sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bom Ano Novo...


Desejo a todos os leitores e amigos do Alpendre da Lua um Feliz Ano Novo.

Jardim gasta 5,2 milhões de euros nas festas de natal e fim do ano



O governo regional da Madeira está a gastar 5,2 milhões de euros nas festas de Natal e de fim do ano, praticamente, apesar das actuais medidas de austeridade, o mesmo valor investido em 2009 no seu maior cartaz turístico.
Só na queima de fogo-de-artifício na noite de São Silvestre, o executivo de Alberto João Jardim vai despender mais de um milhão de euros. A impugnação do concurso de adjudicação do espectáculo pirotécnico foi requerida junto do Tribunal Administrativo do Funchal pela Minhota, empresa preterida em detrimento da vencedora Macedos Pirotecnia com a proposta de 1,06 milhões de euros, superior em 40 mil euros.
PÚBLICO
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Os portugueses começam agora a perceber para onde está a ser canalizado o dinheiro resultante da sua solidariedade para com as vítimas das cheias da Madeira. E o soba até se dá ao luxo de escolher o prestador de serviços mais oneroso.
http://publico.pt/Local/jardim-gasta-52-milhoes-de-euros-nas-festas-de-natal-e-fim-do-ano_1473138

Ano de 2010 marcado pelos efeitos das crises instaladas desde 2007

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O ano de 2010 foi apenas o pré-aviso da catástrofe que irá ser o ano de 2011. Em Portugal, a fome vai entrar em muitos lares, o pobreza vai começar a penetrar em determinadas franjas da classe médica, o governo, paulatinamente e em segredo, através de intervenções cirurgicamente planeadas, ensaia o desmantelamento do Estado Social, esvaziando a funcionalidade das instituições que o asseguram, a marginalidade violenta irá atingir níveis assustadores e a economia entrará em recessão. Eis o resultado da aplicação cega da cartilha neoliberal, que promoveu o endeusamento do mercado e a subalternização do Estado. Eis o resultado da da irresponsabilidade, da incúria e da conivência de políticos, de banqueiros e de especuladores, cuja acção predadora vai deixar feridas profundas no tecido social. De tanto a darem por terminada ou com um fim à vista, os vendilhões do Templo, um dia, irão acertar, mas vão esquecer-se, no seu discurso triunfalista, de contabilizar as vítimas inocentes que ficaram pelo caminho.

"O Penedo do Sino" - por Fernanda Frazão


O Penedo do Sino

A pequena aldeia de Bustelo, que, como se sabe, fica no alto do monte a dois passos da Citânia, viveu em tempos idos um cabaneiro que possuía um enorme rebanho de ovelhas, entre as quais existia também uma preciosa cabrinha leiteira. Rebanho e cabra eram apascentados na serra pela sua única filha, que, diz a lenda, era um encanto de menina. Aconteceu que, uma manhã, quando a pastorinha foi abrir a porta do redil para sair com o gado a pastar, viu sobre um penedo que havia no recinto um enorme sardão. Tinha um ar muito vivo e parecia ter o corpo coberto de pedras preciosas, tal o colorido reluzente das pintas que o cobriam. Nem a presença da menina nem o movimento do rebanho o assustaram e, a partir de então, a pastora nunca mais entrou no redil sem que visse sobre aquela pedra o sardão bonito, que parecia sorrir-lhe mansamente. Tanto se familiarizaram um com o outro que a pastora acabou por considerá-lo e amá-lo como a cada ovelha do seu rebanho.
Uma vez que estava mungindo a cabrinha, a rapariga viu o sardão aproximar-se como quem tem fome, e pegando numa escudela cheia de leite pô-la à frente do bicho. O sardão sorveu tudo com sofreguidão, ficando tão alegre e satisfeito que a moça compreendeu imediatamente que lhe prestara um grande serviço. Assim, daí para a frente guardava sempre uma escudela de leite para aquele amigo.
Estranhamente, porém, a rapariga começou a notar que desde que dava o leite ao sardão a cabra ia secando pouco a pouco, até ameaçar secar de todo. E se este facto entristecia a pastora, não parecia, contudo, aborrecer o sardão, que se mantinha alegre como dantes. Ela atribuía essa alegria ao reconhecimento do animalzinho e um dia, falando para ele como era seu costume, disse-lhe:
— Ai, meu bichinho! O leite da cabrinha está quase seco e qualquer dia não tenho com que te alimentar!
Ao ouvir isto, o bicho, em vez de mostrar tristeza, redobrou de corridas até que parou na frente da menina como que sorrindo muito contente.
A determinada altura, o leite secou totalmente. Pela manhã, a pastora dirigiu-se ao redil muito acabrunhada, pensando no que daria de comer ao sardão nesse dia. Mas, ao abrir a porta ao gado, qual não foi o seu espanto, quando, em vez do sardão, viu sentado no mesmo penedo um rapaz muito bonito e bem vestido.
Carinhosamente, ele disse-lhe então:
— Entra, minha amiga, que sou ainda o mesmo! Não tenhas medo! O sardão que alimentavas não era senão eu, um pobre filho da Moirama que seus pais, ao serem expulsos de Portugal, aqui deixaram encantado naquele animalzinho. Foram os teus cuidados que quebraram o encanto e cativeiro a que estava votado. Há tempos e tempos que esperava a minha liberdade, que estava pendente do leite de noventa dias de uma cabrinha do monte da Citânia. Desde que o meu encanto se quebrou, secou o leite da cabra, mas descansa, que mal eu pise a terra da Moirama o leite há-de voltar. Antes, porém, vou deixar-te uma lembrança minha, como testemunho da minha gratidão e amizade.
E puxando por um objecto muito brilhante, com forma de um X, que trazia na algibeira, acrescentou:
— Toma isto que te dou. É um talismã com o qual conseguirás seduzir quem tu quiseres. Trá-lo sempre contigo durante três meses, ao fim dos quais devo ter chegado à Moirama, para onde vou partir. Nessa altura,volta aqui e coloca o talismã sobre este penedo, que é o cofre dos meus tesouros. O talismã há-de transformar-se numa chave debaixo da qual encontrarás uma fechadura. Abre, e tudo o que encontrares é teu. Mas atenta bem que até lá tens de guardar segredo absoluto de tudo isto que connosco se passou, senão perderei de novo a liberdade e voltarei à condição de réptil, como me encontraste.
A rapariguinha ainda não conseguira sair do seu espanto quando o mouro desapareceu e a deixou ali de boca aberta e talismã na mão.
Daí por diante, a pastorinha da Citânia tornou-se o enlevo e a sedução de quantos a conheciam. Principalmente, diz a lenda, não havia rapaz que a olhasse e não ficasse perdido de amores por ela. Isto tornou-se tão escandaloso que o pai da rapariga, vendo-a dar tanto nas vistas, a chamou para que lhe explicasse as razões do seu condão.
Como resposta, a pastora perguntou:
- Meu pai, há quantos meses secou o leite da nossa cabra?
- Já lá vão uns quatro meses. Porquê? - perguntou o pai.
- Venha então comigo! - disse ela.
De caminho até ao redil, ela foi-lhe contando tudo o que se passara e que levara ao seu poder encantatório junto das pessoas. Por fim, já junto ao penedo onde aparecera o sardão, pousou o talismã e tudo se passou como o mouro lhe predissera.
Abriram a rocha e, maravilhados, encontraram lá dentro uma tão imensa fortuna que passado pouco tempo se tornaram fidalgos e grandes senhores da corte do nosso Rei. Eram grades, arados, cadeados, cordões, grilhões e meadas, tudo do mais puro ouro, tudo cravejado de pérolas e diamantes de todas as cores, tudo nunca visto!
O penedo, assim que se viu vazio daquela riqueza, fechou-se para não tornar a abrir-se. Com o tempo, as casas colmaças que existiam sobre ele caíram e desapareceram com o vento, restando apenas, e esperamos que para sempre, o penedo tocando a vazio, oco como um sino e tangendo como ele.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Em Portugal, não compensa ser trabalhador!

