sábado, 25 de abril de 2015

VIVA O 25 DE ABRIL ...



Cravo negro

Cravo, onde está a tua cor,
não sei dela, não sei de mim,
roubaram-te a esperança,
a mesma que tiraram de mim...
Estás de luto vestido,
quem te trajou afinal,
foi essa gente desgovernada,
que anda a matar Portugal...
Vejo as tuas lágrimas sobre a terra,
e choro eu contigo também,
com saudades desse tempo,
em que não pertencíamos a ninguém...
Venderam-nos a alma,
deixaram-nos o corpo ao abandono,
somos como cães sem raça,
de quem já ninguém quer ser dono...
Somos vagabundos esquecidos,
mas que não conseguem esquecer,
o Amor por um país,
que nos seus braços nos viu nascer...

Ártemis

***«»***
Hoje irei trazer uma braçadeira preta no braço e um cravo vermelho ao peito...

domingo, 19 de abril de 2015

Noam Chomsky: "A pior campanha terrorista é a que está a ser orquestrada...




Texto da entrevista:

Noam Chomsky é considerado uma celebridade do mundo intelectual. Um autor prolífico e assumido anarquista, que aos 86 anos de idade não dá sinais de querer abrandar o ritmo. É uma voz ativa na denúncia de várias injustiças, tendo com bastante frequência o Ocidente como alvo.
Quem é Noam Chomsky?
Avram Noam Chomsky nasceu em Filadélfia, nos Estados Unidos, a 7 de dezembro de 1928
Começou a trabalhar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1995
É um reputado linguista, filósofo e ativista político
O trabalho que desenvolveu na década de 50 revolucionou o campo da linguística
Destacou-se pelo ativismo contra a guerra do Vietname
Opõe-se às elites reinantes e é um forte crítico dos Estados Unidos e da política externa ocidental
É um respeitado autor, com dezenas de livros publicados
Discutimos estas e outras questões numa entrevista com o reputado linguista, filósofo e ativista político norte-americano, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos.

Isabelle Kumar, Euronews: Em 2015, o mundo parece um lugar conturbado, mas se pensarmos a nível global, sente-se otimista ou pessimista?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Estamos a caminhar, a nível global, para um precipício, no qual estamos determinados a cair, e que reduzirá nitidamente as perspetivas de uma sobrevivência decente.”

Isabelle Kumar, Euronews: Que precipício?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Na verdade existem dois precipícios. Um é a catástrofe ambiental iminente. Não temos muito tempo para lidar com isso e fazemos o percurso errado. O outro aconteceu há cerca de 70 anos, a ameaça de guerra nuclear, o que é interessante. Se fizermos uma retrospetiva é um milagre termos sobrevivido.”

Isabelle Kumar, Euronews: Falemos agora de questões ambientais. Pedimos aos nossos seguidores nas redes sociais para enviarem perguntas e recebemos imensas questões. Enea Agolli pergunta: Quando se depara com a questão ambiental e assume uma postura filosófica, o que tem a dizer em matéria de alterações climáticas?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “A espécie humana existe há cerca de cem mil anos e está agora perante um momento único na história. Esta espécie está numa posição em que decidirá, brevemente, as próximas gerações, se a chamada vida inteligente vingará ou se estamos determinados a destruí-la. Os cientistas reconhecem, surpreendentemente, que a maioria dos combustíveis fósseis têm de ficar no solo se quisermos um futuro decente para os nossos netos. Mas as estruturas institucionais da nossa sociedade fazem pressão para se extrair cada gota. Os efeitos, as consequências humanas, esperados por causa das alterações climáticas, num futuro próximo, são catastróficos e caminhamos para um precipício.”

Isabelle Kumar, Euronews: Em matéria de guerra nuclear constatamos que a possibilidade do acordo iraniano pressupõe que se alcançou uma etapa preliminar. Isso dá-lhe alguma esperança sobre o cenário de se fazer do mundo um lugar mais seguro?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Sou a favor das negociações no Irão, mas são profundamente imperfeitas. Existem dois estados em tumulto no Médio Oriente que fazem agressões, recorrem à violência, atos terrotistas, atos ilegais, constantemente. Ambos têm um grande potencial nuclear. E as armas nucleares deles não estão a ser tomadas em conta.”

Isabelle Kumar, Euronews: A quem se refere concretamente?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Aos Estados Unidos e a Israel, os dois maiores estados nucleares do mundo. Existe uma razão para, nas sondagens internacionais, conduzidas por agências de sondagens norte-americanas, os Estados Unidos serem vistos como a maior ameaça à paz mundial por uma margem impressionante. Nenhum outro país chega sequer perto. De certa forma é interessante que os meios de comunicação norte-americanos tenham recusado publicar isto. Mas é um facto.”

Isabelle Kumar, Euronews: Não tem o presidente Barack Obama em grande conta. Este acordo fá-lo pensar melhor de Obama? O facto de estar a tentar reduzir a ameaça de guerra nuclear?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Na verdade, ele apenas iniciou um programa avultado de modernização do sistema de armamento nuclear dos Estados Unidos, o que significa expandir esse sistema. Essa é uma das razões pela qual o famoso Relógio do Juízo Final, estabelecido pelo Boletim dos Cientistas Atómicos, ficou, há apenas algumas semanas, dois minutos mais próximo da meia-noite. A meia-noite representa a destruição total. É o mais próximo que estamos desse ponto em três décadas, desde os primeiros anos de Reagan, quando existia um medo enorme de guerra.”

Isabelle Kumar, Euronews: Referiu os Estados Unidos e Israel a propósito do Irão. Agora o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu não quer, obviamente, que o acordo nuclear funcione e diz.

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Interessante. Deveríamos perguntar porquê?”

