domingo, 10 de junho de 2018

Uma viagem sombria com retorno




Uma viagem sombria com retorno

Subitamente, vi-me cercado por um grande exército, de figuras anatomicamente estranhas, cujo comandante me ordenou, com uma altiva rispidez, para carregar às costas um pesado saco, cheio de pedras, e, de seguida, entrar num túnel, cujo fim não estava à vista. Visto dali, o túnel era escuro como breu, como são todos os túneis, a não ser os que são iluminados por luz artificial. Mas logo que franqueei a sua grande bocarra, verifiquei que o seu interior tinha uma claridade intensamente vermelha, que me agredia os olhos.

O saco tinha o peso do mundo e as pontas finas das pedras, como se fossem agulhas, espetavam-se nas minhas costas, provocando-me dores alucinantes.

O comandante daquele numeroso exército, de figuras estranhas, talvez já habituado àquela tarefa, antecipou-se aos meus queixumes, e disse-me que eu iria habituar-me àquelas dores e que deixaria de as sentir, quando atravessasse o Grande Lago, com o saco de pedras às costas. Até encontrar o Grande Lago, teria de suportar aquelas dores, concluiu, com a sua voz dura e agreste.

Mas eu não percebia porque estava neste lugar inóspito e insípido, e também não sabia como tinha chegado até ali. E, o mais grave, é que também já não me recordava de onde viera e não consegui perceber quem era eu, afinal, um sinal evidente de que, por qualquer motivo, perdera a memória e a noção do espaço e do tempo. Por mais que tentasse desenterrar a memória, nenhum dos seus fragmentos, resultantes da sua desintegração, eu consegui encontrar. Estava completamente perdido, naquele mundo, agora mais intensamente vermelho e que, também agora, me parecia circular, e, na minha cabeça, reinava a mais completa confusão.

Cheguei derreado ao Grande Lago e, num impulso violento, larguei o fardo, atirando o saco de pedras para o chão. Para me refrescar, não tive tempo de me atirar à água, que ali, naquele mundo estranho, também era da cor do sangue, pois, subitamente, fui atacado por uma forte convulsão, com o corpo e os braços a tremer freneticamente, de uma forma descontrolada.


O meu corpo começou a aquecer e percebi que já estava a contrair um grande febrão, que me queimava os neurónios e as entranhas. Gritei a pedir água. E foi neste momento que vi uma mulher - que, na sua pose e nas suas vestes, se parecia com a mulher de um faraó do Antigo Egipto - a levantar-se de um trono de ouro, com toda a dignidade imperial, e a começar a descer, com um jarro, apoiado na anca, uma grande escadaria de mármore.

Bebi com uma enorme sofreguidão a água que me era oferecida por aquelas mãos delicadas, e foi quando ela começou a acariciar-me os cabelos revoltos, que eu desmaiei, pensando que tinha morrido.

Acordei para a realidade terrena na cama de um hospital, onde, no limite da negra fronteira, me salvaram a vida, exorcizando o fantasma da morte.

Alexandre de Castro
2018 06 07

***«»***

Carta a uma amiga, a quem muito devo.

O optimismo que exprimi na minha última mensagem, a de 26 de Maio, no dia seguinte à realização da biópsia à próstata, não passou de uma efémera manifestação de um fogo-fátuo.

Ao princípio da noite, fui acometido por uma forte convulsão, que se manifestou por fortes e incontroláveis tremores do corpo, com os braços a oscilarem a um ritmo veloz e frenético. Fui para a urgência do Hospital de S. José, onde me trataram, para eliminar o tremor, antes de me internarem no Serviço de Urologia, onde permaneci até o dia de ontem.

Tudo isto resultou de uma infecção, ao nível da próstata, provocada por uma bactéria hospitalar, que se infiltrou no meu corpo, durante realização da biópsia. Teria morrido, se me tivesse atrasado, duas ou três horas, a ser submetido a um tratamento com antibióticos específicos, em doses cavalares.