Dívida das empresas aos trabalhadores aumentou em 2010
Em 2008, as empresas deviam 191 milhões de euros aos trabalhadores que tinham sido afastados dos seus postos de trabalho. Dois anos depois, o valor subiu para 255 milhões de euros, refere uma nota da CGTP hoje distribuída.
A estimativa da CGTP para 2010 foi apurada por defeito, já que abrangeu apenas 15 distritos - alguns dos quais com “informação incompleta” - e sem qualquer dado dos Açores, Beja, Bragança, Portalegre e Vila Real. Mesmo assim, as dívidas afectam 22 mil trabalhadores de 970 empresas, ainda que mesmo estes dados não sejam exaustivos. Os distritos mais afectados foram o do Porto, Lisboa, Coimbra e Braga, que concentraram 84 por cento da dívida total. Por sectores, a maior parte da dívida veio da construção civil e do sector têxtil e de vestuário.
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Não há dúvida que os empresários portugueses gozam de excepcionais prerrogativas. Devem ao Estado, à Segurança Social e aos trabalhadores que despediram. E isto, sem falar da dívida rolante, em espiral, entre fornecedores e clientes, que está a propagar-se perigosamente, inquinando a confiança que deve presidir toda a relação comercial. Cada empresário, na maioria dos casos, é simultâneamente fornecedor e cliente, e se não recebe o seu dinheiro, enquanto fornecedor, acaba por não pagar, enquanto cliente, assumindo-se assim na dupla condição de credor/devedor, o que não evita a colagem do epíteto de caloteiro.
Uma escandalosa impunidade incita-os ao incumprimento das suas obrigações. Os sucessivos governos, em perfeita conivência, não aligeiraram os processos legislativos que evitasse esta multiplicação de dívidas ao Estado e aos particulares. E embora os economistas não abordem esta crucial questão, esta situação de continuado incumprimento e a percepção do sentimento de impunidade também vai provocar efeitos perversos ao nível da produtividade e da competitividade. Nenhuma economia pode desenvolver-se com a mentalidade tacanha dos empresários oportunistas.
Por outro lado, as pendências nos tribunais arrastam-se penosamente, numa indolência desesperante, durante vários anos e, normalmente, as decisões judiciais são a favor dos incumpridores, que, através dos seus advogados, conseguem explorar as lacunas e as ambiguidades das leis.
Neste quadro kafkaniano, os trabalhadores, a parte mais frágil do processo produtivo, fica a descoberto. Só lhe passam cheques carecas.
http://economia.publico.pt/Noticia/divida-das-empresas-aos-trabalhadores-aumentou-em-2010_1473088

Impostos por cobrar davam para pagar défice, a análise de João Vieira Pereira, do Expresso

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Não é quem trabalha por contra de outrém (ou quem está reformado) que tem dívidas ao fisco, pois com a retenção na fonte do IRS, o Estado acautelou a sua boa cobrança. A mesma preocupação não existiu em relação ao IRC das empresas. Vá lá saber-se porquê!...

Revista de imprensa de 30-12-2010

Eu peço imensas desculpas aos leitores por lhes provocar, logo de manhã, um enorme pesadelo com estas apresentações das notícias das primeiras páginas dos jornais. É que não há uma única notícia que seja agradável. Nelas, apenas sobressai a opaca imagem da nossa indigência e da nossa insignificância, o que não favorece a digestão do pequeno almoço.

Museu do Vaticano: Capela Sistina

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Se sofre das "imorroides", já sabe onde deve ir...

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É preciso ser um estrangeiro a dizer isto!...


Artigo do Embaixador do Reino Unido ao deixar Portugal, referindo-se às mulheres portuguesas:
As mulheres. O Adido de Defesa na Embaixada há quinze anos deu-me um conselho precioso: "Jovem, se quiser uma coisa para ser mesmo bem feita neste país, dê a tarefa a uma mulher". Concordei tanto que me casei com uma portuguesa.
EXPRESSO 18 de Dezembro de 2010
Amabilidade do Diamantino Silva, que enviou o texto.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Coisas que eu escrevi: Reencontro...


Reencontro...

A emoção carregava-me os olhos e tolhia-me os sentidos. Um turbilhão de imagens a rasgar a dureza da memória de meio século de distância. Ali estava o velho portão do Liceu de Lamego, aquele mesmo portão que precisamente há cinquenta anos franqueei pela primeira vez, de olhos esbugalhados pelo espanto e com aqueles gestos imberbes e tímidos do alvorecer da adolescência. Fiz as contas. Eram mesmo cinquenta, os anos que mediavam entre 1954 e 2004! Meio século de ausência. Meio século de memórias repassadas, algumas diluídas pela ingrata correria do tempo, a transfigurarem a própria realidade vivida, outras, a reavivarem-se numa nitidez precisa, de cores, formas e ambiências, como se esse tempo tivesse ficado imóvel até este tardio reencontro.
Ao lado, também os velhos companheiros desse tempo, que a memória reconstituiu e identificou nos seus traços fundamentais, e que ali estavam a reconciliar-se com o passado longínquo da juventude.
E agora estou aqui, neste espaço íntimo da minha escrita dorida, a celebrar os 150 anos deste Liceu – o meu Liceu - dos anos de encantamento, dos sonhos e das ilusões, das amizades que se ergueram e se firmaram no deslumbramento da juventude - mas também a recordar aqueles que, entre professores e companheiros, definitivamente já partiram.

Alexandre de Castro

Outubro de 2005
Texto incluído numa brochura dos Antigos Alunos do Liceu de Lamego

Revista de imprensa de 29-12-2010

Limoeiro - Ronda dos Quatro Caminhos

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Contrariando a tradição dos corais alentejanos, que não contemplam o acompanhamento musical, esta combinação inovadora da inclusão da orquestra sinfónica, da viola clássica e da voz da solista obteve um efeito polifónico surpreendente.

Pelo menos foi de barriga cheia...


Festa do pirilau no Butão...

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Se pretender aumentar o tamanho do falo, digo, da imagem, pressione duas vezes, e delicadamente, o botão do rato









Não é de admirar que, no país onde nasceu o budismo tântrico (sec. VIII), fundado pelo Guru Rimpoché, "O Mestre Precioso", considerado o segundo Buda, se promova com exuberância o culto do falo.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Notas do meu rodapé: Sem médicos, o Serviço Nacional de Saúde não pode funcionar...


Reforma dos Cuidados de Saúde Primários é apontada como uma das mais importantes de sempre no sector da Saúde em Portugal.
Segundo o "Jornal de Negócios", as Unidades de Saúde Familiar(USF), que começaram a ser criadas há quatro anos, permitiram atribuir médico de família a mais de 400 mil portugueses. Graças à reorganização dos centros de saúde, que passa pelo alargamento das listas de doentes por parte dos médicos, centenas de utentes passaram a ter um clínico fixo que os acompanha ao longo da vida.
Ainda assim, há cerca de 500 mil portugueses que continuam sem médico de família e muitos especialistas acreditam que, apesar da reforma, muitos mais perderão o seu médico.
Diário de Notícias
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O grande problema do Serviço Nacional de Saúde é a crónica falta de médicos nos cuidados de saúde primários (Centros de Saúde), que se constituem no eixo estruturante de todo o sistema. Ao longo dos anos, e contando apenas com os recursos humanos existentes,várias tentativas têm sido feitas para contornar o problema, implementando projectos que não deram qualquer resultado, como foi o caso do Projecto Alfa, ou tentando reestruturar todo o sistema dos cuidados de saúde primários, como foi o caso da criação dos centros de saúde de terceira geração, cujo decreto, que os definiu, não chegou a sair do papel.
O projecto da criação das Unidades de Saúde Familiar, apesar de ter avançado no terreno com alguns resultados, vai também fracassar. Sem a admissão no sistema de mais médicos de família, nenhuma reforma sobreviverá, por mais elaborada que seja.
E esta a falta de médicos, assinalada já há muito tempo, e que nos é apresentada pelos responsáveis políticos como se de um fatalismo não controlável se tratasse, tem causas bem definidas e tem culpados. A este propósito, vale a pena reproduzir aqui uma conversa particular, à margem de um evento, na década de oitenta do século passado, entre o primeiro presidente do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) e o então ministro da Saúde de um dos governos de Cavaco Silva, Arlindo de Carvalho, e que aquele médico sindicalista me contou.
O presidente do SIM, preocupado com o facto de não entrarem mais médicos de família para o sistema, a fim de garantir, sem sobressaltos, a gradual continuidade geracional, procurou ingenuamente alertar o ministro de que, a manterem-se as políticas de contenção em matéria de recursos humanos, não haveria médicos de família para substituir, dali a trinta e tal anos, a primeira geração de médicos de família, que, entretanto, atingiria a idade de reforma. Raciocínio lógico e premonitório, que até o ministro já antes compreendera, como se deduz da sua alarmada resposta. "Cale-se com isso, doutor, pois por cada médico que metemos nos centros de saúde a despesa dispara". Referia-se o ministro, não só ao vencimento do novo médico, mas também ao consumo que ele iria induzir, com a prescrição de medicamentos e de meios complementares de diagnóstico.
Foi esta visão economicista, que norteou todos os ministros da Saúde, sem excepção, a única causa da actual falta de médicos nos cuidados de saúde primários e que tem como esteio, a montante, o estrangulamento provocado pela imposição de um absurdo e injustificado numerus clausus nas admissões aos cursos de Medicina, e que serve também os interesses de alguns lobies.
Se não se pode formar um exército sem militares, também não pode existir um Serviço Nacional de Saúde sem médicos, sem enfermeiros e outros profissionais do sector.

