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sábado, 28 de novembro de 2020

O Ditador

 O Ditador…

 

O Ditador não tinha esporas
nem botas de montar,
mas montou um povo inteiro…
Não tinha espada
nem desfilava em marchas marciais,
mas foi o general da tropa amansada…
O Ditador não dormia,
vigiava…
Tinha medo que o apanhassem distraído
e o matassem…
Por isso, inventou a polícia secreta,
que desenhou a geografia das esquinas
de todas as ruas das cidades, vilas e aldeias…
O Ditador não tinha afectos…
O poder era o seu único e verdadeiro amor,
que se lhe conhecia…
Da sua cabeça saíam possantes tentáculos,
que apertavam as gargantas como tenazes,
a quem ousava discordar…
O Ditador julgou-se eterno,
mas esqueceu-se do equilíbrio instável das cadeiras
(ele não percebia nada das leis da Física)…
Caiu e desmaiou, e depois morreu,
mas sempre a acreditar
que governaria o país, para além da sua morte…

 

                             Alexandre de Castro

 

Lisboa, Maio de 2008


terça-feira, 21 de maio de 2019

Dissertação sobre o Big Bang…





Dissertação sobre o Big Bang…


E naquele momento zero em que tudo começou,
no primeiro segundo cósmico,
surgido a partir do Nada
a energia, concentrada e tensa, explodiu
fazendo saltar matéria incandescente a alta velocidade
para formar estrelas, cometas, planetas e galáxias
a ensaiar uma louca dança orbital
e a obedecer com precisão infinita
à lei da gravitação universal.
Newton ainda estava a muitos anos-luz de distância
na escala temporal, até uma maçã o despertar.
Galileu leu todos os sinais dos céus,
observou, fez experiências, analisou e calculou
e tudo ficou mais claro e transparente
para um cabal e definitivo entendimento.
Nem o Papa, que o mandou calar,
nem a sentença da Sagrada Inquisição
estancou aquele pensamento perverso
de ser a Terra continuamente a rodar
e de nunca ter sido o centro do Universo
desmentindo assim as verdades divinas
vertidas pela Fé nas Escrituras
e o Mundo continuou a girar, a girar,
rasgando segredos e descobrindo infinitos
com estrelas ainda a nascer
e outras a desaparecer, em lenta agonia cósmica
até um buraco negro as devorar
como se tudo se reduzisse a uma liminar equação
entre energia e matéria, na sua matemática relação
e que Einstein revolucionariamente resolveu.
Mas há ainda uma outra lei desconhecida,
a do ciclo e do contra-ciclo, marcada pelo tempo,
com o Universo a inverter-se e a matéria a contrair-se
quando  a energia se esgotar e o espaço terminar,
deixando de se dilatar
aparecendo, então, uma força descomunal
a esmagar galáxias, estrelas, cometas e planetas
(fulminando a Humanidade, se ela ainda existir)
até a matéria se dissolver
e a energia regressar ao ponto inicial
para um outro Big Bang começar…

Alexandre de Castro

Lisboa, Dezembro de 2008

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dissertação sobre a ode à liberdade…




Dissertação sobre a ode à liberdade…


A todos os tarrafalistas
e aos que tombaram pela liberdade


Já só tenho muros à minha volta
grades nas janelas sem vidraças
para que as palavras arrefeçam lentamente
escrevo nas paredes
os nomes e os símbolos
daquilo em que acredito
e já não tenho medo do carcereiro
nem do degredo
levo as mãos para as algemas
e olhos e alma para chorar
mas serei amanhã um homem livre…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2007

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Poema onde cabe o silêncio...


