Picasso fez uma revolução total na pintura. Uma
ruptura radical com o passado e, de tal modo profunda e incisiva, que marcou não só a sua
própria geração, mas, principalmente, todas as gerações que lhe sucederam, até à
actualidade. Não há nenhum pintor da modernidade que não se inspire nas forma
pictóricas, inventadas por Picasso.
Embora isto já tivesse sido tentado timidamente
por pintores que o antecederam no tempo, foi com Picasso que a pintura deixou
de ser uma representação do espaço real visível, para se transformar numa
vibrante expressão criativa da imaginação, transmitida à tela. Para isso
arriscou cortar com o cânone, recorrendo, em relação à forma, à distorção dos
objectos e das figuras humanas, nestas principalmente ao nível da intervenção
nos rostos (o espaço anatómico por ele preferido para fazer as suas
experiências de representação, na procura de expressões geniais, bem vincadas) e no recurso às formas arredondadas dos corpos e ao jogos da desproporção das dimensões.
Isto permitiu-lhe ganhar liberdade criativa (já que não pretendia captar o real) para
poder jogar com o efeito das cores, principalmente as cores fortes e garridas,
que acabavam por dominar o espaço visual do espectador.
Como se tivesse regressado à Idade Média,
Picasso ignorou, na maioria dos seus trabalhos, a terceira dimensão, a da
profundidade, para que o primeiro plano ganhasse relevo e importância. Seguiu
um processo contrário ao do seu contemporâneo e compatriota, Salvador Dali
(outro grande pintor), que, precisamente, preferiu a terceira dimensão para dar
azo, através da desproporção das figuras, à sua imaginação febril e
fantasmagórica.
Picasso ganhou a imortalidade. E vai ser
difícil, nos próximos tempos, que um novo génio surja para lhe roubar a
influência que continua a ter nos pintores da actualidade. Só se surgir uma
revolução, recorrendo ao digital. Mas isso talvez não seja já pintura. Poderá
ser outra coisa.
Alexandre
de Castro
4 de Novembro de 2015
***«»***
Carta a Picasso
(A propósito da pintura
“Les Demoiselles d’ Avignon”)*
Não sei se as fodeste, antes de as pintares
para lhes matar o erotismo e a beleza
sei que não te enforcaste atrás da tela
como previra Derain
a carne rósea está lá, bem esquadrinhada,
sob o fundo azul da tua matriz original
e em explosivo esplendor,
resultado da tua arte,
mas espartilhada na frieza
das linhas firmes
rasgadas a régua e a esquadro.
Os rostos foram talhados a machado
e só os olhos brilham
em esquadrias angulosas
e não sei se há naqueles olhares
um qualquer desapiedado desprezo
ou algum apelo ou desagravo
ou até uma incisiva acusação,
pois ternura e afectos são coisas que lá
não vejo.
Eu sei que te inspiraste em formas
arcaicas
embora negues a herança negróide
do nariz de todas elas
mas quero dizer-te, Picasso,
com esta geometria descentrada
salvaste a pintura e a Humanidade
e soubeste afirmar a arte como mentira
tal como Plínio afirmou
a propósito daquele pintor romano
que pintou uvas tão perfeitas
que até os pássaros as foram debicar.
E, para comer, tu apenas nos deixaste
no fundo da tela
o cacho de uvas, a pêra, a maçã,
e uma talhada de melancia.
És um forreta, Picasso,
e agora já sei que as fodeste, antes de
as pintares.
Alexandre de Castro
Ourém, Abril de 2009
* Célebre pintura de 1907, que inaugurou a corrente cubista.
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