terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Como tu dirias, meu querido Poeta - Maria Azenha

Para os gregos antigos, os poetas eram aqueles 
que estavam mais próximos dos deuses


Devido à insuficiência, em largura, do espaço de texto deste blogue, e uma vez que o poema de Maria Azenha, "Como tu dirias, meu querido Poeta", apresenta muitos versos longos, que iriam surgir quebrados, o que, além do respectivo efeito inestético, iriam prejudicar o ritmo e a “respiração” de leitura do poema, optou-se por encaminhar o leitor para o blogue Tempo dos Sentidos, (ver aqui), onde o problema não se coloca.
O editor

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Fico à espera…


Fico à espera…

 O grande problema, que já é estrutural, da economia portuguesa é a sua gigantesca dívida soberana. Se nada mudar na Europa, em relação ao sistema monetário, Portugal, para pagar essa dívida e os respectivos juros, terá de ter, durante os próximos vinte anos, um crescimento do PIB, na ordem dos cinco a seis por cento, caso não haja inflação acima dos dois por cento. E para obter esse crescimento, Portugal tem de fazer o seguinte:

1º Aumentar o investimento produtivo, o público e o privado, o nacional e o estrangeiro.

2º Tem de promover a produção bens nacionais, que substituam a importação de produtos congéneres, para diminuir as importações.

3º Tema de aumentar significativamente as exportações, tarefa ciclópica, que se revela impossível, pois com uma moeda de elevado valor cambial, a competitividade externa diminui, face a economias concorrentes.

Ao fim de cinco anos de crise e de uma cega austeridade que se baseou na desvalorização salarial e das pensões, como meio de aumentar a referida competitividade externa, a melhoria dos índices macro económicos é ridícula e manifestamente insuficiente. A economia anda a passo de caracol, quando seria necessário que corresse a galope, sem parar.

Não há horizonte para o futuro, enquanto Portugal não recuperar o poder monetário e cambial, que perdeu com a acrítica adesão à moeda única, e o poder orçamental, que também perdeu ao assinar, de cruz, o Tratado Orçamental. Sem estes dois instrumentos estratégicos (moeda e orçamento), nenhum governo será capaz de vencer a crise.

Aqueles que, entre dirigentes políticos, nacionais e europeus, economistas e jornalistas de economia, e simples cidadãos, esbracejam e protestam, quando alguém sugere a saída de Portugal da moeda única e o corte com o espartilho orçamental, que apresentem um credível modelo alternativo, coerentemente ancorado na ciência económica. Que nos digam como é que Portugal vai ganhar excedentes para pagar a dívida?
Fico à espera.
Alexandre de Castro
Janeiro 2017

domingo, 15 de janeiro de 2017

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS - COMUNICADO


FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS

COMUNICADO


O Conselho Nacional da FNAM reunido hoje em Coimbra, na sua primeira reunião após o XI Congresso, procedeu à eleição da nova Comissão Executiva e analisou a situação existente a nível dos médicos.

Relativamente à situação deste sector profissional, as conclusões essenciais consideraram as seguintes questões:

1 – Verifica-se uma preocupante e marcada incapacidade do Ministério da Saúde em formular soluções para os diversos e delicados problemas do sector. Apesar das profusas divulgações de hipotéticas medidas por parte do Ministério da Saúde, a realidade dos factos mostra, de forma clamorosa, a ausência de qualquer política de saúde em consonância com as necessidades de resposta do SNS;

2 – Ao longo do actual mandato deste Ministério da Saúde a sua atitude negocial tem sido a de protelar as discussões e as soluções com a consequente degradação contínua da já débil situação da prestação dos cuidados de saúde;

3 – Mandatar a Comissão Executiva da FNAM para exigir a imediata calendarização negocial dos problemas há longo tempo pendentes, sob pena de serem desencadeados os adequados mecanismos reivindicativos.

Coimbra, 14 de Janeiro de 2017

O Conselho Nacional da FNAM

Agradecimento


Agradeço ao Djó e ao David a amabilidade de terem aderido ao Alpendre da Lua.

sábado, 14 de janeiro de 2017

A equação do aumento do crédito ao consumo poderá não ser boa para o país


No nosso suplemento dedicado à economia real fique a saber isto: o crédito ao consumo está, de novo, a bater recordes - e já atingiu um novo máximo desde a saída da Troika. É uma boa notícia? Depende da perspetiva, mas uma coisa é certa: quando há booms no consumo é porque estamos a ver aumentar as esperanças num futuro melhor.
***«»***

A equação do aumento do crédito ao consumo poderá não ser boa para o país

O aumento do crédito ao consumo seria uma notícia satisfatória (não boa, e já se explica porquê), se esse crédito fosse dirigido essencialmente para o consumo interno, ou seja, para a compra de bens e serviços nacionais. Se, pelo contrário, esse crédito se dirige, predominantemente, para a compra de bens finais, estrangeiros, então será uma má notícia, a não ser que o sector produtivo nacional compense o desequilíbrio provocado com o respectivo aumento das exportações, aumento este que está a ser cada vez mais difícil, devido à conjuntura internacional e ao elevado nível de competição dos mercados exportadores. Já a importação de bens intermédios (por exemplo, equipamentos) não seria tão gravosa, pois o desequilíbrio provocado balança comercial, seria compensado nos anos seguintes, com o aumento da produção. Para ser mais directo: o consumo de bens finais, comprados no estrangeiro, constituem-se num constrangimento para o aumento do PIB, já que as importações não entram no seu cálculo, como é evidente.