Com a temperatura corporal a ultrapassar a barreira dos 40º C, delirei durante a noite. Não me lembro nada desses momentos, em que perdi a noção do espaço e do tempo. Disseram-me, na manhã seguinte, os três companheiros, com quem compartilhei a mini enfermaria, que, durante a noite, em pleno delírio, falava com imaginários interlocutores e que nomeei, pelo nome os meus sobrinhos-netos, incluindo o que nasceu recentemente, que tem cinco meses, e que leva o meu nome. Disseram-me também que peguei no meu saco, a fim de fugir do hospital.

No dia seguinte, a confusão na minha cabeça era muita e perdi a memória recente. Quando vinha para o corredor, para ir à casa de banho, perdia-me no caminho de regresso (uns três metros de distância, apenas). Numa das vezes, entrei na mini enfermaria, onde se encontravam quatro mulheres, que começaram a gritar e a tocar todas as campaínhas de alarme, para chamar os enfermeiros e as enfermeiras.

Tenho a consciência que incomodei muito os meus três companheiros de camarata, pois não os deixei dormir sossegadamente, que era o que eles precisavam, pois estavam a recuperar de intervenções cirúrgicas.

Ao quarto dia de internamento, a temperatura regressou à normalidade, o que era imperioso acontecer, para eu poder ter alta e regressar a casa.

Naqueles pensamentos solitários, sobre o meu estado de saúde, alarmava-me com a terrível hipótese de poder perder a capacidade de escrever. Mas a ausência de lesões cerebrais, assumidas por um TAC, entretanto realizado, tranquilizou-me. E, na verdade, este texto, que estou a escrever-te, mostra que a minha capacidade de escrita não foi afectada.

Alexandre de Castro
2018 06 07

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A propósito da morte de Júlio Pomar.



A propósito da morte de Júlio Pomar.

Vão morrendo os ícones da cultura portuguesa contemporânea, que a minha geração "aprendeu" a admirar. Morremos um pouco por cada um deles, que nos deixa, e somos invadidos por um indelével sentimento de "perda" e de "orfandade".

E esse sentimento de "perda" aprofunda-se dramaticamente, quando verificamos que se vai formando, à nossa volta, um assustador vazio cultural, pois eu não vislumbro os sucessores que, mesmo em ruptura com o passado, ao nível dos paradigmas (o que é normal acontecer), assegurem a continuidade da cultura herdada.

E esta fractura cultural profunda talvez se explique pelas rápidas mudanças, a todos os níveis, geradas, para o bem e para o mal, no ventre da globalização e sustentadas pela vertigem das novas tecnologias.

Talvez estejamos em presença da maior revolução da Humanidade, que vai impor um novo modelo para o que, actualmente, entendemos por "cultura".

Alexandre de Castro
2018 05 23

terça-feira, 22 de maio de 2018

António Arnaut: Um homem simples, que deixou uma obra grande...


Foto de Conselho Português para a Paz e Cooperação.


António Arnaut: Um homem simples, 
que deixou uma obra grande...

Deixo aqui, como homenagem, um pequeno texto, que publiquei na minha página do facebook.

"Não fosse a determinação e a coragem de António Arnaut, e, hoje, os portugueses não teriam uma das mais valiosas pérolas de Abril, o Serviço Nacional de Saúde.

Rendo-me à sua verticalidade e honradez, quer como homem, quer como político. Que os actuais militantes do Partido Socialista o tomem como modelo exemplar, para bem de Portugal, aquele Portugal que António Arnaut sonhou e defendeu".

Alexandre de Castro
2018 05 21

sábado, 19 de maio de 2018

Bruno de Carvalho quer ter mais visibilidade pública do que a Rainha de Inglaterra



Bruno de Carvalho quer ter mais visibilidade pública do que a Rainha de Inglaterra


Bruno de Carvalho, que está a ocupar todo o espaço mediático, "masturba-se" intelectualmente, de cada vez que uma figura pública o critica. Atingirá o clímax, quando o Papa ou  Trump ou a Madona falarem dele. Aí, o "Estádio de Alvalade até abana".

O "homem", a quem já só falta o bigodinho e a edição do seu livro, Mein Kampf (A Minha Luta), está a trabalhar a sua imagem de "durão", e tudo fará para que se fale dele, negativamente, para assim poder explorar o estado de graça da "vitimização", junto das massas alienadas sportinguistas, que parece controlar. Quanto mais o perseguirem, mais a aura do homem invencível se agigantará, pensa ele.

