quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Conto: O poeta callboy - por Hugo Gonçalves*

Um dia o meu irmão estava aqui e no dia seguinte estava num avião para Londres. Tínhamos herdado o apartamento após a morte dos meus pais e, quando o meu irmão rebentou o prazo do subsídio de desemprego e se estreou como emigrante em Inglaterra, fiquei sozinho numa casa onde, em tempos, funcionara uma família. Nos álbuns há fotografias do meu pai segurando uma G3 no mato da Guiné como se quisesse impressionar a plateia de um cinema. Há fotografias do meu irmão nos campeonatos judo, o seu corpo sem medo do castigo, um olho inchado, mãos levantadas, troféus de primeiro lugar. Mas eu nunca tive a coragem dos outros homens da minha família. Escrevo poesia que ninguém publica, trabalho como colaborador de uma revista cor-de-rosa e seria incapaz de me lançar para cima de um sequestrador de carros, como fez o meu pai, esquecendo-se que a minha mãe estava no banco do pendura, que a guerra foi no tempo das fotografias a preto-e-branco e que os homens não costumam ser mais rápidos que as pistolas. Um diário titulou: "Car jacking: marido e mulher morrem durante assalto". O jornal não mencionou que o casal defunto deixava dois órfãos em idade adulta. O meu irmão mudou-se para o quarto dos meus pais na tarde do funeral. Passava os dias entre o frigorífico e a televisão, saindo ao final da tarde para treinar. Eu trabalhava como jornalista mercenário para publicações que se dedicam a estilizar e a explorar os cancros dos famosos. Um dia ele chegou a casa e disse: "Brother, acabou-se a mama." E sem o subsídio de desemprego o meu irmão não ia continuar as suas actividades em Portugal. Descascou uma banana e falou enquanto mastigava: "Conheço um gajo que está em Londres a trabalhar com uns turcos. Tem umas cenas para eu fazer". Cenas: falsificação de documentos, entrega de pacotes suspeitos, transporte de dançarinas exóticas em carrinhas com vidros fumados.O meu irmão não gostava de poesia, usava a minha roupa sem pedir autorização e era o proprietário exclusivo da casa de banho grande do apartamento. Mas ao menos eu sabia que, quando metia a chave à porta, não entraria numa casa sem ninguém. Estava sempre deitado naquele sofá. Até que deixou de estar. 2Comecei então a fumar ganzas com a avidez de um alcoólico viúvo. Deixei de escrever para as revistas de celebridades até que cortaram a internet de casa por falta de pagamento e dei por mim outra vez de gravador na mão numa festa de lançamento de coleiras de marca para cães. Não tirei notas de reportagem mas bebi dois copos de champanhe e fechei-me na casa de banho a apertar um charro. É conhecida a relação dos poetas com as substâncias que alteram a consciência. O mesmo não se pode dizer de jornalistas do social. Devia ter mais cuidado. O meu cérebro estava cheio de vapor de canábis e todos os convidados me pareciam figuras num museu de cera. O meu ataque de riso foi tão estrondoso que se houvesse uma banda teria parado de tocar. Esse foi o momento em que matei a minha carreira de narrador de infidelidades de actores e cronista de casamentos de filhas de marqueses. Sem a glória da poesia ou o dinheiro do jornalismo, decidi ser senhorio. 3Blanche mudou-se para o quarto do meu irmão. Foi a terceira a responder ao anúncio no jornal. Falámos primeiro ao telefone, ela estava perto e queria ver a casa. Tomei um duche, mudei de roupa e lavei a loiça. Passei a ser assim todos os dias, mais arrumado, comprador de camisas novas, poeta que dedica sonetos a uma mulher com o nome francês mas sotaque eslavo. Não houve sequer suspeitas: soube desde o primeiro dia que me estava a apaixonar por uma puta.4Blanche preferia não aprender português e nunca me disse onde nascera. Era alta e de feições czarianas, o cabelo lustroso de quem não passou fome. Fluente em francês, inglês e espanhol. Transformava vestidos de noite em festas de gala. Mas quando estava a ver séries de televisão de médicos e alguém morria, Blanche podia ser a mulher que em criança sobrevivera a bombardeamentos e snipers nas ruas de uma cidade que durante algum tempo apareceu nas notícias. Blanche era sobretudo o descontrolo do meu sangue, uma curva feita com o pé no acelerador e grandes possibilidades de capotanço. Eu não queria saber. Se ela entrava na cozinha depois de uma