segunda-feira, 16 de maio de 2011

Notas do meu rodapé: A difícil militância da esquerda

Francico Louçã
BE defende que tributação sobre "off-shores" evitaria cinco anos de corte nas pensões
O líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, declarou em Espinho que a tributação sobre transferências para paraísos fiscais permitiria ao Governo evitar cinco anos de cortes nas pensões.
“Uma das formas de financiar o resgate para diminuir a dívida é a tributação sobre transferências para paraísos fiscais. No caso das 100 maiores exportadoras portuguesas, 25 delas estão registadas na Madeira, registam 6.000 milhões de euros [de lucros], não criam nenhum emprego e, apesar disso, não pagam os impostos que deviam”, afirmou Louçã, numa acção de campanha em Espinho.
Para o líder do Bloco, o montante de impostos que está em causa corresponderia, “no mínimo, a 1500 milhões de euros, o que são cinco anos do corte das pensões”.
PÚBLICO
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Ao ler esta notícia dei comigo a pensar nos resultados das últimas sondagens eletorais, que apontavam o PS e o PSD como sendo os partidos que mais intenções de votos recolheram, ao mesmo tempo, que me interrogava sobre a percentagem de eleitores que têm a percepção do que significam os off-shores, numa economia de mercado, para que servem, como funcionam e qual a quantidade de dinheiro que movimentam. Julgo que apenas uma pequena minoria de portugueses responderiam correctamente a esta questão. Assim como é uma minoria, o número de portugueses que entenderam, ao lê-lo, a gravidade contida nas medidas restritivas descritas no memorando de entendimento imposto pela troika (UE-FMI-BCE). A própria palavra troika, por ser de grafia e pronúncia tão estranhas ao nosso idioma, é normalmente assumida como significando porta.
E é este o grande problema da esquerda, que não dispõe, em estado permanente, de acesso aos grandes meios de comunicação social, nem tem capacidade financeira para alargar o universo de receptores das suas mensagens. Se fosse possível aos partidos de esquerda (PCP e BE) fazerem entender à maioria dos portugueses a questão dos paraísos ficais, no que concerne à sua verdadeira dimensão e importância , assim como explicar a origem remota e as causas mais próximas da actual crise, o quadro das intenções de voto sofreria uma mudança radical, em nítido prejuízo dos partidos do arco da traição. 
Os partidos da esquerda só podem contar com as suas próprias forças, que assentam na capacidade mobilizadora dos seus militantes. E esse duro trabalho demora a dar frutos. 
Claro que uma crise com esta gigantesca dimensão, de efeitos devastadores no já precário tecido social, vai provocar agitação social e a ocorrência de muitos distúrbios descontrolados, tal como está a acontecer na Grécia, mas que devido ao seu carácter espontâneo e localizado e por não existir o devido enquadramento politico-partidário, normalmente levam ao insucesso, aumentando assim a frustração e o desalento dos participantes.
É por isso que para os partidos da esquerda, e ao contrário dos partidos da direita, que apenas olham para os seus militantes de base e para os seus tradicionais eleitores nos períodos das campanhas eleitorais, têm sempre um trabalho ciclópico, no seu dia a dia, no sentido de informar e mobilizar cada vez mais pessoas. Dizem os revolucionários históricos que é explorando a ocorrência das grandes crises económicas e políticas que as situações amadurecem para se conseguirem as grandes mudanças da História.
http://www.publico.pt/Política/be-defende-que-tributacao-sobre-offshores-evitaria-cinco-anos-de-corte-nas-pensoes_1494261