terça-feira, 15 de março de 2011

Notas do meu rodapé: O Ser e a Essência

Cartaz na manifestação "A Geração à Rasca", em Lisboa

Com relutância, obriguei-me a ter de ouvir mais uma lenga-lenga do senhor José Sócrates. E, mais uma vez, detectei a facilidade como ele consegue baralhar as cartas e dar de novo, ao mesmo tempo que se socorre da batota para ganhar o jogo. Mas já se percebeu que lhe faltam os ases, tendo pois de jogar com a bisca de sete e um ou outro valete. As damas, nem vê-las.
Sustenta o senhor primeiro-ministro, o senhor José Sócrates, que a oposição pretende causar uma crise política. É mentira, e quem mente é mentiroso. E Sócrates precisa da mentira como de pão para a boca, para sobreviver politicamente. Se a oposição, e, neste caso, o PSD, pretendesse criar uma crise política, teria aproveitado a boleia da moção de censura, apresentada recentemente na Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda. O governo não caiu, porque o PSD evitou a sua queda. Por outro lado, sabe-se que, por motivos tácticos, a actual direcção do PSD não tem pressa em ocupar o poder. O seu líder ainda não conseguiu criar o carisma de um vencedor, o que, para mim, lhe vai ser difícil. A pior coisa que poderia acontecer neste momento a Passos Coelho seria a de ser obrigado pelas circunstâncias a ter de ocupar o lugar de primeiro-ministro de um país que o senhor José Sócrates arruinou, por não ter tido a intuição política de se antecipar à crise da dívida soberana, que o laureado economista Nouriel Roubini tem vindo a referir, desde 2009. Por isso, é redondamente falso que a oposição pretenda criar uma crise política neste momento delicado, tal como o senhor Sócrates insistentemente, e até à exaustão, sustentou na sua arrogante lenga-lenga. Nem sequer o Partido Comunista exigiu a queda do governo, embora tivesse sobejas razões para o fazer.
Também é falso que os partidos da oposição não tenham avançado com propostas informais, tal como compete à oposição, já que a iniciativa tem de partir do governo, como não pode deixar de ser. Concretamente, e na genaralidade, os partidos da oposição já aconselharam o governo a desfazer-se da mais de centena e meia de institutos públicos, de uma utilidade duvidosa, e que apenas servem para empregar a clientela partidária. O Partido Comunista tem sistematicamente exigido que se obrigue a banca a pagar a taxa de IRS normal, e que se legislize no sentido de eliminar os respectivos benefícios fiscais. E isto para não falar dos milhões de euros anuais, que se gastam em pareceres jurídicos, alguns redundantes e desnecessários. Todos os partidos pedem que as despesas de funcionamento dos ministérios sejam reduzidas, ou, pelo menos, que não aumentem como têm aumentado, e que se lute contra o desperdício da administração pública. Por esssa via poupavam-se biliões de euros.
Mas José Sócrates continua a pautar o seu comportamento político como se fosse o dono da verdade, desvalorizando a oposição, e lançando sobre ela o labéu do oportunismo político e do antipatriotismo. Salazar procedia do mesmo modo. Só que Salazar era o ser e a essência e vivia em ditadura, mais tarde baptizada de democracia orgânica, por Marcelo Caetano. Mas Sócrates está a instaurar uma democracia autoritária, que é o mesmo do que uma ditadura democrática, e não é essência de coisa nenhuma, sendo apenas ser, nada mais.

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