terça-feira, 21 de maio de 2019

Dissertação sobre o Big Bang…





Dissertação sobre o Big Bang…


E naquele momento zero em que tudo começou,
no primeiro segundo cósmico,
surgido a partir do Nada
a energia, concentrada e tensa, explodiu
fazendo saltar matéria incandescente a alta velocidade
para formar estrelas, cometas, planetas e galáxias
a ensaiar uma louca dança orbital
e a obedecer com precisão infinita
à lei da gravitação universal.
Newton ainda estava a muitos anos-luz de distância
na escala temporal, até uma maçã o despertar.
Galileu leu todos os sinais dos céus,
observou, fez experiências, analisou e calculou
e tudo ficou mais claro e transparente
para um cabal e definitivo entendimento.
Nem o Papa, que o mandou calar,
nem a sentença da Sagrada Inquisição
estancou aquele pensamento perverso
de ser a Terra continuamente a rodar
e de nunca ter sido o centro do Universo
desmentindo assim as verdades divinas
vertidas pela Fé nas Escrituras
e o Mundo continuou a girar, a girar,
rasgando segredos e descobrindo infinitos
com estrelas ainda a nascer
e outras a desaparecer, em lenta agonia cósmica
até um buraco negro as devorar
como se tudo se reduzisse a uma liminar equação
entre energia e matéria, na sua matemática relação
e que Einstein revolucionariamente resolveu.
Mas há ainda uma outra lei desconhecida,
a do ciclo e do contra-ciclo, marcada pelo tempo,
com o Universo a inverter-se e a matéria a contrair-se
quando  a energia se esgotar e o espaço terminar,
deixando de se dilatar
aparecendo, então, uma força descomunal
a esmagar galáxias, estrelas, cometas e planetas
(fulminando a Humanidade, se ela ainda existir)
até a matéria se dissolver
e a energia regressar ao ponto inicial
para um outro Big Bang começar…

Alexandre de Castro

Lisboa, Dezembro de 2008

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dissertação sobre a ode à liberdade…




Dissertação sobre a ode à liberdade…


A todos os tarrafalistas
e aos que tombaram pela liberdade


Já só tenho muros à minha volta
grades nas janelas sem vidraças
para que as palavras arrefeçam lentamente
escrevo nas paredes
os nomes e os símbolos
daquilo em que acredito
e já não tenho medo do carcereiro
nem do degredo
levo as mãos para as algemas
e olhos e alma para chorar
mas serei amanhã um homem livre…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2007

sábado, 6 de abril de 2019

Brenda Fassie, a "Madona dos municípios"




Brenda Fassie, a "Madona dos municípios"


A "poeta" Maria Gomes homenageou, no Google+, Brenda Fassie, a cantora negra sul-africana, a quem a revista Time chamou a "Madona dos municípios", e que morreu precocemente em Maio de 2004. Era a voz dos marginalizados, escreve a "poeta", no seu texto. Era a voz da negritude, acrescentarei eu, num país que viveu a humilhação e o horror do apartheid.
Deixo aqui, a acompanhar o vídeo da malograda cantora, na sua interpretação de "Meneza", o texto e o belíssimo poema, que a "poeta" Maria Gomes lhe dedicou.
Alexandre de Castro

///

"A Madonna dos municípios" foi Brenda Fassie, cantora pop sul-africana. A sua voz foi a voz dos marginalizados do apartheid.
A sua voz leva-me aos difíceis anos 90, anos de guerra. Ressoava noite adentro, vindo algures das redondezas da minha casa... e eu ficava, muito quieta, entregue àqueles acordes e à noite, sentindo um
renascer da esperança. Brenda foi, também para mim, a luz da noite escura. 

Ainda é.
"A Madonna dos municípios" morreu aos 39 anos em Joanesburgo, a 9 de Maio de 2004, com uma overdose de cocaína. Seu colapso e consequente internamento no hospital Sunninghill foi notícia de primeira página na imprensa sul-africana. Nelson Mandela e Thabo Mbeki visitaram-na no hospital.