Bastaria que a comunicação social, em bloco, boicotasse as suas declarações públicas e não noticiasse as suas iniciativas e os seus movimentos, para que ele optasse, imediatamente, pela sua demissão de Presidente do SPC, já que não poderia entregar-se mais ao seu delirante espectáculo mediático, sendo obrigado a regressar ao estado vegetativo da sua inutilidade primária.

Ele sonha, com outros horizontes, para além do futebol. E Marcelo Rebelo de Sousa que se cuide, pois é muito possível que o tenha à perna, nas próximas eleições, para a Presidência da República. Ele já deu um sinal, como, remotamente, se pode inferir dos remoques enviados para o Palácio de Belém (Ver notícia).

O homem acusa um distúrbio psíquico, que pode detectar-se naquele olhar vago, embaciado e errático, que o caracteriza, o que o poderá enquadrar numa qualquer entidade nosológica da Psiquiatria.

Era importante saber se ele já tem ficha aberta no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos.

Alexandre de Castro
2018 05 18

O regresso ao Sporting...



O regresso ao Sporting...


Na minha juventude, adoptei o Sporting como o meu clube de eleição. Hoje, estou tão distante do futebol, como estou da Lua. Mas, neste momento, de vergonha para este clube e para o país, quero afirmar, num gesto de inteira solidariedade para com os jogadores e o seu treinador, assim como para com toda a equipa técnica, que volto a ser um fervoroso adepto do Sporting Clube de Portugal.
Excluo, evidentemente, desta minha singela homenagem, o actual presidente do clube, que é, no meu entender, o grande culpado de toda esta inédita confusão.

Alexandre de Castro
2018 05 16

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O regresso dos Bárbaros...

Jogador do Sporting Clube de Portugal ferido no ataque de adeptos, em Alcochete


O regresso dos Bárbaros


Na última terça-feira, uma horda de criminosos, a mando de alguém, irrompeu pelo Centro de Treinos do Sporting Clube de Portugal, em Alcochete, e atacou com uma violência inaudita os jogadores e o treinador daquele clube.

Passado algum tempo, o presidente Bruno de Carvalho chegou às instalações, e, interrogado pelos jornalistas, respondeu, com um grande desplante e com uma frieza arrepiante, e cito de memória, “que era chato a agressão aos jogadores, mas que tínhamos de nos habituar a estes crimes”.

Confesso que fiquei siderado com tanta frieza e com tanta  irresponsabilidade.

Eu julgo que o "homem" (Bruno de Carvalho) alimenta ambições, que vão para além do Sporting e do futebol. Procura passar a ideia subliminar de que é um dirigente duro e que até conseguiria endireitar um país, ou até o mundo, se tivesse um mandato para tal. Profere discursos incendiários, a fim de gerar apoios, entre os mais ignorantes, o que é uma técnica tipicamente fascista.

Mas o que é certo, é que ele está a destruir um clube centenário, que é uma referência nacional, mesmo para os que não gostam da bola, o que é o meu caso.

Soube ontem, através de um amigo, que o pequeno "Hitler Verde" fez parte, enquanto jovem, das hordas ruidosas e, pelos vistos, extremamente perigosas, da Juv Leo, onde, possivelmente, teria selado amizades duradouras, que, agora, parecem ser muitos úteis, para a sua estratégia desestabilizadora e conflituosa.

Hitler, enquanto jovem, foi um pintor falhado e, durante a Primeira Guerra Mundial, serviu, como cabo, o exército austríaco. Ninguém podia adivinhar que, daquela insignificante personagem, de média estatura, iria nascer um monstro...

Alexandre de Castro
2018 05 16

terça-feira, 15 de maio de 2018

Onde estão os Direitos Humanos na Palestina?




Onde estão os Direitos Humanos na Palestina?

Na Palestina, não funciona o argumento dos Direitos Humanos, sempre invocado pelos países ocidentais, para desacreditar os movimentos revolucionários e os países com regimes progressistas, não-alinhados com o sistema imperialista/capitalista. O Sionismo começa a copiar os brutais métodos dos antigos carrascos dos judeus, os nazis alemães. Só faltam os campos de concentração e os fornos crematórios, para exterminar os palestinianos.

