sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Um balanço da campanha das presidenciais - por Miguel Gaspar


Num país que enfrenta a crise mais profunda dos últimos 30 anos, a campanha presidencial dificilmente deixaria de ser uma nota de rodapé dos cortes salariais, dos juros galopantes da dívida, do fantasma do FMI. Foi o que aconteceu. Nenhum dos candidatos na corrida tinha uma ideia que valesse ser ouvida pelos cidadãos. Nenhum tinha nada a acrescentar ao que já dissera ou deixara por dizer nos meses da pré-campanha.
O único tema da campanha acabou por ser a relação de Cavaco com o SLN, por via das acções que comprou e vendeu e agora da casa de férias em Albufeira. O candidato-Presidente pagou um preço alto por estas alegações que eventualmente irá sentir mais depois das eleições. Mas o BPN foi a prova de que campanha não passou de uma nota de rodapé da crise. O país esteve ausente da campanha e os candidatos não tiveram força para contrariar a indiferença. Cavaco já não entusiasma a direita tal como Alegre deixou indiferente boa parte da esquerda que queria federar. Votará quem se contentar com o mal menor. A campanha eleitoral nunca existiu.
Miguel Gaspar/PÚBLICO
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As campanhas presidenciais não são aquelas que, no passado, mais entusiasmo tenham despertado nos portugueses, já que, o vencedor já era antecipadamente conhecido, à partida. Com excepção da eleição presidencial para o segundo mandato de Ramalho Eanes, que se sentiu ameaçado por Soares Carneiro, e a que colocou em confronto, numa histórica segunda volta, Mário Soares e Freitas do Amaral, todas as outras disputas eleitorais posteriores, para a Presidência da República, iniciaram as respectivas campanhas com um vencedor previamente conhecido.
Em Outubro do ano passado, as sondagens davam uma grande vantagem a Cavaco Silva, e nem sequer havia dúvidas que essa vitória seria obtida na primeira volta. Partia-se do princípio que o eleitorado do centro iria penalizar o governo de José Sócrates, recusando o voto ao candidato do Partido Socialista. Com a crise económica e financeira como pano de fundo, com o desemprego de longa duração a alastrar, com a falta de empregos para os eleitores mais jovens, com o aumento da precariedade, e com o anúncio para 2011 do aumento dos impostos e da implementação de medidas cáusticas sobre os rendimentos do trabalho, havia a convicção de que ao candidato da direita seria suficiente, para folgadamente vencer, dar um passeio durante a campanha eleitoral. Este teria sido o cálculo feito pelo próprio Cavaco Silva. Só que, em política, o caminho mais curto não é a linha recta. O politólogo Pedro Magalhães, citado pelo PÚBLICO, ao analisar todas as sondagens produzidas desde Outubro, verificou que, gradualmente, quer Cavaco Silva, quer Manuel Alegre, começaram a descer nas sondagens, sem se perceber para onde iam os votos perdidos por estes dois candidatos (possivelmente para o sector dos indecisos ou para o campo da abstenção, duas variáveis sempre difíceis de avaliar nas sondagens). Mais recentemente, após rebentar o caso das acções de Cavaco na SLN e a embrulhada com a sua casa de férias na Aldeia da Coelha, a candidatura de Fernando Nobre começa a ganhar terreno e consegue alcançar a terceira posição, o que, a verificar-se no escrutínio, representa um acontecimento histórico, já que seria a primeira candidatura, à margem dos partidos, a ter grande visibilidade. E esta subida é conseguida à custa de Cavaco Silva e de Manuel Alegre, que descem subitamente nas intenções de voto, o que significa que a crise penalizou estes dois candidatos e que o caso BPN/SLN afectou directamente Cavaco e indirectamente Alegre, por recorrência, presume-se, às trapalhadas do seu camarada primeiro ministro. E agora, a dois dias das eleições, coloca-se a dúvida se Cavaco Silva não será obrigado a ir a votos numa segunda volta. E, neste caso, o seu segundo mandato poderá fugir-lhe das mãos, já que irá gerar-se uma nova dinâmica no eleitorado de esquerda, à volta do candidato que o escrutínio do dia 23 de Janeiro determinar. Assim seja...

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