sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um Poema ao Acaso: Cardiologia - Fernando Pinto do Amaral

Nadir Afonso

Cardiologia

Talvez na sua vida o maior estímulo
fosse a curiosidade.

Era o motor de tudo: aproximava-se
de todas as mulheres que conhecia,
mas só lhe interessavam os seus corações.

Cultivava com método essa obsessão
e tal como as crianças costumam fazer
aos brinquedos preferidos,
também ele queria vê-los por dentro,
saber ao certo como funcionavam,
desfibrar lentamente cada esperança,
dissecar com um rigor quase científico
cada angústia ou desejo inconfessável
até saborear o gosto sempre novo
de cada uma dessas células.

Após cada experiência, observava
aqueles corações já desmontados
e, por não conseguir juntar as peças,
guardava-as uma a uma no seu peito.
Era um lugar seguro
e com tantos pedaços de outras vidas
na sua pulsação descompassada
podia enfim acreditar
que tinha também ele um coração.

Fernando Pinto do Amaral
Poemas Escolhidos (1990-2007)

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