domingo, 16 de janeiro de 2011

Um Poema ao Acaso: Arte de amar - Ovídio *

Falei-vos dos horrores
que as mulheres provocaram
com seus loucos amores.
A paixão feminina é mais ardente
e mais impetuosa do que a nossa.
Porque esperas, ó homem? Não duvides
que todas as mulheres terás rendidas.
Em mil, haverá uma
que resistir-te possa.
Quer cedam, quer resistam
Gostam sempre de ser solicitadas.
Ainda que tu falhes
não corres perigo, pois não perdes nada.
Mas não temas sequer ser derrotado.
O prazer que nos traz uma nova volúpia
é sempre festejado
e pelas coisas alheias
mais que pelas próprias somos atraídos.
Sempre achamos mais fértil a seara
do campo do vizinho
e o seu gado tem sempre as tetas mais inchadas.

Ovídio, Arte de Amar (tradução de Natália Correia e de David Mourão-Ferreira)
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* Ovídio (Publius Ovidius Naso, n. 43 A.C, m. 18 D.C.) foi um dos mais importantes poetas latinos da Antiguidade Clássica e, juntamente com Virgílio e Horácio, é considerado um dos três poetas canónicos da cultura ocidental, tendo sido muito lido na Alta Idade Média e exercido uma grande influência em Dante e Shakespeare.
A Arte de Amar ("Ars Amatoria") é uma obra composta por três livros, que tratam do amor e da sedução. O primeiro refere-se ao tema como conquistar o coração das mulheres, o segundo, como manter a mulher amada, e, o último, dirigido às mulheres, ensina-as como atrair os homens. Teria sido a publicação deste poema que determinou o seu banimento de Roma, por parte do imperador Augusto, já que o poema celebrava as relações extraconjugais e afrontava os valores morais e os valores da família, promovidos pelo regime. Ovídio foi condenado a um longo exílio, não tendo nunca mais regressado a Roma.
As suas elegias reflectem muito as suas vivências pessoais, o seu eu, além de retratarem com fidelidade a mentalidade da Roma Antiga em relação às coisas do amor, que os romanos, posteriormente, extremaram até ao limite superior da luxúria. Para os romanos, amar não era pecado.
AC