Mas ainda há um outro motivo, para que a notícia referida nunca possa ser considerada boa. E esse motivo é o endividamento das famílias, que já poderá
estar a ser excessivo, em relação ao nível dos rendimentos auferidos, e que, no futuro, poderá provocar muitos amargos de boca, tal como no passado recente.

A memória das pessoas é curta, e, desgraçadamente, vive-se uma gigantesca onda consumista, atiçada por doses maciças de publicidade.

Claro que, tudo o que se disse aqui, não agradará aos banqueiros, que são os únicos que, nesta perversa cadeia, ganham com o negócio.

Alexandre de Castro

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Trump que se cuide…


Na primeira conferência de imprensa desde que foi eleito, o Presidente eleito dos EUA, [Trump] diz que se o Kremlin tivesse informação sensível sobre si a tinha divulgado. "Se Putin gosta de Trump, óptimo, é uma vantagem", disse.
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Trump que se cuide…

Sabendo-se que a CIA, o FBI e a NSA não morrem de amores por Trump, devido, entre outras coisas, ao seu perfil heterodoxo, que não se coaduna com a convencional postura presidencial norte americana, é muito possível que estejamos a assistir a uma montagem cabalística, para o derrubar ou para o domesticar, pois é muito estranho que essas informações comprometedoras, na posse dessas agências, tivessem chegado à praça pública. A CIA, principalmente, que se alcandorou, devido às políticas intervencionistas dos anteriores presidentes, ao estatuto de um Estado, dentro do Estado, perderá importância e poder, se Trump, tal como anunciou, optar em politica externa, por uma política isolacionista, abdicando de andar a provocar guerras, directamente ou por encomenda, no Médio Oriente e em outros países, considerados vitais para os interesses dos EUA.
Se esta minha tese estiver certa, então, Trump irá ter o mesmo destino de Kennedy, que foi assassinado pela mão oculta do FBI.
Alexandre de Castro
12 JAN 2017

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Uma explicação necessária em relação à morte de Mário Soares


Uma explicação necessária em relação à morte de Mário Soares

Nestes dois últimos dias, fui deixando, pelos vários grupos, em que colaboro, várias mensagens, que traduziam o meu estado de espírito, sobre a morte de Mário Soares, que lamentei, naturalmente. Reproduzo esta, que enviei à amiga Ana Henriques, que é que melhor sintetiza o meu pensamento sobre o político que, a par de Álvaro Cunhal, foi a figura mais marcante do regime de 25 de Abril, tal como o foram, no tempo da República, Afonso Costa e António José de Almeida: " É certo que Mário Soares foi um antifascista e que lutou pela liberdade e pelo fim da Guerra Colonial. Pelo recolhimento a que me obrigo, pela sua morte, e cumprindo o estado de luto nacional, não irei agora fazer qualquer abordagem à sua obra e à sua personalidade. Fica para mais tarde, quando as emoções colectivas e as individuais serenarem".
Alexandre de Castro

Imagens dos funerais das duas figuras políticas mais emblemáticas dos últimos 50 anos

Imagem retirada do Grupo do Facebook, Álvaro Cunhal
Há uma diferença significativa entre um funeral de Estado e um funeral do povo.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Estatística das publicações mais lidas no Alpendre da Lua



Estatística das publicações mais lidas no Alpendre da Lua
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O artigo, publicado ontem, sobre a morte de António Tereso, o herói da célebre fuga de oito militantes comunistas da prisão do Forte de Caxias, utilizando o carro blindado de Salazar, atingiu, no Alpendre da Lua, às vinte e uma horas de hoje, as 6170 visitas, sendo assim a segunda publicação mais lida naquele meu blogue, desde o início da sua actividade.
O primeiro lugar pertence à publicação da fotografia daquela afegã, a quem cortaram o nariz, que, desde que foi publicada, em 11 de Fevereiro de 2011, recebeu 6641 visitas.
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Fotografia de afegã mutilada vence World Press Pho...
11/02/2011, 1 comentário
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Faleceu António Tereso - o herói da fuga do Forte ...
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O "Fogo do Céu" de 1593, na ilha da Madeira
10/08/2016, 1 comentário
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Universidade tem curso sobre Lady Gaga
04/11/2010
1893 visitas
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Dados estatísticos do Google

sábado, 7 de janeiro de 2017

Face ao falecimento do Dr. Mário Soares


NOTA DO SECRETARIADO DO COMITÉ CENTRAL DO PCP

Face ao falecimento do Dr. Mário Soares
7 Janeiro 2017
O Partido Comunista Português, face ao falecimento do Dr. Mário Soares já apresentou directamente ao Partido Socialista e à família as suas condolências.
Mário Soares, fundador do Partido Socialista, seu Secretário-geral, personalidade relevante da vida política nacional, participante no combate à ditadura fascista, no apoio aos presos políticos, desempenhou após o 25 de Abril os mais altos cargos políticos, designadamente como Primeiro-Ministro, como Presidente da República e membro do Conselho de Estado.
Lembrando o seu passado de antifascista, o PCP regista as profundas e conhecidas divergências que marcaram as relações do PCP com o Dr. Mário Soares, designadamente pelo seu papel destacado no combate ao rumo emancipador da Revolução de Abril e às suas conquistas, incluindo a soberania nacional.

