Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Notações: Palavras cruzadas e filosóficas II por Olímpio Alegre Pinto

O Pensador - Rodin
HIDROPONIA
Sê-lo, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema qualitativalístico!Uma sociedade que se refugia na mediocridade, é como uma cultura hidropónica de nabos, que rejeita agricultor, e sustida apenas por água de auto-esgoto.

HOMEM
O homem é igual a si próprio, e em nada feito à semelhança de Deus, excepto na medida do seu amor pelas crianças e pela Natureza.

PAI E MÃE
Anterior ao Pensamento, existe o Ser, que só tem Deus como seu antecedente.
Entre o Ser e o Pensamento, existe a Vida. E esta... É fruto do Amor entre o Sol e a Água, e gerada no leito da Terra.

VERBORREIC​RACIA
Dizer, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema adverbialístico e
adjectivalístico! Uma sociedade que não utiliza o verbo nem o substantivo, nada faz, tão pouco diz, e é como um teatro bufo, sem peça nem orquestra, mas de ribalta acesa, espectadores ofuscados, e actores palavróticos de mente vazia.

PAPEL
Dinheiro, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema virtuamaterial! Uma sociedade que transforma um mero instrumento de troca num produto, e inventa o juro, nada realmente produz, e é como um mercado de escravos onde só se vende papel ao som cíclico de música fúnebre.

PENTALEMA
Viver... Claríssimo! É importantíssimo! Grave, porém, é o problema atitudinal!
Numa sociedade, só há duas formas conciliáveis de se estar na vida: ou se é filósofo, ou poeta. As três outras, são incompatíveis entre si: ou se é mendigo, ou ladrão, ou assalariado.
(Observação: - Atenção: a assalariação tende assintoticamente para a mendicação, a menos de um infinitésimo.)

ORGASMO
O paroxismo do orgasmo só acontece em duas únicas situações: no êxtase do primeiro encontro, e na agonia do último.

POSTULADO
O Medo e a Esperança são atávico fascínio do homem; a sua exploração, é a primeira regra do mais pérfido e eficaz uso do Poder.

Olímpio Alegre Pinto
*Tíulo da responsabilidade do editor.

Ormie the Pig



Domingo, 18 de Março de 2012

Pintura: A Coluna Partida - Frida Kahlo

"Pinto a minha própria realidade”
Nesta pintura, Frida Kahlo consegue transmitir, com uma forte marca pictórica, a dimensão do sofrimento físico, sofrimento este de que também foi vítima, em consequência de um acidente entre um autocarro e um carro elétrico, que a deixou acamada durante bastante tempo. A imagem torturante do sofrimento é aqui genialmente ampliada até ao limite da capacidade da resistência humana. É uma das pinturas que mais me impressionou, não tanto por uma qualquer exceção de ordem estética, mas pela intensidade da força que a mensagm transmite.

Sábado, 17 de Março de 2012

José Gomes Ferreira: Henrique Gomes "perdeu o braço de ferro com uma grande empresa"


Amabilidade do João Fráguas
*
Se outros casos não existissem, a mexer com a nossa profunda indignação, esta espúria ligação entre o governo e a EDP seria suficiente para demonstrar a incapacidade do atual regime em garantir a sobrevivência do país, pois é disso que se trata, uma vez que vai ser muito difícil, com a prossecução da atual política de promiscuidade, evitar a queda inexorável para o abismo.
O grande capital, sob a liderança do capital financeiro, centralizado nos bancos, conseguiu, através da cumplicidade dos políticos, montar um apertado cerco ao aparelho de Estado, principalmente naqueles setores nevrálgicos, onde se decidem os grandes empreendimentos estratégicos. Quando se fizer a história deste regime, que começou a envolver-se com os grandes interesses privados no tempo do Cavaquismo, chegar-se-á à triste conclusão que os muitos mil milhões de euros, desviados para os grandes capitalistas, contribuíram decisivamente para a situação deficitária do país e para o atual estado do seu endividamento. E a procissão ainda vai no adro. Quando se avaliar a fundo o caso do BPN, das Parcerias Público-Privadas e da maioria dos contratos do Estado com grandes empresas saber-se-á a dimensão do escandaloso esbulho do erário público.

Editorial


O Alpendre da Lua alcançou hoje a barreira mítica das 100.000 visitas, ainda antes de prefazer os seus três anos de existência, que se completam em meados do próximo mês de Maio. A centésima milésima visita, efetuada às 20.34 horas, pertenceu a um leitor da Califórnia, nos Estado Unidos da América.

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Fábulas para as Nações Jovens: O SEGREDO DE ROMA - Fernando Pessoa


O SEGREDO DE ROMA

Quando César chegou tarde ao fim do campo de (…) ergueram rápidos perante ele a cabeça de Pompeu. César abriu em lágrimas, e os que estavam pasmaram. O que erguera a cabeça, baixou-a um pouco; estava atónito, e além d'isso ela pesava, porque ele a erguera a braço largo.
— Assim, que vale uma vitória? perguntou César.
— É certo, respondeu o que o seguia, pois não sabia que dizer.
E César continuou. «Foi meu amigo, meu companheiro, era romano e soldado...»
E depois disse, «Cheguei tarde...»
O companheiro esboçou um gesto sem nada, e César voltou as costas curvas de dor.
«Cheguei tarde» repetiu. «Queria tê-lo eu matado com minhas mãos.»

Moralidade:
Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas os que as choram.
Fernando Pessoa
s.d.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 266.
«Fábulas para as Nações Jovens».

Quarta-feira, 14 de Março de 2012

Foda-se - por Millôr Fernandes


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que e fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e
foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!
Amabilidade do Olímpio Alegre Pinto, que enviou um grande Fod@-se.

Segunda-feira, 12 de Março de 2012

"As leis são feitas exactamente para não ser possível apanhar as pessoas em situação de corrupção..."

