domingo, 13 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: A original revolução do Facebook que derrubou um ditador

Ralf Dahrendorf, um sociólogo alemão, falecido em 2009, e que foi director da London School Economics, afirmou premonitoriamente que as próximas revoluções não seriam feitas nem pelas classes médias, nem pelos operários, nem pelos partidos clássicos, mesmo os de orientação marxista, mas sim pelos jovens deserdados. Ralf Dahrendorf referia-se não só aos jovens das segunda e terceira gerações dos imigrantes europeus, que as políticas de assimilação ou de integração não conseguiriam socializar, mas também aos jovens dos países em desenvolvimento. Uns e outros fariam um novo tipo de revolução, baseada na extrema violência (o que não aconteceu no Egipto nem na Tunísia), por vezes gratuita e errática, sem qualquer carga ideológica e sem o mínimo de capacidade organizativa, o que os tornariam presas fáceis das forças repressivas do sistema e da demagogia falaciosa dos políticos. Estas ideias (citadas de memória) foram expressas por este sociólogo no rescaldo das primeiras revoltas dos jovens, de ascendência magrebina, dos subúrbios de Paris. Os jovens tunisinos e egípcios deram-lhe razão, em relação à primeira parte do enunciado. Falta saber, se a segunda parte também se concretizará.
Mas o que Ralf Dahrendorf não poderia prever (nem ninguém) era o aparecimento das novas tecnologias de informação na base da mobilização das massas populares, o que consagra uma outra revolução, dentro da revolução. Os analistas já lhe chamam a revolução do Facebook, já que foi através desta ferramenta informática que, no Egipto, três jovens líderes conseguiram com êxito pôr em movimento todo um povo. Nenhum general tem coragem de dar ordem de fogo sobre uma multidão de milhares e milhares de pessoas, e mesmo que avançasse com essa ordem, arriscava-se a não ser obedecido pelos seus soldados. O regime ditatorial ficou paralisado perante a velocidade da mobilização, facilitada pelo Facebook, e já não teve tempo de a estancar no seu início, mesmo que provocasse meia dúzia de mortes inglórias, que nos dias seguintes seriam esquecidas pela comunicação social.
O que se passou na praça Tahrir representa o início de um novo processo de agitação política, que os políticos, a partir de agora, irão temer e os sociólogos irão estudar. Acima de tudo, os políticos vão pretender que rapidamente seja encontrado um antídoto ou um potente escudo para desmontar este tipo de revolta, que se revela extremamente letal para as ditaduras.
É certo que a revolta do Egipto não nasceu por geração espontânea, pois a mobilização das pessoas, através da internet e das mensagens por telemóvel, foi testada anteriormente, desde 2008, para manifestações sectoriais, centradas em objectivos específicos e pontuais, tais como, por exemplo, o protesto contra a prisão de activistas e o protesto contra a prática da tortura. Faltava testar o processo num outro patamar, com um objectivo mais ambicioso, quando estivessem reunidas as condições necessárias para fazer uma grande mobilização geral que fosse ao encontro do profundo descontentamento das pessoas contra o regime.
Os jovens, todos com menos de trinta anos, Wael Ghonim, o executivo da Google, Bassem Samir, o presidente do CyberACT e da Egyptian Democratic Academy, e Raoof, o responsável de media da Global Voices e da Egyptian Initiative for Personal Rights, duas das organizações que lideraram a revolta, resolveram avançar decididamente, logo que se aperceberam da vulnerabilidade das ditaduras árabes, que o exemplo da Tunísia evidenciou. O êxito foi retumbante, o que vai catapultar a revolta do Egipto para os anais da História Contemporânea, pelo que ela teve de original e inovador, ao ponto de ter apanhado de surpresa e ultrapassado os clássicos partidos de oposição ao regime de Mubarak.
Resta agora saber, e isso será o objecto de um outro texto, se, na fase de consolidação da revolta, que será longa, difícil e perigosa, o facebook não terá de ceder o lugar aos partidos clássicos e se a tecnologia poderá prescindir das ideologias. Bassim Samir já pensa em organizar um partido político. Segundo o jornal PÚBLICO, este partido chamar-se-á Movimento Liberal 25 de Janeiro e pretende reunir todos os que acreditam na liberdade e iniciativa individuais. E, para justificar esta base programática, que eu considero minimalista, o activista afirmou: "A revolução da praça Tahrir mostrou como é determinante a vontade de cada um. Não foram necessários líderes nem organizações, para que as pessoas tivessem decidido ir para a praça. É nisso que acredito, e acho que a maioria dos jovens também. Ninguém simpatiza com os partidos religiosos. Se as pessoas querem fazer orações, vão à mesquita. Mas não queremos que ninguém nos diga o que devemos fazer na nossa vida. E também não aceitamos que nos peçam para sofrer nesta vida, porque seremos felizes na outra, depois da morte. Nós queremos aproveitar a vida agora."