Poema

Imorredoura voz, mãe da serenidade aflorando
do abraço infinito em que regresso,
haverá um país talhado na cartografia do amor?
Ó fogo que arde, ó flor do tumulto,
dai-me uma ave imaginária, uma paisagem real,
para que eu viva um caudal de enlevo
e erga as cinzas do poema na obstinação e na candura.

__________mariagomes

//
2019 04 06

domingo, 24 de março de 2019

A "decapitação" de Theresa May




A "decapitação" de Theresa May

Se Theresa May - uma política que me convenceu, embora eu me encontre nos antípodas da sua linha ideológica - for "decapitada" pelos deputados do seu próprio partido, o Reino Unido, com o tempo, passará a ser uma colónia da Alemanha, como já o são Portugal e a Grécia. Não colónias do tipo clássico, como o foram as colónias africanas do passado, mas colónias em que a dominação é ocultada pela acção política e financeira da UE, e que o cidadão comum não percebe. Deste modo, com a UE e também com a instituição do Euro (à qual o Reino Unido ainda não aderiu), a Alemanha, paulatinamente, está a marcar pontos, para obter o ambicionado estatuto de grande potência mundial. Está a conseguir aquilo que não conseguiu com as duas guerras mundiais, que desencadeou no século XX, e que, como consequência, ditaram o declínio da Europa.

Theresa May, apesar de não ser favorável ao Brexit, assumiu, como ponto de honra, obedecer ao resultado do referendo, que lhe foi adverso, e tudo fez para que o Reino Unido saísse do campo armadilhado da UE. Esta coerência e esta honestidade, que é rara no mundo da política, têm de lhe ser reconhecidas.

Alexandre de Castro
2019 03 24

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Poema onde cabe o silêncio...


Poema onde cabe o silêncio…

Falas-me todos os dias
naqueles teus silêncios mudos
em que és a excelsa  esfinge
e a inefável  musa…
Falas-me com os teus olhos líquidos
pousados na minha sombra
para eu ouvir o eco do teu corpo
e eu sinto o aperto do teu abraço
a envolver o mundo,
e mergulho no teu sono
onde estão guardadas todas as tuas jóias…
Caminho pelos trilhos da escuridão
entre mundos que se repetem e se consomem
na voracidade do tempo…

Jamais me encontrarei comigo próprio…
Sou a raiz viva de uma árvore morta…

Alexandre de Castro

Lisboa, Junho de 2016

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Um país que envelhece é um país que empobrece


Um país que envelhece é um país que empobrece

As perspectivas demográficas, para Portugal, não são animadoras. Até 2080, Portugal perderá 2,6 milhões de habitantes e o número de jovens diminuirá de 1,4 milhões para 900.000, revelou o INE, em Junho passado, ao mesmo tempo que informou que o número de idosos deverá aumentar de 2,2 milhões para 2,8 milhões. “No futuro, mantém-se o declínio populacional e o agravamento do envelhecimento demográfico”, antevê o INE.
Perante estas projecções, no final do século, Portugal será um país de velhos. E um país que envelhece é um país que empobrece. E eu não vejo os nossos políticos, os dos partidos do arco do poder (PS, PSD e CDS), a encararem de frente este grave problema, preocupados que estão, a fim de politicamente sobreviverem, em aplicar apenas políticas de curto e médio prazo, muitas delas viciadas com o traiçoeiro e enganador eleitoralismo.
Em vez de construir, estamos, por antecipação e por inércia, a destruir o Portugal do futuro, assumindo por inteiro aquele adágio “quem cá fica que se amanhe”.

Alexandre de Castro
2019 02 20

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Último Testemunho de Unamuno...



Último Testemunho de Unamuno...

Tal como Pablo Neruda morreu dias depois do golpe de Pinochet, também Miguel Unamuno não sobreviveu por muito tempo ao golpe de Franco.

Morreu amargurado ao ver a sua Espanha dominada pela barbárie fascista e suportou desassombradamente todos os enxovalhos e insultos a que o submeteram as autoridades franquistas, logo no início da Guerra Civil, destacando-se o célebre episódio ocorrido na sessão solene da abertura do ano académico da Universidade de Salamanca, de que era reitor, onde o grosseiro general franquista Millán Astray, que presidia, lançou o animalesco grito "Muera la inteligência".

