quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Conto: O Abutre - de Franz Kafka


O Abutre

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa – respondi. – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. – Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor. – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. – respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.
Franz Kafka


***«»***
Nota: Franz Kafka foi o escritor que melhor traduziu o conflito existencial do Homem. As personagens kafkianas movimentam-se num mundo absurdo, que elas não compreendem, mas que as esmagam, pois os acontecimentos viram-se sempre contra si.
Uma das características do perfil das personagens kafkianas, é que elas não se revoltam contra o sistema. Percebem que estão a ser trituradas - seja pela máquina infernal de um Tribunal, como no caso de o Processo, seja, como no caso deste conto, por um abutre devorador, que aqui tem de ser interpretado metaforicamente - mas que, em qualquer das situações, não esboçam uma resistência ativa, “preferindo”, antes, “optar” pela interiorização pacifica do seu sofrimento e da sua perplexidade. E é a este nível ficcional que se revela a magia literária de Kafka.
AC