Opinião Pública - Corrupção 1.wmv
*
Palavras do fiscalista Tiago Caiado Guerreiro:
«Temos normas que tornam totalmente impossível apanhar um corrupto em Portugal. As normas são feitas exactamente para não ser possível apanhar as pessoas em situação de corrupção e não se conseguir provar em tribunal. Estes casos todos, que estão em tribunal, não vão dar em nada, porque a norma, mesmo que eles fossem filmados no acto de corrupção, seria difícil provar em tribunal com as normas que temos, quanto mais com advogados competentes (do lado dos corruptos).
Por outro lado, temos o Ministério Público que está organizado, e que sem culpa disso, para não conseguir investigar a corrupção, e também uma polícia judiciária que não tem meios para investigar a corrupção. Se juntarmos a isto, tribunais pouco treinados e normas que não funcionam, então isto é o paraíso dos corruptos. Aliás, todos nós conhecemos casos, ao longo do país todo, de fortunas inexplicáveis que continuam inexplicáveis e que apareceram de repente, após o exercício de cargos políticos ou em ligação com o Poder.
? Agora, um conjunto enorme de medidas em vez de normas claras e transparentes sobre o que é que é a corrupção, e isto não é difícil de fazer, é copiar o que existe, por exemplo, nos cinco países menos corruptos do mundo, são normas que são muito transparentes, são normas que, ao contrário do que aqui está previsto, não se aplicam a toda a população portuguesa. Aplicam-se só a detentores de cargos políticos, por isso são muito mais focadas naqueles que têm o risco de praticar a corrupção e permite, por isso, um enfoque muito mais fácil da polícia judiciária, do ministério público, dos tribunais e dos outros órgãos de fiscalização.
Todos nós sabemos que muita gente sai dos cargos públicos, políticos, e depois vai para a frente de grandes empresas e alguns deles criam grandes fortunas, quer dizer, tudo coisas que são inexplicáveis e inaceitáveis em sociedades civilizadas, excepto neste país, onde se pode bater sempre no contribuinte mas tratamos maravilhosamente bem os corruptos? Eu espero que isto não seja mais uma vez o que tem sido feito, que sempre que eles alteram as normas de corrupção, tornam-nas mais incompreensíveis e mais impossíveis de aplicar pelos tribunais e pela investigação.
Nós não temos um combate à corrupção. Temos normas de branqueamento, que é uma coisa diferente. Temos normas que permitem aos corruptos saírem de um julgamento todos praticamente ilibados... Há casos que eu acho terríveis: as parcerias público-privadas são de certeza casos de polícia e o BPN, são dois casos paradigmáticos emPortugal.»
Amabilidade do Olímpio Alegre Pinto

Domingo, 11 de Março de 2012

PORTUGAL, A EUROPA E A CRISE. - Por Augusto J. Monteiro Valente *


PORTUGAL, A EUROPA E A CRISE.

A crise nacional
Portugal enfrenta hoje uma das mais graves crises da sua história, simultaneamente económica, bancária e da dívida soberana. Os primeiros sinais revelaram-se no ano de 2003, e de forma mais crítica e continuada a partir de 2007. Na sua génese esteve a acumulação de desequilíbrios macroeconómicos e de debilidades estruturais, que as crises europeia e global tornaram visíveis em toda a sua extensão.

Nas três décadas decorridas desde o final da transição para a democracia, a economia registou uma contínua regressão tendencial da evolução do PIB, de uma média anual da ordem de 3,3% até 1998 para pouco mais de 1,0% a partir de 1999, com crescimentos negativos em 1983 (-0,2%), 1984 (-1,9%), 1993 (-2,0%), 2003 (-0,9%) e, novamente em dois anos seguidos, 2008 (-0,04 %) e 2009 (-2,5%). Neste extenso período a economia apenas acelerou nos primeiros anos da integração na CEE e da adesão ao euro, tendo-se seguido longas fases de depressão.(1)

A crise estrutural da economia foi primariamente consequência da quebra da produção nos sectores primário e secundário, a que se associaram o crescimento no sector terciário, a expansão da despesa pública, o aumento do consumo e a diminuição da poupança. No final do ano de 2010, Portugal chegou a uma situação insustentável: um défice da balança comercial que era o maior entre todos os Estados-membros da União Europeia; um défice orçamental de cerca de 9 % do PIB; uma dívida púbica da ordem dos 95 % do PIB, e uma dívida externa bruta (pública e privada, sobretudo bancária) que mais do que duplicava a anterior.

O que se passou em Portugal, e em outros países europeus, “era facilmente previsível à luz da mais elementar teoria económica: baixando rapidamente os juros, aumentou como consequência directa e imediata o endividamento dos particulares, das empresas e do Estado, ao mesmo tempo que baixava a poupança interna. Rareando a poupança interna, os bancos foram buscá-la ao exterior, daí resultando o rápido crescimento do endividamento externo”(2). Um número significativo de Portugueses depende do recurso ao endividamento durante mais de metade das suas vidas, e a precariedade tornou-se num modo de sobrevivência.

Em boa verdade, ainda que factores externos a tenham sempre influenciado, as conturbações económicas do pós-25 de Abril foram, no essencial, novas manifestações da multissecular crise nacional que, fundamentalmente, sempre radicou: na debilidade das estruturas e actividades produtivas e na grande intumescência das classes não produtoras; no domínio das oligarquias mercantis, financeiras, rentistas e usurárias sobre os sectores manufactureiros e empresariais; na persistência de uma mentalidade conservadora, avessa à inovação e ao empreendedorismo; na estreita cumplicidade entre os poderes políticos e económicos; na fraca qualificação do factor trabalho e no seu uso predominantemente extensivo. Portugal viveu sistematicamente na dependência do que veio de fora, fosse em matérias primas, fosse em crédito financeiro.

A Revolução de 25 de Abril de 1974 “nasceu acompanhada da vontade de inventar um outro destino para Portugal”(3). Mas depressa regressaram os males do passado. A adesão à CEE/UE foi vista por muitos sobretudo como uma fonte de dinheiro fácil. Sob o primado do eleitoralismo, do negócio, do compadrio, do enriquecimento fácil, do interesse particular e de outros expedientes, projectou-se segundo lógicas casuísticas e de curto prazo, com a cobertura do poder político a investimentos de necessidade, dimensão e legalidade muitas vezes suspeitas. O resultado traduziu-se no desbaratamento de apoios comunitários, num débil crescimento económico, numa evolução anémica da produtividade e numa tendência para o aumento do desemprego, com incidência especial no de longa duração e no desemprego dos jovens.

Os fundos estruturais, em lugar de serem aplicados no desenvolvimento equilibrado do País e na modernização da economia, alimentaram a recuperação do poder das oligarquias bancária e bolsista, a multiplicação de actividades fraudulentas, o consumismo perdulário e o luxo ostentatório. Abandonou-se boa parte da actividade económica tradicional e pouco se investiu na reorganização empresarial e em novas capacidades produtivas, tendo-se privilegiado a governação mercantil sobre a economia real. A prevalência de lógicas centralistas de planeamento, favoreceu paralelamente a desintegração regional e propiciou a desestruturação das relações territoriais, com reflexos no aumento das assimetrias e no abandono do interior em favor das metrópoles. E tudo perante a passividade de uma boa parte dos cidadãos, mais dada à crítica inconsequente do que ao activismo cívico.

Por outro lado, a injustiça na distribuição dos rendimentos conduziu a níveis de desigualdade social dos mais elevados da União Europeia,(4) enquanto simultaneamente se multiplicaram os privilégios de uma minoria da população. Portugal voltou a regredir para índices próprios de um país precário, sendo actualmente o 20 º mais pobre entre os 27 Estados-membros da União Europeia: dívida pública superior a 100% do PIB; PIB per capita de aproximadamente apenas 2/3 da média da União Europeia; taxa de desemprego à volta dos 15%, a terceira mais elevada da zona euro; baixa de rendimentos das pessoas da ordem dos 15%; cerca de 25% da população vivendo no limiar da pobreza, se não mesmo no da sobrevivência.

A crise política acompanhou a económica: o espaço público e a distribuição dos altos cargos da administração foram hegemonizados pelos partidos do centro; o modelo democrático, económico e social criado pelos primeiros constituintes foi sucessivamente descaracterizado; o papel da participação dos cidadãos na vida pública e no exercício dos seus direitos fundamentais foi progressivamente desvalorizado. O resultado reflecte-se hoje no descrédito das instituições democráticas, no divórcio entre os eleitores e os eleitos, na falta de esperança no amanhã e na crise ética e moral que vem corroendo a República. O passado volta a ser presente e ameaça o futuro!

