terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: Todos os caminhos vão dar ao Cairo

ElBaradei pede a Mubarak que saia do Egipto
Milhares de egípcios já se acumulam nas ruas do Cairo, indiferentes ao anúncio de uma mudança de Governo e de abertura do diálogo, no dia em que estão marcadas, para várias cidades, marchas que têm como objectivo simbólico juntar um milhão de manifestantes.
Multidões reúnem-se no centro do Cairo (cerca de 100 mil pessoas, às 12h00 locais), muitos tendo passado a noite na praça Tahrir (da Libertação) em desafio à ordem de recolher obrigatório, exigindo o fim do regime do Presidente, Hosni Mubarak, 82 anos e há já três décadas no poder, num protesto que foi engrossando desde a passada terça-feira contra a pobreza e desemprego, a corrupção e a ausência de representação de vastíssimas fatias da população, em particular dos jovens, cada vez mais numerosos.
PÚBLICO
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Hoje, todos os caminhos já não irão dar a Roma. Vão dar ao Cairo, mais propriamente à Praça Tahrir. O Egipto está a reescrever a sua História e quer entrar na modernidade, tal como o povo tunisino, há umas semanas atrás, e tal como vai acontecer, a seguir, nos países do Magreb e do Médio Oriente, que ainda estão amordaçados por regimes totalitários.
Pode-se até dizer que o futuro desses povos será decidido hoje ou amanhã pelo povo egípcio. Se Hosni Mubarak cair, cairá também o paradigma de toda uma estrutura política e ideológica, construída pelos militares árabes, que fizeram no pós-guerra revoluções vitoriosas contra monarquias corruptas, mas que acabaram por se transformar em ditaduras ferozes, igualmente corruptas.
Esta revolução (a da Tunísia e a do Egipto) é uma revolução feita pelos jovens, que descobriram que a mudança que preconizam exige o afastamento das ditaduras e dos movimentos políticos islâmicos. Os jovens são os verdadeiros catalisadores do que está acontecer no Magreb e no Médio Oriente e, politicamente, já não se revêem nos generais emproados nem na vozearia dos mullahs radicais. .
Os militares egípcios, que detêm realmente o poder, compreenderam esta evidência. De nada lhes valerá destituir Mubarak e substituí-lo por um outro potencial ditador, mantendo a mesma estrutura de poder. Também a Irmandade Muçulmana, a única oposição política, tolerada por Mubarak, foi apanhada de surpresa por este impetuoso e espontâneo movimento popular, nada mais lhe restando do que manifestar-lhe o seu tímido apoio, já que não o poderá liderar. A instauração de um regime democrático é a única alternativa.
O eco longínquo da revolução dos cravos parece ter chegado ao Cairo.

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