o público e o privado, que dinamize a economia. Infelizmente, verifica-se que o investimento continua a ser raquítico, e insuficiente para sustentar o crescimento económico. As empresas estão descapitalizadas e o crédito bancário, devido à insolvência dos bancos nacionais, é difícil e problemático. O actual governo está a fazer o que pode. A aposta na reabilitação urbana, apoiada pelo Estado, vai reanimar um pouco a recuperação da construção civil - que, no passado, foi o grande motor da economia - o que vai atrair investimento e criar emprego. 

Não se vê no horizonte a recuperação do investimento, por parte da iniciativa privada, que seria essencial para investir na produção de bens, que substituíssem as importações, bem como na produção de bens para o mercado externo e que, através da inovação, aumentassem, de uma forma significativa, o valor acrescentado. E Portugal necessita, como de pão para a boca, de aumentar as exportações, a um nível médio de cinco por cento ao ano Mas, sem investimento, pouco se poderá fazer na criação de riqueza e no desenvolvimento do país.

É neste quadro de pensamento (o de a economia portuguesa não conseguir crescer nos próximos anos) que funciona o comportamento da Comissão Europeia (um órgão da UE domesticado pela Alemanha), ao pretender aplicar severas sanções a Portugal, através de um procedimento por défice orçamental excessivo, ao mesmo tempo que quer impor mais cortes nas pensões e mais desvalorizações salariais, o que vai levar, tal como já tenho dito, Portugal a percorrer o calvário de sofrimento da Grécia. Desde 2010, a desvalorização salarial atingiu os vinte por cento, o que já é dramático, mas a Comissão Europeia quer que atinja os trinta por cento, o que, a verificar-se, será uma catástrofe. 

Claro que, se Portugal tivesse uma moeda própria, para poder desvalorizá-la no interesse da sua economia, a fim de aumentar as exportações, tudo seria mais fácil, mais rápido e menos doloroso a longo prazo. E este é o principal problema estrutural da economia portuguesa, um verdadeiro nó górdio, que precisa de um Alexandre Magno, que o decepe com a espada.
Alexandre de Castro
***«»***
Curiosidade: Leia aqui a célebre lenda do nó górdio.

Publicado em "Abril de Novo Magazine", por deferência dos seus editores.

domingo, 5 de junho de 2016

Vem aí o e-comércio (a economia colaborativa) e uma vaga descomunal de desemprego estrutural.


Vem aí o e-comércio (a economia colaborativa) e uma vaga descomunal de desemprego estrutural.