A crise nacional, europeia e global
A gravidade da situação nacional decorre, porém, de ser também parte de uma crise europeia dentro de uma outra de dimensão global, em resultado do efeito de contágio entre economias interdependentes e da ofensiva neoliberal do capitalismo financeiro, perante a fragilidade e descoordenação das instituições europeias. Os Estados tornaram-se os credores de ultimo recurso para salvar o sistema bancário e estimular a economia, endividando-se a níveis insustentáveis. Mas logo que começaram a sair da recessão técnica o alvo dos mercados financeiros internacionais deslocou-se para as dívidas soberanas e para as políticas de austeridade.

O que agora está sobretudo em causa é a reconfiguração das funções dos Estados através da “promoção de processos políticos de construção de mercados em novas áreas da vida social” e a reforma da administração pública de forma a retirar àqueles “responsabilidades directas na gestão dos sectores estratégicos”, gerando o caldo de cultura ideal “para novos avanços privatizadores, promovidos pelos grupos que entretanto ganharam músculo com os anteriores processos”(5). As dívidas soberanas tornaram-se, em suma, um descarado pretexto para a eliminação do Estado Social, transformado em sujeito da crise quando em rigor o não foi. A reintrodução sub-reptícia do inquérito de meios não passa de um expediente concebido para reduzir progressivamente as prestações sociais, e reduzir ao mesmo tempo “o entusiasmo da classe média por serviços sociais agora vistos como benefício só para os muito pobres”, prática que, “embora pareça razoável, ao pretender proteger a maioria fraca da minoria forte e privilegiada, é uma falsidade que atenta contra a democracia social, fundada no princípio de direitos sociais iguais para todos”, e, mesmo, “um princípio não democrático, e potencialmente totalitário”(6).

O passo seguinte será a eliminação pura e simples dos serviços sociais, que passarão a não ser vistos como bens públicos. Paralelamente, a “expansão politicamente suportada das forças do mercado e o aumento das desigualdades e da desestruturação social que esta expansão sempre gera, conjugada com o esvaziamento progressivo do Estado social assente na provisão pública universal, têm levado (...) a um reforço das áreas de actuação do Estado associadas à repressão e à punição, ou seja, à emergência e reforço de um Estado Penal, que é tanto mais importante quanto mais liberal é o modelo de desenvolvimento socio-económico em causa”(7) .

Conclusão
Os factores da crise são, no essencial, os mesmos que há séculos bloqueiam o desenvolvimento nacional e colocam Portugal numa sistemática dependência externa: fragilidades estruturais na economia (baixas qualificações e competências, modelo extensivo do trabalho, deficiente organização empresarial); asfixia das estruturas produtivas pela proeminência dos interesses financeiros, rentistas e usurários; falta de eficiência do Estado enquanto principal regulador económico e social, mais empenhado em defender os interesses das oligarquias dominantes; afastamento dos cidadãos da participação na vida pública; persistente fraqueza da classe média, esmagada pela carga fiscal. A estes factores estruturais somou-se o “fascínio liberal” das últimas décadas pelo primado da concorrência na política económica, “como se tudo se reduzisse ao dilema concorrência ou proteccionismo”(8).

A superação da crise e o “regresso ao futuro”, passam por um novo modelo político e económico. Por um novo modelo político que, articulando o sistema representativo com o participativo e popular, assegure uma democracia de alta intensidade, promova uma melhor proximidade aos cidadãos, restitua a credibilidade às instituições democráticas, retome os fundamentos sociais da economia e garanta uma distribuição mais igualitária de rendimentos. E por um novo modelo de desenvolvimento sustentável, solidário e inclusivo, que reconstitua o valor do trabalho como pilar central da política económica, estimule uma cultura de empresa assente numa diferente relação organizacional e salarial, valorize as capacidades dos trabalhadores e a criação de competências, e aposte na descentralização administrativa, na coesão territorial e nos dinamismos regionais.

A ultrapassagem da crise é também indissociável de uma Europa politicamente mais integrada e económica e socialmente mais solidária, como destino comum dos povos europeus. Mas que esta opção não seja uma via única. Na nova era multipolar que está a emergir, a diversificação de mercados é uma vantagem económica e o multilateralismo um factor de independência.

* Major General, licenciado em História. 

Bibliografia
(1) José Reis, O Tempo dos Regressos ao Futuro: Por um Desenvolvimento Inclusivo, in José Reis e João Rodrigues, “Portugal e a Europa em Crise”, Edição Actual Editora – Julho 2001, p. 16; Maria João Valente Rosas e Paulo Chitas, Portugal: os Números, Ensaios da Fundação. Os valores das variações do PIB foram corrigidos pelos divulgados pelo Banco Mundial.

(2) João Pinto Castro, PIIGS Versus FUKD: Dilemas do Pensamento Económico Provinciano, in José Reis e João Rodrigues, ob. cit., pp. 97-98.
(3) Eduardo Lourenço, Portugal como Destino, in “Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade”, Gradiva – Publicações, Lda, 1999, p. 69.
(4) Segundo um estudo da responsabilidade da Direcção de Emprego, Assuntos Sociais e Inclusão da Comissão Europeia, publicado em Janeiro de 2012, Portugal é o único dos seis países em que as medidas de austeridade prejudicaram mais os mais pobres e menos os mais ricos: os mais pobres perderam 6,1% dos seus rendimentos e os mais ricos perderam 3,9%. Na Grécia há quase um empate, com os mais pobres a perderem 5,9% e os mais ricos 6,1%; na Espanha a relação é de 3,4% para 4%, na Irlanda de 5% para 10,5%, no Reino Unido de 2,5% para 4,2% e na Estónia de 5% para 8,2%. (Público, 14.01.2012, p. 29)
(5) João Rodrigues e Nuno Teles, Portugal e o Neoliberalismo como Intervencionismo de Mercado, in José Reis e João Rodrigues, ob. cit., pp. 36-46.
(6) Tony Judt, “Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos”, Edições 70, Lda, Lisboa, 2010, pp. 144, 161 e 162.
(7) João Rodrigues e Nuno Teles, Portugal e o Neoliberalismo como Intervencionismo de Mercado, in José Reis e João Rodrigues, ob. cit., pp. 45,46.
(8) José Reis, O Tempo dos Regressos ao Futuro: Por um Desenvolvimento Inclusivo, in José Reis e João Rodrigues, ob. cit., p. 21.

Nota do editor: É com muito prazer que aceito, por intermédio do meu amigo, e também colaborador deste blogue, o Diamantino Silva, esta prestigiadada colaboração do general Augusto Monteiro Valente. Neste seu texto, que também vai ser publicado no REFERENCIAL, a revista da Associação 25 de Abril, o autor consegue fazer uma análise bem estruturada e fundamentada da crise nacional e internacional, sem perder de vista aquilo que é endémico na sociedade portuguesa, e que favoreceu o processo degenerativo da nossa coesão económica e social e aquilo que, sem ter sido devidamente avaliado nas suas potenciais consequências negativas, foi importado do exterior, pelo multifacetado processo da  europeização e da globalização.

