quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Um Poema ao Acaso: Ruínas de Ansiães e Carrazeda -Manuel de Freitas


RUÍNAS DE ANSIÃES E CARRAZEDA
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Quanto tempo pode durar uma cidade,
a vida de uma cidade, inteira?
É de perguntas assim – inúteis como
todas – que se constroem por vezes
as capitais da nossa solidão, os passos
que fugazmente nos conduzem
à alegria e ao desespero, à voz possível.
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Não é difícil precisar a rude e fortificada
duração de Ansiães, a velha: do século
XI a 1734, por ignorados motivos.
Menos exactos são os túmulos pré-cristãos
que se abriam na dureza do solo transmontano,
com lugar vazio para três pessoas. Éramos
mais, nessa tarde que foi do largo de Grijó
à imensa desolação de Carrazeda, terminando
apenas (e tão bem) em Parada de Cunhos.
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Mas são esses – os de Carrazeda, a nova –
os túmulos vivos que nos restam:
cafés apinhados, lojas que se esqueceram de fechar,
a vasta e inacreditável quinquilharia que
faz da Papelaria Horizonte um exemplo de sucesso.
Penhores, dispersos, de algo que nunca existiu.
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Um país, garantem-nos. Mas Ansiães, a velha,
nasceu antes da nacionalidade, embora
a tenha acompanhado o melhor que pôde.
Parecem demasiado perfeitas, estas ruínas,
demasiado diferentes daquela que será um dia
a nossa. Entretanto, abelhas, gafanhotose
lagartos confundem-se com a teimosia das pedras
que a todos, e a nós também, sobreviverão.
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É o seu modo calmo de profanar as duas igrejas
românicas – o que delas sobra – e os bruxedos
encenados por quem da vida ou da morte espera ainda
alguma coisa. Pelos afortunados, em suma.
Quanto a mim, gostaria apenas de saber se
existe mesmo a borboleta em forma de forquilha
que te pousou no ombro (as fotografias, escusado
dizer, não serão prova bastante). A única certeza,
para já, é a de que não caberíamos em nenhum
dos túmulos (a observação foi do Rui, e pertinente).
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As cidades, já se sabe, também morrem. Mas poucas vezes
terá sido tão belo o desencanto de o saber. «Bem-vindo
a Benlhevai» – parece querer dizer o vento
a estes frágeis viandantes, desprovidos de aguilhada.
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Manuel de Freitas (Rua das Pretas)
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Nota: Tinha cinco anos de idade, quando o meu pai me levou ao castelo de Ansiães. Lembro-me do meu deslumbramento, perante a grandeza daquelas muralhas e daqueles entroncados torreões quadrangulares, assim como ainda não esqueci a emoção de ouvir o silêncio do tempo, através daquelas pedras seculares, que serviram de guarida a quem vigiava à fronteira efémera e inconstante, traçada pelo rio Douro, nos primeiros tempos da Reconquista Cristã.
Com uma calma e serenidade peculiares, que eu não lhe herdei, o meu pai acabava de dar-me a primeira lição de História, pela qual me apaixonei para o resto da vida.
Na minha primeira redacção da aula de Português do meu primeiro ano do liceu, em que o tema era livre, recuperei em letra de forma a memória daquela visita, tendo conseguido escrever um texto simples, mas onde deixei bem vincada a expressão daquele deslumbramento e daquela minha emoção. A mesma emoção que senti agora, ao ler este poema de Manuel de Freitas.
Alexandre de Castro