quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Morreu Malangatana





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Um Poema de Malangatana

A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;
O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana Muhlonga
apitava o Kulungwana mortal;
Na noite sem estrelas
dois gatos pretos iluminaram
a cabana da Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.
Eu lutando comigo só
é impossível vencer as ondas
que feitiçeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores.

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Malangatana. o Picasso africano, deixou-nos uma obra pictórica invulgar. Nasceu pobre e conheceu a humilhação do homem colonizado, mas foram precisamente dois colonos inteligentes e cultos que lhe deram a mão, ainda ele era um adolescente. A sua primera exposição individual na antiga Lourenço Marques foi um sucesso. Mas isso não impediu a sua prisão pela PIDE, por suspeita da sua ligação à FRELIMO. Foi libertado passados 18 meses, devido à impossibilidade de se poder avançar com uma acusação fundamentada, por falta de provas.
Verdadeiro autodidacta, soube incorporar tudo aquilo que veio a aprender em Portugal e no mundo. De Moçambique trouxe agarrado ao pincel a memória da sua infância. Os seus quadros reflectem as vivências da sua aldeia, nas cores e nas formas das personagens que retratou. Maioritariamente, os seus quadros privilegiam o grupo, que aparece unido com se fosse um corpo único, e onde sobressaiem, a traço grosso e a negro, as arcadas supraciliares, os olhos fundos e brilhantes e os lábios pronunciados de homens e mulhers, animados por um movimento colectivo que se advinha. A cubata, os feitiços, os amuletos, os falos, as lendas da selva, o batuque e as cores intensas de África são uma constante no obra de Malangatana, que teve o privilégio de ver reconhecido em vida o seu enorme talento.
Morreu um grande pintor, morreu um amigo do povo português.