Faleceu António Tereso - o herói da fuga do Forte de Caxias, no carro blindado de Salazar



NOTA DO SECRETARIADO DO COMITÉ CENTRAL DO PCP

Faleceu António Tereso
7 Janeiro 2017
O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa com mágoa e tristeza, do falecimento hoje dia 7 de Janeiro aos 89 anos, de António Tereso. Militante comunista que dedicou a sua vida à luta dos trabalhadores e do povo português pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
António Tereso, começou a trabalhar aos 12 anos, ingressando mais tarde na Carris.
É como operário da Carris e na sequência da luta que em Fevereiro de 1959 foi preso e condenado a dois anos e três meses de prisão.
Na prisão de Caxias desempenha complexo e destacado papel na preparação e concretização da fuga de oito destacados dirigentes e militantes comunistas do Forte de Caxias no carro blindado de Salazar, a 4 de Dezembro de 1961.
Depois da fuga, foi forçado a ingressar na clandestinidade.
Passou depois pela Checoslováquia e por França, onde tirou o curso de torneiro mecânico e aí exerceu essa profissão até ao 25 de Abril de 1974.
Após o 25 de Abril, regressado a Portugal, desempenhou as mais diversas tarefas e responsabilidades no apoio à Direcção do Partido, até quando lhe foi possível fisicamente, antes e após a sua reintegração na Carris.

O corpo de António Tereso estará em câmara ardente na Casa Mortuária da Igreja de S.Francisco de Assis, na Av.Afonso III (ao Alto de S.João) a partir das 10 horas de dia 8 de Janeiro, domingo, saíndo o funeral às 12 horas para o Cemitério de Barcarena onde o corpo será cremado pelas 12h30.
***
A FUGA DE CAXIAS NO CARRO DE SALAZAR

Contada por António Gervásio (dirigente do PCP), um dos fugitivos
A 4 de Dezembro de 1961, em pleno dia – 10 da manhã –, oito destacados militantes comunistas, rompendo a forte segurança policial, fogem com êxito do Forte de Caxias num velho «Mercedes» à prova de bala, oferecido por Hitler ao ditador Salazar.

Recordamos os oito fugitivos: José Magro, Francisco Miguel, Domingos Abrantes, António Gervásio, Guilherme de Carvalho, Ilídio Esteves, Rolando Verdial (todos funcionários do Partido) e António Tereso.

Foi grande o impacto nacional desta fuga. As pessoas ficaram impressionadas: como foi possível, em pleno dia, num pátio interior do forte rodeado de taludes, GNR’s, carcereiros armados e sempre com os olhos postos nos movimentos de cada preso, chegar um automóvel e, num abrir e fechar de olhos, oitos presos desaparecerem sem os guardas terem tempo para compreender o que se estava a passar? É natural que surjam tais interrogações. Sem dúvida que jogou muito o factor surpresa e a rapidez – agir tão rápido que os guardas não tivessem tempo de pensar que se tratava de uma fuga!
Cada fuga tem a sua história. A fuga de Caxias não foi uma realização ao acaso, nem uma aventura. Ela envolve um longo trabalho colectivo (cerca de um ano), paciente, minucioso, um conhecimento profundo de variadíssimos detalhes.

(...) O elevado número de fugas não nos deve levar a pensar que as cadeias fascistas eram calabouços frágeis de onde se podia fugir facilmente. Nada disso! A Pide introduzia constantemente medidas rigorosas de segurança. Quem passou longos anos na cadeia sabe disso.

1. Preparação da fuga
Nos finais da década de 50 o Partido tinha sofrido duros golpes com a prisão de numerosos funcionários. Nessa altura, muitos deles encontravam-se no Forte de Caxias. A Pide temia os funcionários do Partido e tinha razões para isso... A polícia, com receio das fugas, tinha medo de os juntar na mesma sala. Por outro lado, procurava não dividi-los pelas salas dos outros presos para impedir o trabalho de esclarecimento e organização; para não permitir que ensinassem a ler e a escrever e estabelecessem ligações entre salas, pisos e alas, etc.

Contudo, a certa altura, a Pide decidiu distribuir os funcionários do Partido pelas salas dos outros presos. Isso veio possibilitar o reforço das ligações entre salas e pisos e dar passos na direcção da fuga. Não demorou muito que a Pide voltasse de novo a juntar os funcionários numa sala do rés-do-chão que oferecia maior segurança, o que veio facilitar a preparação, uma vez que estavam todos juntos.

Um certo dia soubemos que se encontrava na garagem da cadeia um «Mercedes» à prova de bala. Esta informação teve uma enorme importância para se perspectivar a fuga. Todos os esforços se viraram para o «Mercedes». Era necessário conhecer o estado do carro, repará-lo, arranjar combustível, fazer ensaios. Colocava-se a questão: como chegar ao «Mercedes» sem levantar o mínimo de suspeita? A organização do Partido na cadeia pôs a imaginação a trabalhar. E, como se costuma dizer, para os comunistas as dificuldades só existem para serem vencidas.