Agradecimento

O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento ao melovidal e à Maria Malta pela sua decisão de inscreverem-se como amigos/seguidores deste blogue.
A interrupção da edição deste blogue, por motivos de saúde do seu editor, não permitiu que este agradecimento fosse feito em devido tempo.

Domingo, 4 de Março de 2012

Agradecimento

O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento ao José Dias, pela sua decisão de se inscrever como amigo/seguidor deste blogue.

Sábado, 3 de Março de 2012

Notas do meu rodapé: O mal está no Euro...


Desde o 25 de Abril, os défices orçamentais foram sempre negativos.
O saldo orçamental apresentou o seu pico mais negativo em 1981, atingindo 12 por cento do PIB. O outro valor mais negativo ocorreu em 2010, representando 10 por cento do PIB.
A Dívida Pública, que em 1974 representava 14 por cento do PIB, começou também a crescer, plafonando entre os 50 e os 58 por cento do PIB, no período compreendido entre 1985 e 2000, e disparando exponencialmente na primeira década do atual século. Em 2010, o valor da Dívida Pública já era 102 por cento do PIB.
O agravamento do saldo orçamental e da Dívida Publica ocorre, numa correlação significativa, após a adesão ao Euro. Desprovido do poder cambial e do pode monetário sobre a moeda, o que impediu os governos de recorrer à desvalorização, a economia portuguesa perdeu competitividade externa.
A arquitetura do Euro foi desenhada para corresponder às necessidades das economias mais desenvolvidas do Eurogrupo, prejudicando as economias de menor valor acrescentado, como é a economia portuguesa. Eu costumo dizer que o euro é um casaco demasiado grande para o meu corpo.
Nota: Escrevi este pequeno texto, como comentário, para o blogue Ponte Europa. Uma vez que me pareceu muito objetivo e sintético, resolvi transportá-lo para aqui.

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Um Dia Isto Tinha Que Acontecer - por Mia Couto * (Ver Nota)


Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Mia Couto, escritor
Amabilidade da Dalia Faceira
***
*Nota do editor: Este texto deve ser lido sob reserva, pois existem fundamentadas dúvidas sobre a atribuição da sua autoria ao escritor moçambicano, Mia Couto. Enviei um mail à Associação Portuguesa de Escritores, cuja cópia se encontra no espaço dos comentários, a solicitar os seus bons ofícios para obter do próprio escritor o seu testemunho, única forma credível para apurar a verdade.
Agradeço ao João Grazina o oportuno alerta, que está expresso no primeiro comentário deste post, ao mesmo tempo que convido o leitor e embrenhar-se nas labirínticas fontes de informação, nele indicadas, a fim de tentar encontrar a verdade.

Amigos do Facebook ou amigos do onça?

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

"Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o fascismo de volta."- Mikis Theodorakis

***
"Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o fascismo de volta."
No momento em que a Grécia é colocada sob a tutela da Troika, que o Estado reprime as manifestações para tranquilizar os mercados e que a Europa prossegue nos salvamentos financeiros, o compositor Mikis Theodorakis apela aos gregos a combater e alerta os povos da Europa para que, ao ritmo a que as coisas vão, os bancos voltarão a implantar o fascismo no continente.
Entrevistado durante um programa político popular na Grécia, Theodorakis advertiu que, se a Grécia se submeter às exigências dos chamados ".parceiros europeus" será ".o nosso fim quer como povo quer como nação". Acusou o governo de ser apenas uma "formiga" diante desses "parceiros", enquanto o povo o considera "brutal e ofensivo". Se esta política continuar, "não poderemos sobreviver . a única solução é levantarmo-nos e combatermos".
Resistente desde a primeira hora contra a ocupação nazi e fascista, combatente republicano desde a guerra civil e torturado durante o regime dos coronéis, Theodorakis também enviou uma carta aberta aos povos da Europa, publicada em numerosos jornais gregos.
Excertos:
"O nosso combate não é apenas o da Grécia, mas aspira a uma Europa livre, independente e democrática. Não acreditem nos vossos governos quando eles alegam que o vosso dinheiro serve para ajudar a Grécia. (.) Os programas de "salvamento da Grécia" apenas ajudam os bancos estrangeiros, precisamente aqueles que, por intermédio dos políticos e dos governos a seu soldo, impuseram o modelo político que conduziu à actual crise.
Não há outra solução senão substituir o actual modelo económico europeu, concebido para gerar dívidas, e voltar a uma política de estímulo da procura e do desenvolvimento, a um proteccionismo dotado de um controlo drástico das Finanças. Se os Estados não se impuserem aos mercados, estes acabarão por engoli-los, juntamente com a democracia e todas as conquistas da civilização europeia. A democracia nasceu em Atenas, quando Sólon anulou as dívidas dos pobres para com os ricos. Não podemos autorizar hoje os bancos a destruir a democracia europeia, a extorquir as somas gigantescas que eles próprios geraram sob a forma de dívidas.
Não vos pedimos para apoiar a nossa luta por solidariedade, nem porque o nosso território foi o berço de Platão e de Aristóteles, de Péricles e de Protágoras, dos conceitos de democracia, de liberdade e da Europa. (.)
Pedimos-vos que o façam no vosso próprio interesse. Se autorizarem hoje o sacrifício das sociedades grega, irlandesa, portuguesa e espanhola no altar da dívida e dos bancos, em breve chegará a vossa vez. Não podeis prosperar no meio das ruínas das sociedades europeias. Quanto a nós, acordámos tarde mas acordámos. Construamos juntos uma Europa nova, uma Europa democrática, próspera, pacífica, digna da sua história, das suas lutas e do seu espírito. Resistamos ao totalitarismo dos mercados que ameaça desmantelar a Europa transformando-a em Terceiro Mundo, que vira os povos europeus uns contra os outros, que destrói o nosso continente, provocando o regresso do fascismo".
Amabilidade do João Grazina, enviou este texto.

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Anotação do Tempo: Dissertação sobre a morte anunciada…


Dissertação sobre a morte anunciada…

Não quero que morras
antes de eu nascer
talvez um dia
eu possa vir
a morrer
na volúpia
dos teus braços.

Alexandre de Castro

Quem dá aos pobres, empresta a deus...

Imagem retirada do Ponte Europa
... E o padre era pobre!...

Agradecimento


O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento ao ferranho, pela sua decisão de se inscrever como amigo/seguidor deste blogue.

