terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um Poema ao Acaso: SENHORA DA MEIA-NOITE - Leonard Cohen

O grito - de Munch
SENHORA DA MEIA-NOITE


Cheguei sozinho a um sítio cheio de gente. Procurava alguém
com rugas no rosto. Encontrei-a, mas ela não queria saber.
Pedi-lhe para me abraçar. Pedi-lhe para me desvendar. Mas
ela troçou de mim e disse-me que eu estava morto e nunca ha-
via de regressar.

Discuti a noite inteira, como tantos o fizeram, dizendo: Preci-
so de muito mais que o que me podes dar. Então ela apontou
para onde eu me ajoelhava no chão. Disse: Não tentes usar-
me, ou abandonar-me à traição, é ganhar-me ou perder-me
para isso serve a escuridão.

Gritei, Ó Senhora da Meia-Noite, temo que estejas a envelhecer,
com as estrelas a comer-te o corpo e o vento a enregelar-te. Se
gritarmos agora, disse ela, só nos podem ignorar. Por isso avan-
cei pela madrugada, o doce romper da manhã, ouvia a minha
Senhora chamando: Ganhaste-me, ganhaste-me, meu senhor.

Leonard Cohen, Poemas e Canções 1

Tradução de Margarida do Gato e Manuel Alberto)