E foi com este mesmo bárbaro grito que os assassinos de Garcia Lorca comemoraram com uma bebida, num bar de Granada, a perpetração do seu hediondo crime.

Unamuno foi um dos mais brilhantes escritores da sua geração. Pertenceu ao movimento literário, denominado "Geração de 98", onde também pontificavam Ortega y Gasset e Perez de Ayala. É considerado um Príncipe das Letras Espanholas, juntando o seu nome à Galeria de Honra formada por Cervantes e Quevedo.

Visitou várias vezes Portugal, onde tinha alguns amigos, tendo enaltecido o facto das letras portuguesas, com a geração do Orpheu, terem aderido rapidamente ao movimento modernista, nascido em Itália em 1910.

Alexandre de Castro
04 de Janeiro de 2009

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A realidade na Venezuela é esta: garantir, por parte dos EUA - e tal como aconteceu no Iraque e na Líbia - o controlo das maiores reserva de petróleo do mundo



Para se perceberem melhor as hipócritas intenções dos EUA e dos países ocidentais, seus fiéis aliados, é necessário rever o que se passou no Iraque e na Líbia, em que as respectivas invasões militares, que destruíram aqueles dois países, foram justificadas pela cruzada da democracia, e precedida pela diabolização de Saddam Hussein e de Kadafi, que foram barbaramente assassinados, por mercenários dos países invasores. E o denominador comum entre aqueles dois martirizados países e a Venezuela, é que todos eles têm petróleo, no seu subsolo. Se a Venezuela de Maduro sucumbir aos lacaios treinados pela CIA, os EUA ficam a dominar as principais reservas de petróleo do mundo, o que constituirá uma enorme vantagem estratégica em relação à Rússia e à China.  E andam por aí uns tolos a reduzirem tudo isto à democracia, aos Direitos Humanos e à Liberdade, quando tudo não passa de uma grosseira cabala para justificar o saque.

Alexandre de Castro
2019 01 30

sábado, 26 de janeiro de 2019

O Mundo emocionou-se com o drama do pequeno Julen


O Mundo emocionou-se com o drama do pequeno Julen

Chegou ao fim o drama do pequeno Julen, que teve um fim decepcionante, embora esperado. Um drama que emocionou o mundo, numa grande e silenciosa manifestação solidária global, como já não se via há muito tempo. Resta registar e louvar o esforço e a abnegação de toda a equipa de salvamento, que, em condições muito adversas, foi rápida e eficiente na sua actuação. Julgo que todos os seus elementos teriam chorado, perante o facto de não terem encontrado o Julen com vida. Ficou, contudo, a consolação de resgatarem o seu corpo morto, para que os seus pais o possam enterrar com toda a dignidade, que a morte de um ente querido reclama.

Alexandre de Castro
2019 01 26
***

sábado, 19 de janeiro de 2019

A Revolta da Marinha Grande em 1934


A 18 de Janeiro de 1934, a Marinha Grande acordou com um levantamento operário vidreiro contra a fascização dos sindicatos enquadrada pelo Estatuto Nacional do Trabalho. Os revoltosos conseguiram tomar o poder por algumas horas, mas a repressão de Salazar acabaria por esmagar a revolta e enclausurar os revoltosos nos cárceres do fascismo, onde alguns jaziram. Em 29 de Outubro desse ano, 57 marinhenses que participaram no 18 de Janeiro inauguraram o Campo do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde
Jornal AbrilAbril 

