sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ministério das Finanças: corte do rating de Portugal pela Fitch é “difícil de compreender”

O Ministério das Finanças afirmou hoje que, “no actual momento”, é “difícil de compreender” que a Fitch tenha cortado o rating de Portugal de AA- para A+, sublinhando que “os resultados orçamentais mostram gradualmente os efeitos das medidas correctivas”.
A agência Fitch considerou ainda que o objectivo do défice orçamental de 7,3 por cento este ano irá ser atingido, mas apenas com recurso a medidas extraordinárias que equivalem a um por cento do PIB (transferências dos fundos de pensões da Portugal Telecom), o que irá tornar ainda mais difícil o ajustamento do défice estrutural previsto a realizar em 2011.
PÚBLICO
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O argumento da Fitch é demolidor. Na realidade, o governo elaborou o Orçamento de Estado de 2011, inscrevendo como receita o resultado financeiro de uma medida extraordinária, com que não poderá contar nos próximos anos - as transferências dos fundos de pensões da Portugal Telecom. Isto quer dizer que, no OE para 2012, o governo terá de recorrer a novas medidas restritivas pelo lado da despesa (pelo lado da receita é impossível), que compensem o valor daqueles fundos (1% do PIB), com os quais já não pode contar em termos contabilísticos. Não é preciso ser doutorado em economia, como é o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, nem engenheiro, na variante de Inglês Técnico, como é o primeiro ministro, para proceder a este elementar raciocínio matemático-contabilístico.
A crescente viciação do discurso político destes dois dirigentes, habituados a ter sucesso, com a sua demagogia barata, junto dos papalvos que ainda acreditam nos milagres de Fátima, leva-os a ignorar a elevada qualificação dos técnicos das agências de rating, que não arriscam perder a sua reputação, passando cheques em branco aos governos que, tal como algumas empregadas de limpeza, varrem o lixo para debaixo do tapete.
Por outro lado (é preciso avivar a memória dos mais distraídos), este ministro das Finanças nunca acertou nas suas previsões, desmentidas sempre, posteriormente, pela realidade, o que é suficiente para arrasar a sua credibilidade perante os agentes dos mercados financeiros, que perseguem dois objectivos, por um lado, garantirem segurança para os seus empréstimos e, por outro, ganhar o mais possível, aproveitando a fragilidade dos países devedores. E ninguém se pode admirar que seja assim, pois a nível individual, ninguém empresta dinheiro a quem não apresente garantias ou idoneidade para poder saldar a dívida.
Por outro lado, coloca-se novamente a questão de saber se a economia portuguesa, que é aquela, dentro da zona euro, a criar menos valor acrescentado, resistirá às duras medidas que o governo, seja ele do PS ou do PSD, irá lançar no OE de 2012, pois o crescimento das exportações não compensará em valor, devido ao efeito de saturação dos mercados, a diminuição do consumo interno, o público e o privado.
Como temos aqui insistentemente sustentado, desde há muito tempo, a crise não tem ainda fim à vista, ao contrário do que o primeiro ministro e o ministro da Finanças pensavam, quando afirmavam que a crise já tinha batido no fundo. Com alguma benevolência e condescendência, admito que ela já tivesse chegado a meio do percurso.
http://economia.publico.pt/Noticia/ministerio-das-financas-corte-do-rating-de-portugal-pela-fitch-e-dificil-de-compreender_1472342

2 comentários:

Graza disse...

Volto para ler depois. Hoje venho só para lhe deixar um abraço de Natal que a tradição acabou por nos impor, mas que eu não deixo de fazer com convicção.

As melhores saudações Alexandre.

Alexandre de Castro disse...

E eu de retribuir com todo o prazer. Obrigado.