domingo, 8 de maio de 2011

Notas do meu rodapé: Uma capitulação humilhante perante a ditadura económica da União Europeia

A Porta da Traição
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Já referi neste espaço, por várias vezes, que o euro é um gigante com pés de barro, pois falta à entidade que o administra, o BCE, o pilar da soberania orçamental sobre o espaço económico onde ele circula. Para gerir o curso de uma moeda, é necessário concentrar o poder das políticas cambiais, monetárias e orçamentais. O euro é, pois, uma moeda coxa.
Também já referi que a adesão de Portugal ao euro foi um erro estratégico de enormes proporções, constituindo-se na principal causa do caos em que o país mergulhou, além daquela que resultou da endémica indisciplina e incompetência dos sucessivos governos e da ausência de empresários que tivessem assumido o risco controlado, não se deixando, contudo, de assinalar a crítica à própria sociedade, que não pode ficar isenta das suas próprias culpas.
Também já aqui anotei que a melhor solução para sair da actual crise seria abandonar voluntariamente a moeda única e regressar ao escudo, já que é impossível, com uma moeda forte e muito valorizada, recuperar a economia, através do aumento das exportações e da diminuição das importações. A renegociação da dívida e a sua reestruturação em termos de maturidade, amortização e taxas de juro, seria obrigatória, única forma dos credores recuperarem parte o dinheiro que emprestaram a Portugal, quando a economia viesse a apresentar saldos positivos na sua balança comercial e na sua balança de pagamentos, e saindo-se assim daquele círculo vicioso, em que o país tem andado até aqui, de contrair novas dívidas para saldar dívidas antigas, e com juros insuportáveis, cada vez mais elevados.
A assassina política dos PEC e, agora, o inconcebível memorando de entendimento da troika (UE-FMI-BCE), ao fixarem-se obsessivamente na urgente necessidade de corrigir o défice orçamental, num prazo muito curto, estão a contrariar a racionalidade da ciência económica, que aconselha a adoptar, desde que os governos tenham uma postura honesta, o que não é o caso de Portugal, uma política orçamental menos restritiva em tempo de crise e que, posteriormente, para diminuir o défice e pagar a dívida, se aproveite em pleno os resultados do crescimento económico.
O enorme falhanço da ajuda da UE-FMI-BCE à Grécia, cuja economia, ao contrário das previsões dos tecnocratas daquelas três instituições, cada vez se afunda mais, mostra à saciedade a razoabilidade do quadro aqui traçado.
Outro aspecto que não tem sido valorizado pelos responsáveis políticos e pelos economistas encartados do sistema é a própria crise da União Europeia, cujos gravosos custos para a tentar superar, os dirigentes dos países mais fortes pretendem transferir para os países da periferia. Se o governo português andou estes anos todos a governar em função do défice, enganando-se a si próprio (?) e enganando os portugueses, os dirigentes europeus apenas estão focalizados em querer proteger os seus bancos da ameaça de incumprimento de um dos países da periferia. Eles sabem que, se um deles (Portugal, Grécia, Irlanda) sucumbir perante o peso descomunal das medidas de austeridade, que estão a ser injustamente impostas, será a própria UE e entrar em crise com a derrocada do euro. E nenhum dos governos destes três países, porque são constituídos por políticos enfeudados ao sistema, jogou com o peso demolidor deste argumento, junto dos dirigentes europeus, durante as negociações dos planos de emergência da ajuda financeira.
Por fim, deixo uma nota final, cujo conteúdo já aqui abordei. Entendo que o eufemísticamente chamado memorando de entendimento da troika consubstancia um exercício perverso do mais genuíno vandalismo de que é capaz o capitalismo financeiro internacional, tal é o tamanho da desgraça e do cataclismo social que vai desencadear, ao mesmo tempo que classifico a sua entusiástica aceitação pelos dirigentes dos partidos do poder (PS-PSD-CDS) como uma humilhante e vergonhosa capitulação, cuja moldura enquadra a prática de um acto de alta traição à Pátria.
Alexandre de Castro
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Contributos a favor da minha tese
1-A saída do euro
“… socorro-me do parecer emitido pelos economistas ... do Centre for Economics and Business Research (Centro para a Investigação Económica e Empresarial), uma entidade independente, convidada pelo governo da Grécia, em Abril do ano passado, para se pronunciar sobre a crise grega, então no seu auge. Estes economistas, contrariando o pensamento político-económico dominante, que defende o establishment, recorreram a um argumento simples e objectivo, que não é difícil de entender pelas pessoas que apenas tenham conhecimentos rudimentares de economia, o que é o meu caso.
Perante as duras medidas de austeridade, impostas ao povo grego, centradas na obsessão da correcção do défice orçamental, aumentando as receitas, através do aumento dos impostos, e reduzindo as despesas, forçando a diminuição dos salários, aqueles economistas alertaram que essas medidas iriam estrangular a economia durante muitos anos, por via da redução do poder de compra e do consumo interno, ao mesmo tempo que, com uma moeda muito valorizada, como é o euro, seria difícil expandir as exportações, a um nível que permitisse um saldo positivo na balança de transacções correntes, com que se pagasse as dívidas contraídas”.
Alexandre de Castro
Alpendre da Lua- Notas do meu rodapé de 17 de Abril de 2011
http://alpendredalua.blogspot.com/2011/04/notas-do-meu-rodape-justificacao-para.html
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2- O défice e a dívida
Amartya Sen (prémio Nobel das Ciências Económicas em 1998) : a Europa "devia esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública"
"Há uma visão a nível europeu de que não só a dívida pública deve ser eliminada - ou, pelo menos, reduzida drasticamente -, mas também que isso deve ser feito imediatamente. É muito difícil para cada país afastar-se desta visão europeia geral, até porque os mercados estão a pedir isso. Os países não terão, por isso, grande possibilidade de escolha. Mas esta ideia [de austeridade] não é inteiramente correcta. As reduções de défices gigantes que ocorreram no passado, como por exemplo a dívida contraída por vários países europeus junto da América durante a Segunda Guerra Mundial, foram possíveis apenas numa situação de grande crescimento económico, que é sempre uma altura propícia à redução da dívida. Do mesmo modo, quando Bill Clinton se tornou Presidente dos EUA, o país estava com um elevado nível de dívida e, quando ele deixou de ser Presidente, já não tinha, o que se deveu a um  crescimento económico elevado...
... Um dos problemas que fazem com que, agora, o corte da dívida seja tão severo é que vai levar à redução do crescimento económico. E isso torna muito difícil amortizar a dívida. Por isso, como economista, acho que é preciso que os Governos ajam de uma forma mais cuidadosa e não apenas nervosamente devido à dimensão da dívida. Deviam esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública. A economia não é apenas a política certa, é também o tempo certo para aplicar aquela política.
... Muitos destes programas de austeridade têm um impacto negativo no crescimento económico e no nível de confiança da economia".
Entrevista  a Amartya Sen- PÚBLICO de 16 de Março de 2011

Nota: Embora, os dirigentes da União Europeia tenham desmentido o facto, o que é certo é que a imprensa internacional noticiou ontem a hipótese da saída da Grécia do Eurogrupo já se encontrar em cima da mesa. Seria aconselhável que os dirigentes políticos portugueses dos partidos do arco da traição deixassem de ser macaquinhos de imitação e estudassem melhor o que está a passar-se na Grécia.