***«»***
Estes homens foram os “Heróis” de um tempo em que a fome não era uma metáfora.
Alexandre de Castro
2019 01 19

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

MASSACRE INDÍGENA, MATO GROSSO DO SUL



AMAZÓNIA:
O massacre das populações indígenas e a desmatação da Amazónia

Este apelo desesperado de uma indígena Guaanys Kaiowà é de 2016. Em lágrimas, ela denunciava o massacre que estava a ser perpetrado sobre o seu povo.
O mundo ficou calado e mudo!... Os governos ocidentais, tão diligentes em condenar os países considerados inimigos de estimação, por estes, supostamente, não respeitaram os direitos humanos, também ficaram calados, tentando, assim, esconder a sua cumplicidade. O mesmo se pode dizer da comunicação social, toda ela nas mãos das classes possidentes, que à distância comandam o poder político.
E, com a eleição do fascista Bolsonaro, as comunidades índias correm o risco de ser dizimadas, para abrir caminho ao sector do agro-negócio, que pretende instalar-se na Amazónia, desmatando-a e destruindo-a progressivamente, acções estas, que irão contribuir para o agravamento das alterações climáticas.
Estamos na presença de crimes contra a Humanidade, que é necessário denunciar em todas as instâncias. E a divulgação, através das redes sociais, deste vídeo e deste texto, poderá ser o início de um longo caminho, se todos colaborarem.
Alexandre de Castro

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

LOUVOR


Centro Oncológico Dra. Natália Chaves - Carnaxide

LOUVOR

A crítica fundamentada e objectiva envolve ou o protesto indignado ou o elogio rasgado. E, neste caso, é o autêntico elogio que o subscritor pretende expressar neste pequeno apontamento.

A primeira impressão positiva a registar, para quem cruza este espaço, o Centro Oncológico Dra. Natália Chaves, remete para a concepção arquitectónica do edifício, a marcar a sua modernidade, através do estilo sóbrio das suas linhas rectilíneas e da nobreza, ajustadamente simples e desnudada, dos materiais utilizados, quer no seu exterior, onde se consegue uma harmonia com a paisagem ajardinada envolvente, quer, principalmente, no seu interior, onde, num cruzamento de uma combinação feliz, se descobre uma estética, despojada de inúteis maneirismos, e, ao mesmo tempo, se consegue obter a respectiva funcionalidade, para o fim em vista.

Uma outra observação positiva, a registar, e esta, talvez, a mais importante e a mais significativa, já que se trata da humanização deste espaço, vai dirigida directamente para os funcionários da instituição, com quem o subscritor mais lidou, ao longo destes dois meses do seu tratamento. Embora não se encontre credenciado para proceder a uma qualquer avaliação sobre as respectivas competências técnicas, o subscritor, de uma forma indirecta e sumária, pode anotar, com toda a segurança, o bom desempenho profissional desses funcionários, que se detecta pela forma expedita e segura como cumprem os rigorosos protocolos instituídos, para cada função a desempenhar. E tudo isto só é possível, porque a direcção da instituição soube assumir uma gestão criteriosa e rigorosa dos procedimentos a aplicar para todas as funcionalidades inerentes à sua missão. Assim se explica a ausência de confusões e, a cada momento, o surgimento de uma grande aglomeração de doentes, ao mesmo tempo que se proporciona e o seu atendimento atempado.

E, tal como uma cereja em cima de bolo, é de registar a enorme e espontânea simpatia, sem ser compulsivamente forçada, com que todos funcionários da instituição envolvem os doentes. E aqui, embora não pretenda discriminar ninguém, e, talvez, porque o acaso determinou uma maior frequência de contactos no processo de atendimento, é de toda a justiça destacar a simpatia e o aprumo profissional da recepcionista, D. Sónia Canelas.

E é, principalmente, pelo ângulo desta perspectiva humanizante, que o subscritor regista, com agrado, o seu agradecimento aos profissionais de enfermagem e aos técnicos de radioterapia, bem diferenciados tecnicamente, às recepcionistas, diligentes e simpáticas, no atendimento, aos funcionários administrativos e aos imprescindíveis funcionários auxiliares, e isto sem esquecer a valiosa prestação da médica, Dra. Rosário Vicente, assim como a oportuna intervenção avulsa da senhora enfermeira Paula Dias, a quem o subscritor apelidou amavelmente de a sua querida torturadora. 

Alexandre Lopes de Castro
Jornalista
Lisboa,17 de Dezembro de 2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

A França sempre nos habituou a ser a aurora das revoluções.