Poema onde cabe o silêncio…

Falas-me todos os dias
naqueles teus silêncios mudos
em que és a excelsa  esfinge
e a inefável  musa…
Falas-me com os teus olhos líquidos
pousados na minha sombra
para eu ouvir o eco do teu corpo
e eu sinto o aperto do teu abraço
a envolver o mundo,
e mergulho no teu sono
onde estão guardadas todas as tuas jóias…
Caminho pelos trilhos da escuridão
entre mundos que se repetem e se consomem
na voracidade do tempo…

Jamais me encontrarei comigo próprio…
Sou a raiz viva de uma árvore morta…

Alexandre de Castro

Lisboa, Junho de 2016

domingo, 13 de maio de 2018

Maio 68...



Maio 68...


Foi o Maio da esperança, em França,
delírio épico de uma revolução romântica
a cantar os hinos de todas as rebeldias,
e a fazer crescer o sonho contra o desencanto.
Inspirou Portugal, na Revolução dos Cravos,
que rompeu as trevas numa manhã de Abril.
Era um mundo velho, decrépito, que morria
Era um mundo novo, de sonhos, que nascia…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

Simplesmente Mulher...




Simplesmente Mulher...

No Dia Internacional
da Mulher

Até Deus, logo que te viu,
no breve enlevo do paraíso,
te amaldiçoou com o pecado original...
E o Homem, através dos tempos,
impondo o poder que esse Deus lhe deu
nunca te perdoou o encantamento
da bíblica árvore em que se perdeu...

Em nome de Deus, Jeová e Alá,
Moisés, Cristo e Maomé,
cristãos, muçulmanos e judeus,
erguendo aos céus os sagrados livros,
impuseram o silêncio do teu corpo,
riscaram a tua existência, a tua voz...
E a tua vida, separada da tua pujança,
foi apenas uma sombra esquecida...
Benzeram-te com a peçonha
da vergonha
de teres nascido mulher...

E os homens ungiram a tua vagina
para aquecerem a sua volúpia
e dilatarem o teu vigoroso útero,
que pariu a humanidade inteira,
e esquecendo-se, sem remorsos,
da tua dimensão verdadeira...

Eras apenas mãe, esposa ou irmã,
na simples serventia de parideira, vivendo
ao ritmo das mamadas dos teus filhos...
E quando o vento mudava de feição
eras serpente, bruxa e feiticeira,
desgraçada e perdida rameira...
Mulher sem condição...

E tu eras simplesmente Mulher
(e não um objecto qualquer,
escondido na burka, no hábito ou no véu)...
Nem mesmo eras aquela outra Maria
que as asas de um arcanjo cobriu
E que, mesmo chamada virgem, pariu...

Alexandre de Castro

Lisboa, Março de 2005

Registado: IGAC/MC- 5467/2004

sexta-feira, 16 de março de 2018

Adeus, Stephen Hawking…





Adeus, Stephen Hawking…


Foste habitar aquela estrela, que descobriste,
e pela qual te apaixonaste,
depois de teres encontrado Deus
num buraco negro, onde ELE se escondia,
para o obrigares a renegar tudo o que ELE dizia
sobre a criação do Universo e da vida humana…

Do teu corpo morto fizeste uma nova vida
para o nosso espanto,
pois não temos a tua força nem a tua inteligência
nem sabemos devorar as insónias
das galáxias, das estrelas, dos planetas e dos cometas
e tudo aquilo que a Física Quântica
provoca nas nossas cabeças
com as suas insondáveis incógnitas…

Nasceste no dia em que Galileu, há trezentos anos, morreu,
e morreste no dia em que Einstein nasceu,
na ponta final de dois séculos atrás,
e eu não sei se isto não foi uma partida de Deus,
para vos catalogar à entrada do céu…

O que eu sei é que vais levar os seus corações na tua mão
para que a Física vença a ignorância
e triunfe no meio das trevas e da escuridão…

Adeus, Stephen Hawking…

Alexandre de Castro

Lisboa, Março de 2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

Recuso fazer a contabilidade da morte...





Recuso fazer a contabilidade da morte...