Não podemos ficar calados com o regresso da barbárie e a ascensão dos novos "hitleres", com ou sem suástica.

Temos de combater, com os nossos meios, o fascismo sionista e apoiar a luta heróica do povo palestiniano.

VIVA A PALESTINA LIVRE E INDEPENDENTE!...

Alexandre de Castro
2018 05 15

domingo, 13 de maio de 2018

Maio 68...



Maio 68...


Foi o Maio da esperança, em França,
delírio épico de uma revolução romântica
a cantar os hinos de todas as rebeldias,
e a fazer crescer o sonho contra o desencanto.
Inspirou Portugal, na Revolução dos Cravos,
que rompeu as trevas numa manhã de Abril.
Era um mundo velho, decrépito, que morria
Era um mundo novo, de sonhos, que nascia…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2018

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Al Berto - Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida




há-de flutuar uma cidade...


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
 
Al Berto

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A falta de médicos no SNS é uma realidade indesmentível




Os três centros de orientação de doentes
urgentes (CODU) estão a funcionar
sem os médicos necessários e não
raras vezes estão a trabalhar com
apenas três, quando deveriam
existir pelo menos seis clínicos.


E nós, por cá, lá vamos cantando e rindo, alimentando aquela vã esperança de que o azar não nos bata à porta... Esta introdução é para os distraídos.

Em situações de emergência médica, um minuto, que seja, pode determinar o destino de uma vida. A nossa, inclusive. Por isso, não podemos deixar-nos embrulhar pelos argumentos "fraudulentos" do governo, nem pela hipocrisia dos partidos da direita, em relação ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), que está a degradar-se, de dia para dia, principalmente no interior do país, onde já se vivem situações dramáticas.

A falta de médicos e de enfermeiros (e foi isto que motivou a actual greve médicos, com uma duração de três dias, e que está a ter um retumbante êxito) é, actualmente, o problema central do nosso sistema de saúde. E sem os meios humanos necessários, nenhum sistema pode ser funcional.

Mas é bom que se perceba por que razão esta situação está a ocorrer, e também por que razão António Costa nunca se pronuncia (ou poucas vezes se pronuncia) sobre o SNS, chutando o ónus dos encargos para o seu ministro da tutela, que, no primeiro dia da greve, em desespero de causa, até afirmou que (pasme-se!), se fosse médico, também teria aderido à greve, afirmação esta que pré-anuncia, a prazo, o fim do seu mandato. Ele irá, certamente, dentro de alguns dias ou semanas, pedir a sua demissão, invocando, como argumento, a falta de condições, para exercer o seu cargo, o que, neste caso, (e só neste caso), o do congelamento da admissão de novos médicos e enfermeiros, é verdadeiro.

A nomeação de um novo ministro da Saúde vai dar a António Costa a oportunidade de tentar travar, por mais uns meses, a contestação dos profissionais da Saúde à sua política em relação ao SNS, ao mesmo tempo que vai alimentando falsas expectativas nos portugueses. 

Não é ainda chegado o momento em que ele possa vir dizer que virou "mais uma página", do livro que anda a ler, um livro que lhe foi aconselhado por Merkel, por Macron e por Junker (tudo boa gente, que só querem a felicidade dos portugueses), e onde consta que Portugal tem um serviço de Saúde acima das suas possibilidades, pelo que, a ter de haver cortes, para equilibrar o défice orçamental, terá de ser neste sistema que eles deverão incidir, recomendação esta que Costa se apressou a sublinhar, (no tal livro que anda a ler), e que Centeno - já com as nádegas bem ajustadas ao assento da cadeira do Presidente do Eurogrupo e talvez já espreitando novas oportunidades de carreira - se prontificou a executar, cativando verbas do Orçamento de Estado em vigor, que já se encontram alocadas ao SNS, e que, assim, ficam em suspenso, dependendo a sua libertação, para execução, do equilíbrio das contas públicas, a meio do segundo semestre do ano. Se o défice, nessa altura, estiver controlado, haverá festa rija, pois, além do êxito financeiro alcançado, haverá um lauto bodo aos pobres, mesmo à beira das eleições legislativas, o que vem mesmo a calhar. Se o défice derrapar, então os hospitais e os centros de saúde têm de se amanhar com os técnicos de saúde, que têm actualmente, e esperar pelo próximo ano. Por sua vez, o dinheiro, que ficou cativo, no actual exercício, será incorporado no abatimento do défice orçamental. Entretanto, quer num caso, como no outro, muitos portugueses vão morrer, por falta de assistência médica atempada, o que será uma situação bem mais grave do que a corrupção de que estão indiciados Sócrates e Pinho, pois uma vida não tem preço no mercado de capitais.