A França sempre nos habituou a ser a aurora das revoluções. E, agora, já não são os estudantes românticos do Maio 68 a manifestar-se, nem os operários a fazer greves, uns e outros já domesticados pelo sistema. Agora, são todos aqueles franceses da França profunda e "do fim do mês difícil", que apoiam este movimento dos coletes amarelos, um movimento que poderá vir a ser capturado pela extrema - direita, se é que o referido movimento – sem liderança visível e que se apresenta como uma estrutura inorgânica e horizontal – não nasceu por uma sua secreta inspiração.
De qualquer maneira, vem-nos à cabeça o Maio 68.

Alexandre de Castro

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

No Brasil, ganhou o fascismo...



No Brasil, ganhou o fascismo...
                                
O fascista Bolsonaro ganhou. Perdeu a democracia e perdeu o Brasil. E, possivelmente, vão perder muitos países, na América Latina e na Europa, onde os partidos radicais de extrema-direita, já instalados, vão ganhar, por contágio, um novo alento, para tentarem a fascização do poder político, inspirando-se no exemplo de Hitler, que também ganhou o poder, através de eleições, explorando com astúcia a fraqueza dos partidos democráticos tradicionais, que se esgotavam nas suas contradições.

O Brasil é um país democraticamente fraco, muito dividido etnicamente e socialmente, escandalosamente desigual na distribuição da riqueza e com uma incultura política elevada, a tal ponto que acabou por eleger um presidente que prometeu recorrer, implicitamente, ao assassinato das minorias. Hitler também também prometeu assassinar os judeus, e cumpriu.

Não pretendo fazer futurologia, mas vaticino que as coisas, no Brasil, vão correr muito mal.

Alexandre de Castro
2018 10 29

sábado, 27 de outubro de 2018

O Brasil a caminho do seu labirinto...


O Brasil a caminho do seu labirinto

Eu já não tenho dúvidas de que estas eleições, no Brasil, foram milimetricamente preparadas para desencadear um movimento insurreccional generalizado, que justifique a institucionalização de um regime autoritário e repressivo, que restrinja as liberdades e que dissemine o medo e o terror.

Quando agentes do Estado, em vésperas de uma eleição, de uma importância crucial, invadem as universidades para intimidar professores e alunos, suspeitos de ideologias de esquerda (ver aqui), é porque existe uma oculta intenção de apagar as pegadas da democracia brasileira e de iniciar um novo ciclo, o das "ditaduras democráticas" ou das "democracias musculadas".

Amanhã, quando Bolsonaro começar a fazer as razias étnicas e políticas, que prometeu, os que nele votarem não poderão vir dizer que não sabiam, nem se poderão queixar, no caso de vierem a ser vítimas da sua fúria e da sua crueldade fascista.

Alexandre de Castro
2018 10 27

domingo, 21 de outubro de 2018

Considerações sobre o dilema da democracia


Considerações sobre o dilema da democracia

Alexandre Guerra escreveu, no jornal PÚBLICO, de 30 de Setembro último, um artigo muito didáctico e muito bem estruturado, sob o título “O dilema da democracia", em que, no fundo, pretendia encontrar uma explicação para o sucesso das democracias ditas (i)leberais (Rússia e Turquia e outros países), em que, segundo ele, os eleitores, paradoxalmente, e em plena liberdade, têm escolhido normalmente um líder autoritário, uma ocorrência que ele estranha.

Isto acontece, porque o autor, implicitamente, parte do errado princípio de que as democracias liberais dos países ocidentais enquadram o sistema político mais perfeito, o que, para mim, não é verdade. E não é verdade, porque nas chamadas democracias liberais, como as instituídas na Europa e nos EUA, o sistema encontra-se viciado, uma vez que tudo foi concebido, no pós-guerra, para que aos eleitores fossem apresentados dois fortes partidos políticos, um retintamente liberal e o outro ornamentado com uma cosmética socializante, e que apenas divergiriam nos pormenores da governação, sendo, contudo, obrigatoriamente iguais, nos aspectos verdadeiramente estruturantes do poder político e na obstinada aceitação do modelo económico liberal único, anti-socialista e anticomunista.