2. A história do «rachado»
No Forte de Caxias existiam alguns presos com comportamentos fracos que, a troco de visitas em comum com familiares, apanhar sol, receber comida da família, se dispunham a fazer alguns serviços da cadeia, como limpezas e outros. A esses presos, os outros chamavam-lhes «rachados» (uma coisa que não presta). Estudando esta realidade dos «rachados», a organização do Partido na cadeia avançou com a ideia de arranjar um «rachado» fingido, um quadro sério, corajoso, capaz de assumir tarefas difíceis e arriscadas.

Essa escolha foi cair no camarada Tereso, motorista da Carris, com conhecimentos mecânicos e outras capacidades. Não vamos explicar um conjunto de situações diversas. Dizer só que levou tempo a ganhá-lo para a tarefa, pois ele não aceitava a ideia de ser «rachado» mesmo a fingir. Contudo, sendo uma tarefa do Partido, acabou por aceitá-la. A Pide, desconfiada, demorou tempo a ser convencida.

Uma das tarefas do novo «rachado» era ganhar a confiança dos carcereiros. Começou por arranjar os carros da cadeia, depois os carros do director do Forte e de alguns Pides. A sua credibilidade foi crescendo e passado tempos chegou ao célebre «Mercedes». Estudou-o, foi-o reparando e sacando combustível da cadeia. Com o andar dos tempos começou a fazer experiências, pequenas manobras no pátio do forte, ensaios que foram aumentando.

3. Os passos finais
Passaram-se vários meses. Os dados estavam lançados. As andanças do «Mercedes» eram vistas como normais pela GNR. Os batentes de cimento do portão do exterior estavam devidamente estudados: não iriam resistir ao embate do «Mercedes».

A fuga tinha de realizar-se antes das 10 horas da manhã, porque depois dessa hora chegavam ao portão familiares dos presos para as visitas. Estavam asseguradas medidas para não haver pessoas atrás do portão e era rigorosamente necessário que no dia da fuga os carros da cadeia e da Pide, dentro do forte, estivessem, antes das 9 horas, todos imobilizados, avariados, para não poderem perseguir os fugitivos – medida que também foi assegurada.
Estava definido quais os oito camaradas que iriam participar na fuga. A casa da guarda (GNR) ficava no meio do túnel que dava acesso ao pátio do recreio dos funcionários presos e ao portão do exterior. Junto à casa da guarda havia um gradão de ferro. Havia comandantes que tinham o túnel fechado com o gradão durante o dia, outros tinham-no aberto. No dia da fuga o túnel estava fechado.

Algumas semanas antes da fuga a Pide inventou um estratagema na escala dos recreios no sentido dos funcionários presos nunca saberem o dia e a hora certa do recreio, tudo isto com receio de fuga! Mas, passados alguns dias, descobrimos o segredo pidesco.

Finalmente chegou o dia decisivo. A 4 de Dezembro de 1961, às nove e pouco da manhã, a Pide abre-nos a porta para o recreio. Estávamos um pouco tensos. Alguns de nós pensámos: vamos sair e já não voltaremos!

No recreio iniciámos o nosso jogo tradicional de voleibol que fazia parte de outra jogada... A GNR, nos taludes, observava-nos. No nosso meio circulavam carcereiros armados.

Poucos minutos depois vemos o «Mercedes» conduzido por Tereso subindo em marcha atrás o túnel por onde iríamos fugir. O «Mercedes» chegou até junto de nós. Começámos a «protestar», os guardas muito atentos, aproximámo-nos do carro cujas portas só estavam encostadas – tudo aparentemente sereno mas muito rápido. Ouve-se o grito da senha: GOLO! E num gesto super rápido os oito fugitivos estavam no interior do «Mercedes» que, em grande velocidade, avança pelo túnel em direcção à liberdade. A sentinela não teve sequer tempo de fechar o gradão. O «Mercedes» vai direito ao portão exterior, arranca em primeira, dá uma pancada no portão que salta em pedaços! Ouvem-se tiros de metralhadora. O «Mercedes» arranca encostado ao talude do forte. Chovem tiros e ouvem-se as balas a fazerem ricochete no carro.

Os carcereiros correm em busca dos carros da cadeia, mas, para seu azar, nenhum deles quis mexer-se, estavam todos avariados! Não podiam perseguir os comunistas fugitivos...

Cerca de 10 minutos depois, os oito fugitivos estavam em Lisboa. Cada um seguiu o seu rumo a abraçar as novas tarefas do Partido. O «Mercedes» ficou a descansar na rua Arco do Carvalhão até a Pide o ir buscar...
in «O Militante» - N.º 280 Janeiro /Fevereiro 2006 
***«»***
Nota: Os heróis também morrem... Embora muitos sejam esquecidos...
AC

Agradecimento...


Agradeço ao António Neto a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pilhagem e agiotagem: dois processos paralelos da política económica e financeira da Europa


O euro foi o principal instrumento da rapina, utilizado pelas instituições da União Europeia. Permitiu a silenciosa aceleração da transferência da riqueza produzida pelos países da periferia (os mais pobres) para as economias dos países do centro (os mais ricos).

Neste curto período da História da moeda única, ainda não é possível fazer uma rigorosa análise dos seus efeitos, mas já há sinais evidentes de que o euro vai ser o coveiro dos países pobres e, por arrastamento, a longo prazo, da própria Europa.

