quarta-feira, 25 de novembro de 2015

40 anos após Novembro _ a minha memória em carta a um amigo


40 anos após Novembro _ a minha memória em carta a um amigo

Amigo João:
Nessa noite, o toque a recolher das bandeiras foi dramático. Estive em Monsanto e ouvi os tiros da tropa do Jaime Neves. Mas eu julgo que houve sensatez da parte do saudoso Álvaro Cunhal, que se apercebeu da desproporção das forças em presença, quando esteve reunido com Melo Antunes, na casa de Bredorote dos Santos, que promoveu esse encontro histórico. Perderíamos a guerra, se ela se tivesse desencadeado. E se as forças militares, comandadas pelo Eanes, não fossem suficientes, os americanos invadiriam Portugal, a rogo de Mário Soares. Estava tudo combinado, e seria um mar de sangue.
Gorbachov, delegado da URSS ao Congrsso do PCP, no Porto, poucos meses antes, foi bem claro, quando afirmou, no seu discurso, que a URSS não estava interessada em arrastar Portugal para a Guerra Fria. Nessas condições, era difícil vencer qualquer conflito militar. E só quinze anos depois, quando vi Gorbachov a abdicar do poder, é que percebi a razão por que a URSS não ajudou as forças revolucionárias portuguesas. Já não podia! E não podia porque a sua economia, sempre boicotada pelo Ocidente, começara a entrar em crise, porque já não aguentava o peso (improdutivo, mas necessário) da sua enorme indústria militar.
Esta é a verdade que não podemos ignorar. Chegámos tarde a uma revolução que teria sido vitoriosa, se tivesse ocorrido em 1960.