Assim, através deste enganador processo, os actuais regimes políticos liberais garantem aos detentores do grande capital o controlo indirecto e remoto de toda uma política que os favoreça. E isto não é imediatamente percebido, pela maioria dos eleitores.
Alexandre de Castro.
2018 10 06

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Saúde: a gestão pública, a gestão privada e a parasitação dos dinheiros públicos - Mário Jorge Neves



Saúde: a gestão pública, a gestão privada e a parasitação dos dinheiros públicos

Durante largos anos a máquina de propaganda político-ideológica dos sectores privados e dos quadrantes partidários à direita, insistiram na cassete da superioridade da gestão privada em relação à gestão pública.

À medida que a dura realidade dos factos foi mostrando as sucessivas e catastróficas falências de grandes impérios multinacionais essa cassete perdeu vitalidade e foi procurando encontrar novas formas de propaganda mais ou menos dissimulada contra os serviços públicos de saúde sempre envoltas em abundante terminologia tecnocrática.

Aliás, estes mesmos sectores surgiram há meia dúzia de anos atrás, em plena crise económica, a apelar à nacionalização dos bancos falidos.

A última versão desta propaganda surgiu com a apresentação pública do documento estratégico para a Saúde da actual direcção do PSD ao afirmar expressamente que “... para a população nada muda, sendo indiferente para os utentes se a unidade é gerida pela iniciativa privada, pública ou social”.

Indiferente? Mas que embuste monumental !!!

Para os utentes não é indiferente porque a sua carga fiscal serviria para financiar empresas privadas parasitárias dos dinheiros públicos e assistiríamos, como noutros países, como é o caso mais gritante dos Estados Unidos, à selecção adversa dos doentes e à mera procura do lucro que iria beneficiar os accionistas das empresas a quem a gestão privada fosse entregue.

Por outro lado, a gestão pública e a gestão privada têm objectivos distintos e não misturáveis. Não se tratam de modelos assépticos nos planos político e ideológico.

A campanha política que tem envolvido maiores investimentos “publicitários” dos detractores do SNS é, como já referi, a da suposta superioridade natural da gestão privada relativamente à gestão pública.

Segundo os arautos desta campanha, a gestão pública seria sempre ruinosa, conduzia a graves desperdícios, e traduzia-se por baixos níveis de eficiência. Além disso, o Estado era sempre um mau gestor, não demonstrando capacidade para rentabilizar os recursos existentes, conduzindo a uma permanente insatisfação dos cidadãos.

Quanto à gestão privada, a sua própria natureza seria, desde logo, uma garantia de êxito e possibilitaria obter resultados muito superiores a nível do funcionamento dos serviços de saúde e da própria satisfação dos utentes. De acordo com a experiência existente em diversos países e com múltiplos estudos efectuados, mesmo no plano específico da saúde, não se verifica qualquer evidência acerca desta apregoada
superioridade.

Uma das operações teóricas e políticas mais bem sucedidas do neoliberalismo foi instaurar os debates em torno da oposição estatal / privado.

A deslocação do debate para este eixo traduz-se numa situação de favorecimento das teses neoliberais, em que o estatal é caracterizado como ineficiente, aquele que cobra impostos e desenvolve maus serviços à população, como burocrático, como corrupto, como opressor, enquanto que o privado é promovido como espaço de liberdade individual, de criação, de imaginação, de dinamismo.

Como refere o Prof. Emir Sader, a oposição estatal / privado reduz o debate a dois termos que, na realidade, não são necessariamente contraditórios, porque o estatal não é um pólo, mas um campo de disputa que, nos nossos tempos, é hegemonizado pelos interesses privados.

Quanto ao privado, ele não constitui a esfera dos indivíduos, mas representa os interesses mercantis, como se verifica nos processos de privatização, que não se traduziram em processos de desestatização em favor dos indivíduos e beneficiaram as grandes corporações privadas, as que dominam o mercado.

Dentro do próprio Estado desenvolve-se, de forma surda ou aberta, o conflito e a luta entre os que defendem os interesses públicos e os interesses mercantis, entre o que Pierre Bourdieu chamou de braços esquerdo e direito do Estado. Nesse sentido, a polarização essencial não se verifica entre o estatal e o privado, mas entre o público e o mercantil ( Emir Sader;Público Versus mercantile).

