sábado, 23 de outubro de 2010

Notas do meu rodapé: Dar com uma mão, tirar com a outra...


Alta tensão no Governo
Teixeira dos Santos deu murro na mesa.
Ministro das Finanças impôs corte de salários
no Estado ao primeiro-ministro, José Sócrates.
Correio da Manhã
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O tal murro, de uma violência extrema, fez-se sentir, tal como se fosse um terramoto, em todo o território continental. Só que errou o alvo, já que a mesa não tem culpa nenhuma. A culpa, que é enorme, deve ser repartida, em partes iguais, entre este super-ministro e o primeiro-ministro, já que, no ano passado, já com os agudos sinais da iminente crise a ensombrarem o horizonte, resolveram aumentar os salários da função pública, o que veio agravar o défice orçamental. Percebeu-se a jogada, pois era o ano de eleições legislativas, embora os portugueses, na altura, não tivessem dado o necessário murro, o que os obriga agora a dar berros de desespero.
A má governação deste governo pode sintetizar-se na ideia que já aqui exprimi. O primeiro-ministro, José Sócrates, passou metade do mandato anterior a defender o seu carácter, que estava a ser atacado por forças demoníacas, que ele nunca identificou, e a outra metade a governar para as eleições, que apenas lhe retiraram a maioria absoluta.
Por outro lado, também nesse ano eleitoral, esses dois governantes, resolveram reduzir em um ponto percentual a taxa do IVA, numa mais que evidente piscadela de olho ao incauto eleitor, que agradeceu de chapéu na mão. Como argumento para fazerem passar a imagem de beneméritos e, também, para tentarem ocultar a intenção eleitoralista subjacente a tal medida, disseram que a economia já estava a dar sinais de franca melhoria e que a crise internacional já estava controlada, o que era mentira, como depois se viu. Agora, a taxa desse imposto, o imposto mais estúpido do sistema fiscal, que penaliza mais quem menos tem e penaliza menos quem mais tem, sofre um um brutal agravamento, cujos efeitos irão ser devastadores. Milhares de portugueses irão, em desespero de causa, começar a dar murros nas paredes, e oxalá que esses murros não venham a provocar um terramoto.
Como se fosse um estado rico e para que os portugueses sentissem fugazmente a sensação de uma abastança relativa, estes dois governantes deram uma machadada mortal nos certificados de aforro, o instrumento de poupança mais popular e mais seguro (onde eu tenho lá uns eurozitos para uma qualquer emergência), o que levou a um aumento dos resgastes, cujos valores, na sua maior parte, foram para o consumo.
Por isso, o professor jubilado de economia, Jacinto Nunes, está cheio de razão, ao afirmar, numa entrevista televisiva, que o governo, em 2009, cometeu três erros cruciais, a saber: aumento dos vencimentos dos funcionários públicos, diminuição da taxa do IVA e desvalorização dos certificados de aforro.