quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Opinião: Quando a política se afasta da Ciência e da Técnica *

O conceito de país, que temos tanta dificuldade em abandonar, devido "a questões culturais", como, por exemplo, a língua, remonta aos tempos bárbaros em que os conflitos eram resolvidos quase exclusivamente através de guerras. Curiosamente, apesar de desactualizado, este conceito ainda molda a forma de pensar da maioria da população: se o meu país estiver bem "economicamente" e "financeiramente" (termos propositadamente vagos e, na verdade, pouco ligados ao bem-estar da população), então, a probabilidade de eu estar bem "economicamente" e "financeiramente" é elevada. Historicamente, foi o nacionalismo (exacerbado) que levou à primeira guerra mundial, e, consequentemente, à segunda. Portanto, deveria existir uma profunda reflexão sobre se o conceito de nações é o mais adequado, nos tempos actuais, para o bem-estar da população (mundial).
E este tema levará inevitavelmente ao conceito da governação e da tomada de decisões. Em primeiro lugar, nunca existiu nem existe nenhuma verdadeira democracia: o poder foi e é ocupado e mantido pelas elites intelectualmente/financeiramente capazes. No tempo presente, há um "chicote invisível" que nos faz trabalhar e que é manipulado, e de certa forma ocultado, pela elite dominante: o sistema monetário. A ignorância sobre o que o sistema monetário verdadeiramente é e implica é tão grande que a maior parte das pessoas pensa que a inflação é uma coisa positiva. Na verdade, é um imposto invisível que pagamos por utilizar dinheiro. Com isto, quero concluir que a organização social que temos hoje em dia é essencialmente a mesma do que a do império romano, há 2000 anos atrás. Mas então o que é que mudou desde aquela época? A vida do cidadão comum é bastante diferente do que a do cidadão comum romano há 2000 anos. A ÚNICA diferença é a existência de ciência e tecnologia. São estas as duas coisas que melhoram realmente a qualidade de vida das populações. Não é a política e não é a economia (ainda que haja uma correlação entre economia e evolução tecnológica). A política baseia-se em opiniões. Quando a maioria dos problemas que "realmente" existem são de carácter técnico, porque é que havemos de ter os ignorantes (em ciência e tecnologia) políticos a emitirem as suas opiniões e tomarem decisões?
Aproveitei o exemplo da notícia deste post para tentar com que as pessoas reflictam sobre os três conceitos que a notícia envolve: país, dinheiro e decisões políticas. Três conceitos muito antigos, que nunca sofreram actualizações, nem nunca foram objecto de estudo "verdadeiramente" científico.
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João (de Castro) Mota
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* Título da responsabilidade do editor
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Nota do Editor: João (de Castro) Mota é meu sobrinho. É um jovem de 23 anos que, neste momento, é doutorando numa prestigiada universidade norte-americana. Mas não foi pelos laços sanguíneos nem pelas suas elevadas habilitações, que eu resolvi trazer para a primeira página o texto do seu comentário, deixado no post anterior, onde se referia a intenção da comissão europeia de pretender lançar um imposto sobre os cidadãos do espaço comunitário, ao mesmo tempo que se explicava a natureza e as intenções ocultas dessa anunciada medida. O texto vem para a primeira página por mérito próprio, já que explora, numa perspectiva original, o conflito de interesses dos políticos, subordinados aos poderes dominantes, e a evolução das sociedades, que movidas pelo desenvolvimento tecnológico, exigem as rupturas que os políticos tentam travar à nascença.
Talvez este texto tenha sido inspirado por aquilo que actualmente está a acontecer no nosso país, em relação ao Orçamento de Estado de 2011, onde a conflitualidade entre as necessidades da sociedade portuguesa e a subjugação aos interesses dos credores internacionais é flagrante, ao ponto de se poder dizer que se trata de um orçamento centrado exclusivamente no défice e na dívida soberana e que sacrifica as perspectivas futuras, que a geração actual e as gerações vindouras terão de pagar.