Em meados da década de 1980, o Banco Mundial (BM) publicou um documento intitulado “O financiamento dos serviços de saúde dos países em desenvolvimento: Uma agenda para a reforma”. (Frenk, J.. El financiamento como instrumento de política pública. Bol. Of. Sanit. Panam., 103(6), 1987.) Este documento colocava, entre outras, as seguintes concepções orientadoras:

Os serviços curativos só produzem benefícios privados, ou seja, benefícios ao consumidor directo do serviço e não à sociedade no seu conjunto.

Existência de um sector dominante de serviços curativos localizados no sector privado, e de um sector governamental paralelo de prevenção e tratamento básico para os pobres.

Defesa de um modelo fragmentado de prestação de cuidados.

Cobrança de taxas aos utentes dos serviços de saúde.
Desenvolvimento de seguros de saúde.

Emprego eficiente dos recursos não governamentais, (numa clara perspectiva de rápido desenvolvimento da iniciativa privada).

Apologia extrema da suposta superioridade total dos serviços privados.

Descentralização dos serviços governamentais de saúde, acompanhada da forte diminuição do volume de serviços da responsabilidade do Estado.

A doutrina ideológica neoliberal deriva deste tipo de documentos oriundos de entidades multinacionais como o BM, representando a sua designação, por si só, uma tentativa de denegrir o liberalismo e o seu significado de progresso social e político.

Enquanto nos séculos XVIII E XIX o liberalismo foi a expressão do próprio desenvolvimento do capitalismo empenhado em liquidar as excessivas tutelas e os entraves feudais, o neoliberalismo traduz-se, agora, numa acção oposta ao desenvolvimento e progresso das sociedades.

A palavra neoliberalismo passou a ser uma forma elegante de chamar aos mais conservadores o que antes era designado por retrógrado ou reaccionário e uma etiqueta com que se encobre a moderna economia de mercado.

Analisando os factos no seu respectivo contexto histórico, importa ter em conta que no século XIX o liberalismo significou a consolidação dos conceitos de liberdade e democracia, encarnando os esforços de progresso, de avanço científico e de desenvolvimento das nações.

O liberalismo opôs-se ao dirigismo do Estado, enfrentou o despotismo, foi ideário da tolerância e da fraternidade humana.

Os graves resultados económicos e sociais a que tem conduzido a “economia de casino” do neoliberalismo só poderá prosseguir com regimes políticos cada vez mais autoritários e repressivos.

São estes resultados que têm determinado, em grande medida, a emergência da extrema-direita em diversos países europeus e latino-americanos.

Defender a gestão por privados nos serviços públicos é o mesmo que querer misturar azeite e água.

A gestão pública e a gestão privada têm finalidades diferentes.

A gestão pública tem como foco fundamental o bem comum da sociedade e a sua evolução civilizacional, a gestão privada está vocacionada para o lucro, o consumo e o negócio.

A gestão pública existe para atingir uma missão que é considerada socialmente valiosa, a gestão privada existe para maximizar o património dos accionistas, tendo com critério de bom desempenho o resultado financeiro.

A gestão pública visa a criação de valor público e a gestão privada visa ganhar dinheiro para os seus acccionistas e proprietários mediante a produção de bens e serviços vendidos com lucro.

As organizações públicas têm um controle político do Estado por meio de eleições. Já nas empresas privadas, o controle é exercido pelo mercado por meio da concorrência entre as companhias e pelos accionistas.

É possível assegurar o bem comum com a gestão privada de serviços públicos?

É possível conciliar bem comum e desenvolvimento social com a maximização dos lucros dos accionistas?

Uma das cassetes propagandísticas desses sectores partidários e comerciais foi a de que sendo uma gestão privada saberiam gerir melhor.

Mas o que é escandaloso é estes sectores insistirem no seu fundamentalismo com a burka neoliberal, quando há poucos anos atrás assistimos à derrocada de diversas multinacionais e grandes consórcios bancários, reveladores do fracasso da gestão privada. É igualmente escandaloso que virem os seus apetites para os serviços públicos de saúde quando o nosso SNS está entre os melhores sistemas de saúde a nível mundial e quando é o próprio director –geral da OMS a afirmá-lo de forma eloquente.