Top 25 football/soccer players of all time

Revista de imprensa de 28-12-2010

“A Lenda dos Távoras” - por Fernanda Frazão


Os dois irmãos D. Tedo e D. Rausendo, que segundo a tradição eram descendentes de Ramiro II de Leão, são protagonistas de um ciclo lendário que busca as suas bases na reconquista cristã anterior à formação do reino de Portucale. A História porém não dá crédito à existência destes dois cavaleiros pelos quais frei Bernardo de Brito mostra um especial carinho na sua Monarquia Lusitana.
Em Paredes da Beira possuía o emir de Lamego, em 1037, um castelo bem provido de tudo e repleto de excelentes guerreiros. Bem protegido pelas penedias, o castelo revelava-se inexpugnável num ataque de tipo clássico.
Efectivamente, os dois irmãos estavam cansados de perder homens contra aquelas muralhas e, assim, decidiram tentar a conquista de Paredes pela astúcia.
Sabendo que em manhã de S. João os mouros saíam do castelo para festejar, banhando-se nas águas do Távora, o final do ciclo primaveril, D. Tedo e D. Rausendo cobriram as cotas com vestes mouras e foram emboscar-se com os seus guerreiros nas proximidades do castelo.
Era madrugada quando os mouros começaram a sair alegres e sem preocupações. Atrás das rochas, os cristãos aguardavam que passasse o tempo suficiente para que a distância se alongasse o bastante entre eles e os mouros em festa. Depois entraram pelas portas escancaradas, sem resistência dos poucos muçulmanos que se haviam quedado intramuros.
Alguns, que conseguiram escapar ao morticínio de Paredes, dirigiram-se correndo ao Távora a dar a má nova, alertando desse modo os despreocupados festeiros.
Entretanto, D. Tedo tomou conta do alcácer e distribuiu os seus guerreiros pelos pontos de defesa, enquanto D. Rausendo descia até ao rio com os restantes homens.
Preparados, no rio, os mouros defenderam caro as suas vidas e D. Rausendo teria sido derrotado se o irmão não acorresse rápido ao aperceber-se do que acontecia.
Diz-se que nesse dia as águas do Távora correram vermelhas: D. Tedo a cavalo, no meio do rio, vibrava golpes ferozes no inimigo. Tanto espadeirou que quando conseguiu chegar junto do irmão mais de metade dos mouros jaziam mortos por terra ou boiando nas águas.
O resto da batalha foi fácil, e se algum mouro sobrou para contar aquela carnificina, foi um homem feliz. Por isso, o povo de Paredes da Beira chamou ao local daquela sangrenta luta Vale d'Amil, em memória dos corpos que juncavam o chão e as águas, mouros mortos aos mil.
Diz a tradição que depois desta batalha os dois irmãos adoptaram o apelido Távora, como recordação da vitória alcançada, e tomaram por armas um golfinho sobre as ondas para que sempre se rememorasse D. Tedo espadeirando nas águas sobre o seu ginete de guerra.

Estudo revela que os neandertais afinal cozinhavam e comiam

O homem de Neandertal, extinto há 30 mil anos, alimentava-se de carne e de vegetais e cozinhava os alimentos, segundo um estudo publicado hoje na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, PNAS, citado pela AFP.
As investigações anteriores indicavam que os Neandertais eram sobretudo caçadores carnívoros, o que teria precipitado a sua extinção.Pensava-se que os primeiros homens modernos com os quais aqueles coexistiram durante cerca de 10 mil anos teriam sobrevivido graças ao consumo de outros tipos de alimentos, como vegetais, peixes e mariscos, conforme os locais onde viviam.
PÚBLICO
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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Conto: Lisboa, ano de 2035 - por Joaquim Manuel Melo