sessão de ioga e bebia água pela garrafa, eu sentia-me como nas aulas do liceu, quando me chamavam ao quadro e tinha de enfiar as mãos nos bolsos dos jeans para esconder a erecção do meio da manhã. Blanche saía da cozinha mas antes dava-me sempre um beijo na cara - "Tem um bom dia, poeta" -, deixando a sua transpiração na minha bochecha e a garrafa de água aberta na bancada: "Podes acabar, ou tens medo de pôr a tua boca onde esteve a minha?"5Blanche transformou-se num bicho que incendiava a minha inquietação. Se me vinha mostrar a roupa que acabara de comprar, pensava em encostá-la contra o móvel da sala e sem respeitar a integridade dos santinhos de loiça da minha mãe. Não sei se Blanche fazia de propósito ou se a luxúria e as drogas estavam a confundir-me o cérebro. Mas cada gesto seu parecia uma provocação - acendia um cigarro e deslizava a língua nos lábios depois da primeira passa, calçava os sapatos de salto como se no palco de um bar de strip, pousava a mão na minha coxa e dizia: "Tens de arriscar mais com a tua vida." Blanche tinha razão, eu atravessava os dias montado no fumo da erva, criando fantasias com uma prostituta de luxo que imaginei como espia internacional ou futuro Nobel da Paz ou mãe dos meus filhos. E por isso, quando Blanche me sugeriu um novo ofício, levantei-me do sofá como quem está disposto a regenerar-se e perguntei o que deveria fazer. Ela disse: "Atender senhoras solitárias com discrição, carinho e algumas palmadas."6Estava sem dinheiro e o meu irmão tinha ido embora. A erva era um vício tão caro como acolhedor. Numa das noites de folga de Blanche, esperou que eu fumasse a poderosa ganza pós-jantar e começou a doutrinar-me na arte da prostituição masculina para mulheres com dinheiro. Depilou-me o peito e a zona púbica, mostrou-me como manobrar a língua, falou de paciência, do fôlego e do compasso dos dedos como se ensinasse, com gravidade e espírito de missão, uma criança a andar no cavalo mais valioso da família. Mas Blanche nunca deixou que a minha mão se aproximasse sequer da sua cintura enquanto a outra lhe puxaria devagar os cabelos na base da nuca. Blanche nunca se prestou a exemplificar a teoria com uma sessão de beijos com língua, botões desapertados e o meu pasmo diante da sua pele sem roupa. Blanche não estava a brincar: "Queres ser pobre para sempre?" Nessa noite ela podia ter dito qualquer coisa. Bastava que movesse a boca para que eu acreditasse no que estava a dizer. 7Não me lembro do autor porque foram tempos nublados e, como se sabe, as ganzas mastigam a memória de curta duração. No entanto, por essa altura, li num livro que nunca são as mudanças que queremos que mudam tudo, ou seja, demasiadas vezes deixamos que as pessoas façam o que querem de nós. Eu sonhava com o acesso ao avesso da roupa de Blanche, queria os seus pés frios nas minhas pernas em noites com a maresia a infiltrar-se pelas janelas, queria o controlo dos seus flancos indomáveis. Eu queria tudo o que ela não me dava. Blanche tinha-me por uma trela, febril nas virilhas e disposto a tudo. Ela era como um traficante, manipulando o desejo do consumidor. Quando cheguei a casa depois do primeiro encontro profissional e mostrei o dinheiro que recebera, ela disse: "Vê lá, não gastes tudo em putas". 8Desde logo percebi que gostava mais de ser acompanhante do que de escrever sobre mulheres com Botox e homens com iates e prescrições de Viagra. Não me sentia usado, sujo ou sofredor de insónias como acontecera nos anos em que colaborara com a revista cor-de-rosa. Não tinha patrão e ganhava bem. No primeiro encontro, a cliente tinha a marca de uma cesariana na barriga e ofereceu-me um chá antes de pedir que a despisse. Penteara-se muitas vezes e a sua pele ainda cheirava a duche. Podíamos ser um casal num fim-de-semana no campo. "Devagar", disse ela. E eu, que desfrutava da doçura e da lascívia vagarosa da erva, tratei-a como se fosse a minha namorada de liceu. Quando informei Blanche da ternura da minha cliente, ela bateu com a porta e ligou a música. Uma hora mais tarde apareceu no meu quarto e disse, como se falasse com um candidato olímpico que faltou aos treinos: "Deixa os sentimentos na poesia. Isto é só para profissionais, não é para românticos." 