domingo, 27 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: A Geração à Rasca à procura da sua identidade

João, Alexandre e Paula
Fotografia do PÚBLICO
Um desempregado, um bolseiro e uma estagiária inventaram o Protesto da Geração à Rasca
João, Paula e Alexandre formaram-se em Coimbra e passaram por associações de estudantes. Dois desencantaram-se com os partidos a que pertenciam.
Os jornais e as televisões acompanham o fenómeno. Em menos de três semanas, milhares fizeram saber que pretendem aderir ao Protesto da Geração à Rasca (ontem eram mais de 27 mil). Sem que tenha sido gasto um tostão para promovê-lo. "Acho que é uma coisa completamente nova o que está a acontecer", diz João. "Nós, desempregados, "quinhentos-euristas" e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Protestamos" - assim começa o manifesto colocado online.
PÚBLICO
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Com o seu instinto de animal político, José Sócrates, talvez com os olhos postos no Egipto e na Tunísia, apercebeu-se rapidamente que a manifestação marcada par 12 de Março e promovida e mobilizada por três jovens, através da rede do Facebook, não poderia ser ignorada ao nível dos seus efeitos políticos, que prometem ser devastadores para a credebilidade do governo. Não podia seguir o caminho da afronta, não podia fabricar nenhum alibi sobre o acarinhado tema da perseguição pessoal, não podia dizer que tudo aquilo era obra dos jornalistas, que o perseguiam, não podia acusar de maniqueísmo os partidos da oposição, e não poderia vir a desvalorizar a manifestação, como costuma fazer em relação às manifestações da CGTP, se ela vier a constituir-se no grande acontecimento político do ano. Daí, ter avançado, na sessão quinzenal da Assembleia da República com o governo, com aquela tirada dos 50 mil estágios remunerados, ao mesmo tempo que atirava a cenoura, prometendo a integração desses estagiários na Segurança Social para efeitos contributivos e de contagem de tempo de serviço.
Tal como aconteceu com Mubarak, Khadafi e Ben Ali, José Sócrates não acordou a tempo para apagar o fogo que ele ateou no caldeirão da sociedade. Os jovens agradecem as migalhas, mas não vão deixar enganar-se com a desgastada demagogia de um primeiro-ministro, que, habituado, perante uma opinião pública acomodatícia, a transformar, com relativo êxito, os revezes em sucessos e as derrotas em vitórias, julgaria provocar um efeito desmobilizador com as suas promessas. Julgo que tiveram um efeito complatamente contrário. Os jovens, a maioria sem ideologia e sem convicções políticas, já perceberam que estão a lidar com um homem que não dá o que promete, que promete o que não pode dar e que por vezes a promessa conduz ao seu contrário.
Através do Facebook, os jovens perceberam que não estão sozinhos. Descobriram que a angústia e o desespero de não terem emprego ou ou apenas terem empregos precários, sem direitos, não era um problema isolado de cada um deles, mas que se alargava a toda uma geração, e que era estrutural. Foi o suficiente para cada um deles, isoladamente, ganhar força e confiança no movimento que está a nascer, e que, possivelmente, não irá esgotar-se ao final da tarde do dia 12 de Março.
Afinal de contas, o 25 de Abril também nasceu de um grupo de jovens, estes militares, que também não sabiam nada de política, mas que derrubaram um odioso regime, que se julgava eterno.