domingo, 5 de dezembro de 2010

Coisas que eu escrevi: Uma Educação que falhou...

Em Outubro de 2007, escrevi um comentário no blogue abnoxio, a propósito de um texto do poeta Ademar Santos, e que republico aqui, por considerar que continua actual na maioria dos seus pressupostos.
Enquanto Portugal não encarar a sério o sistema educativo, através de uma reforma profunda, que lhe corrija as entorses, não poderá progredir. Recordo as palavras da presidente da Finlândia, quando ela afirmou que o seu país não tinha recursos naturais e que a sua maior riqueza era constituída pelos cidadãos finlandeses, em cuja educação se investiu muito, ao longo dos anos.
Portugal também não tem muitos recursos naturais, e, por isso, numa estratégia de longo prazo, terá de trabalhar muito para que o nível de competências, a todos os níveis, possa suprir aquela carência. Não é com universidades privadas, que mais não passam de supermercados de venda de licenciaturas, que o país poderá formar uma elite qualificada. Não é com a instabilidade criada aos jovens professores, que ainda não entraram no quadro (processo infernal que demora uma dezena de anos, obrigando-os a mudar de escola em cada ano lectivo), que se criam as condições ideais para o exercício pleno da docência. Não é com a mudança constante de currículos, que nunca chegam a amadurecer, que se garante a escolha do melhor modelo. Não é com a influência dos vários lobies, que se consegue implementar um programa nacional educativo coerente. Não é com os facilitismos dos exames e da avaliação, nem com a criação de vias paralelas ao percurso curricular principal, que se desenvolvem competências.
É necessário, urgentemente, inventar o país com uma reforma profunda do sistema educativo, quer no ponto de vista administrativo e organizacional, quer no ponto de vista pedagógico. Caso contrário, não subiremos na escala do desenvolvimento.
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abnoxio
Um murro no estômago da estupidez docente...
No essencial, concordo com a mensagem deste apelo. O que, em geral, se passa diariamente nas salas de aula (digo, nas "jaulas") das nossas escolas é um absurdo, um contra-senso. Os alunos precisam de muito mais do que aquilo que os professores, normalmente, lhes oferecem. Basta ter filhos "escolarizados" e não ser completamente idiota para o perceber.
Posted by Ademar Santos on outubro 26, 2007 09:29 PM

Comentário:
Não perceber o que Ademar Santos afirma, significa ignorar o desastre total a que conduziram as políticas educativas dos sucessivos governos depois do 25 de Abril. Pedagogias erradas, manuais errados, professores mal preparados, pais distraídos, facilitismos aberrantes, um parque escolar improvisado e degradado, na maior parte dos casos, e, ainda por cima, mal concebido para uma escola moderna, reformas sobre reformas, elaboradas numa óptica centralizadora e sem levar em linha de conta as assimetrias regionais e sociais, e uma sociedade que nunca valorizou, nem valoriza ainda, a importância do conhecimento no desenvolvimento harmonioso e equilibrado de um País, tinha de resultar nesta moléstia que é a iliteracia dos portugueses.Um ensino que não aposte no rigor e no trabalho individual de cada aluno, um ensino que não se oriente para o desenvolvimento da capacidade de aprender a saber pensar, antes optando-se por oferecer uma acumulação errática de matérias nas várias disciplinas, não pode de maneira alguma apetrechar as novas gerações para os grandes desafios impostos pela globalização total (não só a económica).Um simples exemplo para explicar o anacronismo que acaba por contaminar os próprios docentes: numa pequena cidade de província, um jovem professor, cheio de ideais, queixava-se amargamente perante um colega mais velho da má preparação em matemática de uma turma de raparigas do 9º ano que recebera para leccionar. "Não te preocupes", disse o colega mais velho, para depois acrescentar, "as raparigas apenas necessitam de conhecimentos rudimentares, porque a maior parte delas vai empregar-se como operadoras de caixa num supermercado".
Posted by: Alexandre de Castro October 26, 2007 10:42 PM