quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: É preciso ouvir a Geração à Rasca

Protesto da Geração "À Rasca"
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Acolhi com muita reserva a informação de um amigo, a dizer-me que, através do Facebook, circulava uma convocatória para duas grandes manifestações, a realizar simultâneamente em Lisboa e no Porto. Embora o quadro reivindicativo me parecesse justo, não pude deixar de criticar a ausência da indicação do respectivo remetente. Como os promotores de tal iniciativa não apareciam identificados, as minhas dúvidas sobre a justeza da iniciativa eram grandes, o que me levou a ignorar o assunto.
No entanto, o Expresso divulgou um vídeo, onde os promotores aparecem a dar a cara. A minha opinião mudou. A avaliar pelo seu discurso, trata-se de jovens bem formados, que representam uma geração a quem está a ser negado o futuro, e que já perderam a esperança nos partidos clássicos, à direita e à esquerda. Na realidade, o actual regime, já esclerosado, não consegue tirar o país da grande crise, que, os dois partidos, com responsabilidades governamentais, não conseguiram prever, não souberam resolver, nem serão capazes de ultrapassar, tais são as contradições a percorrer todo o sistema político, em que já só os políticos acreditam. O povo já não os ouve, e estes jovens resolverem avançar para uma manifestação, sem espartilhos partidários, embora honestamente confessem que não são contra os partidos.
É claro que não será esta manifestação que irá mudar imediatamente as coisas. Mas a sua importância reside no facto de darem a saber que o actual regime já não poderá contar com eles. Isto vem dar razão à minha tese do esgotamento do actual sistema político, que não irá sobreviver por muito tempo, tal como já referi neste espaço. E a ruptura vai ser feita por estes jovens deserdados e frustrados, que vão romper o ciclo geracional, que era indispensável para a sobrevivência do regime, e até, a do país.
Mas os jovens têm razão. Têm razão, porque foram enganados. Os partidos, os políticos e os governantes não podem queixar-se, nem poderão assobiar para o ar, e, muito menos, acusá-los de irresponsabilidade ou de divisionismo, e de outras coisas mais. O Médio Oriente está a demonstrar às sociedades ocidentais o que representa o descontentamento dos jovens. Alguma coisa vai mudar, embora ninguém saiba o quê. Há dias, num dos meus artigos, citei um sociólogo eminente, que afirmou, há uns anos atrás, que a revolução do futuro seria feita pelos jovens descontestes e marginalizados pelo sistema e não pelos partidos clássicos, nem pelas classes médias. Ele tinha razão.
No próximo dia 12 de Março, o país vai assistir às primeiras manifestações de massas, organizadas fora do âmbito partidário ou sindical. Não é uma manifestação espontânea e avulsa. A organização é uma réplica das grandes manifestações do Egipto, que se serviu da rede do Facebook e conseguiu fazer cair um velho ditador. O eixo estruturante da mobilização é o apelo ao protesto dos jovens e de todos aqueles que o sistema está a excluir da sociedade. A manifestação não tem lugares marcados, nem obedece a nenhuma ritualização. É uma novidade. Se redundar num fracasso, fica sinalizado o secular sentimento de resignação do povo português, o que irá dar mais força ao obsoleto sistema político, que continuará a actuar com total impunidade e confiando na presunção que a História não os julgará. Se a manifestação arrastar multidões, a situação tornar-se-á imprevisível, como foram todas as situações que mudaram o rumo dos povos.
Em Portugal, alguma coisa irá acontecer nos próximos tempos. Oxalá que não seja uma coisa má.