segunda-feira, 7 de março de 2011

Notas do meu rodapé: Os jovens da Croácia dão o pontapé de saída da revolta na Europa

Jovens manifestantes em Zagreb
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Milhares pedem a renúncia do governo croata em Zagreb
Mais de 5.000 pessoas saíram na noite desta quarta-feira (02/03/11) às ruas do centro de Zagreb em uma manifestação pacífica para pedir a renúncia do governo dirigido pela conservadora Jadranka Kosor.
A manifestação foi organizada por meio do Facebook por um grupo de cidadãos descontentes com a situação económica, o desemprego e a corrupção.
FOLHA.com - 02/03/11
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"Revolta Facebook" move milhares de jovens contra governo
A Croácia está a confrontar-se com uma vaga de protestos anti-governamentais sem precedentes e que, segundo as autoridades, pode pôr em causa a fase final processo de adesão do país à União Europeia (UE).
Para terça-feira já foi convocada uma nova manifestação para o centro de Zagreb, num movimento quase ininterrupto iniciado há cerca de duas semanas através da rede social Facebook, e que alastrou a diversas cidades do país, que declarou a independência da extinta Jugoslávia em Junho de 1991. Os protestos, difusos e contraditórios mas com a participação de dezenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, têm como alvo o governo da União Democrática Croata (HDZ, conservador) e a primeira-ministra Jadranka Kosor. Os manifestantes têm queimado bandeiras da União Europeia (UE), mas a coerência política da contestação permanece por definir. Palavras de ordem contra "as privatizações, o capitalismo e a UE", a denúncia da HDZ "que está a espoliar a Croácia" ou a "demissão imediata de Jadranka" têm sido as principais exigências dos milhares de jovens que têm ocupado as ruas da principais cidades croatas.
Diário de Notícias (Hoje)
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Novamente os jovens!... Novamente o Facebook!... O pioneirismo da Tunísia e, principalmente, do Egipto começa a dar frutos noutras paragens. O movimento ainda vai no seu início, mas é possível que o rastilho alastre e vá atear o fogo a outros territórios onde a lenha, velha e seca, necessita de ser queimada.
Neste movimento de massas, espontâneo e, aparentemente, um pouco caótico, existem elementos comuns, que merecem uma leitura política e sociológica. De nada vale aos porta-vozes do establishment pretenderem desvalorizar este inédito fenómeno da História Contemporânea, quando se sabe que as castanhas podem rapidamente rebentar na boca dos governantes. Quando o ditador tunisino fugiu precipitadamente do país e quando a revolta contra Mubarak começou no Egipto, a Jordânia e outros ditaduras árabes apressaram-se a comprar cereais e a baixar os preços do pão. O regime ditatorial angolano de José Eduardo dos Santos, suportado por um partido que se prostituiu, antecipou-se a um incipiente movimento de protesto, organizando uma manifestação fantoche com os militantes mais previlegiados pelo sistema, os funcionários públicos de Luanda e dos municípios envolventes.
Os chefes políticos descobriram rapidamente o perigo do Facebook para a sobrevivência dos seus regimes, e não admira que, no futuro, não comecem a impor limitações à sua utilização, em nome da ordem estabelecida.
Na realidade, o Facebook constituiu-se no instrumento aglutinador e mobilizador de todos esses jovens, o grupo social mais prejudicado pela acção predadora das políticas neoliberais, comandadas pelo capitalismo financeiro, já organizado em rede, a nível do planeta. Este é o primeiro elemento comum, que acima se referiu. O segundo elemento identificador, também comum a todos estes neófitos movimentos, é a situação precária dos jovens no mundo do trabalho, e que eles não querem aceitar. Eles já perceberam que os actuais modelos políticos estão gastos e ultrapassados e em fétida putrefacção, não conseguindo já ultrapassar as suas próprias contradições. Apesar de suportados pelo sufrágio universal, os sistemas políticos encontraram formas de sobreviver, através da corrupção do Estado, do compadrio, oriundo das seitas secretas, que alimentam os partidos, e da acção das multinacionais e das grandes empresas, que, por via indirecta, influenciam a seu favor as decisões dos governos. Um jovem de hoje olha para a política e só vê um pântano fedorento, cheio de crocodilos a espreitarem a sua oportunidade para atacar as vítimas indefesas.

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