domingo, 6 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: A revolução em que todos chegaram atrasados...

EUA pressionam Cairo a deixar cair Mubarak
O dia que a oposição esperou fosse o da "partida" do Presidente egípcio, terminou com todos os cenários políticos em aberto e do Cairo não chegou qualquer indício de que o regime esteja prestes a deixar cair Hosni Mubarak, apesar das multidões concentradas no Cairo e da pressão crescente da diplomacia ocidental.
PÚBLICO
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A revolução do Egipto é a revolução mal amada, em que, com a excepção do povo, todos os principais intervenientes, com verdadeiro poder de decisão, chegaram atrasados. Barak Obama, que ainda está a tentar, na Tunísia, que a situação fique na mesma, alterando qualquer coisa, ainda julgou, quando das primeiras manifestações nas cidades do Cairo, Alexandria e Suez, que poderia aguentar no poder o seu fidelíssimo aliado, Hosni Mubarak. Já se percebeu, agora, que, para Obama, o ditador já ultrapassou o seu prazo de validade, e que a sua teimosia em não abandonar o poder, só poderá complicar a situação, atirando o povo para os braços da discreta Irmandade Muçulmana, que é a organização mais importante das forças do radicalismo islâmico. Não nos esqueçamos que foi da Irmandade Muçulmana, fundada por um fanático muçulmano, Hasan al-Banna, um admirador e aliado de Adolfo Hitler, que saiu Ayman al-Zawahiri, braço direito de Osama bin Laden, o criador da Al-Qaeda, e Mohamed Atta, um dos suicidas que fez destruir as Torres Gémeas em 2001.
A Irmandade Muçulmana, por cálculo estratégico, também chegou atrasada. Embora tivesse sido apanhada de surpresa pela dimensão da vaga de protesto, o seu actual líder, Mohamed Badie, não quer assustar os países ocidentais, nem as ditaduras dos regimes árabes, compremetidos com os Estados Unidos, exibindo a sua enorme força. Só ao fim de quatro dias, depois das primeiras manifestações de protesto, é que Mohamed Badie activou as suas células de militantes.
O Exército, a força mais importante do Egipto, e o verdadeiro sustentáculo do regime fundado por Nasser, em 1952, hesitou num primeiro momento sobre a atitude a tomar em relação a Mubarak, o general da Força Aérea, herói nacional das guerras travadas com Israel, e que, como vice-presidente, subiu ao poder, há trinta anos, após o assassinato do presidente Sadat, perpetado por elementos da Irmandade Muçulmana, durante um desfile militar. Desconhece-se o equilíbrio de forças existente entre as altas patentes das Forças Armadas. Num primeiro momento, a nomeação para vice-presidente de Omar Suleiman, o mais poderoso espião do Médio Oriente, dava a entender que a solução já estaria encontrada, e que aquela saída dos tanques para a rua, no auge das manifestações, com a promessa de que nunca atacariam o povo, fazia parte da manobra para ganhar tempo, deixando que os ânimos arrefecessem.
Mas, no entanto, Mubarak não aceitou a carta de despedimento com justa causa, que o povo, nas ruas, lhe endereçou. E se Mubarak não saiu, é porque tem apoios fortes nas altas esferas militares, que, possivelmente, não querem aceitar uma solução vinda da rua ou dos países aliados, o que demonstraria a sua fraqueza. Esta posição dos militares, que defendem a continuação de Mubarak na presidência, até ao fim do seu actual mandato, parte do pressuposto de que é necessário mostrar firmeza para que a Irmandade Muçulmana não venha alimentar veleidades de querer atingir o seu principal objectivo secreto, que faz parte da sua matriz original, e que se consubstancia no estabelecimento no Egipto de uma ditadura teocrática islâmica.
Esses militares só cederão nas suas inflexíveis posições se os Estados Unidos fizerem chantagem com os 1300 milhões de dólares anuais de ajuda militar.
A União Europeia, como sempre, também chegou atrasada, e com a agravante de não ter conseguido consenso na ameaça de cortar a ajuda ao Egipto, no valor de 449 milhões de euros entre 2011 e 2013.
Por aqui se vê a hipocrisia dos países ocidentais. Desencadeiam guerras para instaurar regimes democráticos, mas depois financiam as ditaduras.
http://publico.pt/Mundo/eua-pressionam-cairo-a-deixar-cair-mubarak_1478755?p=2