António Costa tem dois problemas graves, que lhe estão a tirar o sono, e ambos com incidência orçamental, e que poderão ter repercussões eleitorais. Um é este, relacionado com o SNS. O outro reporta para os incêndios florestais do próximo Verão, em que um clamor de protestos está a varrer o país, com as várias entidades e instituições ligadas ao sector a pronunciarem-se sobre as graves falhas e carências existentes, ao nível dos meios de ataque aos incêndios, assim como ao nível das estruturas de coordenação. Até parece que é um país inteiro que está a arder.

António Costa, com o caso de José Sócrates e de Manuel Pinho, já perdeu a ambição de conquistar a maioria absoluta, nas próximas eleições legislativas. A canzoada do PSD e do CDS e a imprensa de referência domesticada, que funciona como câmara de ressonância da direita, não vão largar-lhe as canelas, tentando promover o caso ao nível de  uma questão de regime, mas esquecendo os muitos telhados de vidro coleccionados, durante o regabofe do cavaquismo.
 

Se tudo correr mal a António Costa, em relação ao SNS e se os incêndios florestais provocarem outra tragédia, poderá ser o fim da Geringonça e o domínio da direita no aparelho do Estado, o que até agradará aos donos da Europa, que não se coibirão de repetir o jogo das chantagens e das ameaças veladas, antes das próximas eleições. Mas isto, acima de tudo, será uma tragédia para o povo português, pois a direita, além de impor a sua ideologia neoliberal, irá descarregar, sobre os trabalhadores e sobre os reformados, o fel da sua vingança, resultante dos ódios acumulados, durante os últimos quatro anos.

Para que a Geringonça continue a poder viabilizar um outro governo minoritário, do PS, António Costa tem de mudar de agulha e deixar-se de querer fazer joguinhos com o PSD, de Rui Rio, como aconteceu recentemente, ao aceitar discutir com os sociais-democratas um acordo sobre o SNS, quando se sabe que Rui Rio levará debaixo do braço um plano gizado para favorecer a entrada em força dos agentes privados no SNS.

Alexandre de Castro
2018 05 09

terça-feira, 8 de maio de 2018

Como era Portugal antes da Democracia?





Ainda tenho a memória desse tempo sem futuro.
Era o país de Salazar, um campónio doutorado, que odiava o progresso e dele desconfiava, e que, da Cultura, tinha apenas a visão distorcida de um seminarista da província.

Era o país do "Livro Único", onde os portugueses aprendiam a ser "obedientes, pobres, honestos e trabalhadores", e em que se legislava sobre o comprimento das saias das mulheres, que tinham de esconder os joelhos, para evitar os seus perversos efeitos eróticos.

Era o país em que só se deveria "foder", às escuras, embora os portugueses estivessem sempre a ser "fodidos", às claras. (*)

Era o país que até tinha um Portugal dos Pequeninos.

Alexandre de Castro
2018 05 08

(*) Desculpem o calão utilizado, que não é dos meus hábitos, na escrita. Mas, desta vez, tinha de vos escandalizar, tal como, certamente, se escandalizaram com a visualização deste vídeo. E, oxalá, que uma grande crise, que, segundo alguns economistas de renome, vem aí a caminho, não nos ponha novamente a comer, ao pequeno- almoço, caldo de couves e pão com toucinho.

terça-feira, 1 de maio de 2018

O negócio dos corninhos...



O negócio dos corninhos...

