terça-feira, 5 de outubro de 2010

Notas do meu rodapé: Economia portuguesa a caminho da anemia


As severas medidas restritivas anti-crise, que o governo tem vindo a implementar desde o início do ano, não se destinam apenas a cumprir o objectivo orçamental de correcção do défice das contas públicas, imposto pelo Programa de Estabilidade e Crescimento da União Europeia. Existe um outro objectivo oculto, que, por impopular, não é referido publicamente, e que se centra na necessidade de baixar o custo unitário do trabalho para, desta forma miserabilista, aumentar a competitividade externa.
Com o investimento público e privado em declínio e sem grandes expectativas de conseguir um significativo aumento das exportações, principalmente, devido às incertezas sobre evolução da economia espanhola, uma das principais clientes, o governo optou por assumir medidas que vão diminuir o consumo, principalmente o consumo privado. O aumento do IVA para 23 por cento é a medida mais emblemática desta estratégia. Os cortes dos apoios sociais e a anunciada intenção de passar a cobrar IRS aos reformados que, devido ao baixo valor das suas reformas, se encontravam isentos daquele imposto, aponta no mesmo sentido. Aliás foi este o conselho da OCDE, quando no seu boletim, Economic Survey of Portugal 2010, afirmava que “é necessário restaurar a competitividade da economia portuguesa mediante um aumento da produtividade e uma transferência do consumo para as exportações como motor do crescimento”.
Estamos perante uma confissão clara da incapacidade da economia portuguesa conseguir aumentar a sua competitividade externa através da inovação e desenvolvimento, quer por incúria dos últimos governos, quer pelo comodismo atávico dos empresários, que, habituados ao proteccionismo do Estado, nunca aprenderam a competir com audácia nos mercados externos nem perceberam a tempo a mudança de paradigma que a globalização impôs, de forma radical e incontornável.
Perante este quadro, a economia portuguesa irá descer nos próximos anos no ranking mundial, como resultado do empobrecimento do país. Por outro lado, os custos da estratégia deste governo irão repercutir-se ao nível do emprego e ao do agravamento da desigualdade social. Durante os próximos anos, Portugal terá de conviver com uma taxa de desemprego muito elevada e com o aumento generalizado da pobreza.