domingo, 26 de dezembro de 2010

Notas do meu rodapé: 25 e Assalto ao Castelo - Galandum Galundaina



Uma preciosidade etnográfica, do planalto mirandês, que mergulha na profundidade do tempo histórico.
A tese dominante situa esta coreografia e respectivos adereços na época da romanização da Península Ibérica. A proximidade da cidade de Leon, onde ficou aquartelada, durante muitos anos, uma legião romana, teria inspirado os nativos, que adoptaram para as suas danças os ritmos marciais dos soldados do império, assim como integraram na sua indumentária alguns elementos figurativos do seu fardamento, como é o caso do saiote.
Há, no entanto, quem sustente, que a coreografia e a utilização dos paulitos, seria uma forma de adestramento do jogo do pau, um jogo utilizado como arma de defesa pessoal e de uma grande eficácia, que, por aquelas bandas de Miranda do Douro, teria surgido em épocas remotas, tendo sido mantido actuante e vivo, até ao século vinte, nas zonas rurais do nordeste transmontano. Um homem só, com um pau, manuseado com uma certa técnica, semeava a confusão numa feira ou numa romaria, rachando cabeças e partindo costelas a quem se atravessasse à sua frente. Camilo Castelo Branco fixou episódios destas lutas em algumas das suas novelas.
O meu bisavô materno, com o seu pau de castanheiro, bem podado nos nódulos, desfez de uma assentada uma feira de gado em Carrazeda de Ansiães, devido a um desentendimento a propósito de um boi desencabrestado, a quem ele, através de uma pega de caras, torceu o pescoço pelos cornos, matando-o. O dono do boi queria ser ressarcido, e o meu bisavô, que tinha a consciência de ter evitado, com a sua coragem e a sua força de gigante, maiores danos entre os feirantes, que entraram em pânico com as arremetidas violentas do boi à solta, e sentindo-se injustiçado e mal agradecido, mandou-lhe uma estocada no toutiço, deixando-o pendurado entre a vida e a morte. Vieram os do lugar do dono do boi medir forças com ele, em defesa da honra e do amigo, e o meu bisavô, sem pedir licença, varreu-os a eito com a varapau, numa luta violenta que alastrou aos que tomaram partido entre as partes, e provocando assim um sobressalto na multidão, que se pôs em fuga precipitada, largando o gado. A confusão foi muita e o terreiro ficou deserto, apenas com gente a sangrar e a gritar de dores e a implorar socorro à senhora dos Remédios.
Na Carrapatosa, a sua aldeia, o meu bisavô entrou na lenda. Ainda o conheci, já mirradinho pela velhice, quase centenária, ao ponto de já não se lembrar deste episódio.
Outro elemento a destacar no folclore mirandês, é a adopção, a nível instrumental, da gaita de foles, que se generalizou pela Galiza e por todo o norte de Portugal. A maioria dos estudiosos, marcaram-lhe a ascendência ao tempo dos celtas, povo que se fixou e se fundiu com os nativos iberos, deixando-nos por herança a sua cultura castreja, ainda bem expressa em muitos vocábulos na língua portuguesa e nas manifestações religiosas e festivas, que o cristianismo habilmente adoptou, como é o caso das romarias aos santos e padroeiros, venerados nas capelas dos cabeços dos montes. Outros autores, contestando a tese da origem céltica da gaita de foles, situam a sua invenção no norte de África. Mas, ligando as pontes, todos concordam em aceitar o seu primitivo aparecimento entre as comunidades de pastores, no início do neolítico. Assim aconteceu também com o pau mirandês. Teriam sido as comunidades primitivas de pastores a inventá-lo e a adoptá-lo como instrumento para a condução dos rebanhos e, posteriormente, como arma de defesa pessoal. Em Miranda do Douro, devido ao isolamento e à sua profunda interioridade, o jogo do pau resistiu até aos nossos dias, assim como a dança dos pauliteiros. Ambas as manifestações etnográficas estiveram ameaçadas de extinção no início da década de sessenta, do século passado, devido à emigração massiva das gentes. Mas um grupo de jovens mirandeses, orgulhosos da sua cultura multissecular, e através de um pujante movimento associativo, restauraram-nas para efeitos lúdicos e festivos, preservando assim a sua memória.

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei da dança, mas gostei ainda mais do fino relato pormenorizado da luta do seu bisavô na feira. Terá o bisneto herdado o domínio dessa técnica? Não seria de desprezar nalgum momento o recurso a ela.

José María Souza Costa disse...

Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

Anónimo disse...

Completando o meu comentário.
Pegar o boi pelos cornos não é para todos!

Alexandre de Castro disse...

Caro José Maria Souza Costa:
Obrigado pelas suas palavras. Tenho muito prazer em tê-lo como leitor do Alpendre da Lua.
Ainda não tive a oportunidade de dedicar toda a minha atenção ao seu blogue, o que farei brevemente. Com as festas natalícias, o tempo baralha-se todo e não há tempo para nada.
Cumprimentos
Alexandre de Castro
alexandre.castro44@gmail.com