Lisboa, ano de 2035

No alto de uma das colinas, debruçado sobre o Tejo e integrado num dos poucos espaços verdes que ainda subsistiam na cidade, ficava o Colégio Jacques Delors. O seu director, Hans Mussen, relia, uma vez mais, as notas que tinha preparado para a reunião que ia ter com os professores.
A luz que o Tejo reflectia era um factor de permanente perplexidade para este alemão do Ruhr, mais habituado aos nevoeiros do que ao sol meridional, agora cada vez mais avermelhado em consequência da atmosfera ultra poluente que tinha que atravessar.
Os últimos três anos da vida de Hans Mussem não tinham sido fáceis. Enviado para o país dos “carneiros dóceis”, epíteto que os portugueses tinham na Europa, a sua tarefa era a de supervisionar a formação de duzentos futuros gestores destinados a empresas e serviços públicos da África, América Latina e, também, Portugal.
O Governo português, incapaz de cumprir os princípios da convergência monetária a que se tinha obrigado, perante os seus parceiros europeus, viu-se na necessidade de entregar todo o tecido produtivo a empresas estrangeiras como forma de minorar os défices permanentemente acumulados.
Desde o ano de 2015 que todas as empresas, e mesmo os serviços públicos, eram dirigidos por estrangeiros, sendo a governação da “Rés Pública” meramente virtual.
Por tais razões institucionalizou-se no país um curioso nivelamento social, já que nenhum nativo era detentor de qualquer meio de produção.
Estas circunstâncias suscitaram condições muito favoráveis para que pudesse ser testado no país todo um conjunto de teorias alusivas ao modo de controlo de trabalhadores, sem que tal dominação suscitasse qualquer espécie de resistência, ou revolta.
Foi apenas necessário descobrir como perpetuar o limite da sobrevivência numa sociedade educada para não ter esperança.
É certo que ainda existiam algumas seitas marginais, que apenas eram incómodas pelos pequenos furtos que realizavam, já que a violência tinha sido completamente irradiada graças a um eficiente programa de educação para a passividade a que todos os naturais estavam sujeitos desde que entravam para os jardins de infância.
Mas esta excessiva passividade da população incomodava Hans Mussen, já que não lhe dava a possibilidade de aplicar alguns dos métodos de controlo social que gostaria de testar.
Como criativo que era, lamentava não ter conhecido o país no tempo em que este era governado por uma Ditadura Burofágica. Então sim, a sua peculiar teoria da manipulação das massas teria tido um excelente cenário para se desenvolver.
Agora, só lhe restavam os problemas da direcção do colégio, embora nem sempre fosse fácil domar as características algo peculiares de alguns dos professores que integravam o corpo docente.
Um dos mais difíceis era o irlandês Patrick Ryan que, tendo descoberto a propensão dos indígenas para um messianismo decadente, deambulava, a horas impróprias, pelas ruelas da parte velha da cidade tentando registar alguns ritos clandestinos de exaltação de uma venusiana que, nos princípios do século XX, e devido a um acidente da sua nave, pousara, por breves momentos, numa localidade chamada Fátima.
O que de mais grave advinha da pesquisa antropológica de Ryan era a utilização que este dava ao material que recolhia, já que, servindo-se dele para ilustrar as suas aulas, suscitava nos alunos a ideia de que os indígenas tinham outras preocupações para lá da simples sobrevivência.
Felizmente o escocês Mac Paterson, professor da disciplina Técnicas de Controlo de Pessoal, estava a realizar um excelente trabalho com a experiência que desenvolvia junto dos trabalhadores do colégio responsáveis pela limpeza e manutenção, aos quais impusera uma dieta alimentar só à base de granulados, que teriam de consumir utilizando, apenas, garfos de dois dentes.
Era espantoso como as campanhas de higiene e civilidade, a que tinham sido sujeitos nas escolas do país, surtiam efeito, já que nenhum deles tentava utilizar as mãos para recolher os grãos que lhes são servidos e isto porque lhes tinha sido inculcada a ideia que comer com as mãos era impróprio de um europeu. Para lá de consumirem muito menos comida, mantinham-se ocupados a pensar em estratégias que os tornassem capazes de recolher mais grãos com aquele tipo de garfos.
Não podia esquecer-se de chamar a atenção de Madame Berger, a professora da disciplina de História e Cultura Europeia, para o despropósito que era continuar a referir-se aos indígenas quando, nas aulas, aludia aos acontecimentos que tinham ocorrido na Europa no século XVI. Era um conjunto de episódios tão pouco importantes que podiam, e deviam, ser omitidos.
Mas, de momento, aquilo que era a sua grande preocupação relacionava-se com a situação criada pela professora de Ciências da Natureza, a dinamarquesa Olgin WanderWelt.
Embora a disciplina que leccionava fosse uma justificação para as suas frequentes deslocações às estufas, que ficavam nos jardins do colégio, de modo algum se aceitava que o fizesse durante a noite.
Hans não tinha dúvidas que a razão de ser das deambulações nocturnas da dinamarquesa era o jardineiro Manuel, um primitivo oriundo das regiões do norte do país e que, aparentemente, só sabia falar com plantas e, vá-se lá descobrir como, também com a dinamarquesa.
Esta história sórdida tinha alguma semelhança com aquela que, no século passado, um britânico inconformista, chamado W. H. Lawrence, tinha narrado num romance decadente.
Porém, a gravidade desta situação era, também, a de suscitar algum desequilíbrio nas, já frágeis, relações interpessoais da comunidade não nativa que vivia no colégio. É que, sendo Olgin uma das poucas fêmeas disponíveis, a sua ligação com o jardineiro em nada contribuía para que esta anuísse às solicitações que lhe eram feitas por Mateus Macarius, professor de Teatro Clássico, que tinha de buscar refrigério para o seu sangue quente mediterrâneo nos corpos das adolescentes que frequentavam as suas aulas.
Hans não conseguia compreender como é que o jardineiro tinha passado indemne ao programa de educação sexual, que, desde há vinte anos, decorria nas escolas portuguesas e que levava os indígenas a rejeitarem contactos físicos com estrangeiros. Este programa, que tinha sido financiado pelo Governo Central Europeu, visava erradicar das zonas periféricas da Europa doenças que há muito já tinham desaparecido dos lugares verdadeiramente civilizados.
Possivelmente, a região, de onde Manuel era proveniente, era demasiado inóspita para que tal programa educacional de rejeição se pudesse aí ter desenvolvido.
Hans fez um esforço para se prender à realidade. As informações que, nessa manhã, obtivera junto do Governo Central Europeu eram de tal modo inesperadas que não era de excluir que uma profunda alteração viesse a ocorrer na sua vida futura.
O último país periférico dos Estados Unidos da Europa, a Rússia, tinha formalmente solicitado ao Governo Central que assumisse a gestão da sua economia em estado de absoluta depauperação.
Tornar-se-ia assim necessário organizar cursos de língua russa no Colégio Jacques Delors, já que alguns dos actuais alunos iriam, por certo, ser chamados para desempenhar funções de gestores em empresas e serviços públicos soviéticos.
Hans Mussen estava esperançado que outro colégio, maior e com mais alunos, viesse a ser aberto em Moscovo e que lhe fosse feito o convite para assumir a sua direcção. Seria a concretização de um sonho de toda uma vida. Conquistar pacificamente aquilo que, por acidente histórico, tinha sido recusado a um seu compatriota da Baviera.
Era, enfim, a concretização da profecia clarividente de De Gaulle, “uma Europa unida da Finisterra aos Urales”, agora sob a hegemonia da Alemanha, afinal um povo, desde sempre, predestinado para dominar impérios.
Lamego 1990
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Este conto de Joaquim Manuel Melo (uma short story), assim como mais dois que irão ser publicados brevemente no Alpendre da Lua, insere-se num universo ficcional, de características orwellianas, que o autor desenvolveu primorosamente, projectando uma visão premonitória de Portugal para o ano de 2035. Em 1990, ano em que os textos foram escritos, se tivessem sido publicados, talvez suscitassem, tal como afirmou o autor recentemente, "alguns sorrisos, que é o que se necessita nestes tempos cinzentos". Hoje, perante a degradação do país e do vendaval de uma crise, cujo fim, a vista ainda não alcança, mas que vai deixar feridas insanáveis no tecido social, a premonição anunciada parece aproximar-se tendencialmente da realidade, o que amplia o mérito desta peça literária.
Joaquim Manuel Melo foi meu colega no Liceu de Lamego, e é da sua autoria o brilhante prefácio, que muito me honrou, do meu romance O Bando do Liceu, que publiquei em 2007. É também com muito prazer que o recebo, como colaborador, neste humilde espaço.
Alexandre de Castro

Resposta a um anónimo sobre o jogo do pau e as suas variantes...

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A propósito da minha referência ao meu bisavô materno e à sua perícia no jogo do pau, no texto que acompanhou o vídeo dos pauliteiros de Miranda do Douro, um anónimo deixou um comentário, em que me perguntava se o bisneto teria herdado o “domínio dessa técnica”.
Eis a minha resposta, que resolvi colocar no frontispício deste blogue:

