terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Notas do meu rodapé: Manuel Alegre, uma candidatura a meio gás...


Embora os três elementos da direcção da campanha (o socialista Duarte Cordeiro, director de campanha, Jorge Costa, deputado bloquista, e Francisco César, deputado do PS) tenham bastante experiência na coordenação deste género de acções, falta-lhes a máquina partidária socialista, que, por ora, foi apenas notória em Castelo Branco, no comício com José Sócrates. No dia seguinte, voltou tudo ao mesmo, apesar dos evidentes esforços do núcleo duro para acelerar o ritmo e dos apelos, feitos pelo próprio Manuel Alegre, mas também por José Sócrates, Augusto Santos Silva e Francisco Assis, para uma maior mobilização.
PÚBLICO (15.01.11)
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Na minha nota de rodapé de 30 de Maio de 2010, escrevi:
"Em 17 Fevereiro, o Diário Notícias anunciava a candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Dois dias depois, o próprio Fernando Nobre anunciava-a ao país, em cerimónia pública. Nesse próprio dia, e sem possuir qualquer informação privilegiada, publiquei aqui a minha opinião sobre o significado desta candidatura, que apanhou de surpresa toda a gente. Sinalizei a oculta presença de Mário Soares, como principal inspirador da ideia, e que teria contado com o apoio tácito de Sócrates. Não me enganei no meu prognóstico. E não me enganei, porque sabia que, quer Mário Soares, quer José Sócrates, nunca perdoam aos seus inimigos. E Manuel Alegre é o inimigo de estimação de ambos".
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Em 26 maio, o PÚBLICO noticia:
"Mário Soares promete fidelidade ao Partido Socialista, invoca o estatuto de militante nº 1, mas na questão das presidenciais decide pela sua “consciência” e não apoiará Manuel Alegre".
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Em 31 de Agosto, o PÚBLICO, refere uma declaração de Marcelo Ribeiro de Sousa:
"Marcelo Rebelo de Sousa acha que Manuel Alegre e José Sócrates não se entenderam politicamente e que, por isso, o líder do PS "deseja que Manuel Alegre perca as eleições e por muitos para não ser um problema" no futuro.
O ex-líder do PSD diz ser difícil encontrar "um apoio tão tardio, tão relutante, tão pedido como aquele que José Sócrates deu a Manuel Alegre". "Devia ter sido o primeiro apoio, antes do BE – que eu saiba Manuel Alegre é militante do PS, não é do BE. Chegou tarde e agora é o silêncio"...
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A uma semana das eleições presidenciais, estas citações continuam a ter uma actualidade chocante. Em termos organizacionais, Manuel Alegre tem um partido muito interessado no êxito da sua candidatura, o Bloco de Esquerda, mas que não possui uma estrutura organizativa suficiente para dinamizar a campanha, e um partido que tem essa estrutura, o Partido Socialista, mas que, na prática, não lhe proporciona o apoio logístico necessário, nem lhe mobiliza os militantes das distritais.
O comício de Castelo-Branco foi uma excepção, e a presença de José Sócrates, apenas funcionou para não dar pretexto a que o venham a acusar de não estar interessado na vitória de Alegre. A jornada de Coimbra, que foi entusiástica, era o mínimo que se podia exigir aos conimbricenses na recepção a um candidato da "terra".
Tudo isto não acontece por acaso. Na sua base, encontram-se as contradições na essência da própria candidatura, que dificilmente poderá conviver com o antagonismo dos principais dirigentes dos partidos que a apoiam. Seria impensável ver juntos num comício Sócrates e Louçã, e muito menos abraçados, ou a baterem palmas, reciprocamente, ao discurso de cada um. Com isto, não quero dizer que os militantes do PS e do BE não venham a votar no candidato poeta.
Mas o golpe mortal desferido a Manuel Alegre veio do interior do Partido Socialista. Além de Sócrates, que disfarçou bem a sua animosidade ao candidato natural do partido, apareceu a velha raposa da política nacional, Mário Soares, a inspirar a candidatura de Fernando Nobre, desforrando-se, assim, da afronta sofrida nas anteriores eleições presidenciais, em que Manuel Alegre, através da solidez de uma candidatura pujante e verdadeiramente independente, lhe estrangulou a ambição de voltar a sentar-se na cadeira presidencial do palácio de Belém. Os votos do próximo Domingo no candidato patrocionado por Soares, por poucos que venham a ser, vão fazer falta a Manuel Alegre.
Por isso, eu digo que Manuel Alegre deu um tiro no pé ao abandonar a plataforma organizativa de apoiantes, que lhe proporcionaram a obtenção de um resultado brilhante nas anteriores eleições presidenciais. Aí, ele poderia assumir por inteiro a sua rebeldia e ganhar o estatuto pleno de independência, encabeçando uma mobilizadora onda de protesto contra a política neoliberal dos dirigentes do seu próprio partido, que, pelos vistos, agora, já andam a vender o país aos árabes. Assim, vai ser Cavaco Silva a tentar capitalizar o descontentamento popular, o que é paradoxal e escandaloso.