segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Resposta a um anónimo sobre o jogo do pau e as suas variantes...

.
A propósito da minha referência ao meu bisavô materno e à sua perícia no jogo do pau, no texto que acompanhou o vídeo dos pauliteiros de Miranda do Douro, um anónimo deixou um comentário, em que me perguntava se o bisneto teria herdado o “domínio dessa técnica”.
Eis a minha resposta, que resolvi colocar no frontispício deste blogue:

Desconheço por completo a técnica do jogo do pau, o que lamento, pois, por vezes, apetecia-me correr à paulada alguma gente importante, que por aí anda a pavonear-se, e que por decoro me abstenho de identificar. Sei que a técnica é muito eficaz, mas exige muito treino e destreza, além da força de braços e de pernas. Um bom jogador do pau consegue manter à distância um grupo de cinco ou seis meliantes, que o queiram atacar. Tanto quanto me apercebi, o segredo consiste em saber combinar a manobra do pau com o constante movimento das pernas, mudando sempre de lugar, a fim de iludir e confundir o adversário. Todos esses movimentos combinados, a exibirem uma grande leveza, conferem ao lutador o aspecto de um bailarino a dançar sobre um palco. O adversário nunca consegue perceber onde a paulada vai cair, se na cabeça, se nos costados ou se vai a rasar as pernas, último golpe este que derruba irremediavelmente o adversário. A velocidade do pau, caia onde cair, faz mossa. Cabeças rachadas e a sangrar e costelas partidas, quando se trata de um travar de razões, são as mazelas mais frequentes da refrega.
Mas, se não tive a oportunidade de aprender a jogar o pau, aprendi em miúdo a manejar o paulito, numa dança de pauliteiros, realizada no palco do salão dos Bombeiros de Carrazeda de Ansiães. Facultaram-me essa experiência precoce, de que tenho uma recordação difusa. Mas o desempenho deveria ter sido excelente, pois, posteriormente, também fui seleccionado para dançar o malhão e representar em cena a figura do rei D. Dinis, numa pequena peça de teatro infantil, versando o estafado milagre das rosas, e em que pela primeira vez senti os eflúvios da paixão a trepar pelo corpo acima, já que me apaixonara pela Teresinha, a miúda que representava a figura da rainha Santa Isabel.
E a minha história de paus, paulitos e pauliteiros acaba aqui.
Na verdade não herdei o pau do meu bisavô, que levantou um grande alvoroço numa feira de gado, em Carrazeda de Ansiães, nem sequer o gene da sua provecta virilidade, reflectida, segundo dizem, na sua capacidade de procriar, sendo já septuagenário. Condenado à abstinência por uma precoce viuvez, e não havendo na aldeia mulher disponível, que lhe aliviasse os humores, começou a arrastar a asa à mulher de Campelos, que, diariamente, fazia o transporte do correio da Carrapatosa para o apeadeiro da estação da Alegria, onde se chegava por um caminho de cabras, sobre uma encosta íngreme e agreste, e que o uso, com o tempo, fez pedonal para os humanos. E alguém viu, naquele caminho, o meu bisavô, que já andava curvado e agarrado a um cajado, a fornicar a mulher do correio, debaixo da ampla copa de um sobreiro. Saltaram-lhe as filhas em cima, incluindo a minha avó materna, a condenar-lhe o desvario e a chamarem-lhe velho depravado, acusações que, parece, o deixaram imperturbável.
Não sei se, na sua numerosa prole, entre filhos, netos e bisnetos, alguém lhe herdou o jeito e a força do pau, com que varava as feiras e o outro com que emprenhava as mulheres. Ouvi falar de um seu filho, meu tio-avô, que lhe herdou os calores do sangue, e que não desmerecia dos atributos do pai. Ainda rapaz, a conduzir por um caminho esconso um carro de bois, cruzou-se com a rapariga dos seus encantos, que já andava a catrapiscar. E não esteve com mais rodeios. Possante como o pai, agarrou na rapariga, e, à força, deitou-a sobre o feno do carro de bois e varou-lhe os três vinténs com que ela viera ao mundo.
Atordoado com o que acabara de fazer, e temendo a vingança da honra ofendida da família da rapariga, que lhe punha a própria vida em risco, deixou os bois e correu para casa, onde mudou de roupa e amanhou a trouxa, que iria também guardar-lhe o pecúlio amealhado, e ala que se faz tarde, estugou o passo, encosta abaixo, até à estação de Alegria, onde apanhou o comboio para o Porto. Daí dera o salto até Lisboa, onde embarcou num paquete para o Brasil. Não deu mais sinais de vida. Muito vagamente, chegavam notícias esfarrapadas de um ou outro emigrado regressado, que o davam como vivo no Rio de Janeiro.
Conheci-o uns quarenta anos mais tarde, após a sua precipitada fuga, quando resolveu quebrar o silêncio e terminar o degredo. Chegado a Lisboa, visitou, na Amadora, a minha mãe, que era a sua sobrinha preferida, e apresentou a sua família, que crescera no Brasil.
Julgo que na Carrapatosa a ferida já estava sarada, a avaliar pelos foguetes a estalejar, com que saudaram a sua chegada.