FNAM: O Ministério da Saúde lança ofensiva demagógica e ilegal

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS


O Ministério da Saúde lança ofensiva demagógica e ilegal
nos Centros de Saúde
Recentemente a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) tomou a iniciativa de desencadear medidas em vários agrupamentos de Centros de Saúde em torno daquilo a que chamou expurgar das listas dos médicos de família os utentes que há mais de 3 anos não tenham utilizado os respectivos serviços.
Para os lugares deixados aparentemente em aberto seriam inscritos novos utentes que não dispõem de médico de família.
Não se trata de uma iniciativa inédita, dado que há vários anos iniciativas similares têm vindo a ser pontualmente experimentadas sem que seja possível identificar resultados práticos significativos.
A questão que importa desde já destacar é que uma medida deste tipo é desencadeada de forma autocrática e sem qualquer sustentação técnica, o que implica estarmos perante uma mera atitude mediática de propaganda e cosmética política, por parte desta estrutura de nomeação ministerial.
Há largo tempo que a FNAM vem insistindo na necessidade de ser desenvolvido um programa nacional de registo e gestão dos utentes do SNS, de modo a serem corrigidos múltiplos casos de inscrições simultâneas no mesmo ou em vários Centros de Saúde, óbitos não assinalados, emigrantes, … etc.
Na era da “sociedade da informação e do conhecimento”, a manutenção desta situação de ausência de registos centralizados é já escandalosa.
Perante tais iniciativas da citada ARS e que, não temos dúvidas, serão rapidamente estendidas a nível nacional, a FNAM vem denunciar as seguintes questões:

1. A medida prioritária deveria ser a criação de uma base de dados em torno de um registo nacional dos utentes, o que não permitiria duplicações de inscrições e a não actualização dos óbitos.
Expurgar utentes das listas pela não utilização dos serviços ao fim de 3 anos não tem qualquer justificação.
A lista de utentes tem esta definição bem precisa: tratam-se de listas de utentes e não de doentes.
A resolução desta situação arcaica ao nível da gestão das bases de dados na globalidade dos Centros de Saúde coloca como necessidade inadiável uma intervenção estrutural no sistema de informação.

2. Nesta acção de expurgar os não utilizadores, a citada ARS estabelece que o “expurgado” ficaria afecto ao mesmo médico em cuja lista estava inscrito, podendo a todo o momento activar a sua anterior inserção na respectiva lista quando voltasse a marcar consulta.
Ora, este aspecto é, desde logo, revelador dos reais objectivos desta medida.
Aquilo que está a ser implementado é um aumento ilegal e indiscriminado das listas de utentes dos médicos de família, para daqui a umas semanas o Governo vir dizer que diminuiu em algumas centenas de milhar os cidadãos sem médico de família.

3. São conhecidas as crónicas carências de médicos de família nos Centros de Saúde que nos últimos 2 anos foram substancialmente agravadas com a aposentação prematura de largas centenas de médicos de família em todo o país.
Mesmo com este quadro deficitário agravado, o Ministério da Saúde e as suas ARSs continuam a não abrir concursos para colocar os especialistas mais jovens que continuam a ser preteridos e a estarem em condições contratuais e salariais deploráveis.

4. Simultaneamente, e apesar das recomendações da Troika, que até são tão invocadas pelo Governo para aquilo que lhe convém, continua a ser obstruída de forma deliberada a criação de mais USF (Unidades de Saúde Familiares).

5. A estas acções da ARS LVT importa acrescentar que há cerca de uma semana e meia decidiu impor o aumento ilegal e indiscriminado do número de utentes inscritos nas listas dos médicos de família.
Nesta situação concreta estamos já no domínio da ilegalidade, tendo em conta que o enquadramento laboral dos médicos de família estipula limites máximos para as listas.

Perante as situações denunciadas, a FNAM alerta a opinião pública para a mistificação em curso que está a destruir toda a medicina familiar e o papel central dos Centros de Saúde na promoção da saúde e na prevenção da doença.
Ao contrário do que possa parecer seria instalado o caos nos Centros de Saúde e tornado o acesso aos cuidados de saúde ainda mais limitado.
Quanto às ilegalidades em curso, a FNAM desencadeará todas as medidas judiciais de responsabilização dos nomeados políticos ministeriais

Lisboa, 28/2/2012
A Comissão Executiva da FNAM

Por imposição da Troika, o governo vai emitir um novo cartão.

Imagem retirada do blogue Ponte Europa
O novo cartão não serve para fazer levantamentos nem pagamentos nas caixas Multibanco.

Agradecimento

O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento à Margarida Afonso, pela sua decisão de se inscrever como amiga/seguidora deste blogue.

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Agrdecimento

É uma honra para mim aceitar a inscrição como seguidor do Alpendre da Lua do blogue DEMOCRACIA PARTICIPATIVA, por iniciativa do seu editor António Batista.
DEMOCRACIA PARTICIPATIVA, cuja leitura aconselho, é um blogue de elevada qualidade, cujas publicações abordam com rigor e clarividência temas ligados à política e à economia, sob um prisma que se encontra lapidarmente tipificado na sua legenda: "A DEMOCRACIA EXISTE QUANDO OS INTERESSES DO SEU POVO SÃO DEFENDIDOS E RESPEITADOS".

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Anotação do Tempo: Procurei-te por todo o lado...

Procurei-te por todo o lado...

Procurei-te por todo o lado
pelo Universo inteiro
e não te encontrei
a ausência é dura e áspera
e já dói
como se fosse uma ferida
eu é que ainda não sabia
que já me fazias falta.

Alexandre de Castro
http://ponteeuropa.blogspot.com/2012/02/momento-de-poesia.html

Anotação do Tempo: Dissertação sobre os pontos de fuga…


Dissertação sobre os pontos de fuga…

Não sei se estás mais longe ou mais perto
se te aproximas ou recuas
não sei medir a distância dos afectos
as portas fecharam-se
com as chaves que tu guardaste
e eu, impotente, sem as poder abrir
nas noites de insónia
quebrado pelos solavancos dos sonhos
onde apareces a sorrir
e a jogar no meu tabuleiro de xadrez
ouço as sinfonias dos teus desafios
e afundo-me no passado
atormentado pelo medo
e pelos estilhaços dos meus remorsos.

Alexandre de Castro

Agradecimento


O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento ao Miro, pela sua decisão de se inscrever como amigo/seguidor deste blogue.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Notas do meu rodapé: A falsidade do paradigma neoliberal

O dinheiro à grande e à portuguesa [Inteiro]