Isabelle Kumar, Euronews: Porquê?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Sabemos porquê. O Irão tem despesas militares bastante baixas, mesmo perante os padrões da região. A doutrina estratégica do Irão é defensiva, concebida para distanciar um ataque o tempo suficiente até ao início da diplomacia. E os Estados Unidos e Israel, os dois estados trapaceiros, não querem tolerar um estorvo. Nenhum analista estratégico com uma função cerebral acredita que o Irão usaria uma arma nuclear. Mesmo que estivesse preparado para tal, o país seria vaporizado e não há indicação de que os clérigos dirigentes queiram ver tudo o que têm destruído.”

Isabelle Kumar, Euronews: Uma última questão, sobre esta matéria, chegou-nos através das redes sociais. Morten A. Andersen pergunta: “Acredita que os Estados Unidos alguma vez chegariam a um acordo que fosse perigoso para Israel desde logo?”

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Os Estados Unidos fazem ações constantes que são perigosas para Israel, bastante sérias. Nomeadamente ao apoiar a política israelita. Nos últimos 40 anos, a maior ameaça a Israel são as próprias políticas. Se retrocedermos 40 anos, até 1970, Israel era um dos países mais respeitados e admirados do mundo. Existiam muitas atitudes favoráveis. Agora é dos países mais temidos e que geram antipatia de todo o mundo. No início dos anos 70 Israel tomou uma decisão. Tinham essa hipótese e decidiram pela expansão em vez da segurança e isso acarreta consequências perigosas. Consequências que eram óbvias na altura. Escrevi sobre isso e outras pessoas também o fizeram. Se se prefere a expansão em vez da segurança, caminha-se para a degeneração interna, raiva, oposição, isolamento e, possivelmente, para a destruição. Ao suportar tais políticas, os Estados Unidos contribuem para as ameaças com que Israel se depara.”

Isabelle Kumar, Euronews: O que me leva ao tema de terrorismo. Porque é verdadeiramente uma mancha global e algumas pessoas dirão que se trata de uma consequência da política dos Estados Unidos em relação ao terrorismo em todo o mundo. Até que ponto os Estados Unidos e respetivos aliados são responsáveis pelo que assistimos neste momento, em termos de ataques terroristas em todo o mundo?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “É preciso lembrar que a pior campanha terrorista em todo o mundo é, de longe, a que está a ser orquestrada em Washington. É a campanha global de assassinatos. Nunca houve uma campanha terrorista a essa escala.”

Isabelle Kumar, Euronews: O que quer dizer quando se refere a campanha global de assassinatos?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “O programa de drones é um exemplo disso. Em muitas partes do mundo, os Estados Unidos estão a conduzir sistematicamente, publicamente, abertamente – não existe segredo algum sobre o que estou a dizer, todos o sabemos – campanhas para assassinar pessoas que o governo do Estados Unidos suspeita tentarem fazer mal a alguém um certo dia. De facto é, como referiu, uma campanha gerada pelo terror. Quando se bombardeia uma aldeia no Iémen e matamos alguém – atingido, ou não, a pessoa visada e também outras pessoas de um determinado bairro – como pensa que reagirão? Irão vingar-se.”

Isabelle Kumar, Euronews: Descreve os Estados Unidos como o estado terrorista conducente. Como é que fica a Europa no meio de tudo isto?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “É uma boa pergunta. Recentemente, por exemplo, realizou-se um estudo. Julgo que foi feito pela Fundação Open Society. A pior foram de tortura é a rendição. Rendição significa capturar uma pessoa sobre a qual temos suspeitas e enviá-la ao ditador favorito, talvez Assad, Khadafi ou Mubarak, para que essa pessoa seja torturada, a troco de se conseguir algum elemento. É uma rendição extraordinária. O estudo fala dos países participantes. Desde logo, naturalmente, as ditaduras do Médio Oriente, porque foi para esses locais que se enviaram pessoas, e, depois, a Europa. Grande parte da Europa participou. Inglaterra, Suécia, outros países. Na verdade, apenas há uma região do mundo em que ninguém participou: a América Latina. A América Latina tornou-se agora mais independente em relação ao controlo dos Estados Unidos. Há relativamente pouco tempo, quando estava sob controlo dos Estados Unidos, era o centro mundial de tortura. Agora não participou na pior forma de tortura, que é a rendição. A Europa participou. Se o mestre ruge, os lacaios encolhem-se.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então a Europa é um lacaio dos Estados Unidos?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Definitivamente. São demasiado cobardes para assumir uma posição independente.”

Isabelle Kumar, Euronews: Onde é que Vladimir Putin se encaixa no meio de tudo isto? É apontado como uma das maiores ameaças à segurança. É verdade?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Como a maioria dos líderes, ele é uma ameaça para o próprio povo. Fez ações ilegais, naturalmente, mas descrevê-lo como um monstro louco que sofre de doença cerebral e tem Alzheimer, além de ser uma criatura maligna, é fanatismo ao estilo orwelliano. Quero dizer, independentemente do que se pensar das políticas que adota, são compreensíveis. A ideia de que a Ucrânia pode integrar uma aliança militar ocidental seria inaceitável para qualquer líder russo. Isto remonta a 1990, quando se deu o colapso da União Soviética. Houve uma questão sobre o que aconteceria à NATO. Gorbachov permitiu à Alemanha unificar-se e integrar a NATO. Foi uma concessão bastante notável com um quid pro quo: que a NATO não se expandisse um milímetro para o leste. Essa foi a frase usada.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então a Rússia foi alvo de provocação?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “O que aconteceu? A NATO moveu-se para a Alemanha do Leste e depois Bill Clinton expandiu a NATO diretamente até às fronteiras da Rússia. Agora, com o novo governo ucraniano, estabelecido depois da queda do anterior, o Parlamento votou por 300 votos contra 8, ou algo assim, a adesão à NATO.”