Desconheço por completo a técnica do jogo do pau, o que lamento, pois, por vezes, apetecia-me correr à paulada alguma gente importante, que por aí anda a pavonear-se, e que por decoro me abstenho de identificar. Sei que a técnica é muito eficaz, mas exige muito treino e destreza, além da força de braços e de pernas. Um bom jogador do pau consegue manter à distância um grupo de cinco ou seis meliantes, que o queiram atacar. Tanto quanto me apercebi, o segredo consiste em saber combinar a manobra do pau com o constante movimento das pernas, mudando sempre de lugar, a fim de iludir e confundir o adversário. Todos esses movimentos combinados, a exibirem uma grande leveza, conferem ao lutador o aspecto de um bailarino a dançar sobre um palco. O adversário nunca consegue perceber onde a paulada vai cair, se na cabeça, se nos costados ou se vai a rasar as pernas, último golpe este que derruba irremediavelmente o adversário. A velocidade do pau, caia onde cair, faz mossa. Cabeças rachadas e a sangrar e costelas partidas, quando se trata de um travar de razões, são as mazelas mais frequentes da refrega.
Mas, se não tive a oportunidade de aprender a jogar o pau, aprendi em miúdo a manejar o paulito, numa dança de pauliteiros, realizada no palco do salão dos Bombeiros de Carrazeda de Ansiães. Facultaram-me essa experiência precoce, de que tenho uma recordação difusa. Mas o desempenho deveria ter sido excelente, pois, posteriormente, também fui seleccionado para dançar o malhão e representar em cena a figura do rei D. Dinis, numa pequena peça de teatro infantil, versando o estafado milagre das rosas, e em que pela primeira vez senti os eflúvios da paixão a trepar pelo corpo acima, já que me apaixonara pela Teresinha, a miúda que representava a figura da rainha Santa Isabel.
E a minha história de paus, paulitos e pauliteiros acaba aqui.
Na verdade não herdei o pau do meu bisavô, que levantou um grande alvoroço numa feira de gado, em Carrazeda de Ansiães, nem sequer o gene da sua provecta virilidade, reflectida, segundo dizem, na sua capacidade de procriar, sendo já septuagenário. Condenado à abstinência por uma precoce viuvez, e não havendo na aldeia mulher disponível, que lhe aliviasse os humores, começou a arrastar a asa à mulher de Campelos, que, diariamente, fazia o transporte do correio da Carrapatosa para o apeadeiro da estação da Alegria, onde se chegava por um caminho de cabras, sobre uma encosta íngreme e agreste, e que o uso, com o tempo, fez pedonal para os humanos. E alguém viu, naquele caminho, o meu bisavô, que já andava curvado e agarrado a um cajado, a fornicar a mulher do correio, debaixo da ampla copa de um sobreiro. Saltaram-lhe as filhas em cima, incluindo a minha avó materna, a condenar-lhe o desvario e a chamarem-lhe velho depravado, acusações que, parece, o deixaram imperturbável.
Não sei se, na sua numerosa prole, entre filhos, netos e bisnetos, alguém lhe herdou o jeito e a força do pau, com que varava as feiras e o outro com que emprenhava as mulheres. Ouvi falar de um seu filho, meu tio-avô, que lhe herdou os calores do sangue, e que não desmerecia dos atributos do pai. Ainda rapaz, a conduzir por um caminho esconso um carro de bois, cruzou-se com a rapariga dos seus encantos, que já andava a catrapiscar. E não esteve com mais rodeios. Possante como o pai, agarrou na rapariga, e, à força, deitou-a sobre o feno do carro de bois e varou-lhe os três vinténs com que ela viera ao mundo.
Atordoado com o que acabara de fazer, e temendo a vingança da honra ofendida da família da rapariga, que lhe punha a própria vida em risco, deixou os bois e correu para casa, onde mudou de roupa e amanhou a trouxa, que iria também guardar-lhe o pecúlio amealhado, e ala que se faz tarde, estugou o passo, encosta abaixo, até à estação de Alegria, onde apanhou o comboio para o Porto. Daí dera o salto até Lisboa, onde embarcou num paquete para o Brasil. Não deu mais sinais de vida. Muito vagamente, chegavam notícias esfarrapadas de um ou outro emigrado regressado, que o davam como vivo no Rio de Janeiro.
Conheci-o uns quarenta anos mais tarde, após a sua precipitada fuga, quando resolveu quebrar o silêncio e terminar o degredo. Chegado a Lisboa, visitou, na Amadora, a minha mãe, que era a sua sobrinha preferida, e apresentou a sua família, que crescera no Brasil.
Julgo que na Carrapatosa a ferida já estava sarada, a avaliar pelos foguetes a estalejar, com que saudaram a sua chegada.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Cavaco Silva: "Para serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes"

Defensor Moura acusou Cavaco Silva de favorecer, enquanto Presidente da República, as autarquias social-democratas, num debate em que Cavaco Silva afirmou ser alvo de uma "campanha suja" no caso BPN.
O candidato Defensor Moura acusou hoje Cavaco Silva de “falta de isenção” e “favorecimento” de autarquias do PSD enquanto Presidente da República, num debate que Cavaco Silva aproveitou para afirmar que a decisão de nacionalização do BPN lhe foi apresentada como sendo essencial para a estabilidade do sistema financeiro. “Para serem mais honestos do que eu tinham que nascer duas vezes”, afirmou, por duas vezes.
Jornal de Negócios

Notas do meu rodapé: 25 e Assalto ao Castelo - Galandum Galundaina



Uma preciosidade etnográfica, do planalto mirandês, que mergulha na profundidade do tempo histórico.
A tese dominante situa esta coreografia e respectivos adereços na época da romanização da Península Ibérica. A proximidade da cidade de Leon, onde ficou aquartelada, durante muitos anos, uma legião romana, teria inspirado os nativos, que adoptaram para as suas danças os ritmos marciais dos soldados do império, assim como integraram na sua indumentária alguns elementos figurativos do seu fardamento, como é o caso do saiote.
Há, no entanto, quem sustente, que a coreografia e a utilização dos paulitos, seria uma forma de adestramento do jogo do pau, um jogo utilizado como arma de defesa pessoal e de uma grande eficácia, que, por aquelas bandas de Miranda do Douro, teria surgido em épocas remotas, tendo sido mantido actuante e vivo, até ao século vinte, nas zonas rurais do nordeste transmontano. Um homem só, com um pau, manuseado com uma certa técnica, semeava a confusão numa feira ou numa romaria, rachando cabeças e partindo costelas a quem se atravessasse à sua frente. Camilo Castelo Branco fixou episódios destas lutas em algumas das suas novelas.
O meu bisavô materno, com o seu pau de castanheiro, bem podado nos nódulos, desfez de uma assentada uma feira de gado em Carrazeda de Ansiães, devido a um desentendimento a propósito de um boi desencabrestado, a quem ele, através de uma pega de caras, torceu o pescoço pelos cornos, matando-o. O dono do boi queria ser ressarcido, e o meu bisavô, que tinha a consciência de ter evitado, com a sua coragem e a sua força de gigante, maiores danos entre os feirantes, que entraram em pânico com as arremetidas violentas do boi à solta, e sentindo-se injustiçado e mal agradecido, mandou-lhe uma estocada no toutiço, deixando-o pendurado entre a vida e a morte. Vieram os do lugar do dono do boi medir forças com ele, em defesa da honra e do amigo, e o meu bisavô, sem pedir licença, varreu-os a eito com a varapau, numa luta violenta que alastrou aos que tomaram partido entre as partes, e provocando assim um sobressalto na multidão, que se pôs em fuga precipitada, largando o gado. A confusão foi muita e o terreiro ficou deserto, apenas com gente a sangrar e a gritar de dores e a implorar socorro à senhora dos Remédios.
Na Carrapatosa, a sua aldeia, o meu bisavô entrou na lenda. Ainda o conheci, já mirradinho pela velhice, quase centenária, ao ponto de já não se lembrar deste episódio.
Outro elemento a destacar no folclore mirandês, é a adopção, a nível instrumental, da gaita de foles, que se generalizou pela Galiza e por todo o norte de Portugal. A maioria dos estudiosos, marcaram-lhe a ascendência ao tempo dos celtas, povo que se fixou e se fundiu com os nativos iberos, deixando-nos por herança a sua cultura castreja, ainda bem expressa em muitos vocábulos na língua portuguesa e nas manifestações religiosas e festivas, que o cristianismo habilmente adoptou, como é o caso das romarias aos santos e padroeiros, venerados nas capelas dos cabeços dos montes. Outros autores, contestando a tese da origem céltica da gaita de foles, situam a sua invenção no norte de África. Mas, ligando as pontes, todos concordam em aceitar o seu primitivo aparecimento entre as comunidades de pastores, no início do neolítico. Assim aconteceu também com o pau mirandês. Teriam sido as comunidades primitivas de pastores a inventá-lo e a adoptá-lo como instrumento para a condução dos rebanhos e, posteriormente, como arma de defesa pessoal. Em Miranda do Douro, devido ao isolamento e à sua profunda interioridade, o jogo do pau resistiu até aos nossos dias, assim como a dança dos pauliteiros. Ambas as manifestações etnográficas estiveram ameaçadas de extinção no início da década de sessenta, do século passado, devido à emigração massiva das gentes. Mas um grupo de jovens mirandeses, orgulhosos da sua cultura multissecular, e através de um pujante movimento associativo, restauraram-nas para efeitos lúdicos e festivos, preservando assim a sua memória.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Patrão da Playboy volta a casar com mulher 60 anos mais nova

Hugh Hefner, o dono da revista Playboy, vai casar pela terceira vez, conta, este sábado, o site Too Fab.
Aos 84 anos de idade o empresário norte-americano pediu em casamento a sua atual namorada, Crystal Harris, 60 anos mais nova do que ele, na noite da consoada.
EXPRESSO
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É o que se chama playboyar.

COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

Data: 2 de Dezembro

Assunto: Festa de Natal

Tenho o prazer de informar que a festa de Natal da empresa será no dia 23 de Dezembro, com início ao meio-dia, no salão de festas privativo da Churrascaria Grill House. O bar estará aberto com várias opções de bebidas. Teremos uma pequena banda tocando canções tradicionais de Natal...sinta-se à vontade para se juntar ao grupo e cantar! Não se surpreenda se o nosso Vice Presidente aparecer vestido de Pai Natal! A árvore de Natal terá as luzes acesas às 13:00.
A troca de presentes de "amigo secreto" pode ser feita em qualquer altura, entretanto, nenhum presente deverá exceder EUR10,00, a fim de facilitar as escolhas e adequar os gastos a todos os bolsos.
Este encontro é exclusivo para funcionários e família. Na ocasião, o nosso Vice Presidente fará um discurso bastante especial.
Feliz Natal para todos.
Patrícia

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COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

Data: 3 de Dezembro

Assunto: Festa de Natal

De maneira alguma o memorando de 2 de Dezembro sobre a Festa de Natal pretendeu excluir os nossos funcionários judeus! Reconhecemos que o Chanukah é um feriado importante e que costuma coincidir com o Natal, mas isso não acontecerá este ano. Portanto, passaremos a chamá-la "Festa do Fim do Ano", pois teremos em conta também todos os outros funcionários que não são cristãos e aqueles que celebram o Dia da Reconciliação. Não haverá árvore de Natal. Nada de canções de natal nem coral. Teremos outros tipos de música que agrade a todos.
Felizes agora?
Boas festas para vocês e suas famílias,
Patrícia

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COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS

De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

Data: 4 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano

Em relação ao bilhete (anónimo) que recebi de um membro dos Alcoólicos Anónimos, solicitando uma mesa para pessoas que não bebem álcool... terei todo o prazer em atender o pedido, mas, se eu puser uma placana mesa a dizer "Exclusivo para os AA", vocês deixarão de ser anónimos, não será?...Como faço então?
Quanto à troca de presentes, esqueçam! Não será organizada uma vez que os membros do sindicato acham que 10 euros é muito dinheiro e os executivos acham que 10 euros é muito pouco para um presente. Portanto não será organizada NENHUMA TROCA DE PRESENTES!
De acordo?
Patrícia

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COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS.

De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos

Data: 5 de Dezembro

Assunto: Festa do Fim do Ano
Mas que grupo heterogéneo o nosso!!! Eu não sabia que no dia 20 de Dezembro começa o mês sagrado do Ramadão para os muçulmanos, que proíbe comer e beber durante as horas do dia. Lá se vai a festa!
Agora a sério, entendemos que um almoço nesta época do ano seja um problema para a crença de nossos funcionários muçulmanos... Talvez a Churrascaria Grill House possa assegurar o serviço de buffet até à noite ou então, embalar tudo para vocês levarem para casa nas marmitas. Que acham?
E agora mais novidades:· consegui que os membros dos "Vigilantes do Peso" se sentem o mais longe possível do buffet das sobremesas;· as mulheres grávidas poderão sentar-se o mais perto possível das casa de banho;· os homossexuais podem sentar-se juntos; as mulheres homossexuais não terão que se sentar junto dos homens homossexuais, que terão uma mesa própria, e sim, haverá um arranjo de flores no centro da mesa dos homens homossexuais; teremos assentos mais altos para pessoas baixas; e estará disponível comida com baixas calorias para os que estão de dieta. Nós não podemos controlar a quantidade de sal utilizada na comida, portanto sugerimos que as pessoas com tensão alta provem a comida antes de comerem. E, claro, haverá mesas para fumadores e outras para não fumadores.
Esqueci alguma coisa?
Patrícia

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COMUNICADO PARA TODOS FILHOS DA PUTA QUE TRABALHAM NESTA EMPRESA

De: Patrícia Gomes - Directora de Recursos Humanos
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Data: 6 de Dezembro
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Assunto: Festa do Fim do Ano da PORRA
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Vegetarianos!?!?!??! Sim, vocês também tinham que dar a vossa opinião de merda ou reclamar de alguma coisa!... Nós manteremos o local da festa na Churrascaria Grill House; quem não gostar que se foda! Não vá, desampare a loja! Ou então, como alternativa, seus fedorentos, podem sentar-se afastados, na mesa mais distante possível da tal "churrasqueira da morte" - como vocês lhe chamam.
E terão também a vossa mesa de saladas de merda, incluindo tomates ecológicos da casa do caralho e arroz pegajoso para comer com pauzinhos.
Aqueles que, naturalmente, ainda não gostarem, podem enfiar tudo no cu!
Mas como vocês devem saber, os tomates também têm sentimentos! Os tomates gritam quando vocês os cortam em fatias. Eu mesma os ouvi gritar! Eu estou a ouvi-los gritar agora mesmo!!!!!Ah, espero que vocês todos, mas todos, os parvos dos crentes e os cretinos dos ateus, os paneleiros, as fufas, as mariquinhas das prenhas, os estupores dos fumadores e os chatos dos não fumadores, os cobardes dos bêbados anónimos e os fedorentos dos vegetarianos, todos vocês sem excepção, tenham uma merda de fim de ano!
E que guiem bêbados e morram todos, todinhos espatifados e esturricados por aí!
Entenderam?
Da Vaca, directamente para a puta que os pariu
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COMUNICADO PARA TODOS OS FUNCIONÁRIOS
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De: João Pacheco - Director de Recursos Humanos INTERINO
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Data: 9 de Dezembro
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Assunto: Patrícia Gomes e a Festa do Fim do Ano
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Tenho a certeza que falo por todos nós, desejando para a Patrícia um rápido restabelecimento para a sua crise de stress e podem estar certos que me encarregarei de lhe enviar as vossas mensagens para o hospital psiquiátrico, onde está internada.
Venho comunicar que a direcção decidiu cancelar a Festa do Fim do Ano e não dar folga a todos os funcionários na tarde do dia 23 de Dezembro.
Boas Festas!
João
Autor desconhecido

Cancioneiro Popular do Minho: BOIADA (1)

BOIADA

(MINHO)

Labra boi e torna a labrar
Pedei ao Senhor que nos benha ajudar
Ei ei ei boi a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Que dais a quem os bai ver
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber
Bom terreiro p’ra dançar
Água fresca p’ra beber
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber

Senhora tão pequenina
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina
Comadre da minha mãe
Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina

Labra boi labra por trás da capela
Pica e repica na baca amarela
Ei ei ei boi labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Tudo é caminho e chão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão
Tudo são crabos e rosas
“Prantados” por minha mão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão

O bosso mosteiro cheira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira
Cheira a crabo cheira a rosa
Ao botão de laranjeira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira

Labra boi labra por trás do arado
O nosso labrador
Merece um cigarro
Ei ei ei a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Eu já estou alibiado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado
Duma fala que me deste
Eu fiquei desenganado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado

In Raízes G. A. C.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ministério das Finanças: corte do rating de Portugal pela Fitch é “difícil de compreender”