Recuso fazer a sinistra contabilidade
da morte, que companheiros ceifa,
o tempo escurece nas saliências da memória
e as flores da primavera já não são as mesmas
esgotam-se as incandescências da luz
que vestimos na juventude,
a endoidecer os astros
que nos acusavam aos deuses
das nossas tropelias e rebeldias…

Era o tempo puro da liberdade das aves
que não queriam morrer na praia nem no deserto…
Era a vida a pulsar nos punhos,
no turbilhão do sangue
e que agora morre, irremediavelmente,
no turbilhão do Tempo.

Alexandre de Castro

Lisboa, Dezembro de 2017

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A última declaração de amor…




A última declaração de amor…


Quando começarmos a decapitar e a enforcar as estátuas
é porque já estamos em declínio.
É o tempo em que o tempo se escapa pelos dedos.
E isto também é verdade para as praias e para os búzios.
Infelizmente...
Depois do naufrágio,
irei novamente subir as escarpas dos rochedos
que guardam a praia.
E ali ficarei a olhar o luzeiro do céu,
para ver as estrelas a incendiar as almas.
Farei então a minha última declaração de amor.

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2015

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Homine…




Homine…


Na Antiga Idade,
era uma mercadoria
uma mercadoria com vida
que de escravo seria…

Apagavam-lhe a identidade
para lhe negar a liberdade…

Na Média Idade,
promoveram-no a servo,
da gleba, dizia-se,
mas negavam-lhe a terra
que a um senhor pertencia…

Na Nova Idade
passou a operário
trabalhava mais de metade do dia,
na fábrica ou na mina,
cumprindo um doloroso horário
em que lhe sugavam o sangue
negando-lhe o justo salário…

E chamaram a isso democracia…

E hoje, embora livre,
e com direitos consignados
pelo regime liberal,
sendo amanuense ou operário, 
continua a ser escravo,
dos senhores do Grande Capital…

E andam a dizer que isto é mais democracia…

Alexandre de Castro

Lisboa, Fevereiro de 2018

domingo, 25 de junho de 2017

Ode às vítimas dos incêndios…


Ode às vítimas dos incêndios…

Guardarei um punhado daquela terra queimada
num lugar sagrado da minha memória dorida
onde se ouvem os gritos incendiados pelo fogo
e os ecos do estertor da morte.
E as cinzas das árvores e das vidas perdidas
naquele incêndio que não tinha fim
ficarão para sempre sepultadas
no coração do meu jardim...

Alexandre de Castro

Junho de 2017

Nota: o meu contributo para a página do movimento “um activismo por dia”.
2017 06 25

domingo, 27 de novembro de 2016

Para Fidel Castro…




Para Fidel Castro…


As árvores ficaram despidas e nuas
quando a tua voz se calou na sombra da noite
e os astros incandescentes se apagaram
ouviram-se os pássaros pendurados nos alpendres
e um relâmpago riscou o céu
da Serra Maestra até Havana
a iluminar o caminho da glória
da tua marcha heróica e triunfal…

Agora, junto a tua voz à minha memória
e à memória da voz do companheiro Che Guevara,
o outro astro incandescente da nova aurora
o outro herói da gesta revolucionária
que acendeu em nós a chama da liberdade
e que morreu lutando pelo sonho que sonhou…
Hasta siempre, comandante Fidel Castro…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2016