Isabelle Kumar, Euronews: Mas pode perceber-se porque querem juntar-se à NATO, porque é que o governo de Petro Porochenko olharia para isto, provavelmente, como uma forma de proteger o país?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Não, não, não. Não é proteger o país. A Crimeia foi tomada depois da queda do governo. E isto não é proteger a Ucrânia, é ameaçar a Ucrânia com uma guerra maior. Isso não é proteção. A questão é que se trata de uma ameaça estratégica séria à Rússia, a que qualquer líder russo teria de reagir. Percebe-se bem.”

Isabelle Kumar, Euronews: Se olharmos, no entanto, para a situação na Europa, existe também um outro fenómeno interessante que se está a passar. Estamos a ver a Grécia a mover-se para leste, potencialmente, com o Governo do Syriza. Também estamos ver o Podemos a ganhar poder em Espanha, na Hungria verifica-se o mesmo cenário. Considera que existe um potencial para a Europa começar a alinhar mais em função dos interesses russos?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Repare no que está a acontecer. A Hungria tem uma situação completamente diferente. O Syriza ganhou força na base de uma vaga popular, que disse que a Grécia não se devia sujeitar mais a políticas de Bruxelas e aos bancos alemães, que estão a destruir o país. O efeito destas políticas foi, na verdade, aumentar a dívida da Grécia em relação à produção de riqueza. Provavelmente, metade dos jovens estão no desemprego, 40% da população vive abaixo do limiar da pobreza e Grécia está a ser destruída.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então a dívida deve ser perdoada?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Sim, como aconteceu com a Alemanha. Em 1953, a Europa perdoou grande parte da dívida alemã, de forma a que a Alemanha se pudesse reconstruir dos danos provocados pela guerra.”

Isabelle Kumar, Euronews: E em relação aos outros países europeus?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Deve acontecer o mesmo.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então Portugal e Espanha devem ver a dívida perdoada?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Quem incorreu em dívida? A quem se deve? Em parte, a dívida foi contraída por ditadores. Na Grécia, foi a ditadura fascista, que os Estados Unidos apoiaram, quem contraiu grande parte da dívida. Julgo que a dívida foi mais brutal do que a ditadura brutal, aquilo a que se chama no direito internacional “odiosa dívida”, que tem de ser paga. E trata-se de um princípio introduzido no direito internacional pelos Estados Unidos, quando lhes interessava que assim fosse. Muito do resto da dívida, o que se chama pagamentos à Grécia, consiste, na verdade, em pagamentos aos bancos, alemães e franceses, que decidiram fazer empréstimos extremamente arriscados com juros não muito elevados e que agora estão a ser confrontados com o facto de poderem não ter o dinheiro de volta.”

Isabelle Kumar, Euronews: Gil Gribaudo, um dos nossos seguidores nas redes sociais, pergunta: Como é que a Europa se vai transformar contra as mudanças existenciais com que se depara? Porque se e certo que existe a crise económica também é certo que existe um recrudescimento do nacionalismo, e também descreveu algumas linhas, que falharam, que foram criadas pela Europa fora. Como é que vemos a transformação da própria Europa?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “A Europa tem problemas sérios. Alguns problemas resultam de políticas económicas concebidas pelos burocratas, em Bruxelas, a Comissão Europeia, etc., sob pressão da NATO e dos grandes bancos, principalmente alemães. Estas políticas têm algum sentido do ponto de vista de quem as concebeu. Porque é certo que querem receber de volta o dinheiro que apostaram em empréstimos de risco e investimentos. A outra coisa é que estas políticas estão a provocar a erosão do Estado-providência, que nunca gostaram. Mas o Estado-providência é um dos maiores contributos da Europa para a sociedade moderna. Os ricos e poderosos nunca gostaram disso e o facto de estas políticas estarem a provocar a erosão é bom do ponto de vista dessas pessoas. Existe um outro problema na Europa. É que é extremamente racista. Sempre senti que a Europa é, provavelmente, mais racista do que os Estados Unidos. Não era tão visível na Europa porque a população europeia, no passado, tendia a ser bastante homogénea. Se todos forem loiros e de olhos azuis, não se parecerá racista, mas assim que a população começa a mudar, o racismo começa-se a fazer notar. Muito depressa. E isso é um problema cultural sério na Europa.”

Isabelle Kumar, Euronews: Robert Light, outro dos nossos seguidores nas redes sociais, pergunta: O que lhe dá esperança?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Falámos sobre várias coisas que me fazem ter esperança. A independência da América Latina, por exemplo. Tem um significado histórico. Nos encontros hemisféricos recentes, os Estados Unidos estiveram completamente isolados. É uma mudança radical em relação há 10 ou 20 anos, quando os Estados Unidos dominavam [as questões latino-americanas]. Na verdade, a razão porque Obama teve certos gestos em relação a Cuba foi para tentar superar o isolamento dos Estados Unidos. São os Estados Unidos que estão isolados, não é Cuba. E provavelmente falharão. Veremos. Os sinais de otimismo na Europa são o Syriza e o Podemos. Esperamos assistir, no fim, a um levantamento popular contra as políticas económicas e sociais esmagadoras e destrutivas, que resultam da burocracia e dos bancos. Isso dá esperança. Devia dar.”

Grécia deve assinar acordo energético com a Rússia nos próximos dias


O Governo grego vai assinar um acordo energético com a Rússia, já na próxima semana. A notícia está a ser avançada pela revista alemã Der Spiegel, que cita fontes do Syriza, o partido do primeiro-ministro grego.
A assinatura vai permitir a Atenas receber até 5 mil milhões de euros em pagamentos antecipados, numa altura em que os cofres públicos estão praticamente vazios. 
Em causa, está o gasoduto que a Rússia quer ter pronto até 2019 e que vai permitir ligar o país à Europa. A Grécia pode receber já os futuros benefícios, por ser um dos países por onde vai passar a estrutura.
Entretanto, continua sem chegar a acordo com os credores internacionais. O plano de reformas grego está a ser discutido em Paris, pelo chamado "grupo de Bruxelas", que integra membros da troika. Contudo, os técnicos já avisaram que não estão satisfeitos com a falta de progressos nas negociações.

