domingo, 2 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: Homenagem a João Abel Manta


João Abel Manta – um percurso de arte e de intervenção
João Abel Manta nasceu em Lisboa em 29 de Janeiro de 1928. Filho de pintores – Abel Manta e Maria Clementina Carneiro de Moura – a sua infância e adolescência foram indelevelmente marcadas pelas influências culturais, artísticas e políticas de seus pais. Na juventude, J. Abel Manta teve a oportunidade, rara para um jovem daquela época, de viajar pela Europa culta, visitando a Espanha, França, Itália e os Países-Baixos, onde, sob a orientação dos pais, conheceu as grandes obras de pintura e de escultura da Antiguidade Clássica e da Renascença, e que vieram a moldar a sua formação.
Entretanto, concluiu, em 1951, o seu curso de Arquitectura, na Escola de Belas Artes de Lisboa.
Mas foi no desenho que J. Abel Manta se destacou, aliando a sua formação plástica, à sua cultura e à sua intervenção política. Já nos anos quarenta, ficou célebre o seu desenho caricatural de um grupo de intelectuais, ao qual pertenciam Lopes Graça, Manuel Mendes e o seu próprio pai, que ele por vezes acompanhava, e que se reuniam em tertúlia no Café Martinho e na Brasileira do Chiado. O grupo é retratado como uma banda de música, sob a batuta de Lopes Graça. É também nessas tertúlias que J. Abel Manta, com a sua potencial irreverência, desperta para a política e começa a empenhar-se em acções contra a ditadura do Estado Novo, acabando também por sofrer a repressão impiedosa da PIDE, que o manteve preso, durante alguns meses, em 1958.
As influências artísticas são múltiplas, mas J. Abel Manta construiu o seu próprio estilo, quer no desenho, quer na ilustração e nos célebres cartoons.
Ganhou, em 1961, o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, e, em 1965, na cidade de Leipzig, conquistou a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas. Para além destes certames, esteve presente na II Bienal de São Paulo, nas mostras internacionais Di Bianco e Nero, em Lugano, assim como nas exposições internacionais de Tóquio e Medellin – Colômbia. Expôs também individualmente em Londres, no I.C.A.
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OS TRÊS PILARES DO REGIME
A obra pictórica de João Abel Manta agarra toda a tragédia de um país que viveu uma feroz e castradora ditadura e que acabou por desembocar numa madrugada redentora, para reinventar a sua identidade. Atento, culto, perspicaz, J. Abel Manta faz de cada traço das suas caricaturas e dos seus desenhos uma metáfora das contradições de uma sociedade amarrada aos seus fantasmas, aos seus medos e às suas glórias passadas. Daí a sua opção pelo risco negro, pela deformação das formas anatómicas, a carregarem um cenário de pesadelo e de angústia, inserido em atmosferas lúgubres. E é desse cenário fantasmagórico que as personagens retratadas ganham vida e significado, conduzindo o observador ao pensamento crítico pretendido.
As caricaturas magistrais de Salazar, sempre de casaca preta e de nariz pronunciadamente adunco, como se tratasse de uma ave nocturna agoirenta, apresentam-no tal como ele era na realidade – um misterioso solitário, que governava sozinho, bajulado pelos poderes que o apoiavam, mas que ele próprio displicentemente desprezava. Veja-se como J. Abel Manta coloca Salazar a virar as costas aos acólitos dos três pilares do regime – as Forças Armadas, o clero, e os banqueiros – nos três cartoons que, no seu conjunto, constituem um tríptico notável, onde também sobressai, como J. Abel Manta queria dizer, a ordenada subserviência dessas teatrais personagens, ali bem enfileiradas e disciplinadas, em ordeira e solene sessão de vassalagem.
Numa penada, foi feita, para uma leitura imediata, uma caracterização perfeita do Estado Novo, onde também se manifesta, em toda a sua pujança, o subtil e corrosivo humor de J. Abel Manta.
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João Abel Manta e a revolução
João Abel Manta foi um militante anti-fascista e, como todos os democratas, recebeu com alegria e de braços abertos a revolução de Abril. No entanto, esse entusiasmo não obnubilou a sua aguda percepção da nova realidade em movimento, nem a sua perspicaz capacidade crítica, perante as contradições inerentes ao processo revolucionário. Manteve-se fiel a tudo o que se exige de um cartoonista, libertando numa gargalhada o ridículo de tudo aquilo que, sendo verdade, também era caricato. Não cedeu a tentações laudatórias, nem abdicou de fazer valer a inteligência do seu traço.O cartoon em que os notáveis do marxismo-leninismo internacional, em magote, olham com um ar muito sério para um ecrã, onde figura solitariamente o mapa de Portugal, exprime bem a subtileza do seu humor. Salta à vista a perplexidade daqueles marxistas-leninistas que não sabem o que fazer deste pequeno país que fez uma revolução. Sabendo-se que a União Soviética não estaria interessada em fazer de Portugal uma nova Cuba, a mensagem ganha a sua verdadeira actualidade satírica. O mesmo se poderá dizer do cartoon dedicado às campanhas de dinamização cultural do MFA, em que um povo analfabeto recebe de barrete na mão a elite cultural europeia de todo o século XX. A picardia está lá. A João Abel Manta não escapou a ingenuidade romântica da iniciativa, e caricaturou-a com mestria.
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Nota: Estes textos foram escritos, a pedido da minha amiga, a médica Drª Pilar Vicente, para figurarem nos painéis com as caricaturas da autoria de João Abel Manta, numa exposição em homenagem a este grande artista plástico, realizada no Hospital de S. José, em Lisboa, e integrada nas comemorações do 25 de Abril, em 2009.

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