Ainda ninguém me deu uma resposta a uma pergunta que tenho andado a fazer: Por que razão uma crise tão profunda e tão perversa, como é esta, que já dura há sete anos, e cuja resolução não se vislumbra, no horizonte próximo, ainda não teve solução, nem foi ultrapassa? Para mim, a resposta é só uma. Trata-se de uma crise estrutural profunda e não uma daquelas crises cíclicas, comuns ao sistema capitalista, provocadas pelo desequilíbrio macroeconómico do binómio Procura / Oferta, mas que foram sendo resolvidas num curto espaço de tempo (dois ou três anos), recorrendo-se à desvalorização da moeda.

A crise do euro é de outra natureza. É uma crise provocada pelo sistema financeiro, que recorreu à agiotagem numa escala nunca vista, servindo-se do sistema político bipartidário universal (à escala europeia), em que os dois partidos dominantes se esgadanhavam entre si, pela conquista do poder, mas, que estavam perfeitamente sintonizados nas questões fundamentais, como são as  do processo da pilhagem de recursos e o da agiotagem, entretanto postos em marcha.

O Processo da pilhagem e a agiotagem mais não fizeram do que transferir a riqueza produzida pelos países pobres para os países ricos.

A pilhagem iniciou-se nas últimas duas décadas do século passado, com as ajudas comunitárias, que até pareciam um acto altruísta de generosidade e de solidariedade, por parte da Europa rica. As pessoas foram enganadas, julgando que estavam a receber ajudas desinteressadas. Não estavam. Todo esse dinheiro, que jorrou da torneira da Europa, destinava-se obrigatoriamente a um certo tipo de investimentos, investimentos estes que levaram naturalmente, devido à intencional abertura das fronteiras, os países receptores a importar equipamentos, matérias-primas e produtos acabados dos países ricos, principalmente da Alemanha e da França. Um exemplo ilustrativo: todo o alcatrão utilizado na construção das auto estradas portuguesas veio da Alemanha. A maior parte dos equipamentos para as milhares de empresas de construção civil, que se formaram em Portugal, após à adesão ao euro, tiveram a mesma origem. Como se disse anteriormente, a prévia e intencional abertura das fronteiras, para formar o espaço europeu, e a consequente extinção de pautas aduaneiras, facilitaram este circuito, que muito beneficiou a Alemanha e a França, que viram aumentar em flecha as suas exportações. Com esta oculta política económica de conveniência, a Alemanha chegou a exportara para o espaço europeu sessenta e cinco por cento do total das suas exportações, o que mostra a importância que o mercado europeu tem para a sua economia.  

Por sua vez, a agiotagem exerceu-se ao nível da dívida, que se alimentou do pretexto de que cada português (grego ou espanhol) deveria ter casa própria, pois então. Os grandes bancos alemães e franceses, ajudados pelo BCE, que manteve as taxas de juro intencionalmente baixas, através do controle da inflação, começaram a seduzir os bancos dos países periféricos para forçarem, entre as classes médias, o crédito para habitação própria e para a aquisição de bens de consumo, que eram verdadeiras galinhas de ovos de ouro. Os bancos do centro emprestavam dinheiro aos bancos dos países da periferia e estes emprestavam aos incautos consumidores. Foi uma festa, que acabou em tragédia. A bolha especulativa tinha de rebentar, com tanto crédito concedido ao desbarato. E o posterior incumprimento dos devedores seguiu o percurso inverso do capital emprestado. Os clientes deixaram de pagar aos bancos dos países da periferia, e estes deixaram de pagar aos bancos da Alemanha e da França. O resto da história já o leitor a conhece. A Europa vive assim num estado de pré-falência do seu sistema financeiro.

No entanto, devo acrescentar o seguinte: os dividendos do accionistas dos  bancos ficaram garantidos, com a cobrança dos juros. Calcula-se que cada empréstimo foi premeditadamente concebido e calculado, para que, a meio do tempo da vigência do contracto, em juros e amortizações, o capital emprestado fosse totalmente reabsorvido pelo banco, ficando o tempo contratual restante a gerar apenas lucros. Grande negócio.

Tudo isto não é novidade, pelo menos ao nível das ajudas. Foi o que fizeram os Estados Unidos à Europa, após as duas guerras mundiais do século passado, principalmente após a segunda guerra, que deixou a economia europeia de rastos e Alemanha com as suas infra-estruturas completamente destruídas. O Plano Marshall injectou na Europa muitos milhões de dólares para a reconstrução das infra-estruturas produtivas e do parque habitacional, dinheiro esse que serviu de suporte financeiro aos países europeus para importarem maquinaria industrial, automóveis e outros veículos motorizados, além de bens de consumo, de que a Europa estava carenciada. Na realidade, a Europa foi muito beneficiada com estas ajudas, mas também é certo que os EUA beneficiaram muito mais com o fulgurante aumento das suas exportações, ao ponto de se transformarem na primeira potência mundial.

Mas, ao contrário do está a acontecer na Europa, o Plano Marshall não impunha aos países europeus restrições económicas de qualquer ordem, nem impôs nenhuma moeda única transatlântica, até porque os EUA pretendiam criar no ocidente europeu economias robustas, que permitissem aumentar o poder de compra da população, a fim de travar o contágio da ideologia comunista, que alastrava entre o operariado e o mundo intelectual.