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Este acordo poderá significar o princípio de uma nova era para a Grécia e o fim do euro, para a Europa. Poderá ser também uma grande oportunidade para Putin se vingar das provocações de que a Rússia está a ser alvo, em relação à Ucrânia.
Se a Grécia também avançar com a concessão à Rússia, que tem manifestado esse interesse, da exploração das enormes jazidas de gás e de petróleo no Mar Egeu e no Mar Jónico, e se parte dos pagamentos respetivos puderem ser antecipados, então e cessação dos pagamentos da dívida grega à troika poderá verificar-se, sem as turbulências que uma bancarrota acarretaria, já que o financiamento para as despesas correntes do Estado grego ficaria assegurado, pela Rússia. A turbulência, com consequências políticas, económicas e sociais imprevisíveis, passaria para os países do euro e para todos os países UE, que ficariam a arder, com o passivo da dívida grega.
Perante um cenário desta dimensão, naturalmente catastrófico, ficaria em causa, devido à teimosia e à chantagem da Alemanha e dos seus indefectíveis aliados, a existência da própria União Europeia.
AC

Agradeço ao João Fráguas o envio desta notícia da SAPO.

sábado, 18 de abril de 2015

A fotografia do sucesso deste governo...


Como é que pode construir-se um país, onde os jovens não têm lugar? 
A tragédia demográfica, que irá ocorrer daqui por vinte anos, é a consequência mais grave desta política suicida. E todos nós somos culpados, por omissão, por desinteresse, por ignorância ou por egoísmo.
Ainda são poucos os que, lucidamente, se encontram empenhados na luta libertadora. Faltas tu!...

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Carlos Carreiras: "Calamidade demográfica do país é prioridade patriótica"


O autarca de Cascais [Carlos Carreiras] considera que, apesar das novidades no campo político relativamente a candidaturas presidenciais, é importante “o país voltar a concentrar-se nos assuntos que realmente importam”.
“Ter ou não ter filhos é uma decisão individual. Mas a calamidade demográfica em que o país se encontra faz desta uma matéria política e uma prioridade patriótica”, escreve o social-democrata no artigo de opinião que assina esta quarta-feira no jornal i, antecipando o “ritmo insustentável de destruição de capital demográfico”, que em 2060 será notado na população: seremos apenas 8,5 milhões de portugueses.

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A demografia é uma bomba relógio, que ameaça o país, a médio e a longo prazo. Até a gente de direita percebe isto, embora apenas alguns se atrevam a dizê-lo na praça pública. Com esta política de severa austeridade - que vai prosseguir por muito tempo, para que, numa manobra financeira complexa, a poupança gerada pelo Estado português vá pagar, não só a dívida pública, contraída junto das instituições da troika, mas, principalmente, a dívida acumulada pelos bancos privados portugueses sobre os bancos privados da Alemanha, e cujos títulos são considerados produtos tóxicos - o êxodo da nova geração, quer a mais qualificada, quer a menos qualificada, vai desequilibrar o quadro demográfico, através da diminuição acentuada e progressiva da taxa da natalidade. É um processo corrosivo e silencioso, que se encontra fora das preocupações da maioria dos portugueses, que, naturalmente, se encontram mais concentrados nas consequências imediatas da crise, com o seu funesto cortejo da perda de rendimentos e com a progressiva falta de resposta dos serviços do Estado Social (Educação, Saúde e Segurança Social).
Quando o número de idosos começar a ultrapassar o número da população ativa, vai entrar-se na época apocalítica da tragédia social. Não haverá dinheiro para pagar as reformas dos jovens atuais, o PIB desacelará em ritmo exponencial, o Estado Social ficará reduzido ao nível da inutilidade, e Portugal descerá ao inferno do Terceiro Mundo. 
E a concretizar-se esta tragédia, no futuro, os responsáveis seremos todos nós, que iremos votar nas eleições legislativas de Outubro deste ano e nas presidenciais de Janeiro do próximo ano.

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NOTA
APROVEITO PARA INFORMAR OS LEITORES DO ALPENDRE DA LUA QUE, ESTE ANO, NÃO VOU FESTEJAR O 25 DE ABRIL DE CRAVO AO PEITO. 
VOU DE LUTO, COM UMA BRAÇADEIRA PRETA NO BRAÇO.
E ISTO, PORQUE O 25 DE ABRIL MORREU E UM OUTRO ABRIL AINDA NÃO NASCEU.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Presidente da Relação de Lisboa ilibado depois de apanhado em escutas a dizer que estava "disponível para tudo"


Em causa está o processo dos vistos gold. Procurador do Supremo Tribunal de Justiça  considera a conversa "normal".
Um juiz recebe uma chamada de um dirigente do Ministério da Justiça - no caso António Figueiredo, presidente do Instituto de Registos e Notariado (IRN) - a quem tinha pedido o favor de lhe explicar como é que se deveria proceder para registar uma criança com um nome mirandês. Depois, fica a saber que António Figueiredo, atualmente em prisão preventiva, desconfia que está a ser investigado e sob escuta da PJ. Supreendido com a notícia, Luis Vaz das Neves, que é presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, reage assim: "Desde já lhe digo e lhe quero manifestar que tudo, mas tudo que o soutor entenda que possa ser útil, porque eu conheço o soutor, estou totalmente disponível para tudo".