Achei muita piada a um texto de opinião de um jornalista, que escreveu: "Afinal, os corninhos de Manuel Pinho eram para todos nós".
Quem deve estar a rebolar-se de riso, é o ex-deputado do PCP, a quem Manuel Pinho dirigiu o insultuoso e obsceno gesto, numa sessão da Assembleia da República.
Mas, a pergunta que se impõe é esta: Quem é o próximo ex-ministro que nos andou a pôr os cornos?

Alexandre de Castro
2018 05 01

domingo, 29 de abril de 2018

Por este andar, ainda virá o dia em que tem de se pagar para trabalhar...


2018 04 29

Simplesmente Mulher...




Simplesmente Mulher...

No Dia Internacional
da Mulher

Até Deus, logo que te viu,
no breve enlevo do paraíso,
te amaldiçoou com o pecado original...
E o Homem, através dos tempos,
impondo o poder que esse Deus lhe deu
nunca te perdoou o encantamento
da bíblica árvore em que se perdeu...

Em nome de Deus, Jeová e Alá,
Moisés, Cristo e Maomé,
cristãos, muçulmanos e judeus,
erguendo aos céus os sagrados livros,
impuseram o silêncio do teu corpo,
riscaram a tua existência, a tua voz...
E a tua vida, separada da tua pujança,
foi apenas uma sombra esquecida...
Benzeram-te com a peçonha
da vergonha
de teres nascido mulher...

E os homens ungiram a tua vagina
para aquecerem a sua volúpia
e dilatarem o teu vigoroso útero,
que pariu a humanidade inteira,
e esquecendo-se, sem remorsos,
da tua dimensão verdadeira...

Eras apenas mãe, esposa ou irmã,
na simples serventia de parideira, vivendo
ao ritmo das mamadas dos teus filhos...
E quando o vento mudava de feição
eras serpente, bruxa e feiticeira,
desgraçada e perdida rameira...
Mulher sem condição...

E tu eras simplesmente Mulher
(e não um objecto qualquer,
escondido na burka, no hábito ou no véu)...
Nem mesmo eras aquela outra Maria
que as asas de um arcanjo cobriu
E que, mesmo chamada virgem, pariu...

Alexandre de Castro

Lisboa, Março de 2005

Registado: IGAC/MC- 5467/2005

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ary dos Santos - As Portas Que Abril Abriu





As Portas Que Abril Abriu

Não posso deixar de emocionar-me até às lágrimas e com um grande nó a atar-me a garganta, ao ouvir a vigorosa voz de Ary dos Santos, a declamar, com força e emoção, o seu grandioso poema, "As Portas Que Abril Abriu", que é o grande poema da Revolução de Abril e, revolução essa, que o povo, com toda a sua criatividade, logo baptizou como a Revolução dos Cravos, tal foi a profusão de cravos que alastrou pelas ruas de Lisboa, como se tratasse de um fenómeno de geração espontânea, e que começaram a engalanar os canos das espingardas e as coberturas dos tanques.

Fica-nos na memória todo o romantismo que esta revolução inspirou à minha geração, que a viveu em profundidade, com muito amor e com muita convicção, alimentando aquela esperança de que, com o derrube do caduco regime fascista, iríamos construir um país novo.

E essa esperança ainda não morreu, nem pode morrer.

[Por motivos de força maior, não poderei estar presente no desfile da avenida, que, por sinal, se chama da Liberdade. Cantem por mim a "Grândola, Vila Morena".

Alexandre de Castro
2018 04 25

25 de Abril _ Não deixemos morrer os cravos!.


Não deixemos morrer os cravos!...

Alexandre de Castro
2018 04 25


sábado, 21 de abril de 2018

O fim da ETA: verdade ou encenação?

Fotografia típica das famosas conferências de imprensa clandestinas da ETA

O fim da ETA: verdade ou encenação?

A ETA emitiu um comunicado onde pede desculpa a algumas vítimas das suas ações que duraram cinco décadas e fizeram mais de 850 mortos. Dissolução do movimento terrorista está prevista para 5 de maio.

Começo a desconfiar da autenticidade desta notícia, que é a segunda vez que aparece na imprensa espanhola. Não sei se não será uma encenação do governo de Madrid, destinada a esbater, de uma forma subliminar, o forte impacto das tendências autonomistas, principalmente a da Catalunha, que cada vez se agiganta mais.