Apesar das insuficiências e limitações do nosso SNS, que se tornam mais perceptíveis porque se trata de um serviço público que presta serviços todas as horas de cada dia e todos os dias de cada ano, aquilo que está em causa é sua redinamização e adequação às novas exigências, defendendo-o de quem quer apropriar-se dos dinheiros públicos para aumentar os lucros dos seus accionistas.

Perante a dimensão da ofensiva contra o SNS, importa agregar amplos apoios e vontades que impeçam a destruição da maior conquista política, social e humana da nossa Democracia.

Mário Jorge Neves, médico, dirigente sindical
13/10/2018

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Morreu o Capitão de Abril, Coronel Diamantino Gertrudes



Morreu o Capitão de Abril,
Coronel Diamantino Gertrudes
  
Morreu o meu grande amigo Diamantino Gertrudes, um dos valorosos capitães de Abril.

Sublinho aqui as suas grandes qualidades morais e a sua nobreza e integridade de carácter, assim como a amizade que nos uniu, desde os tempos do liceu de Lamego e do liceu de Viseu, além de destacar as virtualidades da sua obra literária, que, como romancista, evidenciou.

Nos tempos actuais, uniu-nos também a cumplicidade da mesma identidade ideológica.

Vou recordá-lo sempre com muita saudade.

O então capitão Diamantino Gertrudes, que comandou, na redentora madrugada de 25 de Abril de 1974, uma coluna militar, e que partiu do quartel de Viseu (RI14) com destino a Lisboa. libertou, pelo caminho, os presos políticos do Forte de Peniche, ao mesmo tempo que encarcerou os respectivos guardas prisionais.
Alexandre de Castro
2018 10 12

***«»***
Deixo também aqui o texto necrológio do amigo comum, Joaquim Pereira Silva, em cujo site li a dolorosa notícia e de onde retirei o vídeo com a entrevista do Diamantino (coronel de Infantaria reformado):

"Para que a memória se não apague.
Faleceu hoje o meu grande amigo, Coronel Diamantino Gertrudes da Silva, capitão de Abril.
Pela sua verticalidade, coerência e honestidade intelectual, merece toda a minha gratidão.
Sinto-me honrado pela amizade que sempre me dedicou".

domingo, 7 de outubro de 2018

A mancha especulativa no arrendamento de habitação alastra em Lisboa



A mancha especulativa no arrendamento de habitação alastra em Lisboa

Os agentes das grandes agências imobiliárias, nacionais e estrangeiras, descobriram um lucrativo nicho no mercado da habitação, e querem (a bem da Nação) transformar Lisboa numa cidade internacional, habitada por reformados ricos de outras nacionalidades. Os predadores iniciaram a sua acção, há uns seis anos atrás, mediando a compre e venda dos palacetes históricos, depois, assaltaram de surpresa, sem dó nem piedade, os bairros históricos da cidade, provocando, com os despejos ocorridos, uma autêntica razia entre a população idosa e pobre, que foi varrida do mapa, com indemnizações miseráveis. E, agora, já começaram a espalhar a mancha especulativa pela avenida Almirante Reis, Areeiro e bairro de Alvalade, o que já está a inflacionar os valores das rendas, valores esses impossíveis de suportar pela classe média.

Este é o resultado da legislação da Assunção Cristas, do governo da "troika", que, na sua acção legislativa, eliminou direitos, que protegiam os arrendatários idosos, e que, só agora, o governo PS, empurrado pelo PCP e BE, minorou em parte, pois ainda ficaram algumas pontas soltas na nova legislação, às quais os especuladores vão agarrar-se, para continuar a sua acção predadora e desumana.  

Alexandre de Castro
2018 10 07

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Rastos do Tempo / Traces of the time


Este é o mundo daquela parte do Portugal Desconhecido. Mas que ainda existe para nos agredir a memória…
Alexandre de Castro

Fotos de Armando Jorge
Música e edição de Chico Gouveia

Ver aqui