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Pablo Picasso


Picasso fez uma revolução total na pintura. Uma ruptura radical com o passado e, de tal modo profunda e incisiva, que marcou não só a sua própria geração, mas, principalmente, todas as gerações que lhe sucederam, até à actualidade. Não há nenhum pintor da modernidade que não se inspire nas forma pictóricas, inventadas por Picasso.
Embora isto já tivesse sido tentado timidamente por pintores que o antecederam no tempo, foi com Picasso que a pintura deixou de ser uma representação do espaço real visível, para se transformar numa vibrante expressão criativa da imaginação, transmitida à tela. Para isso arriscou cortar com o cânone, recorrendo, em relação à forma, à distorção dos objectos e das figuras humanas, nestas principalmente ao nível da intervenção nos rostos (o espaço anatómico por ele preferido para fazer as suas experiências de representação, na procura de expressões geniais, bem vincadas)  e no recurso  às formas arredondadas dos corpos e ao jogos da desproporção das dimensões. Isto permitiu-lhe ganhar liberdade criativa (já que não pretendia captar o real) para poder jogar com o efeito das cores, principalmente as cores fortes e garridas, que acabavam por dominar o espaço visual do espectador.
Como se tivesse regressado à Idade Média, Picasso ignorou, na maioria dos seus trabalhos, a terceira dimensão, a da profundidade, para que o primeiro plano ganhasse relevo e importância. Seguiu um processo contrário ao do seu contemporâneo e compatriota, Salvador Dali (outro grande pintor), que, precisamente, preferiu a terceira dimensão para dar azo, através da desproporção das figuras, à sua imaginação febril e fantasmagórica.
Picasso ganhou a imortalidade. E vai ser difícil, nos próximos tempos, que um novo génio surja para lhe roubar a influência que continua a ter nos pintores da actualidade. Só se surgir uma revolução, recorrendo ao digital. Mas isso talvez não seja já pintura. Poderá ser outra coisa.

Alexandre de Castro  
4 de Novembro de 2015
***«»***



Carta a Picasso

(A propósito da pintura “Les Demoiselles d’ Avignon”)*

Não sei se as fodeste, antes de as pintares
para lhes matar o erotismo e a beleza
sei que não te enforcaste atrás da tela
como previra Derain
a carne rósea está lá, bem esquadrinhada,
sob o fundo azul da tua matriz original
e em explosivo esplendor,
resultado da tua arte,
mas espartilhada na frieza
das linhas firmes
rasgadas a régua e a esquadro.
Os rostos foram talhados a machado
e só os olhos brilham
em esquadrias angulosas
e não sei se há naqueles olhares
um qualquer desapiedado desprezo
ou algum apelo ou desagravo
ou até uma incisiva acusação,
pois ternura e afectos são coisas que lá não vejo.
Eu sei que te inspiraste em formas arcaicas
embora negues a herança negróide
do nariz de todas elas
mas quero dizer-te, Picasso,
com esta geometria descentrada
salvaste a pintura e a Humanidade
e soubeste afirmar a arte como mentira
tal como Plínio afirmou
a propósito daquele pintor romano
que pintou uvas tão perfeitas
que até os pássaros as foram debicar.
E, para comer, tu apenas nos deixaste
no fundo da tela
o cacho de uvas, a pêra, a maçã,
e uma talhada de melancia.
És um forreta, Picasso,
e agora já sei que as fodeste, antes de as pintares.

Alexandre de Castro

Ourém, Abril de 2009

* Célebre pintura de 1907, que inaugurou a corrente cubista.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Fotografias da memória: Homenagem em linha ascendente… [Poema]


João de Castro (poeta e dramaturgo) | avô paterno

João de Castro (poeta e dramaturgo) | avô paterno
Linhares de Ansiães

Idalina Alice Costa | avó paterna

Álvaro de Castro (poeta) | tio-avô paterno
Linhares de Ansiães

Guilherme Lopes Trigo e Maria da Conceição | avós maternos

Virgílio de Castro (estudante no Porto) | meu pai

Meu pai e minha mãe, Ana Júlia Lopes
(Carrazeda de Ansiães)
***«»***


escultura sem título de Roberto Aizenberg

Homenagem em linha ascendente…

Aos meus pais
Aos meus avós

Ainda não paguei a dívida da vossa dádiva.
Nem sei se a pagarei.
O pó do tempo dissolve-se na memória
e ainda sinto o veludo dos afagos
e o respirar das vossas vidas.
As palavras ainda são as mesmas
- as desenhadas pelas incandescências
do fogo dos vossos lábios
e pelo eco das ressonâncias das vossas falas.
E é assim que vos trago no meu peito
enquanto vou traçando as marcas do meu caminho…

Alexandre de Castro

Lisboa, Dezembro de 2014