O teor do texto e o seu tom lamechas, a repisar constantemente o arrependimento, a dor causada às famílias das vítimas, as mortes causadas pelos muitos atentados, soa-me a falso, pois há ali a necessidade de dramatizar, até ao limite, o que, por natureza, foi dramático.
.
Por outro lado, os operacionais da ETA, que, por razões de segurança, deveriam ser, à época, em pequeno número, ou já morreram, ou, se não morreram, já têm uma proveta idade, que já não se compadece com este lirismo textual, que até sugere, de uma forma artificiosa e suspeita, que não vale a pena lutar pela independência do País Basco e que é preferível optar por uma solução democrática, pensamento este que não se coaduna muito com o perfil da forte personalidade de quem escolheu, em tempos, a via da luta armada clandestina, em condições muito difíceis, para alcançar o desiderato da independência do País Basco. Trata-se de pessoas que actuaram sob a pressão de convicções muito fortes e inabaláveis, e que, na minha perspectiva, não estou a ver que a elas possam renunciar, desta forma folclórica.

E também me parece folclórica esta forma estranha a desajustada de promover uma conferência de imprensa, em tudo idêntica às dos velhos tempos, e a realizar no próximo dia 5 de Maio, no País Basco francês, e destinada a anunciar solenemente o fim da ETA. É estranho, porque se se tratasse de verdadeiros militantes, bastava-lhes, para apaziguar a sua consciência e o seu sentimento de culpa, a emissão dos comunicados, que já foram divulgados, em que se anunciava o definitivo desmantelamento daquela organização, que pôs de cabeça à roda à polícia secreta do ditador Franco.

Os velhos militantes operacionais recusariam, certamente, tanta teatralização, para anunciar a sua morte política. E será uma teatralização, se, na realidade, como eu suspeito, tudo isto não for uma manobra bem engendrada do governo de Madrid, destinada, pelo efeito de simpatia, a desmoralizar e a denegrir o movimento independentista da Catalunha.

O que os velhos operacionais da ETA querem, neste momento, é que o tempo passe, sem que sejam descobertos e identificados pela polícia espanhola, o que poderia vir a acontecer no território do País Basco francês, pois eles não poderiam vir para a rua, mascarados, tal como iriam apresentar-se, certamente, na dita conferência de imprensa. Seria um grande risco.

Penso, pois, que isto é uma farsa. A ver vamos.

Alexandra de Castro
2018 04 21

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Neurocirurgia do Hospital de S. João: Onze anos a funcionar em contentores.


Contentores do Serviço de Neurocirurgia d0 H. S João


Neurocirurgia do Hospital de S. João: Onze anos a funcionar em contentores

É obra! Esta situação, vivida no Serviço de Neurocirurgia do Hospital de S. João, no Porto, e que é verdadeiramente chocante. É um bom exemplo da capacidade de resposta governativa que os partidos do Bloco Central, coligação esta que, agora, parece estar numa outra gestação, são capazes de dar aos problemas concretos do país real.

Deixemos-nos de ilusões: PS e PSD são farinha do mesmo saco. A diferença apenas está na moagem.

É de estarrecer, quando nos defrontamos com este pedaço de prosa, desta reportagem do PÚBLICO.

"A enfermeira veio chefiar o serviço há dois anos e viu parte do hospital onde trabalhava há 30 anos com novos olhos. "Quando me mostraram as casas de banho, a primeira lembrança que tive foi de um campo de concentração". O dia-a-dia trouxe-lhe outras dificuldades: "No Inverno os familiares têm que trazer cobertores. O frio é imenso e ainda há sítios onde chove, nomeadamente numa enfermaria. Há buracos, frequentes pragas de formigas. As sanitas entopem quase diariamente" e Isabel Dias não pode conter a ironia quando olha para o chão colorido dos corredores, símbolo das reparações mais ou menos antigas do piso. Da última vez que este cedeu, uma enfermeira ficou com o pé preso. "Os profissionais estão exaustos", afirma".