Vídeo retirado do blogue Democracia Participativa
*
Um filme incontornável, extremamente didático e apoiado numa argumentação coesa e insofismável. Compreender a composição do dinheiro, que, da sua original função utilitária, como medida de valor e como meio de troca, se transformou numa perversa mercadoria virtual, a sustentar um poder fático totalitário, é essencial para perceber a atual desordem financeira, provocada pela dívida, e a natureza fascista do capitalismo financeiro internacional, que tem como objetivo único, a nível planetário, promover a transferência da riqueza dos países pobres ou menos ricos para os centros financeiros dos países mais ricos, e, em cada país, através de governos cúmplices e servis, transferir os rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital.
Do texto do filme, destaco aquela parte que se refere à natureza do atual paradigma da ordem financeira mundial, que, devido, ao seu exorbitante poder, acaba por ser determinante na formatação do modelo político e económico:
"Eis o poder de alguns paradigmas: O pior efeito de alguns paradigmas é quando um modelo de um comportamento, aparentemente inquestionável nos limita a maneira de pensar e de viver. E de todos os paradigmas que hoje nos formatam o quotidiano, o que está associado ao dinheiro é talvez aquele que mais nos molda e, ao mesmo tempo, aquele que mais nos torna alienados".
E, na realidade, o homem contemporâneo, que se julgava livre, como a democracia exige, transformou-se num escravo, como qualquer totalitarismo impõe. Vive-se um tempo de pensamento único, que até se atreveu a proclamar "o fim da História", como se, para além dele, todas as ideias não concordantes não passassem de afloramentos estéreis de alguns mentecaptos. O paradigma posto em prática a partir do último quartel do século passado transformou-se numa nova religião, endeusando o mercado, o lucro especulativo, o consumo desmedido e o dinheiro. Todas as máquinas de propaganda, que os novos meios técnicos proporcionam, quer direta ou indiretamente, quer objetivamente ou subliminarmente, quer através de uma informação distorcida ou do entretenimento alienante, trabalharam para esse fim, tentando transformar o cidadão num agente passivo, que reagisse pavloviamente aos estímulos, constantemente produzidos.
Mas como o paradigma está errado, o sistema começa a abrir brechas, que os seus engenheiros não conseguem reparar. O sistema está no fim, mas na sua lenta agonia vai arrastar milhões de pessoas para  tragédia. Como ensina a História, dos escombros nascerá uma Nova Ordem. Esperamos que mais justa.

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Óbvio!...



João Proença disse à ‘troika’ que Portugal não é a Grécia e ‘troika’ disse a João Proença que já sabe disso, pois os gregos lutam contra as medidas da ‘troika’.
A ‘troika’ reuniu-se com Seguro e Proença (toma, Poul Thomsen, após 6 horas com estes dois tipos que têm o carisma de uma lata de sangacho de atum, já sabes o que os portugueses sofrem!).

Proença disse que o encontro da UGT e ‘troika’ serviu “para nos ouvirmos mutuamente”, mas não disse que deve ter acabado como as reuniões com o governo e CIP “fazendo o que a ‘troika’ quer“. Proença avisou que “Portugal não é a Grécia“, tendo Thomsen dito que “sei disso, se estivesse reunido com um sindicalista grego, já tinha um tiro no meio da testa!“. Já o líder da CGTP reuniu-se com Miguel Relvas, que o olhava aterrado, como se falasse com o Hannibal Lecter! Relvas tem razão para ter medo, Arménio é muito pior que Carvalho da Silva. Arménio Carlos é homem para abandonar uma Concertação Social, mesmo que esta seja feita num quarto de hotel, sendo a representante da CIP a Helena Coelho e a representante do governo a Luísa Beirão! AM
O Inimigo Público
http://inimigo.publico.pt/Noticia/Detail/1535085

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Carta de um amigo, acompanhada por uma dissertação sobre História - Gertudes da Silva

Amigo Castro

Atrasei-me um pouco, eu sei, na resposta àquela tua mensagem em que me remetias para o teu blogue e a propósito do vídeo que para ti reencaminhei sobre uma hipotética III Guerra Mundial lá para Julho/Agosto deste ano.
Logo de imediato comecei a teclar um comentário ao que tu ali formulavas, para te dar os parabéns e etc. e tal, mas apercebi-me que às tantas, onde é que já ia os espaço razoável para um local como é um blogue.
E então resolvi, e suponho que bem, com um pouco mais de vagar tecer mais algumas desenvolvidas considerações, que a qualidade do teu comentário bem merecia e pedia da parte de quem, não sendo praticante, andou lá pelos caminhos da História.
Fi-lo em jeito de provocação, que tenho a certeza vais tomar no melhor dos sentidos.
E, na passada, vou aproveitar, e vai ser já a seguir, para enviar este meu pequeno(grande de mais, dirás tu) a outros amigos, alguns dos quais até são comuns, e a outros que não o sendo (comuns) são companheiros fieis do 25 de Abril
E um abraço
Diamantino
***
EM JEITO DE PROVOCAÇÃO