O Ministério das Finanças afirmou hoje que, “no actual momento”, é “difícil de compreender” que a Fitch tenha cortado o rating de Portugal de AA- para A+, sublinhando que “os resultados orçamentais mostram gradualmente os efeitos das medidas correctivas”.
A agência Fitch considerou ainda que o objectivo do défice orçamental de 7,3 por cento este ano irá ser atingido, mas apenas com recurso a medidas extraordinárias que equivalem a um por cento do PIB (transferências dos fundos de pensões da Portugal Telecom), o que irá tornar ainda mais difícil o ajustamento do défice estrutural previsto a realizar em 2011.
PÚBLICO
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O argumento da Fitch é demolidor. Na realidade, o governo elaborou o Orçamento de Estado de 2011, inscrevendo como receita o resultado financeiro de uma medida extraordinária, com que não poderá contar nos próximos anos - as transferências dos fundos de pensões da Portugal Telecom. Isto quer dizer que, no OE para 2012, o governo terá de recorrer a novas medidas restritivas pelo lado da despesa (pelo lado da receita é impossível), que compensem o valor daqueles fundos (1% do PIB), com os quais já não pode contar em termos contabilísticos. Não é preciso ser doutorado em economia, como é o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, nem engenheiro, na variante de Inglês Técnico, como é o primeiro ministro, para proceder a este elementar raciocínio matemático-contabilístico.
A crescente viciação do discurso político destes dois dirigentes, habituados a ter sucesso, com a sua demagogia barata, junto dos papalvos que ainda acreditam nos milagres de Fátima, leva-os a ignorar a elevada qualificação dos técnicos das agências de rating, que não arriscam perder a sua reputação, passando cheques em branco aos governos que, tal como algumas empregadas de limpeza, varrem o lixo para debaixo do tapete.
Por outro lado (é preciso avivar a memória dos mais distraídos), este ministro das Finanças nunca acertou nas suas previsões, desmentidas sempre, posteriormente, pela realidade, o que é suficiente para arrasar a sua credibilidade perante os agentes dos mercados financeiros, que perseguem dois objectivos, por um lado, garantirem segurança para os seus empréstimos e, por outro, ganhar o mais possível, aproveitando a fragilidade dos países devedores. E ninguém se pode admirar que seja assim, pois a nível individual, ninguém empresta dinheiro a quem não apresente garantias ou idoneidade para poder saldar a dívida.
Por outro lado, coloca-se novamente a questão de saber se a economia portuguesa, que é aquela, dentro da zona euro, a criar menos valor acrescentado, resistirá às duras medidas que o governo, seja ele do PS ou do PSD, irá lançar no OE de 2012, pois o crescimento das exportações não compensará em valor, devido ao efeito de saturação dos mercados, a diminuição do consumo interno, o público e o privado.
Como temos aqui insistentemente sustentado, desde há muito tempo, a crise não tem ainda fim à vista, ao contrário do que o primeiro ministro e o ministro da Finanças pensavam, quando afirmavam que a crise já tinha batido no fundo. Com alguma benevolência e condescendência, admito que ela já tivesse chegado a meio do percurso.
http://economia.publico.pt/Noticia/ministerio-das-financas-corte-do-rating-de-portugal-pela-fitch-e-dificil-de-compreender_1472342

Anotação do Tempo: Dissertação sobre um poema inacabado...

Dissertação sobre um poema inacabado…

As mãos já não sossegam
com a febre das palavras
que rebentam os muros dos silêncios.
Cerco-me de solidões incandescentes
no vazio opaco do plasma de um ecrã gigante
à borda da estrada
a vomitar distorcidos decibéis
e estrábicos olhares
e onde eu preencho, nos intervalos,
os interstícios da matéria do meu puzzle
Quero adormecer na calmaria dos astros
depois de chegar aos inacabados caminhos
de uma viagem suspensa
e que não tem regresso anunciado.
Ainda estou atordoado com a voz
da despedida, a rolar nos seixos
e a assustar os pássaros.

Alexandre de Castro

Vizinha Tem Cá Lume - Ronda dos Quatro Caminhos

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Conto: O poeta callboy - por Hugo Gonçalves*