E é nesta perspectiva, a da análise dos grandes ciclos da História, que podem compreender-se melhor os acontecimentos do presente.  
Alexandre de Castro

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Universidades Privadas: No primeiro assalto ao Estado Social, os privados perderam…


Universidades Privadas: No primeiro assalto ao Estado Social, os privados perderam…

Quatro universidades privadas vão fechar portas no próximo ano por falta de alunos e de verbas, uma de forma compulsiva e outras três de forma voluntária, avançou ao jornal i fonte oficial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, sem identificar as instituições em causa.                                                     
OBSERVADOR
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A criação de universidades privadas, nos finais do século passado, foi o primeiro assalto do grande capital ao edifício do Estado Social. O objectivo era essencialmente comercial, mas também levava à ilharga o lastro político e ideológico. Beneficiaram da falta de oferta do ensino superior público, que não conseguia responder à forte procura das famílias portuguesas que, na altura, queriam ver os filhos "doutores", alimentado aquela vã esperança de que um canudo na mão abriria todas as portas para emprego certo e bem remunerado. As "fábricas" de produzir doutores em série pôs-se em marcha acelerada, enquanto as vacas eram gordas. Depressa se percebeu que aquilo não era para levar a sério. Dessas fábricas, de características artesanais, começaram a sair analfabetos funcionais. Mas eram doutores, carago!

Entretanto, o Estado, e eu ainda não sei por que razão, uma vez que o capital e os governos andavam de mãos dadas, passeando aquela amizade neoliberalizante, começou a investir em força no ensino superior público, que se modernizou e actualizou, criando uma miríade de cursos superiores, alguns completamente desajustados à realidade científica e ao mercado de trabalho. Se não fosse a crise a travar aquela criatividade inventiva, hoje até teríamos calistas e manicures, com licenciatura e mestrado.

Agora, uma vez conhecida a fraude das universidades privadas, e, devido à crise, elas estão insolventes. Só me admira que ainda não tenha aparecido uma voz piedosa a pedir que o Estado avance, para apagar o incêndio, injectando dinheiro naquelas instituições falidas. É que, candidatos a calistas e a manicures não faltam no mercado.
Alexandre de Castro

domingo, 1 de janeiro de 2017

As melhoras da morte...


A crise parece longe. A crer nas transações efetuadas nos terminais multibanco na véspera de Natal. Cansados de festejar o natal a contar os tostões, os portugueses este ano saíram à rua dispostos a tirar a barriga de misérias. Entre 25 de novembro e 24 de dezembro levantaram nas caixas multibanco espalhadas pelo país 2,397 mil milhões de euros, mais 100 milhões de euros que em igual período do ano passado. Lentamente começam a dar razão a Mário Centeno, o homem que acreditava na alavancagem da economia a partir do consumo. Os sinais de que não o querem deixar ficar estão aí nos dados da SIBS, a empresa que gere a rede multibanco, agora divulgados.
PAULA FERREIRA.
Jornal de Notícias
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As melhoras da morte...

O aumento do consumo das famílias portuguesas, no ano corrente, que teve a sua máxima expressão na época natalícia, seria, na realidade, uma óptima notícia, se esse consumo tivesse sido dirigido, maioritariamente, para os bens, com elevada incorporação de matérias-primas e de trabalho nacionais. Mas, julgo que não é o caso, a avaliar, grosseiramente, pela comparação da evolução das importações e das exportações, com as primeiras a crescerem mais do que as segundas, o que vai agravar a balança comercial do país, aumentando a situação deficitária. Esta estratégia, a de privilegiar o aumento do consumo, como factor predominante, para impulsionar o aumento do PIB, não poderá ser mantida por muitos mais anos, a não ser que os desequilíbrios, que venham a ser gerados, venham a ser compensados com o proporcional aumento das exportações e do investimento, uma hipótese que apresenta muitas incertezas, devido ao clima político e económico internacional e ao ambiente de crise permanente na Europa.

Por outro lado, este aumento do consumo deveu-se mais à libertação das poupanças (ter dinheiro no banco começou a ser perigoso) do que ao aumento real dos salários, que foi diminuto.

Feita a análise, segundo esta perspectiva, julgo que não podem deitar-se muitos foguetes, porque a crise ainda não acabou, a colossal dívida externa não diminuiu e a austeridade troikiana, levada a cabo pelo governo da direita, ainda vai demorar algum tempo a ser totalmente removida (se for). Se nada for decidido em relação à reestruturação da dívida à troika, e se Portugal continuar amarrado à moeda única, não tenho dúvidas que o cerco dos credores manter-se-à, com a Comissão Europeia à cabeça, a morder-nos as canelas. Isto, claro no caso da actual estrutura do poder da política europeia passar incólume às vicissitudes das eleições da Alemanha e da França, no próximo ano.

Assim, eu direi que a festa consumista deste ano assemelha-se mais às melhoras da morte.

Alexandre de Castro

Agradecimento...