Que é como eu gosto: assim, em jeito de provocação. E esta vai direitinha para um amigo com quem falo – é mesmo falo, do verbo falar –, infelizmente, nem tudo são virtudes, quase só através das vias de comunicação da Net.
Esse meu amigo tem um blogue – sim, é rico – para onde ele remete uma ou outra “tolice” que de vez em quando me sai da cabeça e com ele me atrevo a partilhar, trabalho não pago, mas altamente remunerador sempre que ele ali publicamente me identifica como amigo, coisa que muito me honra, como escritor, ora vejam!, coronel reformado e capitão de Abril – e deste último título é que gosto mais –, e até me admira que àqueles não acrescente o de doutor ou de licenciado, por em tempos idos me ter metido na aventura de frequentar com algum sucesso o Curso de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Estão a ver no que dão estas vaidades pessoais. Por causa disso até já me esquecia de vos deixar o endereço do tal blogue do meu amigo, e então aí vai ele, http://alpendredalua.blogspot.com e que se chama Alexandre Castro, um tipo “às esquerdas”, logo verão quando o conhecerem melhor.
E vem tudo isto a propósito – não, disto não me esquecia – de um comentário muito bem desenvolvido e fundamentado que ele lançou no seu blogue acerca de um vídeo que anda por aí no YouTube e mais por onde calha com o intrigante título de “A III Guerra mundial começará em Julho ou Agosto de 2012”, coincidência ou não, no mesmo ano em que uns adventistas e ou apocalipticistas – que agora a coisa ficou outra vez para os milenaristas – que andam por aí a anunciar aos quatro ventos, mais e mais uma vez, que o mundo vai acabar.
Vai acabando, vai, para alguns dos nossos mais queridos amigos, como aconteceu ainda há poucos dias com o grande companheiro Mário Brandão Rodrigues dos Santos (sim, tio do jornalista/escritor José Rodrigues dos Santos), um genuíno capitão de Abril, sempre e até ao fim dos seus dias neste mundo, e a quem quero deixar aqui a minha modesta mas pública homenagem. Acompanhei-o até àquela que dizem ser a última morada que nem por isso é dada de graça, é preciso comprá-la como quase tudo, isto se não quisermos ir para a vala comum de todos os indigentes deste mundo. Como vai acabando para muitos e muitos milhares de seres humanos em cada hora de cada dia por esse mundo fora por muitas e variadas razões – que a morte, de tão envolvida em mistério, carece sempre de uma explicação –, e ainda vá que não vá quando são invocadas razões naturais, não cabendo nestas as resultantes de guerras, as provocadas pelas iníquas desigualdades sociais, nem as calamidades que advêm das criminosas agressões da Natureza levadas a cabo pela ganância dos homens, que tendo aparecido aqui há uns poucos minutos, já se sentem os senhores, se não, até, os criadores e donos do mundo.
Mas, afinal, do que é que eu vinha a falar? Ah!, já sei: do meu amigo Alexandre, o tal que tem um blogue, onde incluiu o tal vídeo sobre uma hipotética 3ª Guerra mundial e acerca do qual teceu um interessantíssimo comentário. E é tal a evidência dos argumentos por ele para ali carreados que, assim, logo à primeira vista, se afiguram absolutamente inatacáveis. Que é o que normalmente acontece quando trazemos para a análise dos factos da actualidade o peso e o “respeito” – alto aí!... – dos acontecimentos passados.
Só que a História, menos ainda que outras disciplinas ditas científicas não se pode vangloriar de intocável objectividade, pelo que todo o cuidado é pouco quando com ela lidamos.
Por isso, e pelo já referido peso argumentativo e de convencimento é que ela é tantas e tantas vezes reescrita, e até virada do avesso, conforme os interesses dos regimes políticos, sempre a lançarem mão de cronistas e historiadores de serviço, não custa nada, o que lá vai lá vai, a história faz-se com base em vestígios e documentos que estão ali, quietos e calados, à espera de quem os estude e faça a sua interpretação, tarefa esta, é preciso disso termos a noção, se nos deixamos ir na onda dos interesses, muito semelhante à hermenêutica de qualquer advogado, que tanto lhe dá para salvar da prisão um inocente indiciado como inocentar o criminoso mais encartado, tudo muito justo, lindo e civilizado, princípio bom, o da presunção da inocência até ao trânsito em julgado, quando o que está em jogo é o montante da maquia, não importando donde vem o dinheiro – como diria a Madre Teresa – e que, se pensarmos um pouco no que vamos vendo por aí, só serve verdadeiramente para os afortunados.
E tudo isto para quê? Pois, no que à história diz respeito, para legitimar o poder emergente ou já instalad; e não nos esqueçamos que o poder – não será tão simples assim, eu sei – é a chave fundamental para a interpretação de quase tudo o que aconteceu e vai acontecendo tanto a nível mundial, como nacional como, até, no interior das nossas próprias casas.
Soa a provocação, não é? E é mesmo. Um exercício, aliás, que pratico mesmo que o meu interlocutor seja um livro ou uma simples folha de jornal. Ainda há dias, sem sequer pensar ainda que viria para aqui “refilar” com o meu amigo, ao ler um pequeno artigo do historiador Paulo Varela Gomes, com o título “Oito e meio” no P2 do “Público” de 4 de Fevereiro, no qual procura apresentar as raízes históricas dos comportamentos e idiossincrasias de alguns povos mais nossos conhecidos, como obedecendo a um impulso, logo escrevinhei na margem da folha do dito jornal o seguinte comentário, que também serve para aquilo de que venho aqui falando: «Percebe-se bem onde quer chegar. Mas, no que respeita aos argumentos históricos utilizados, deixa ficar muitas dúvidas», o que não tem mal nenhum, pois para o conhecimento só as dúvidas é que são frutuosas.
E era isto, mais ou menos, o que queria dizer ao meu amigo Alexandre. Em jeito de provocação, como logo no início avisei. Quem me conhece sabe bem que tenho uma intrínseca tendência para me pôr no lugar “do contra” ou, se quiserem, de fazer de advogado do diabo.
A história, suponho eu, não nos ensina. A história, quando muito, e aí já faz mais que Deus, dá-nos umas dicas e uma ou outra orientação, e só por isso já é uma grande ajuda. Nem nos permite fazer prognósticos para o futuro. Razão tinha o mestre João Pinto quando afirmava com toda a convicção que, prognósticos, só no final do jogo.
Mas nada disto diminui a sua importância. E nas suas fraquezas não está sozinha. Veja-se o que se passa com outras ciências tidas por bem mais exactas, mas, porque humanas, como é o caso da economia, mesmo socorrendo-se em maior medida das matemáticas, traça cenários e faz previsões para, logo a seguir, entrar num corrupio de revisões, em alta, em baixa, conforme calha ou dá mais jeito a quem fez a encomenda do serviço.
Dicas e orientações que, mesmo assim, devem ser aproveitadas, delas sabendo tirar o devido partido os sábios e os verdadeiros lideres – dos falsos está cheia não o inferno mas a União Europeia –, ao contrário dos néscios que põem os destinos do mundo nas mãos de cientistas e de tecnocratas seus apaniguados, esquecendo-se, ou não sabendo mesmo, que os verdadeiros agentes e motores da história continuam a ser os povos que habitam, labutam, gozam, sofrem e morrem neste lindo planeta azul, que é assim que a ele se referem os que já tiveram a fortuna de o poderem observar longe de todos os ruídos e demais poluições de todo o género, lá das siderais alturas.
E para provocação, hoje suponho que já basta.

Viseu, 09/02/12

Gertrudes da Silva
***
Obrigado, amigo Diamantino, pelo elogio, e também pela provocação, que eu entendo mais como uma brilhante dissertação sobre a falibilidade da interpretação dos factos históricos, que, quando se repetem, ou são uma tragédia ou uma comédia.
Um abraço
Alexandre

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

NOVO CARRO ELÉCTRICO PORTUGUÊS - Reportagem sobre o VEP da Escola Superior de Tecnologia de Viseu

Vídeo da TVI, enviado pelo João Fráguas.
***
Nas universidades portuguesas, os investigadores, cada vez mais, descobrem soluções inovadoras nos mais diversos campos das ciências e das tecnologias. Os empresários e os industriais portugueses, avessos ao risco e canhestros no empreendedorismo, de que tanto se fala, não pegam nas ideias. Preferem investir o seu dinheiro nas atividades de lucro fácil, imediato e garantido. Não tenho qualquer dúvida que aqueles jovens estudantes de Viseu, que conceberam um eficiente motor elétrico para automóveis, irão vender o seu talento e o seu trabalho a um país mais avançado, que saiba aproveitar as suas elevadas competências técnicas e desevolver o seu projeto, potencialmente exequível, no plano industrial, e garantindo, a nível económico, um grande valor acrescentado. E andam-nos a vender a ideia de que Portugal vai no bom caminho, quando se perdem, impunemente, oportunidades destas!

Imaginando o futuro em 1954

*
Acertaram quase em tudo. No entanto, enganaram-se no formato dos botões dos televisores do futuro, na máqina de lavar a louça, sem água e sabão, e, acima de tudo, esqueceram-se do computador Magalhães.

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

O Latim também é uma língua traiçoeira!...


'ADEMUS AD MONTEM FODERE PUTAS
CUM PORRIBUS NOSTRUS'

Tradução:
'VAMOS À MONTANHA PLANTAR BATATAS
COM AS NOSSAS ENXADAS'

Mulher-pêra desfilou completamente nua

Suéllen Rocha desfilou em São Paulo -DN
Não usou plumas, nem máscara, nem sequer um fio dental: a brasileira Suéllen Rocha, conhecida como a Mulher-Pêra, desfilou na primeira noite de Carnaval em São Paulo apenas com o corpo pintado e uma fina corrente de ouro na cintura.
O próximo passo vai ser ver o seu nome no Guiness como a "menor fantasia" de sempre: "Vai ser uma glória", comentou ao site do Globo a modelo e cantora de 25 anos que foi convidada a desfilar no sambódromo pelo estilista Denis Moraes, que concebeu o "fato".
Suéllen Rocha desfilou com a escola Águia de Ouro. "Primeiro fiquei um pouco receosa de sair assim, sem nada. Depois eu pensei no assunto e achei muito legal. Agora estou adorando. Dançar com roupa machuca, às vezes aperta." E conclui: "Eu adoro dançar pelada. Estou linda, leve e solta."
Diário de Notícias
***&***
Eu apenas quero comer a pêra...