Um dia o meu irmão estava aqui e no dia seguinte estava num avião para Londres. Tínhamos herdado o apartamento após a morte dos meus pais e, quando o meu irmão rebentou o prazo do subsídio de desemprego e se estreou como emigrante em Inglaterra, fiquei sozinho numa casa onde, em tempos, funcionara uma família. Nos álbuns há fotografias do meu pai segurando uma G3 no mato da Guiné como se quisesse impressionar a plateia de um cinema. Há fotografias do meu irmão nos campeonatos judo, o seu corpo sem medo do castigo, um olho inchado, mãos levantadas, troféus de primeiro lugar. Mas eu nunca tive a coragem dos outros homens da minha família. Escrevo poesia que ninguém publica, trabalho como colaborador de uma revista cor-de-rosa e seria incapaz de me lançar para cima de um sequestrador de carros, como fez o meu pai, esquecendo-se que a minha mãe estava no banco do pendura, que a guerra foi no tempo das fotografias a preto-e-branco e que os homens não costumam ser mais rápidos que as pistolas. Um diário titulou: "Car jacking: marido e mulher morrem durante assalto". O jornal não mencionou que o casal defunto deixava dois órfãos em idade adulta. O meu irmão mudou-se para o quarto dos meus pais na tarde do funeral. Passava os dias entre o frigorífico e a televisão, saindo ao final da tarde para treinar. Eu trabalhava como jornalista mercenário para publicações que se dedicam a estilizar e a explorar os cancros dos famosos. Um dia ele chegou a casa e disse: "Brother, acabou-se a mama." E sem o subsídio de desemprego o meu irmão não ia continuar as suas actividades em Portugal. Descascou uma banana e falou enquanto mastigava: "Conheço um gajo que está em Londres a trabalhar com uns turcos. Tem umas cenas para eu fazer". Cenas: falsificação de documentos, entrega de pacotes suspeitos, transporte de dançarinas exóticas em carrinhas com vidros fumados.O meu irmão não gostava de poesia, usava a minha roupa sem pedir autorização e era o proprietário exclusivo da casa de banho grande do apartamento. Mas ao menos eu sabia que, quando metia a chave à porta, não entraria numa casa sem ninguém. Estava sempre deitado naquele sofá. Até que deixou de estar. 2Comecei então a fumar ganzas com a avidez de um alcoólico viúvo. Deixei de escrever para as revistas de celebridades até que cortaram a internet de casa por falta de pagamento e dei por mim outra vez de gravador na mão numa festa de lançamento de coleiras de marca para cães. Não tirei notas de reportagem mas bebi dois copos de champanhe e fechei-me na casa de banho a apertar um charro. É conhecida a relação dos poetas com as substâncias que alteram a consciência. O mesmo não se pode dizer de jornalistas do social. Devia ter mais cuidado. O meu cérebro estava cheio de vapor de canábis e todos os convidados me pareciam figuras num museu de cera. O meu ataque de riso foi tão estrondoso que se houvesse uma banda teria parado de tocar. Esse foi o momento em que matei a minha carreira de narrador de infidelidades de actores e cronista de casamentos de filhas de marqueses. Sem a glória da poesia ou o dinheiro do jornalismo, decidi ser senhorio. 3Blanche mudou-se para o quarto do meu irmão. Foi a terceira a responder ao anúncio no jornal. Falámos primeiro ao telefone, ela estava perto e queria ver a casa. Tomei um duche, mudei de roupa e lavei a loiça. Passei a ser assim todos os dias, mais arrumado, comprador de camisas novas, poeta que dedica sonetos a uma mulher com o nome francês mas sotaque eslavo. Não houve sequer suspeitas: soube desde o primeiro dia que me estava a apaixonar por uma puta.4Blanche preferia não aprender português e nunca me disse onde nascera. Era alta e de feições czarianas, o cabelo lustroso de quem não passou fome. Fluente em francês, inglês e espanhol. Transformava vestidos de noite em festas de gala. Mas quando estava a ver séries de televisão de médicos e alguém morria, Blanche podia ser a mulher que em criança sobrevivera a bombardeamentos e snipers nas ruas de uma cidade que durante algum tempo apareceu nas notícias. Blanche era sobretudo o descontrolo do meu sangue, uma curva feita com o pé no acelerador e grandes possibilidades de capotanço. Eu não queria saber. Se ela entrava na cozinha depois de uma sessão de ioga e bebia água pela garrafa, eu sentia-me como nas aulas do liceu, quando me chamavam ao quadro e tinha de enfiar as mãos nos bolsos dos jeans para esconder a erecção do meio da manhã. Blanche saía da cozinha mas antes dava-me sempre um beijo na cara - "Tem um bom dia, poeta" -, deixando a sua transpiração na minha bochecha e a garrafa de água aberta na bancada: "Podes acabar, ou tens medo de pôr a tua boca onde esteve a minha?"5Blanche transformou-se num bicho que incendiava a minha inquietação. Se me vinha mostrar a roupa que acabara de comprar, pensava em encostá-la contra o móvel da sala e sem respeitar a integridade dos santinhos de loiça da minha mãe. Não sei se Blanche fazia de propósito ou se a luxúria e as drogas estavam a confundir-me o cérebro. Mas cada gesto seu parecia uma provocação - acendia um cigarro e deslizava a língua nos lábios depois da primeira passa, calçava os sapatos de salto como se no palco de um bar de strip, pousava a mão na minha coxa e dizia: "Tens de arriscar mais com a tua vida." Blanche tinha razão, eu atravessava os dias montado no fumo da erva, criando fantasias com uma prostituta de luxo que imaginei como espia internacional ou futuro Nobel da Paz ou mãe dos meus filhos. E por isso, quando Blanche me sugeriu um novo ofício, levantei-me do sofá como quem está disposto a regenerar-se e perguntei o que deveria fazer. Ela disse: "Atender senhoras solitárias com discrição, carinho e algumas palmadas."6Estava sem dinheiro e o meu irmão tinha ido embora. A erva era um vício tão caro como acolhedor. Numa das noites de folga de Blanche, esperou que eu fumasse a poderosa ganza pós-jantar e começou a doutrinar-me na arte da prostituição masculina para mulheres com dinheiro. Depilou-me o peito e a zona púbica, mostrou-me como manobrar a língua, falou de paciência, do fôlego e do compasso dos dedos como se ensinasse, com gravidade e espírito de missão, uma criança a andar no cavalo mais valioso da família. Mas Blanche nunca deixou que a minha mão se aproximasse sequer da sua cintura enquanto a outra lhe puxaria devagar os cabelos na base da nuca. Blanche nunca se prestou a exemplificar a teoria com uma sessão de beijos com língua, botões desapertados e o meu pasmo diante da sua pele sem roupa. Blanche não estava a brincar: "Queres ser pobre para sempre?" Nessa noite ela podia ter dito qualquer coisa. Bastava que movesse a boca para que eu acreditasse no que estava a dizer. 7Não me lembro do autor porque foram tempos nublados e, como se sabe, as ganzas mastigam a memória de curta duração. No entanto, por essa altura, li num livro que nunca são as mudanças que queremos que mudam tudo, ou seja, demasiadas vezes deixamos que as pessoas façam o que querem de nós. Eu sonhava com o acesso ao avesso da roupa de Blanche, queria os seus pés frios nas minhas pernas em noites com a maresia a infiltrar-se pelas janelas, queria o controlo dos seus flancos indomáveis. Eu queria tudo o que ela não me dava. Blanche tinha-me por uma trela, febril nas virilhas e disposto a tudo. Ela era como um traficante, manipulando o desejo do consumidor. Quando cheguei a casa depois do primeiro encontro profissional e mostrei o dinheiro que recebera, ela disse: "Vê lá, não gastes tudo em putas". 8Desde logo percebi que gostava mais de ser acompanhante do que de escrever sobre mulheres com Botox e homens com iates e prescrições de Viagra. Não me sentia usado, sujo ou sofredor de insónias como acontecera nos anos em que colaborara com a revista cor-de-rosa. Não tinha patrão e ganhava bem. No primeiro encontro, a cliente tinha a marca de uma cesariana na barriga e ofereceu-me um chá antes de pedir que a despisse. Penteara-se muitas vezes e a sua pele ainda cheirava a duche. Podíamos ser um casal num fim-de-semana no campo. "Devagar", disse ela. E eu, que desfrutava da doçura e da lascívia vagarosa da erva, tratei-a como se fosse a minha namorada de liceu. Quando informei Blanche da ternura da minha cliente, ela bateu com a porta e ligou a música. Uma hora mais tarde apareceu no meu quarto e disse, como se falasse com um candidato olímpico que faltou aos treinos: "Deixa os sentimentos na poesia. Isto é só para profissionais, não é para românticos." 9Cliente número 4: uma empresária espanhola, sem marido ou filhos, pernas de maratonista, dois telemóveis, muitas milhas aéreas acumuladas no cartão visa e um gosto pelo sexo oral. Encarava a minha nova profissão (incluindo as tarefas orais) com o mesmo espírito de missão da poesia. Eu só queria dar. Podia ser uma ode triunfal ou uma queca assombrosa, mas queria dar. Convencia-me todos os dias que dedicaria minha vida ao serviço do prazer das mulheres tal como há voluntários em cenários de catástrofe natural ou entre crianças com fome. Mas depois acordava, sóbrio, e sentia-me como na tarde em que o professor me apanhou a desenhar mamas e me expôs diante da turma. Tinha escrito um soneto de amor no verso do papel capturado, mas foram as mamas que ele mostrou para que todos vissem. Para não revisitar esse embaraço do passado, fumava logo o primeiro charro com o sumo de laranja do pequeno-almoço. Dessa forma, era muito mais fácil atender o telefone às clientes e julgar-me o Robin dos Bosques da fornicação filantrópica. Mulheres divorciadas, médicas de família, universitárias debochadas, casais de lésbicas, esposas com maridos que preferem a caça, o golfe e as putas. Trabalhar num escritório seria muito pior. Peguei em parte do dinheiro e comprei um vestido lindo para a Blanche. 10Orlando era grande como um pit bull mutante, estava sentado na minha sala e olhou para a caixa (com o vestido) que eu tinha na mão. Com o comando da minha TV apontou e disse: "Que trazes aí?" Eu disse: "Nada", e fugi para o meu quarto com o presente de Blanche debaixo do braço. Ela nunca trazia nenhum homem para casa. Fazia deslocações, passava a noite em domicílios e hotéis, mas nunca falava dos seus clientes. Orlando era um pretendente, um protector, e olhava para mim como se fosse o marido cornudo e eu o malandro. Um dia entrou pela casa de banho comigo no duche. Estava todo nu. Nem sequer levantou a tampa da retrete e a sua erecção matinal impediu-o de acertar no sítio certo. "Podias ter mais cuidado", disse eu, e ele respondeu indo buscar a minha erva e enfiando-a pelo cano. "E tu atina-te miúdo, porque se eu sei que andas de olho na miúda, vais acordar com umas costelas partidas."11Não tinham passado duas semanas desde que começara na minha nova profissão mas o encanto desaparecera e pensei desistir. Em vez de comprar mais erva decidi que seria uma boa oportunidade para me limpar e só aceitei a cliente desse dia porque a minha vergonha em dizer não era maior do que o embaraço de ser prostituto. Quando entrei no quarto de hotel não estava lá ninguém. Esperei horas e nada. Ninguém chegou. Dormi sozinho numa cama de casal. 12Quando regressei a casa certifiquei-me que Orlando não estava e só depois informei Blanche que ela tinha de sair. Também disse que se acabara a minha carreira como missionário da cama. Ela tirou a roupa e disse: "Faz o que quiseres comigo". Perguntei: "Porque me fazes isto?", respondeu, "Porque me aborreço com facilidade". Gostaria de dizer que a comi como certos animais selvagens, que destruímos mobiliário e que o sexo foi tão bom que até os vizinhos acenderam um cigarro; gostaria de dizer que depois disso chegou o Orlando e que andámos ao estalo e que ganhei o combate e o direito a casar com Blanche num duelo ao pôr-do-sol. Ou então gostaria de dizer que afinal recusei a oferta de Blanche, que perdi a oportunidade de morder-lhe o pescoço porque a dignidade não tem preço e nunca mais serei um escravo dos meus impulsos sexuais nem um lacaio de uma mulher tão ferozmente bonita. Gostaria de dizer que a pus fora de casa sem sequer lhe tocar. Limpo, respeitador, certo de que fiz a coisa certa. Mas não posso dizer nada disso. Aceitei a proposta de Blanche e o meu desempenho foi tão inglório, pequeno e precoce, que ela sentiu pena de mim. No dia seguinte, levou as malas e deixou um cheque com duas rendas. Eu passara a ser aborrecido. O meu irmão voltou de Londres e passávamos o Natal juntos. Contei-lhe a história de Blanche, deixando de fora o meu trabalho como fornecedor de alegria sexual. "Todos nós temos maus dias. Nem sempre as coisas funcionam. Toma lá 200 euros e liga para este número. É uma amiga minha brasileira. Com esta não falhas", disse ele. Nunca cheguei a ligar mas usei o dinheiro para comprar um bilhete de avião. Vou começar a escrever outra vez poesia. Às vezes é preciso começar a vida noutro lugar. *Escritor
Publicado no" jornal i" em 13 de DEzembro de 2010