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Transversalmente, nas altas esferas do poder, o regime está contaminado, de forma larvar, pela corrupção e pelo nepotismo, e já é impossível corrigi-lo, por via pacífica e consensual. Cada vez mais se impõe uma solução de rutura, que estabeleça uma nova ordem política, orientada para o bem comum. Políticos, banqueiros, juízes e altos funcionários de Estado já atuam em comandita, protegendo-se uns aos outros. Diz-nos a História recente (sec. XX), da América Latina, que, quando as coisas começam assim, têm tendência, tal como uma mancha de óleo, a alargarem-se a algumas classes intermédias da sociedade e a elementos ativos das instituições de forças da Segurança Pública, com estes últimos a organizarem-se em exército secreto, para eliminarem indesejados e perigosos contestatários. Será a lei da selva, com os diversos lobies e cartéis a retalharem e a venderem o país, de acordo com os seus interesses.

domingo, 12 de abril de 2015

A maior mentira da Humanidade



O surgimento da religião justifica-se pela necessidade do homem primitivo tentar encontrar uma explicação plausível para a sua existência e para a existência de tudo aquilo que o rodeava: a Terra, o Céu, o Sol e todos os outros astros. Mas bem depressa, o poder político da classe dominante em cada sociedade se apropriou desse tesouro para se justificar a si próprio, acabando por a institucionalizar. Até hoje. Estado e Religião sempre estiveram unidos no mesmo projeto de domínio político, social e económico, embora tacitamente façam tudo para dar a entender que agem separados.
Na sua matriz, todas as religiões se baseiam nos mesmos princípios e nos mesmos fundamentos, muitos deles herdados das religiões primitivas que surgiram no Médio Oriente, há cerca de cinco e quatro mil anos, embora as que sobreviveram ao desgaste do tempo tivessem de adaptar-se doutrinariamente à evolução civilizacional das sociedades.
A antiga astrologia inspirou as narrativas e as simbologias primitivas da ação das divindades, narrativas e simbologias essas que foram sendo herdadas, com as devidas adaptações, pelas civilizações posteriores. O judaísmo e o Cristianismo não fugiram à regra.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O processo de rapina da União Europeia


Ficheiros secretos: Finlândia admite Grexit através da "aprovação silenciosa de outros países"
Nota secreta foi divulgada esta quinta-feira pela imprensa local. No documento, o ministro das Finanças finlandês já se prepara para a saída da Grécia da zona euro. Antti Rinne alerta para o risco de contágio da crise grega aos outros países no sul da Europa.

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Quando a informação - relativa a questões políticas e económicas, que deveria ser aberta e até pública, porque a democracia assim o exige - circula em ficheiros secretos, é porque já não existe a coragem de assumir a verdade. E a verdade, como se pode ver neste caso da Grécia, é que a União Europeia e a moeda única assentam na mentira, uma mentira que apenas serviu para encobrir um gigantesco processo de rapina, que engordou as economias dos países mais ricos, através do engodo das ajudas comunitárias e, posteriormente, da promoção acelerada do endividamento dos países mais pobres do espaço europeu. As ajudas europeias (com os dinheiros de todos os estados membros, que comparticipavam em sessenta por cento o custo dos projetos) tinham por objetivo promover as exportações dos países mais ricos. Eu dou um exemplo. Todo o alcatrão para a pavimentação das auto-estradas e estradas, de Portugal foi importado da Alemanha. O equipamento pesado para a construção civil também veio da Alemanha, na sua maior parte. Com mais auto-estradas e com as facilidades, intencionais e enganadoras, de acesso ao crédito ao consumo, promoveu-se a importação de mais veículos automóveis, fabricados pela Alemanha e por mais três ou quatro países ricos da Europa. É fácil de ver, com este exemplo, que através deste mecanismo o valor acrescentado ficava na Alemanha e nas economias mais desenvolvidas. Com a dívida dos estados dos países da periferia e a dos seus bancos, o esquema de rapina foi o mesmo. Promoveu-se o endividamento para comprar mercadorias e serviços aos países mais ricos e para arrecadar as elevadas mais-valias com os juros.
Isto é a União Europeia. Uma grande multinacional de negócios, que escapa ao escrutínio dos cidadãos, e que tem em Bruxelas o seu conselho de administração. É evidente que a saída da Grécia da zona euro é o sinal mais evidente da desagregação da UE, na qual só alguns ainda acreditam. Os ingénuos e os oportunistas.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Itália ultrapassa Portugal na rentabilidade anual da dívida


O retorno da dívida obrigacionista italiana a 52 semanas superou a rentabilidade da dívida obrigacionista portuguesa, que liderou na zona euro até final de março.

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Como se pode ver, o mercado das dívidas soberanas é um negócio chorudo para o capital financeiro, que, através, dele obtém um retorno com rentabilidades elevadas, que a economia real não possibilita. Por isso, se construiu um sistema económico-financeiro baseado na dívida rolante, em que, sucessivamente, os Estados contraem mais dívida para pagar as dívidas anteriores. Neste jogo especulativo ganham as grandes potências financeiras e os banqueiros.

terça-feira, 7 de abril de 2015

domingo, 5 de abril de 2015

≡ CARTA DE FERNANDO PESSOA A RONALD DE CARVALHO

Fernando Pessoa, por Almada Negreiros

Lisboa, 24 de Fevereiro de 1914

Meu caro Poeta.