Se a Era da da Revolução Industrial se baseou na mecanização, na industrialização, no recurso intensivo às fontes de energia provenientes do carvão, da electricidade, do petróleo, da cisão nuclear e, em termos políticos, na exploração de matérias primas nos territórios coloniais, a Era da Globalização, que lhe sucedeu, e que está a viver-se em pleno, caracteriza-se pela informatização e robotização, pelo desenvolvimento das comunicações e das telecomunicações, pelo domínio, à distância, do espaço global, e, agora, ainda de uma forma embrionária, pelo comércio online, que tenderá também a ser global.
No entanto, entre estas duas grandes revoluções, que marcaram, e continuam a marcar, a evolução da Humanidade, existem semelhanças, diferenças, benefícios e prejuízos para as populações. Ambas propiciaram o progresso e uma melhoria das condições de vida das populações dos países que as puderam incorporar nas suas respectivas economias. Ambas favoreceram a oferta de bens e serviços de utilidade indiscutível, a preços acessíveis, possibilitados pelos efeitos de escala e pela grande massificação do consumo. 
Mas, contrariamente, ambas desenvolveram e reforçaram o domínio do Capital sobre o Trabalho. Ambas deram origem às formas imperialistas do exercício do poder. Ambas desenvolveram o capitalismo financeiro, que condicionou o poder dos Estados e contribuiu para o aprofundamento das desigualdades sociais. 
Não nos esqueçamos que, hoje, um por cento dos habitantes do globo auferem o mesmo rendimento do auferido pelos restantes noventa e nove por cento dos habitantes, um fosso enorme provocado principalmente pela Globalização, que gerou lucros enormes às grandes companhias multinacionais, através do processo das deslocalizações territoriais dos meios de produção, na procura de mão de obra mais barata, e aos bancos, através da financeirização da economia. 
Diferenças entre a Era da Industrialização e a Era da Globalização também existem, naturalmente. E a principal diz respeito ao emprego. Enquanto a Revolução Industrial criou empregos massivamente, atraindo as populações rurais activas para as cidades industriais, alterando assim, profundamente, a paisagem física e a demografia dos países industrializados, a Globalização, excepto no período das deslocalizações das fábricas para os países asiáticos, está a criar manchas enormes de desemprego, uma tendência que irá agravar-se, de forma exponencial, com o desenvolvimento da chamada economia colaborativa, que eu prefiro designar por e-comércio.
O desenvolvimento das novas tecnologias vai promover, também de forma exponencial, o incremento das transacções on line, na maioria dos sectores de bens e de serviços, o que vai eliminar o sector dos intermediários, com graves repercussões ao nível do desemprego. Em todo o mundo, milhões de postos de trabalho serão destruídos e o sistema capitalista, que adquiriu a dimensão universal, não tem resposta adequada para este agudo problema. Ou até tem, na sua forma mais perversa. Deixar que seja o mercado global a fazer a selecção entre os países que irão crescer, que serão poucos, e os que irão, irreversivelmente, empobrecer, que serão muitos, e, dentro de cada país, deixar que seja o respectivo mercado interno a fazer a divisão entre uma minoria de ricos e remediados, por um lado, e uma grande maioria de pobres, por outro, e, se possível, muito bem escondida, para não causar alarmes sociais, que são sempre indesejáveis e inoportunos para o bom andamento dos negócios. Os regimes capitalistas saberão viver com esta nova realidade, diluindo-a na demagogia discursiva, manipulando-a no espaço mediático ou, simplesmente, silenciando-a através da repressão.
Um Novo Mundo, assim imaginado (ou melhor, assim previsto), e que estará presente, perante todos nós, na próxima década, vai necessitar de uma nova ordem internacional, assente na centralização do poder político e militar da potência dominante. Assim, a liderança do mundo será assumida pelos EUA. Para lá chegar, só é necessário encontrar a forma de neutralizar a China e a Rússia e aniquilar os países do Médio Oriente que ainda resistem à submissão, garantindo-se assim o controlo da maior reserva de petróleo do mundo. 
Quem não acreditar neste prognóstico, que recue uns dez a vinte anos atrás, e se interrogue se, nesse tempo, conseguia imaginar o mundo, tal como ele é hoje.
AC

terça-feira, 17 de maio de 2016

Resposta aos delírios estatísticos do director do Observador...


Seis meses de geringonça, modo de usar

O que está a correr pior é, sem surpresa, a economia. Porque sucedeu exactamente o contrário do prometido. O ritmo de crescimento económico abrandou. Não foram criados empregos, antes foram destruídos postos de trabalho. O investimento estancou. E o consumo, o prometido “motor” da retoma, não dá suficientes sinais de vida.
José Manuel Fernandes

***«»***
Aplique José Manuel Fernandes os mesmos critérios de análise política e o mesmo perfil de elementos estatísticos aos quatro anos de governação PSD/CDS e compreenderá quem é que destruiu a economia, quem é que promoveu o desemprego e a emigração dos jovens e quem é que golpeou a Educação e o Serviço Nacional de Saúde. E, pelo caminho, talvez fosse interessante olhar para os números da Dívida Pública, contraída através do Memorando de Entendimento com a Troika, que o PSD estimulou e também alegremente subscreveu. 
Esquece-se José Manuel Fernandes que a maioria das medidas adoptadas pelos governos tem efeitos a médio e longo prazo e que os resultados recolhidos das estatísticas, referentes aos quatro meses deste ano, são consequência do desastre provocado pela governação da coligação de direita, durante quatro anos. Ou não será assim?...

