domingo, 31 de outubro de 2010

El último testimonio de Unamuno

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Este texto de Miguel de Unamuno foi escrito, quando o escritor se encontrava, já doente, em prisão domiciliária, na sequência da sua desassombrada discussão com o fanático e paranóico general franquista, José Millán-Astray y Terreros, na sessão solelene de abertura do ano lectivo de 1936/37 da Universidade de Salamanca, de que era reitor. Desiludido com Franco, que, no início do levantamento militar, que iniciou a sangrenta Guerra Civil de Espanha, chegou timidamente a apoiar, mais como forma de protesto em relação à deriva do regime republicano, de que foi um apoiante convicto, do que por qualquer simpatia em relação a Franco, Unamuno, no seu discurso desassombrado, acusou a ideologia fascista dos franquistas e denunciou os crimes que vinham praticando, pronunciando a célebre frase "Vencereis, mas não convencereis", ao que Millán-Astray, por sua vez, respondeu, pronunciando outra frase, que também ficou célebre, por caracterizar toda a brutalidade do novo regime, dizendo "Abaixo a inteligência e viva a morte". Com uma altiva dignidade, Unamuno abandonou a sala, como forma de protesto, não sem antes lançar o firme repto "Viva a vida".
Destituído, pela terceira vez, das funções de reitor da Universidade de Salamanca, Unamuno, que amava a sua Espanha, veio a morrer aos 72 anos de idade, de doença e de desgosto.
Deixou uma obra de incalculável valor no domínio da filosofia, da poesia, da novela e da filologia. Muitos anos antes, foi um dos grandes impulsionadores do eclético movimento literário Geração 98, onde também pontificava o escritor António Machado, movimento este que, ao nível literário, fez a ruptura com o realismo, procurando restaurar a identidade nacional, completamente arrasada e deprimida com a perda das colónias espanholas da América Central, através da recuperação, nas suas obras ficcionais, do ruralismo e e da respectiva linguagem popular.
Na filosofia, Unamuno foi o introdutor da corrente existencialista, em Espanha, após ter abandonado o pensamento positivista, que abraçara na sua juventude.
Basco de nascença, foi em Salamanca que Unamuno passou a maior parte da sua vida. Foi nomeado, pela primeira vez, reitor da sua universidade em 1901, no culminar de uma brilhante carreira académica. Desde 1891, leccionara ali Literatura Clássica. É destituído destas funções, em 1914, por ter escrito um texto, considerado ofensivo para com o rei Afonso XIII. Conheceu o exílio. Com o advento da República, em 1931, é reconduzido às suas anteriores funções, mas em 1936 é demitido pelos republicanos, por ter manifestado apoio ao levantamento militar de Franco. Descobrindo a verdadeira natureza do novo regime, é novamente demitido, como se disse anteriormente, pelos franquistas, naquela emblemática cerimónia pública, que ficou para a História como símbolo de resistência da inteligência contra a aliança espúria do quartel com a sacristia.

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