Escrevo-lhe a desoras da Delicadeza. Há meses que o Luís de Montalvor me fez chegar aos olhos o seu Livro. Embora o lesse sem tardança, tenho demorado o agradecimento para além dos limites que se usam. A licença poética não admite tanto. Eu tenho abusado do direito concedido aos camaradas de responder longe de propósito. Começo a minha carta por lhe pedir as desculpas a que este adiamento obriga.
Não sei que lhe diga do seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um Poeta que se encontrasse, se é que um Poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos nos seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. Do poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que a presença das rosas. Para quê os ramos quebrados, ainda, e partido o caule das violetas?
Eu não lhe devia dizer isto, talvez, sem prefaciar que sou o mais severo dos críticos que tem havido. Exijo a todos mais do que eles podem dar. Para que lhes havia eu de exigir o que cabe na competência das suas forças? O poeta é o que sempre excede o que pode fazer.
O seu livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto para que, não me conhecendo, me não julgue posto sobre a severidade sem atenção às belezas do seu livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor faz falar as curvas nuas da sua Matéria. E então é o seu poema sobre o “Cais”, e o seu “Outono”, e este e aquele verso, caído dos deuses como o que é azul no céu nos intervalos da tormenta. Exija de si o que sabe que não poderá fazer. Não é outro o caminho da Beleza.
Eu detalho.
Tenho vivido tantas filosofias e tantas poéticas que me sinto já velho, e isto faz com que me dê o direito de o aconselhar, como Keats a Shelley, que esteja de vez em quando com as asas fechadas. Há um grande prazer estético às vezes em deixar passar sem exprimir uma emoção cuja passagem nos exige palavras. Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade.
Escrevo e paro. Pergunto a mim-próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. Decerto me faça justiça de crer que a quem não tem nenhum valor eu digo imediatamente que tem muito. Só vale a pena notar os erros dos que são na verdade Poetas, daqueles em quem os erros são erros. Para que notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar?
Com tudo isto, que parece hesitante no elogio, repito-lhe que o seu livro é dos mais belos que ultimamente tenho lido. A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os repuxos. Eles são com efeito as melhores horas da água, e decerto que os mais belos são aqueles, em jardins ainda do século dezoito (e que nós nunca poderemos ver) .
A sua sensibilidade dói-me. Por certo que outrora nos encontramos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo o nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirado os brinquedos, porque nós teimávamos que os soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andamos longas horas pela quinta. Como nos tinham tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade — que paga de seda para os nossos sacrifícios! — os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) essa era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e o seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as partidas que lhes fazem, porque são mostras de afeição. Foram belas essas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter essas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel da seda da nossa recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este — o terem-nos embrulhado os brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exatamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonho, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... Éramos duma artificialidade mais divina...
Perdoe-me que lhe escreva assim... A Vida, afinal, vale a pena que se lhe diga isto. Deus escuta-me talvez, mas de si ouve, como todos que escutam. A tragédia foi esta, mas não houve dramaturgo que a escrevesse...
Abraça-o
Fernando Pessoa
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Fonte: PESSOA, Fernando. In “Correspondência (1905-1922)”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p.150. / in "Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa". Lisboa: Ática, 1966. p. 135. /e TRIBUNA da Imprensa, Rio de Janeiro, 12-13 de Fevereiro de 1955, com o título “Carta inédita de Fernando Pessoa a Ronald de Carvalho”. [mantida a grafia original]


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Esta carta de Fernando Pessoa, assume-se como um texto crítico e matricial, em que o grande poeta procura balizar as fronteiras incomensuráveis da Poesia, desenvolvendo conceitos e fixando o cânone do modernismo literário. Respiguei alguma frases, que me pareceram mais significativas e emblemáticas:

"Um Poeta ... é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra".

"O poeta é o que sempre excede o que pode fazer".

"Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade".

 "Pergunto a mim-próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. Decerto me faça justiça de crer que a quem não tem nenhum valor eu digo imediatamente que tem muito. Só vale a pena notar os erros dos que são na verdade Poetas, daqueles em quem os erros são erros. Para que notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar?"

"Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos, e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da Vida..."
AC

Juiz admite ter "atamancado" acórdão por não dominar conceitos e não ter dinheiro para comprar livro


Em vez de falar sobre temas do Direito Administrativo que não domina "de todo", juiz do Tribunal da Relação de Guimarães optou por uma redação que "vai à volta".

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Para nossa sorte, este juiz do Tribunal da Relação de Guimarães teve o azar de deixar uma nota pessoal, num acórdão que redigiu, desabafando - não sei se com a intenção de exprimir um protesto ou se para justificar o seu desleixo - que, "de todo", não dominava os conceitos do Direito Administrativo e que não tinha tempo para ir à biblioteca consultar a jurisprudência nem dinheiro para comprar livros sobre a matéria.
Digo-vos que ia caindo da cadeira! E, depois de dominar o espanto, comecei a interrogar-me se este caso era regra ou se era exceção no nebuloso mundo da justiça, uma justiça que, para ser totalmente independente dos outros poderes do Estado, tem o privilégio de auto-administrar-se. Este estado de leviandade na justiça não será certamente regra, mas também acredito que não seja exceção. E digo isto, porque, recordando os fundamentos de alguns acórdãos, sentenças e decisões judiciais, respigados da imprensa, fui consolidando a ideia de que parte da justiça portuguesa navega ao sabor das circunstâncias e das conveniências (políticas, pessoais ou de grupo). Ainda há dias, num processo de recurso interposto pela defesa de José Sócrates, o juiz relator, em vez de citar os códigos, permitiu-se - não sei se foi por não ter tido tempo de ir à biblioteca consultar a jurisprudência ou se foi por falta de dinheiro para comprar livros de Direito - recorrer com frequência a aforismos populares, do género, "quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem", expediente este que ajavarda a justiça. 
Por último, e em relação ao juiz de Guimarães, resta perguntar como é que ele conseguiu tirar o curso de Direito e ter passado no crivo do Centro de Estudos Judiciários.