Agradeço ao Franscisco a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

PCP lança campanha sobre saída do euro


PCP lança campanha sobre saída do euro

O PCP anunciou hoje [17 de Dezembro] que vai realizar uma campanha sobre a saída do euro, entre janeiro e junho de 2017.
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Trata-se de uma grande iniciativa do PCP, que faltava ao país. Só com uma moeda própria, adaptada, no ponto de vista cambial, à produtividade da economia nacional, se poderá caminhar no sentido do crescimento e do desenvolvimento, que o elevado valor do euro está a estrangular, pois não favorece o aumento desejável e sustentável das exportações, o que é urgente e importante, ao mesmo tempo que facilita o aumento das importações, o que não é favorável para a economia O consumo, através da importação de bens de luxo, não enriquece o país, antes o empobrece.
Sempre que abordo este tema, costumo referir a minha metáfora, que é assim: ao aderir ao euro, Portugal fez a figura daquela criança, que vestiu o casaco do pai. Ficava-lhe grande e dificultava-lhe os movimentos. O alfaiate cortou-o e tentou adaptá-lo ao corpo da criança. Ficou mal amanhado. A solução, concluiu-se, é comprar um casaco novo (ou seja, regressara ao escudo).
Claro como água cristalina. Só não vê quem é cego ou quem, por conveniência interesseira, finge que é cego.
É certo que uma saída do euro tem custos e vai exigir sacrifícios (a todos e não apenas a alguns, até aqui os mesmos de sempre), mas que serão temporários, e podendo ser eliminados quando começarem a surgir os resultados positivos de uma nova política, assente no vigoroso aumento das exportações, proporcionado por uma moeda de menor valor, e no investimento público e privado. No entanto, esse sacrifícios, quer na intensidade, quer na interinidade, serão muito menos gravosos do que os existentes na situação actual, que vão perpetuare-se por muito tempo, e em que a economia não conseguirá gerar uma balança comercial, com um folgado superávit, para poder pagar-se a dívida, mesmo que reestruturada.
Alexandre de Castro

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A casa de ler no escuro _ Maria Azenha


Tive o privilégio de conhecer, no final do mês passado, a “poeta” Maria Azenha de quem sou um admirador incondicional. O pretexto foi o de receber das suas mãos o seu último livro de poesia, que recentemente publicou, e onde inseriu, como nota preambular, uma pequena frase minha, que, previamente, me solicitara para o efeito, e que aqui transcrevo:

“Todos anseiam escrever um poema num muro escuro.
Se possível, com gomos de lume, para incendiar as pedras.”

Entendi o honroso convite, que volto a agradecer, como uma prova de estima.
***
Maria Azenha, já com duas dezenas de livros publicados, exprime-se poeticamente num estilo literário inconfundível, que ninguém consegue imitar, enquadrando os seus poemas numa geometria metafórica grandiosa, em que o segredo dos efeitos reside na precisão de cada palavra, milimetricamente escolhida, o que me levou a dizer que os seus poemas são verdadeiras “catedrais góticas”.
***
Do livro em causa, “A casa de ler no escuro”, escolhi, para aqui deixar, o poema da página 11 e o da página 33.

O Anjo do desastre

Chegou a morte com a boca cheia de cravos.
Chegou numa certa manhã escura
com sirenes no deserto e
cavalos

contra a primavera
contra a chuva

sem que o sangue de deus existisse num milagre
ou num mícron de segundo.

Vi o anjo do desastre colocar os pés no mundo.

***

A noite da europa

Toda a violência procura o disfarce
de uma virgem que é perseguida por
um louco.

Auschwitz é um cão que morde o poema
triunfante de ruína.

O seu verso de saída é um imperador morto
Que busca o ouro nos destroços

Maria Azenha.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Tenho um minuto para escrever este poema _ maria azenha


Tenho um minuto para escrever este poema

Tenho um minuto para escrever este poema
Um poema que fala de amor e de um deus morto
A minha pena é uma faca de luz e sou o anjo do desespero
Com os dentes trituro a esperança e a tinta da boca
escorre pelas ruas cobrindo-me os ombros.
Sou a nuvem que sobrevoa o silêncio.
O meu voo é o abismo da neve que grita:
Obrigada, meu Deus, por não existires.

©maria azenha

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Um poema original na forma, arrebatador na essência e divinal na existência...
O poema é fabuloso! Arranca-nos da solidão do Tempo.
Parece-me que a Poesia continua viva. Não morreu na voragem predadora da Nova Idade.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Morreu Laura Ferreira dos Santos


Morreu Laura Ferreira dos Santos. Morreu sem ter acabado o seu último combate - o Direito à morte assistida.
Era irmã do poeta Ademar Santos, também já falecido, que eu muito admirava e com quem me correspondia.
A vida é sempre curta, para quem tem sonhos grandiosos, ao serviço da plena cidadania dos direitos, que as instituições políticas e religiosas pretendem negar-nos, como se fossem donas do nosso destino.
Laura Ferreira dos Santos foi um exemplo para todos nós, quer na vida, quer na morte. Morreu naquela idade em que ainda se alimenta o sonho.
Alexandre de Castro

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O regime sírio não é o agressor…


O regime sírio não é o agressor…

Não foi o regime sírio, que iniciou esta fratricida guerra. Nem os sectores da oposição a Bashar-al-Assad teriam meios para a desencadear, se não fossem os países ocidentais, particularmente os EUA e a França, a proporem-a aos respectivos dirigentes e a comprometerem-se a treinar e a armar os seus combatentes.
A CIA aplicou na Síria o mesmo estratagema que utilizou em relação ao ISIS (Estado Islâmico), e a França enviou os seus militares para o terreno, a fim de treinar os chamados rebeldes, o que o presidente francês já admitiu publicamente. Além disto, a CIA, tal como procedeu na Líbia, mobilizou mercenários do Catar para o teatro das operações. Não foram, pois, os oposicionistas sírios que, por iniciativa própria e autónoma, desencadearam as hostilidades. Os verdadeiros agressores foram os EUA e a França, que descobriram, a fim de se furtarem à condenação pública, que a melhor maneira de fazer a guerra, a guerra que convém aos seus interesses estratégicos, seria encomendá-la a terceiros.
 
