quinta-feira, 26 de maio de 2011

Conto: A ÚLTIMA FISCALIZAÇÃO - Gonçalo M. Tavares


A ÚLTIMA FISCALIZAÇÃO
O senhor Cortázar cruzou-se com um inspector fiscal.
Estranhamente, a primeira pergunta deste não visou questões de impostos. A primeira pergunta do inspector fiscal, com um sorriso, foi, simplesmente:
– Tem horas, senhor?
O senhor Cortázar não se iludiu com a simpatia aparente e com a pergunta pacífica.
Afastara um pouco para trás o punho da camisa e preparava-se para dizer as horas quando foi interrompido por um seco, mas não antipático:
– Passe o relógio para cá.
O senhor Cortázar, sem resistir, abriu a fivela do relógio e entregou-lhe, como pensava naquele momento, as horas todas. Que fique com elas para sempre, o maldito, pensou, então, o senhor Cortázar.
O inspector fiscal sorria ao de leve enquanto guardava o relógio no bolso.
Depois, perguntou de novo, com um tom suave demais:
– Tem pressa?
O senhor Cortázar respondeu que sim, alguma.
– Dê-me os seus sapatos - murmurou o inspector fiscal.
O senhor Cortázar dobrou-se um pouco, descalçou os sapatos e entregou-os. E o inspector, sem uma palavra, guardou a nova oferta.
– Tem frio?
O senhor Cortázar pensou que o fiscal se referia aos seus pés, agora encostados directamente ao belíssimo chão do país. Mas antes de o senhor Cortázar responder, o inspector fiscal murmurou:
– O seu casaco...
Já não eram necessários verbos, tudo estava claro entre os dois. O senhor Cortázar entregou o casaco que o fiscal de novo guardou na sua mala.
O mesmo se passou com as calças, a camisa, a carteira; enfim, tudo.
Cortázar estava agora nu, sob os olhares críticos e trocistas de quem passava. Aquela era uma vergonha de que jamais se esqueceria.
– Tem arma em casa? - perguntou o inspector fiscal, subitamente.
O senhor Cortázar respondeu que não.
– Sabe manejar uma arma?
O senhor Cortázar não era capaz de mentir:
– Sim - respondeu.
– Pois então... - disse o inspector fiscal, revelando, naquele momento, pela primeira vez, uma voz profunda, melancólica, a voz mais triste que alguma vez fora dada a ouvir ao senhor Cortázar (desde que este era vivo e capaz de ouvir).
- ...Pois então - dissera o triste inspector fiscal ao obediente senhor Cortázar, enquanto lhe passava um objecto reluzente - tome esta arma carregada, senhor Cortázar, e, por favor, com um único tiro, sem falhar, vingue-se.
Gonçalo M. Tavares
In Revista Pessoa

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