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Amigo Alexandre, 
Estou a abrir uma excepção ao escrever isto, porque estou muito longe, mas o teu texto chamou-me a atenção e tive que me servir do IPad, não porque discorde da matéria de facto que está provada (o não conhecimento por parte do relator dp acórdão - que até é bastante honesto ao manifestá-lo), mas sim dando uma achega para explicar estas anomalias que, não sendo culpa dos juízes, são do sistema. Um, juiz de primeira instância vai percorrendo um longo caminho onde se cruza com processos da mais variada natureza. Depois, alguns deles que concorrem para tribunais específicos - trabalho, administrativo, fiscal, cível, crime - ficam por vezes largos anos a julgar apenas processos relacionados com a sua especialidade, perdendo por completo o contacto com as outras vertentes do Direito. São, depois quando concorrem a desembargadores, colocados onde há vaga. E isso é comum. A ilustrar este sistema cretinoide, cego e sem ouvidos, vou desenvolver, a seguir, um dos casos que é do meu conhecimento. Um bom amigo e antigo colega, foi, depois de juiz de primeira instância, colocado num Tribunal do Trabalho, onde chegou alguns anos após, a presidente do mesmo. Isto passou-se ao longo de cerca de 30 anos. Trabalho, trabalho e só trabalho. Quando concorreu a desembargador (o que não queria), foi-lhe destinada uma vaga numa Vara Crime, em Lisboa. Encontrei-o alguns meses depois e, numa conversa de café, manifestou o seu desagrado com o sistema. Disse-me ele: "então eu andei toda a vida a estudar direito do Trabalho e agora tenho que estudar ainda mais porque o Crime é um abismo para mim, os advogados sabem mais que eu e para fundamentar os acórdãos estudo que nem um danado.". Esse amigo hoje conselheiro, foi uma das vítimas do sistema. E, quem pensar que os relatores na Relação e Supremo não trabalham, desiludam-se. Trabalham e muito. Mas, certamente a isso se devem sentenças e acórdãos tão díspares como o de um processo ser tratado de uma forma na 1ª instância, doutra na Relação e de forma completamente diferente no Supremo. Mas, também há realmente alguns juízes incompetentes mas felizmente são poucos, muito poucos, muito menos do que se supõe. Mas há-os.
Joaquim Pereira da Silva

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Amigo Joaquim:
Eu aceito essa perspetiva, que brilhantemente enquadraste. A falta de especialização, ao nível dos magistrados, é uma lacuna grave, que urge colmatar. Já há muito tempo que essa especialização está a ser pedida pelos juristas mais lúcidos, para acabar de vez com a bizarria de ver os juízes a inferiorizarem-se perante os advogados das sociedades de advogados e os dos grandes gabinetes, onde essa especialização já está implantada. Uma reforma do sistema de Justiça deveria começar por aqui. Ganhava-se em eficiência e em tempo. Os juízes adquiririam mais bases para fundamentar as suas decisões jurídicas e seria mais célere a tramitação do processo. Como é que seria a prestação dos cuidados de Saúde, se não houvesse especialização médica? Por isso, estou totalmente de acordo com o teu texto. Eu, na minha curta intervenção, apenas pretendi isolar e fazer sobressair o lado insólito do caso do juiz de Guimarães, para mostrar a degenerescência do sistema. Aliás, no comentário que subscrevi, logo a seguir, eu afirmo: "A degradação é total. Degradação política, económica, social, institucional, de valores (já vivemos na fase do salve-se quem puder)". Foi pelo lado político que enquadrei a questão. Amanhã irei publicar este meu texto no Alpendre da Lua, ao qual acrescentarei o teu, se estiveres de acordo.
Boas férias. Pede o atestado médico aos pilotos dos aviões que utilizares, antes do embarque.
Alexandre de Castro

segunda-feira, 30 de março de 2015

O colapso dos partidos socialistas europeus


Resultado eleitoral em França é "rejeição maciça" para Hollande
O Presidente da conservadora União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, considerou hoje que a vitória do centro-direita nas eleições locais francesas é consequência da "maciça rejeição das políticas do Presidente [François] Hollande".
Notícias ao Minuto

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O colapso dos partidos socialistas europeus

Um a um, os partidos socialistas vão sucumbindo na enxurrada da crise europeia. É a prova evidente que o establishment está a mudar. E é muito possível que mudanças de outra natureza venham a ocorrer com o previsível agravamento da crise europeia. O bipartidarismo de circunstância, que tem regido os países da Europa, está a desagregar-se. Os eleitores começaram a perceber que as políticas de alternância no poder entre socialistas e sociais-democratas e os partidos conservadores eram uma farsa do sistema. A diferença entre os dois blocos políticos era igual à da imagem ao espelho, que levantava o braço esquerdo, quando alguém, do outro lado, levantava o braço direito.
A principal consequência desta mudança estrutural vai refletir-se na fratura e no desequilíbrio do sistema político-partidário, pois deixará de existir a almofada de segurança que permitia manter, sem contestação, as políticas do sistema capitalista, que muito se orgulhava da sua democracia de fachada. 
Agora, a pergunta que se coloca consiste em saber para onde irão os votos do descontentamento. Para a direita e extrema-direita ou para os atuais partidos de esquerda, do antissistema? Ou será que a Europa vai entrar em convulsão, com revoltas populares nos países do sul?

Agradecimento


Agradeço ao António Vicente a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua

sexta-feira, 27 de março de 2015

O desafio de ler Herberto Helder


É preciso preparação para entrar na poesia de Herberto Helder. Caso contrário, é como nos atirarmos à piscina sem saber nadar, diz-nos Luís de Almeida Gomes. Para o alfarrabista, Herberto Helder é mais do que um poeta incontornável: era um amigo e um frequentador habitual da sua livraria. A Artes & Letras -  que há alguns meses deixou o Largo da Misericórdia para se instalar na Av. Elias Garcia – está, aliás, na origem da amizade que os uniu durante décadas. Apesar de Luís reconhecer o lado “discreto e recatado” de Herberto, revela que quando se encontravam, quase sempre na livraria, falavam de tudo. Ainda hoje, de cada vez que lê os poemas de Herberto Helder volta a descobrir coisas novas.

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Para ler Herberto Helder é necessário alguma preparação prévia para compreender a profundidade do seu universo poético. Não basta o traquejo da interpretação da escrita linear, onde as palavras têm um único significado, aquele que elas adquiriram com a evolução natural da língua. A poesia de Herberto Helder exige-nos que consigamos abarcar a terceira dimensão das palavras, quando inseridas em contextos metafóricos, que nos aproximam do abismo dos sentidos. Por isso, tinha de ser uma poesia complexa e densa, uma poesia que, ao lê-la em silêncio, nos levasse a ouvir o som das palavras, sem sequer as pronunciar. É todo um mundo onírico que nos deslumbra e nos eleva para uma realidade superior, até ali inatingível e que não fazia parte do nosso imaginário.
Recuso estabelecer hierarquias de valor literário entre poetas e também entre escritores. O século vinte foi o século de ouro da literatura portuguesa, quer na prosa quer na poesia. Para trás, ficaram as brilhantes prestações de Eça, Camilo, Garrett, Vieira e Camões. Juntando a este friso Aquilino Ribeiro, Pessoa, Saramago e Herberto Helder, julgo que nos encontramos perante a galeria dos Príncipes da Língua Portuguesa, à qual falta acrescentar alguns escritores brasileiros.
Alexandre de Castro

quinta-feira, 26 de março de 2015

Notas do meu rodapé: A quem interessa a prisão de Sócrates?