Perante este quadro, o regime legítimo da Síria defendeu-se, defendendo também o seu povo, cuja maioria não se identifica com as políticas dos países ocidentais, em relação ao Médio Oriente. A legítima defesa é um direito universal. O ónus da causa desta guerra é a interferência estrangeira num país independente, que faz parte da ONU.

O envolvimento da Rússia (um país aliado da Síria, desde os tempos da União Soviética) foi determinante para inverter o sentido da guerra, que passou a ser favorável às forças do regime. E foi precisamente a partir do momento desta inversão que a imprensa ocidental iniciou a sua campanha a favor do Direitos Humanos do povo sírio, quando antes se tinha remetido a um silêncio cúmplice e comprometedor, em relação às barbaridades cometidas pelos rebeldes, nas cidades que ocupou. O primeiro cessar-fogo, entre as forças beligerantes, fracassou, porque os rebeldes, em vez de deixar sair a população civil das cidades sitiadas, que era o objectivo do cessar-fogo, manteve-a prisioneira, a fim de lhe servir de escudo, pois sabiam que, a partir daí, ficariam mais expostos a um ataque fortíssimo das forças militares do regime. E este aprisionamento da população civil é um crime, previsto no Direito Internacional. Mas isto não pesou na consciência dos media ocidentais, que persistem na intoxicação e na desinformação da opinião pública.
Alexandre de Castro

sábado, 10 de dezembro de 2016

O Estado Social não pode ser descentralizado nem privatizado...


"A melhor forma de celebrar estes 40 anos do poder local democrático é confiar e apostar na necessidade de maior descentralização", reiterou.
Na sua opinião, os autarcas serão capazes de "governar melhor o mundo", o que justifica um reforço da descentralização de competências da Administração Central para as autarquias.
António Costa - primeiro-ministro
***«»***
[Fica a faltar pouco, para privatizar os municípios].

Eu penso que António Costa, pressionado pelos apertos orçamentais, provocados pelo torniquete da comissão europeia e do BCE, vai iniciar a sua deriva à direita. E uma das fugas para a frente, poderá muito bem ser - à boleia dos propalados méritos da descentralização (que serão úteis e aconselháveis em alguns aspectos) - a transferência de competências para as autarquias, de algumas áreas da Saúde e da Educação, o que será um erro, pois estes dois pilares do Estado Social, que é necessário defender, têm de ser geridos de uma forma holística, tal é a sua complexidade. 

E, por outro lado, nunca fica garantido que, no presente e no futuro, o poder central não venha a cortar no financiamento respectivo. Perante um cenário destes, as autarquias, principalmente as da ala direita do espectro partidária, seriam tentadas a avançar para a privatização dessas competências. Seria uma segunda frente para, por exemplo, os privados prosseguirem a sua estratégia de se instalarem no aparelho do SNS, principalmente na área hospitalar. E falamos em segunda frente, porque a primeira já está em marcha, com a cumplicidade e o apoio da actual equipa ministerial da Saúde, e que consiste em enviar doentes do sector público para gabinetes privados de meios auxiliares de diagnóstico, que, no último ano, nasceram como cogumelos nas principais cidades do país. A explicação oficial é que o sector público, na área dos meios auxiliares de diagnóstico, se encontra saturado, aumentando dia a dia as correspondentes listas de espera. O slogan é a enganadora frase, muito atractiva e sedutora, além de bem elaborada, "o dinheiro anda atrás do doente". 

Ora, seria melhor que esse dinheiro andasse à frente do doente, aplicando-o na compra de novos equipamentos e alargando a dimensão dos respectivos serviços, o que, em termos de escala e a longo prazo, ficaria mais barato para o Estado.

Este conceito e este slongan não são uma novidade lusitana. Um e outro foram usados com sucesso na Grã-Bretanha, durante o doloroso governo de  Margaret Tatcher, na sua ofensiva brutal contra o Serviço Nacional de Saúde britânico, que era exemplar. A Dama de Ferro desvirtuou-o totalmente.

Em Portugal, a estratégia dos privados está a avançar com pèzinhos de lã, para não causar alarme social. De início, até vão ser pródigos no estabelecimento de custos acessíveis, para o utente, enquanto o Estado pagar, e no atendimento, até ao dia em que, já completamente instalados e com o poder de decisão na mão, possam avançar com uma estratégia predadora e com um outro slogan, do género, "quem quer saúde paga-a".

Por isso, afirmamos: deve optar-se pela descentralização, não para destruir direitos, mas para os reforçar. Descentralizar a Saúde e a Educação seria tão desastroso como se se descentralizassem as Forças Armadas, pois não seria uma boa ideia ver o presidente da Junta de Freguesia de Ranholas de Cima, promovido a segundo sargento...
Alexandre de Castro