9Cliente número 4: uma empresária espanhola, sem marido ou filhos, pernas de maratonista, dois telemóveis, muitas milhas aéreas acumuladas no cartão visa e um gosto pelo sexo oral. Encarava a minha nova profissão (incluindo as tarefas orais) com o mesmo espírito de missão da poesia. Eu só queria dar. Podia ser uma ode triunfal ou uma queca assombrosa, mas queria dar. Convencia-me todos os dias que dedicaria minha vida ao serviço do prazer das mulheres tal como há voluntários em cenários de catástrofe natural ou entre crianças com fome. Mas depois acordava, sóbrio, e sentia-me como na tarde em que o professor me apanhou a desenhar mamas e me expôs diante da turma. Tinha escrito um soneto de amor no verso do papel capturado, mas foram as mamas que ele mostrou para que todos vissem. Para não revisitar esse embaraço do passado, fumava logo o primeiro charro com o sumo de laranja do pequeno-almoço. Dessa forma, era muito mais fácil atender o telefone às clientes e julgar-me o Robin dos Bosques da fornicação filantrópica. Mulheres divorciadas, médicas de família, universitárias debochadas, casais de lésbicas, esposas com maridos que preferem a caça, o golfe e as putas. Trabalhar num escritório seria muito pior. Peguei em parte do dinheiro e comprei um vestido lindo para a Blanche. 10Orlando era grande como um pit bull mutante, estava sentado na minha sala e olhou para a caixa (com o vestido) que eu tinha na mão. Com o comando da minha TV apontou e disse: "Que trazes aí?" Eu disse: "Nada", e fugi para o meu quarto com o presente de Blanche debaixo do braço. Ela nunca trazia nenhum homem para casa. Fazia deslocações, passava a noite em domicílios e hotéis, mas nunca falava dos seus clientes. Orlando era um pretendente, um protector, e olhava para mim como se fosse o marido cornudo e eu o malandro. Um dia entrou pela casa de banho comigo no duche. Estava todo nu. Nem sequer levantou a tampa da retrete e a sua erecção matinal impediu-o de acertar no sítio certo. "Podias ter mais cuidado", disse eu, e ele respondeu indo buscar a minha erva e enfiando-a pelo cano. "E tu atina-te miúdo, porque se eu sei que andas de olho na miúda, vais acordar com umas costelas partidas."11Não tinham passado duas semanas desde que começara na minha nova profissão mas o encanto desaparecera e pensei desistir. Em vez de comprar mais erva decidi que seria uma boa oportunidade para me limpar e só aceitei a cliente desse dia porque a minha vergonha em dizer não era maior do que o embaraço de ser prostituto. Quando entrei no quarto de hotel não estava lá ninguém. Esperei horas e nada. Ninguém chegou. Dormi sozinho numa cama de casal. 12Quando regressei a casa certifiquei-me que Orlando não estava e só depois informei Blanche que ela tinha de sair. Também disse que se acabara a minha carreira como missionário da cama. Ela tirou a roupa e disse: "Faz o que quiseres comigo". Perguntei: "Porque me fazes isto?", respondeu, "Porque me aborreço com facilidade". Gostaria de dizer que a comi como certos animais selvagens, que destruímos mobiliário e que o sexo foi tão bom que até os vizinhos acenderam um cigarro; gostaria de dizer que depois disso chegou o Orlando e que andámos ao estalo e que ganhei o combate e o direito a casar com Blanche num duelo ao pôr-do-sol. Ou então gostaria de dizer que afinal recusei a oferta de Blanche, que perdi a oportunidade de morder-lhe o pescoço porque a dignidade não tem preço e nunca mais serei um escravo dos meus impulsos sexuais nem um lacaio de uma mulher tão ferozmente bonita. Gostaria de dizer que a pus fora de casa sem sequer lhe tocar. Limpo, respeitador, certo de que fiz a coisa certa. Mas não posso dizer nada disso. Aceitei a proposta de Blanche e o meu desempenho foi tão inglório, pequeno e precoce, que ela sentiu pena de mim. No dia seguinte, levou as malas e deixou um cheque com duas rendas. Eu passara a ser aborrecido. O meu irmão voltou de Londres e passávamos o Natal juntos. Contei-lhe a história de Blanche, deixando de fora o meu trabalho como fornecedor de alegria sexual. "Todos nós temos maus dias. Nem sempre as coisas funcionam. Toma lá 200 euros e liga para este número. É uma amiga minha brasileira. Com esta não falhas", disse ele. Nunca cheguei a ligar mas usei o dinheiro para comprar um bilhete de avião. Vou começar a escrever outra vez poesia. Às vezes é preciso começar a vida noutro lugar. *Escritor
Publicado no" jornal i" em 13 de DEzembro de 2010