quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: A vida desalmada de Jorge Burriços


Jorge Burriços, olhos vidrados pelo efeito dos dois bagaços bebidos, logo de manhã, no café da praça, aguarda pacientemente o seu lugar na longa fila de espera para marcar uma consulta encomendada no centro de saúde de Sacavém. Ocupa o meio de fila, o que indicia ter chegado por volta das seis horas da manhã, e aguarda pacientemente que um diligente funcionário franqueie a porta às mais de oitenta pessoas que ordenadamente marcam a sua posição de chegada através de uma senha de presença.
Mas, Jorge Burriços, mal alcança a almejada senha, esgueira-se pela porta e vai direitinho entregá-la a casa do cliente que lhe encomendou aquele serviço. Cobra cinco euros pelo incómodo da chuva, do vento, do frio e do tempo de espera. Desta vez até tirou duas senhas, recorrendo a um hábil estratagema, e este serviço vai render-lhe 10 euros para gastar no festival de álcool a que se entrega diariamente. “Apanho duas bebedeiras por dia”, afirmou convicto, assumindo a sua relação viciada com o álcool, embora por vezes o dissimule num pacote de leite.
Foi por causa do álcool que desfez o seu casamento, engendrado pela tia que o criou, e “que o queria ver arrumado e com juízo antes de morrer”. No meio de mais uma embriaguez que lhe atiçou a coragem, disse à mulher, num rompante, para se ir embora com o filho e a filha, pois a vida para ele “resumia-se ao álcool e às putas”. Deu-lhe dinheiro suficiente para comprar um andar, acordou uma pensão, e, Jorge Burrico, ficou com a vida livre para se entregar à boémia, na qual esbanjou perdulariamente a choruda herança de seu pai, que esteve cativa nas mãos da sua tia-tutora até à sua maioridade. Sucessivamente, à medida que o vício progredia e requeria mais requinte, aumentava a voragem da delapidação dos bens herdados. E nessa vertigem, desfez-se do estabelecimento do pai, onde se teceu parte da fortuna, e de cinco andares de habitação. “Só não vendo um andar”, afirma, lançando um desafio à curiosidade do interlocutor, através daquele olhar vesgo. E responde, mal reprimindo o gozo de lhe adivinharem uma réstia de submissão aos princípios da boa gestão de bens patrimoniais: “Só não vendo o andar das minhas pernas”.
E é entre mais dois golos de bagaço, “para aquecer, que a manhã está fria”, que confessa o estratagema do negócio das senhas de marcação de consultas médicas no centro de saúde, negócio este que não iguala em subtileza a venda da sua carta de condução e do seu bilhete de identidade a um cigano, que queria ser cidadão encartado, ou a plena assumpção do papel de testemunha perante o Registo Civil de um casamento de conveniência, para efeitos de aquisição de nacionalidade, entre um indiano e uma portuguesa.
E se lhe apontam o comportamento incorrecto dos seus estratagemas, incluindo o da marcação de consultas no centro de saúde ou a venda aos restaurantes de embalagens de leite e de carne, à beira da expiração do respectivo prazo de validade, recolhidas nos contentores de um grande hipermercado de Sacavém, responde serenamente que ao longo da sua vida também já teve muitos actos de generosidade para com o seu semelhante. E no meio dos vapores de mais outro bagaço, este emborcado num travo, recorda a oferta de 100 contos, há mais de 20 anos, a uma prostituta do Intendente, que lhe confessara no meio do fogo dos amores comprados, “ter-se metido na vida” para amealhar algum dinheiro “para uma operação aos olhos do filho, em Espanha”.
E quando Jorge Burriços se atrevia a descrever a saga de uma louca paixão por uma linda cigana, com quem fugiu, e a consequente perseguição, com intuitos vingativos, que lhe foi movida pelos familiares desonrados, que não admitiam casamentos fora do clã, a voz da dona do café avisou: “Jorge, amanhã vais marcar-me uma consulta ao centro”.
Com o negócio selado para o dia seguinte, Jorge Burriços, atravessou a praça com destino ao mercado, onde os seus amigos ciganos lhe garantem “alguns biscates”.
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Este texto, publicado no jornal A Capital, em 25 de Janeiro de 2003, constituiu um nota à margem de uma reportagem no centro de saúde de Sacavém, onde procurei retratar, tal como fiz nos centros de saúde de Sintra e de Paço d'Arcos, o emergente problema da falta de médicos de família nas zonas limítrofes de Lisboa, o que obrigava os utentes a marcar posição muito cedo para se inscreverem na consulta do médico de turno. Testemunhei o sofrimento de idosos doentes à espera da sua vez, numa fila interminável, sofrendo resignadamente na pele as inclemências da invernia, que era o preço que tinham de pagar para usufruirem de um direito que a Constituição da República lhes outorgou. Fui o primeiro jornalista a levantar o assunto na comunicação social, mas as minhas reportagens não comoveram os poderes instituídos. Hoje, em 2011, a falta de médicos de família constitui a maior entorse do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.