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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

BOA SORTE, FERNANDO TORDO - por Amadeu Homem


Fernando Tordo, aos 65 anos e com uma pensão de duzentos e poucos euros, abandonou Portugal e foi fixar-se no Recife, em terras brasileiras. O filho, o escritor João Tordo, deu a conhecer uma carta sobre a partida do seu pai. É um texto de contido protesto, da qual nem sequer ressuma ódio contra aqueles que, publicamente, servindo-se - segundo parece - do Facebook do cantor, o mandaram ir para Cuba ou para a Coreia do Norte, ou limpar retretes. O escritor João Tordo admirou-se com o ódio de algumas opiniões. Eu não. O serviço a uma crença - e sobretudo a fidelidade a crenças políticas - suscita as mais entranhadas resistências, sobretudo por parte daqueles que se sentem ameaçados, nas suas prerrogativas, privilégios ou património, pelas ideologias opostas. Ora, Fernando Tordo serviu Abril, batendo-se na barricada onde também estiveram Ary dos Santos, José Afonso, Luís Cilia, Manuel Alegre e tantos mais. Quem não gostou ou gosta de Abril não lhe perdoou ou perdoa este seu querer. Depois, há que ver que a crise económica está a transformar Portugal num covil de lacraus. O português sempre foi caracterialmente invejoso. E agora é-o mais do que nunca. Com a destruição progressiva da classe média e com o alastramento da miséria, sobem de tom as increpações, as interpelações, os brados odientos dos que acham - por que há quem ache !!! - que se este ou aquele se estão a afundar, então é "direito democrático" a exigência de que se afundem todos. Ou de que se afundem pelo menos os que tiverem opiniões diferentes. 
Numa palavra : Estou a caminhar para velho. Já nada me surpreende. Boa sorte para o Fernando Tordo.
Amadeu Homem
Professor Catedrático de História da Universidade de Coimbra

terça-feira, 6 de agosto de 2013

VOTAR - por Amadeu Homem


Não há muito tempo, eu defendi o voto em branco - nunca o nulo. Depois disso, mudei de opinião. Devo dizer mesmo, com humildade, que me arrependi. Claro que é possível, racionalmente, imaginar uma situação em que não consigamos rever-nos numa das diversas listas. Mas eu creio que constitui uma certa manifestação de arrogância (que eu já tive) aquela atitude de total e desdenhosa rejeição. É como se estivéssemos a declarar, para nós e para o Universo : "eu sou tão especial e tão inteligente que nenhuma das soluções apresentadas pelos meus Concidadãos me mobiliza". Aliás, as listas que se apresentam serão sempre um espelho da Sociedade que temos. E foi também parcialmente nossa a responsabilidade da falta de qualidade, se é que ela existe. Agora, digam-me: ficar em casa aumenta essa qualidade? Há que votar. Há que, pelo menos, ir à assembleia de voto. E há que ter a coragem de escolher. Nem que seja o menor dos males. É assim que penso hoje.

Amadeu Homem
Professor Catedrático de História da Universidade de Coimbra

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Votar é um dever cívico, que custou muito a conquistar. Escolher é uma responsabilidade. Escolher bem é uma qualidade.
AC


Adenda: Deixo aqui o comentário sobre esta questão, que publiquei num outro sítio, respondendo a um leitor:

"Se a memória não me atraiçoa, julgo que o Cavaco Silva foi eleito por 21% dos eleitores inscritos, o que ainda vem dar mais força ao seu argumento. Na realidade, quer a abstenção quer o voto branco só vão dar força ao partido vencedor. É uma forma de transferir as escolhas para os outros. É também uma forma descaracterizar, e até assassinar, a democracia. A maturidade de um povo avalia-se pelo seu grau de participação na coisa pública. E, temos de concordar: os portugueses ficaram mal nesta fotografia. E não só os eleitores. Também os eleitos. Ainda ontem, no município onde eu vou ser candidato à Câmara Municipal, a Assembleia Municipal não se realizou por falta de quorum, porque os deputados municipais do PS e do PSD não apareceram. E a reunião da AM destinava-se a discutir um documento importante: o PDM. Com este nível de responsabilidade não vamos lá.
E vou acabar, reformulando a frase da minha entrada aqui: Votar é um dever cívico, que custou muito a conquistar. Escolher é uma responsabilidade. Escolher bem é uma qualidade. E participar é fundamental".

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

POR CAMINHOS DO ALÉM - por Amadeu Homem


O Chico 76, conhecido por Papa Francisco, veio declarar que, de acordo com os exemplos de vida, os ateus poderiam ir para o Céu. Pessoalmente, confesso que desconheço qual será a IP ou a auto-estrada que deverei percorrer para ir para o Céu. E a minha ignorância vai ao ponto de também ignorar o itinerário para o Purgatório, bem como o trilho para o Inferno. Ora, a Instituição vaticanesca veio logo desmentir o Chico 76, declarando que ele estava equivocado: o destino de um ateu só poderia ser o Inferno. 
Fica-se sem saber quem é que manda na circulação metafísica das almas: o Vaticano institucional? O Chico 76? Um dos dois estará enganado. Ora, isto perturba muitíssimo as férias dos defuntos. Imaginemos que um deles, ou vários, queriam ir passar férias ao Inferno, onde presumivelmente estarão as gajas boas. Que fazer? Perguntar ao Chico 76 ou à Opus Dei? É uma encravação! 
Mas coloquemos como hipótese académica o caso de um crente, muito patife, querer dar uma olhada pelo Inferno. Ele poderá, neste caso, dar uma boleia a um ateu. Mas a meio do caminho aparecerá a Brigada Rodoviária Celestial a dizer : - Tenham paciência, não podem ir juntos. Tu, patife mas crente, vais dar um salto ao Purgatório, bebes por lá um copo, para purificar, e segues logo para o Céu. Quanto a ti, homem justo mas incréu, seguirás aquele carreiro, pois só podes ter guia de marcha para o Inferno. 
Parece-me que os caminhos do Céu deverão funcionar ainda pior do que a nossa Junta Autónoma das Estradas. O que é plausível. As Juntas obraram sempre mal, desde as Juntas Militares às juntas de bois.
Amadeu Homem
Professor Catedrático de História da Universidade de Coimbra

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Caro Professor, Amadeu Homem: Eu julgo que essa afirmação do Chico 76 (boa piada), de que os ateus também poderiam ir para o Céu, é uma armadilha. Uma vez lá chegados, seriam eles, os ateus, as vítimas das medidas de austeridade, que uma troika qualquer anda por lá a implementar, a fim de resolver a grave crise celestial, caracterizada por um défice orçamental de almas e por uma enorme dívida soberana, junto do credor Diabo. Por outro lado, essa troika exige o aumento de exportações de almas, e só um ceguinho é que não vê que seriam as almas dos ateus a marchar em fila indiana para o Inferno. Nestas condições, eu só quero ir para o Céu, com um bilhete de Ida e Volta.