Comentário que deixei no Observador.
***
Comentário posterior

Acabei de ler o Macroscópio de hoje, de José Manuel Fernandes. Tal como neste artigo, "Seis meses de geringonça...", ele volta ao delírio das estatísticas, aplicando-lhes o seu olhar enviesado e feroz, o que o leva a torcer e a retorcer os números, para que eles reflictam o que a sua "partidite" reclama. Se houvesse da sua parte mais isenção e se, previamente, ele consultasse os dados estatísticos do Eurostat, chegaria facilmente à conclusão que todos os países do euro, com uma ou duas excepções, viram as suas exportações a diminuir, contrariando as previsões, assim como aconteceu aos números do PIB. É preciso considerar que houve uma diminuição da procura global, e, no caso português, e para sermos justos e isentos, temos de considerar que as exportações de Portugal se ressentiram com a queda da procura da economia de Angola, que hoje se debate com a baixa do preço de petróleo, o pulmão da sua economia. 
Esta modalidade de ler as estatísticas, sem as contextualizar com as envolventes externas, faz-me lembrar o que se passou com a evolução das taxas de juro da Dívida Pública. A partir do início de 2014, e depois de uma subida em flecha, os juros começaram a baixar ao mesmo ritmo com que subiram. Logo os arautos das verdades definitivas, os comentadores direitinhas (não sei se JMF foi um deles) desataram, em júbilo, a cantar hossanas ao governo de Passos Coelho, para, numa manobra de ilusionismo, tirarem da cartola o argumento conclusivo de que a acção do governo estava a ser positiva e que os sacrifícios impostos aos portugueses estavam a dar resultados. Os incautos, os distraídos e os ignorantes acreditaram. No entanto, os mais atrevidos e os mais curiosos não se conformaram com o laconismo dos irmãos e primos políticos de JMF e descobriram a marosca. Olharam para o que se passava com os juros das dívidas de Espanha, Itália, Grécia e Irlanda. Todas elas, embora com valores diferentes, tinham o mesmo perfil evolutivo, o mesmo percurso paralelo. Em gráfico, as curvas respeitantes a cada país considerado tinham a forma de uma campânula, com o seu vértice na mesma linha vertical, o que quer dizer que elas começaram a descer ao mesmo tempo, evidenciando o mesmo paralelismo, verificado na subida. Conclusão: a descida dos juros da dívida soberana portuguesa teve a ver, essencialmente, com a envolvente externa, no caso, as manobras especulativas dos investidores nas bolsas de valores, e muito pouco com os cantados méritos do governo. 
A saga prossegue agora com o PIB e o défice. O método de iludir a realidade é o mesmo. Nada há a fazer para nos livrarmos da intoxicação mediática.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 DE ABRIL: O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO...

AQUI COMEÇOU A ALIANÇA POVO MFA...

O 25 de Abril já é uma marca genética do povo português. É inapagável. Foi uma revolução que uniu o povo inteiro e que o povo sufragou na grandiosa e memorável manifestação do primeiro de Maio de 1974, a maior manifestação de sempre, na qual eu não pude participar, por me encontrar lá longe, nos antípodas, no hemisfério sul, mas que acompanhei - emocionado, com os olhos marejados de lágrimas e um grande sufoco na garganta - pregado a um aparelho de rádio, sintonizado em onda curta, na Emissora Nacional.
A Revolução de 25 de Abril trouxe agarrada a si o intenso aroma dos cravos, cravos (e aqui reside o seu lado mais romântico) que substituíram as balas, quando o povo, num delírio incandescente, já andava em festa, misturado com os soldados, numa aliança inédita e original, que a História já registou.

domingo, 24 de abril de 2016

A corrupção roeu as entranhas do poder e os alicerces do regime - o regime vai cair...

Expresso: GES pagava avenças a políticos e tinha 2 milhões em notas em cofres

Escrevi várias vezes por aqui que "Ricardo Salgado nunca iria ser julgado, pois, se ele resolvesse abrir a boca, o regime caía". Agora, com a divulgação dos Panamá Papers, ele já não precisa de abrir a boca, pois o Ministério Público também já tem na sua posse (desde há um ano!) o nome de políticos (alguns de nomeada), funcionários públicos, gestores, empresários e jornalistas, envolvidos no escândalo.
Eu não me admirei nada com a confirmação da existência deste pântano. Pressentia-o pelos sinais exteriores que o rasto da corrupção vai deixando, e que quase são imperceptíveis.
Desta vez, a culpa não pode morrer solteira. O povo português nunca mais poderá levantar a cabeça se, neste caso e noutros que irão aparecer, do mesmo jaez, a mão pesada da Justiça não se fizer sentir. Seria o descalabro e o total descrédito do regime, se não se fizer justiça.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

ICH BIN EIN BERLINER PT


Vídeo enviado pelo meu amigo / irmão Jorge M. Ribeiro

Portugal vai ficar sem anéis e sem dedos...

