sábado, 8 de janeiro de 2011

Notas do meu rodapé: Keynes não está morto nem vivo...Está congelado...

Muerte y resurrección de Keynes
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Amabilidade do João Grazina, que enviou este vídeo
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O modelo da demanda da teoria keynesiana enquadrou correctamente um ciclo económico, historicamente datado, e correspondente a um determinado estadio da economia mundial, dominado pelo sector industrial, que era o verdadeiro motor do crescimento económico. Aplicá-lo, sem revisão crítica, ao momento actual, caracterizado pelo incontestável domínio do capital financeiro e pela consequente deriva neoliberal, que apostou na progressiva desindustrialização dos países desenvolvidos, na aventura especulativa do mercado bolsista e no inflacionamento do mercado do crédito bancário, não abona em relação ao rigor científico que a ciência económica reclama. A natureza do capitalismo mantém-se inalterada, mas os parâmetros do seu perfil sofreram modificações, desequilibrando os diversos factores que influenciavam o binómio inflação/desemprego. É a mesma coisa de pretender explicar o funcionamento e a operacionalização de um telemóvel da última geração, tomando por modelo um antiquado telefone fixo analógico. Ambos permitem transmitir a voz à distância, mas são profundamente diferentes no modo de transmissão do sinal e nas suas funcionalidades.
Na fase do capitalismo industrial, os capitais gerados pelos lucros ou eram reinvestidos em novos projectos industriais ou eram canalizados para a poupança, maioritariamente com residência no países de origem, já que, à época, ainda não se falava na livre circulação de capitais. Com essa poupança, os bancos financiavam, com os seus empréstimos, novos empreendimentos, que eram geradores de emprego e induziam, por essa via, o consumo interno e as exportações. Mas como, em economia, as coisas não crescem indefinidamente, tinha de chegar o momento da saturação, com as taxas de lucro das empresas a descerem paulatinamente. Os industriais, então, pretendendo valorizar os seus capitais, provenientes dos lucros, começaram a investir progressivamente nos mercados de capitais, que, perante a avalanche de dinheiro, deram ínicio à fase do crédito especulativo, ao valorizarem artificialmente os respectivos activos e a aumentarem a procura dos paraísos fiscais, prejudicando a economia real. Por outro lado, para maximizar os lucros, os industriais deslocalizaram as suas unidades de produção para os países de mão de obra barata. Houve, pois, nesses países,uma diminuição do investimento e aumento de desemprego, variações estas que se acentuaram com o rebentamento da bolha imobiliária, o que encaixa no modelo keynesiano, embora aqui com uma nova causa desencadeante: a deslocalização das indústrias e a especulação bolsista, que Keynes não podia prever. E a este nível, os governos nada fizeram (ou fizeram mal) para evitar o deslizamento no plano inclinado da crise, submetidos que se encontram aos interesses do capital financeiro, que apoiaram com o dinheiro dos contribuintes.
Em relação à Europa, e aqui o professor Julián Pavón explicou bem o fenómeno, acresce o problema da impossibilidade de cada país da zona euro, poder manipular as taxas de câmbio, para fomentar as exportações, e poder estipular as suas taxas de juro, para promover investimento, poderes estes que estão confiados ao BCE. Por isso, a UE só tem duas alternativas, ambas péssimas: ou caminha para uma solução mais federalista, assumindo a responsabilidade orçamental para toda a zona do euro, ficando o orçamento de cada país, em cada uma das suas rubricas, dependente do que lhe for atribuído por Bruxelas, ou terá de expulsar os países que não conseguirem sair do ciclo vicioso da dívida soberana, o que é o mais provável. Já aqui foi dito que nenhuma moeda pode sobreviver se a mesma entidade que a emite não tiver também o controlo instrumental sobre o orçamento e sobre a fiscalidade. E é a este nível que se encontra a grande debilidade da moeda única.
Outra hipótese, mas à qual a Alemanha, a verdadeira senhora da Europa, obstinadamente se opõe, seria a desvalorização do euro, para ajudar os países da periferia.
Alexandre de Castro