Eu não ponho as mãos no fogo por José Sócrates. Detetei-lhe algumas contradições nas suas explicações públicas sobre o caso do Freeport e o da sua licenciatura. Acredito que não tenha sido honesto, aproveitando-se do seu elevado cargo para interesses pessoais, e nunca compreendi como lhe era possível sustentar a sua vida luxuosa em Paris. Apesar disto, não me atrevo, nem posso, a declará-lo inocente ou culpado. Fico a aguardar o seu julgamento, que quero justo e isento.
No entanto, também acredito que a sua prisão, que parece estar ferida de várias ilegalidades, está a servir outros ocultos interesses, ligados à luta das sociedades secretas, pela conquista do poder político, mais concretamente a luta titânica e silenciosa entre a Maçonaria e a Opus Dei. Com Sócrates preso, e com o programado e continuado processo da "fuga" intencional de informações do processo, algumas delas a roçar o delírio, o PS poderá sair muito enfraquecido das próximas eleições, diminuindo assim a influência da Maçonaria e aumentando a da Opus Dei. O Papa estará por cá, em 2017, para lançar a sua bênção aos novos governantes.

Henrique Neto "é irrelevante para o PS"


Elementos de PS consideram que Henrique Neto “não conta do ponto de vista político dos cidadãos”.
Henrique Neto é até agora o único candidato às eleições presidenciais de 2016 e, apesar do avanço do socialista ter sido recebido com indiferença pelo PS, a verdade é que a candidatura levantou algum desconforto em elementos do partido por ainda não haver uma figura “ganhadora”.
Notícias ao Minuto

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Os sinais de degenerescência e apagamento do PS são evidentes. À sua incapacidade em assumir um consistente programa político, que o diferencie da direita, soma-se também a ausência de um candidato presidencial de peso, que seja o catalisador do descontentamento popular. 
Num quadro destes, não admira que a direita não veja refletido nas sondagens o seu desgaste político. É que aquela parte do eleitorado do centro, que está descontente com a atual situação, formula esta simples premissa: Se é para fazer uma política de direita, então, por uma questão de coerência, é melhor escolher um partido de direita. Os ortodoxos do Partido Socialista não compreendem isto.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Homenagem a Herberto Helder | Poema de maria azenha


MESTRE SEM MORTE
(a Herberto Helder)

Entre as mãos uma acácia
Moedas de silêncio
O sangue de um compasso
E a terra alva
A altura da sombra
Ocupa o negro da página
Desaba
Um verso secreto
Do palácio
O poema
Foi devorado
Pelos olhos de um falcão

maria azenha
(2015-03-24)

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Uma homenagem merecida de uma grande “poeta” para um grande poeta.
Herberto Helder deixou-nos, mas ficou, para o nosso contínuo deslumbramento, a sua poesia, uma poesia talhada a escopro no corpo denso das palavras e trabalhada por uma talentosa engenharia metafórica. Herberto Helder fez na poesia o que Saramago fez na prosa: engravidou as palavras, que nele tinham uma grande sonoridade e densidade poéticas.
Alexandre de Castro

segunda-feira, 23 de março de 2015

Arqueólogos desenterraram três antigos mosaicos gregos numa escavação em Zeugma, na Turquia


Mosaico representando as nove musas em retratos

Mosaico representando Océsno Tetis

Mosaico representando um jovem, sem nenhuma informação
Ver texto aqui.

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A rota da seda

Aquela milenar rota da seda não deixa de nos surpreender com as sucessivas revelações dos seus tesouros arqueológicos, que são imensos, e com muitos ainda por desvendar. Não admira que assim seja. Foi por aquela rota que, até ao século XVI, quando os portugueses "abriram" o caminho marítimo para o Oriente, que a economia euro-asiática circulava. A rota da seda era o veio da transação de mercadorias entre um Oriente opulento e um Ocidente em franco e rápido desenvolvimento civilizacional, e que teve a sua máxima expressão com o império de Alexandre Magno e o império de Roma. Foram as repúblicas do norte de Itália, com a Sereníssima República de Veneza à cabeça, já na ponta final da Idade Média europeia (sec. XV), as últimas beneficiárias do comércio dessa rota. Esse monopólio (o comércio com o Oriente) transferiu-se para Lisboa, que por sua vez o transferiu para o norte da Europa. Por isso, a liderança do mundo, nesse tempo, passou para Portugal, de uma forma efémera, para a Holanda e para a Inglaterra, de uma forma mais persistente, e para a Espanha, que expandiu o seu domínio para as Américas e que "ergueu", no ponto de vista territorial, o maior império de todos os tempos. Dizia-se que no império de Carlos V - que ia da Europa à Ásia (Filipinas) e passava pelas Américas - "o Sol nunca se punha".
Como podemos ver, nesta visão alargada do tempo histórico, as coisas não são imutáveis. Tal como as pessoas, os impérios nascem, crescem, mas acabam por morrer, facto que não é percetível no curto tempo de uma, duas ou três gerações. E no tempo atual, já há sinais evidentes de uma nova mudança do sentido da História, com o centro da liderança a passar para a Ásia, onde a História, na verdade, começou. A Europa entrou em declínio. Apenas resta saber se esse declínio irá ser mais rápido ou mais lento. Mas nenhum de nós o irá testemunhar.
AC