Um dia, daqui por alguns anos, quando se fizer o balanço das relações económicas no espaço europeu, chegaremos à conclusão de que o saldo será negativo para Portugal e muito favorável para a economia alemã.
É certo que os dinheiros dos fundos europeus, em que a maior tranche pertenceu à Alemanha, foram decisivos para o desenvolvimento das infraestruturas de Portugal. Mas também é certo que muitos dos equipamentos, como, por exemplo, a maquinaria pesada paras as industrias e para a construção civil,  assim como material de guerra (submarinos), foram importados da Alemanha. Até o alcatrão para as auto estradas veio todo da Alemanha. A economia alemão cresceu à custa das exportações para os países da periferia - Portugal, Grécia e, em menor escala, a Itália.
Também, a nível financeiro, funcionou um esquema predador, que permitiu transferir riqueza dos países da periferia para a Alemanha. Entre amortizações e juros, os bancos alemães reembolsaram grande parte do dinheiro que emprestaram aos bancos portugueses, para estes emprestarem aos jovens, a fim de comprarem casa própria. Como o esquema começou a falhar, devido aos incumprimentos das famílias, a Alemanha socorreu-se da troika, para impor a austeridade, o que veio permitir que a dívida privada dos bancos fosse transferida para a dívida pública, pelo engenhoso processo de forçar o endividamento do Estado português, perante as entidades europeias e o FMI. Será o dinheiro da austeridade que, através de um complexo sistema de operações financeiras, irá limpar parte dos produtos tóxicos dos grandes bancos alemães. A outra parte será paga com o dinheiro das privatizações.
Deste modo, Portugal vai ficar sem anéis e sem dedos.

terça-feira, 22 de março de 2016

A Europa não pode aliar-se com quem a vem atacar no próprio coração

As ruas da minha cidade encheram-se de blindados do Exército. Outra vez. [Expresso]

A Europa não pode aliar-se com quem a vem atacar no próprio coração

Ontem, quando publiquei aqui um vídeo humorístico sobre o terrorismo bombista dos fanáticos jihadistas muçulmanos, a coisa era a brincar. Hoje, em Bruxelas, foi a sério. E continuará a ser a sério, no futuro, enquanto a Europa continuar a fomentar guerras no Médio Oriente e a fornecer armamento a grupos rebeldes, que combatem regimes daquela região, que lhe são hostis, como é o caso do governo da Síria, ou a assinar acordos, como aquele que assinou, há dias, com o regime do fundamentalista Ergodan, da Turquia, que é um autêntico tiro no pé, já que a Turquia joga, no xadrez do Médio Oriente, com um pau de dois bicos. A Turquia, por um lado, e formalmente, é um membro da NATO, logo um aliado do ocidente, mas, por outro lado, e secretamente, apoia o extremismo islâmico, colaborando activamente com o ISIS (Estado Islâmico). O território da Turquia é a placa giratória do trânsito dos terroristas entre o Médio Oriente e o ocidente. É pela Turquia que as armas, provenientes da Europa, chegam ao ISIS. 
O palhaço do Eliseu e a vaca de Berlim ainda não perceberam (ou não querem perceber) que basta meia dúzia de muçulmanos fanáticos para porem em polvorosa uma cidade como Paris, Bruxelas ou Berlim. E, além da fome, nada é mais desestabilizador para a vida de uma cidade, do que a percepção, por parte dos cidadãos, da falta de segurança no espaço público.E o problema não se resolve apenas com o reforço da segurança, e muito menos com a transformação da Europa numa fortaleza securitária. O reforço da segurança interna é necessário, pois o inimigo está cá dentro, assim como é necessária a apertada vigilância das fronteiras, as da UE e as dos países que a compõem. Mas o grande problema continua a ser político, mais propriamente, um problema de política externa. E, neste domínio, a Europa tem de se demarcar das intenções belicistas dos EUA, em relação ao Médio Oriente, um processo que teve início com a absurda invasão do Iraque, justificada com o obtuso argumento da existência de armas de destruição maciça e massiva, e que, posteriormente, nunca foram encontradas, o que me levou a afirmar que os serviços secretos ocidentais confundiram as caixas de fósforos, que os iraquianos traziam nos bolsos, para acender cigarros, com as tais perigosíssimas armas. 
Em todas as guerras levadas a cabo pelos Estados Unidos, contra países árabes, e o apoio ao Estado de Israel, na sua luta cruel contra o povo da Palestina, verificou-se sempre o envolvimento da Europa, com a França a liderar esse envolvimento, como aconteceu na invasão da Líbia. Hoje, já se sabe que a França treinou, no território sírio, dominado pelos rebeldes, que lutam contra o presidente Bashar al-Assad, militantes do ISIS (Estado Islâmico). Também se sabe que a França vende armas a esses rebeldes, que, posteriormente, vão para as mãos do ISIS. A Alemanha e a Bélgica também entram nesses negócios. E isto para não falar da aliança do ocidente com a Arábia Saudita, o país que mais financia o terrorismo jihadista e que, ao mesmo tempo, tem um projecto ambicioso para implantar o Islão na Europa, através da disseminação de madrassas e de mesquitas, por tudo que é sítio no espaço europeu. 
Resumindo: a Europa não pode aliar-se nem financiar quem, posteriormente, a vem atacar no seu coração, matando cidadãos europeus inocentes.