Mas o Costa virou mais uma página. Uma página amarelecida pelo tempo, o tempo de onze anos, e, página essa, que foi "virada a ferros".

Entretanto as crianças com cancro, deste hospital, continuam no corredores, a fazer os tratamentos de quimioterapia. E o Marcelo ainda não apareceu por lá, para os habituais beijinhos e abracinhos. Claro, o homem não pode ir a todas.
Alexandre de Castro
2018 04 19

domingo, 15 de abril de 2018

EUA: Um Presidente, que não faça uma guerra, não é um bom presidente...


Checkpoint Asia

Desde meados da década de sessenta, do século passado, todos os presidentes dos EUA tinham de engrandecer o seu currículo, desencadeando uma guerra. Trump já tem a sua, mas que não passou de uma vitória de Pirro.
Alexandre de Castro
2018 04 15

Milagres, há muitos… Oh, palerma…


Primeira página do Correio da Manhã

Milagres, há muitos… Oh, palerma…

Por enquanto, apenas são sinais anunciadores, dos milagres que hão-de vir, e que serão enviados pela chancelaria divina, mas, como de costume, sem a indicação dos respectivos prazos de validade.
Eu sempre disse que Fátima é a fábrica da cera e dos milagres, dois produtos de elevado valor acrescentado, mas que estão isentos do pagamento do IVA., o que, só por si, já é um autêntico milagre da santa, assim como é, também,   milagre o facto das esmolas dos peregrinos não pagarem aquele imposto. Isto, num país onde a caça aos impostos, ao nível da classe média, é particularmente tenaz e incisiva, não deixando espaço para o cidadão respirar.
Alexandre de Castro
2018 04 15

Rússia: “Tais acções vão ter consequências”




Rússia: “Tais acções vão ter consequências”

Numa primeira reacção, o embaixador russo nos EUA, Anatoly Antonov, publicou um comunicado no Facebook, afirmando que os EUA e os seus aliados sabem "que tais acções terão consequências". E acrescentou: “Insultar o Presidente da Rússia é inaceitável e inadmissível”, além de que os EUA “não têm moral para criticar os outros países”, uma vez que tem um grande arsenal de armas químicas, argumentou.

Os alvos dos bombardeamentos dos EUA já tinham sido evacuados há vários dias, disse à Reuters uma fonte de uma aliança regional que apoia o regime de Assad. “Tivemos um aviso dos russos sobre o ataque e todas as bases militares foram evacuadas há alguns dias”, disse a mesma fonte. “Cerca de 30 mísseis foram disparados no ataque e um terço deles foi interceptado”.
PÚBLICO

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No ponto de vista militar, a operação desencadeada pelos predadores Trump, May e Macron foi um fracasso.

A operação destinava-se mais para consumo interno da opinião pública americana e europeia do que para assustar a Rússia e a Síria, que suportam bem estas arranhadelas.

No entanto, não deixou de ser um grave acto de guerra e uma agressão a um país independente, que o Direito Internacional proíbe e sanciona.

A Carta das Nações Unidas apenas consente o uso da força militar, contra um país soberano, no caso de legítima defesa ou actuando, através de um mandado do Conselho de Segurança da ONU, o que não foi o caso, permitindo assim que possamos considerar delinquentes paranóicos os três dirigentes políticos acima citados, e que, com esta iniciativa criminosa, deslustraram os valores da chamada civilização ocidental, que dizem defender.

Em relação às armas químicas, cito o PÚBLICO:
“A Convenção sobre o Uso de Armas Químicas diz que o Conselho de Segurança pode impor 'medidas' contra quem voltar a usar armas químicas na Síria, mas não autoriza directamente o uso da força. O tratado não tem um mecanismo de imposição que autorize outras partes a atacarem ou a punirem quem o violar”, explica Sofia Olofsson, na revista online Cornell Policy Review".

O crime está provado. E a apatia e a condescendência do secretário geral da ONU também.

Uma nota a preceito:
Parece que, agora, é moda chamar políticos portugueses para cargos internacionais importantes. Pudera!... São os melhores lacaios.
Eu, por mim, continuo a preferir os cães de guarda. São mais fiéis.

Alexandre de Castro
2018 04 15