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

Notações: Palavras cruzadas e filosóficas* - por Olímpio Alegre Pinto

O Pensador -Rodin
ESPECTRAL.
Olhar, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema luciferístico! Uma sociedade sem Visão, é como um planeta sem Sol.

CONEXIONALIDADE
Ler, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema relacionalístico! Uma sociedade que apenas lê, é como um neurónio sem sinapses.

PANEGÍRICO
Pode ser defeito, admite-se, mas ele é diferente - tem uma mania: nunca "tece elogios"! - Constata factos, aprecia atitudes, acções e palavras, e, sobre eles, pode, querendo, emitir uma opinião.

Res, non verba!
Cantar, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema operacional! Uma sociedade só de cantadores, é como uma ópera sem música nem maestro.

Correspondencionalidade fonologística
Escrever, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema da correspondencionalidade fonologística! - VÃO haver acordes sucessivelmente sucessives para a implementação prospetiva da adequada substitucionalidade adequística nos termes e verbes tais come: caxa por caixa; baxa por baixa; òtubro por Outubro; òvistes por ouviste; gànhô por ganhou; pòpô por poupou; veija por veja; cereija por cereja; inveija por inveja... ... òseija: é assim! Prontos!! - "èsstamoss pènètrãndo nàss tèrrass inòsspitass do pòrtchuguêss vèrnàculìsstico, ondi jàmàiss à mão do Càmõess pôsso pé!

demo
Democracia, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema pastoral! Uma sociedade "democrática" é como um rebanho sem cão nem pastor, ludibriado por uma alcateia cúpida e verborreica de tosquiadores.
(Pergunta inocente do editor: Quem escolhe o pastor e adestra o cão?)

Circo
Política, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema político! Uma sociedade sem "políticos", é como um circo sem palhaços!

Erótico
Sexo, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema erótico! Uma sociedade sem êros, é como um reprodutor sem tesão!

Cacofonias
Falar, é importantíssimo! Grave, porém, é o problema do silêncio! Uma sociedade sem silêncios é como um jardim zoológico só com papagaios!

ABSOLUTO
Ele respondeu:
É! É assim!... Há pessoas diferentes!
Para alguns, muito poucos, a totalidade não chega… só o absoluto importa! São estes, os “apaixonados intensos”, perfeccionistas de clara mente, insatisfeitos, idealistas, visionários, utópicos, arrebatados,
extremados, indómitos, sofredores que sofrem e fazem sofrer, que se aprazem e que dão prazer, orgásmicos no Coração e no Pensamento, que não vivem na Terra, nem sequer no Firmamento, que podem matar, mas primeiro morrer… são estes, são os primeiros, são só estes… que, à mediocridade, importa abater!
- Anátema original!

VOLÚPIA
Só o exercício da Desobediência é tão inebriante quanto o exercício do Poder.

"Escrito na pedra" - (transcrição)
"Há épocas de tal corrupção, que, durante elas, talvez só o excesso do fanatismo possa, no meio da imoralidade triunfante, servir de escudo à nobreza e à dignidade das almas rijamente temperadas."
Alexandre Herculano
(1810-1877)

Olímpio Alegre Pinto
* Tíulo da responsabilidade do editor.

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Opinião: A trapeira do Job - por António Barreiros, advogado

Mário Soares a assinar a adesão de Portugal à CEE
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente. Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro. Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana". E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar. Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas. Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça. Foram anos em que o Campo se tornou num imenso ressort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro. O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado. O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio. Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba. Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos. A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir. Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais, claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo, e já leu o New Yorker? A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende. Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado. Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermos-nos ao dinheiro, enforcarmos-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra. Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós. Estamos nisto. Este fim-de-semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa. ( Ainda não foi desta! ) Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
António Barreiros, advogado
Amabilidade do João Fráguas, que enviou este texto.
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Este é o outro lado da crise. Ou melhor, o seu dramático complemento, inserido, ao nível das mentalidades e dos comportamentos, num contexto sociológico e psicológico complexo. Durante trinta anos, a sociedade portuguesa viveu a sublimar recalcamentos antigos, que a pobreza e o subdesenvolvimento engendraram. Tudo parecia demasiadamente fácil. E foi! Só que não houve o bom senso de perceber que ninguém dá nada de graça a ninguém. Tudo se paga, excepto o ar que se respira e o sol que nos aquece. Ainda me lembro, quando da adesão formal à então CEE, da euforia da corrida à compra das chapas das matrículas para os automóveis, com as doze estrelinhas amarelas em círculo, que só eram exigidas para os veículos novos, comportamento anedótico a marcar a nossa proverbial pacovice saloia.  E de um momento para outro acordámos, incrédulos, com um enorme pesadelo. À depressão coletiva, que a medicina caseira não conseguiu curar, poderá seguir-se a loucura esquizofrénica, pois o tratamento com doses cavalares, administradas pela troika, está a produzir efeitos contrários aos anunciados. Oxalá que a loucura não resvale para o suicídio.

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

o meu gineceu - por Cristina Ruivo


Almada Negreiros
Vivi uma infância matriarcal, acalentada não só pelas minhas avós, como por outras mulheres da família cuja ternura e dedicação eram, sem qualquer distinção, igualmente de segundas-mães. Tornei-me mulher. Uma (ainda pequenina) mulher amadurecida ao sol de cada personalidade, de cada vontade e credo, por cada uma daquelas cinco vidas.
A primeira a falecer não me surpreendeu dada a condição de saúde. Despedi-me dela, semanas antes, com fortes apertos nas já muito frágeis mãos. Lembro-me de, ao sair da salinha, voltar-me para fixar o seu rosto. Um rosto que não o dela. Fui de férias. Morreu-me a 600 Km.
Há uns meses voltei a perder uma dessas mulheres. Dessa vez, sussurrou-me um aviso que fingi não ter percebido bem. Apesar de tudo, despedi-me, no hospital, com um soluçado "Até já!" que golpeou-me o peito semanas a fio. As manhãs na praia, as suas amigas na esplanadas, o corneto de chocolate, o cheiro da praça, o Senhor das Chagas, o pão do Gá, a sopa de peixe, "a minha menina". Faz-me falta aquela Sesimbra.
O primeiro dia de 2012 chegou marcado por mais uma perda no meu gineceu. Depois de uma noite pouco dormida e com uma dor de estômago herdada do excesso de comida e álcool, deparei-me com a morte daquela a quem não me cheguei a despedir. Confesso, era uma mulher de uma bravura tão peculiar que sempre a julguei imortal. Vê-la imóvel e transparente numa enregelada capelinha, afligiu-me bastante.
Só ontem entrei no seu luto e percebi que poderei não ter oportunidade para me despedir das velhinhas que me restam. Por que razão sentirei tamanha necessidade em fixar um último momento e dizer-lhes um derradeiro adeus?
Temo bastante que estas mortes tenham sido um estágio, um alerta, para a possibilidade da perda das minhas avós biológicas.